terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O DÉCIMO BILHÃO - Parte 01 de 10

VENERATIO UNUS PRETERITUS   
                                     QUOD STATIO POSTERUS       
                                                         
 Respeitamos o passado  enquanto construímos o futuro


O PRIMEIRO BILHÃO

Ao longo da historia, a luta individual pela sobrevivência tem provocado nos reinos animal e vegetal o conflito natural pela supremacia das espécies e, mesmo entre elas, as lutas para estabelecer o “macho dominante”, o senhor feudal, o chefe da família, “il capo di tutti i capi” (o chefe de todos os chefes).

A maneira como se desenvolvem as “batalhas” para alcançar a supremacia entre as espécies ou a liderança entre indivíduos similares, sempre esteve ligada a fatores físicos, emocionais, geográficos e econômicos onde os valores éticos e morais são estabelecidos pelo vencedor das contendas, que imputa padrões aos “vencidos”, mais fracos ou dependentes.

Paralelamente, a forma de resistência encontrada pelos derrotados, menos favorecidos ou oprimidos que se viam alijados de seus direitos e oportunidades, historicamente foi a de agrupar-se em bandos, dividindo entre si os riscos da “captura”, do “abate” ou do isolamento que evidenciava a sua vulnerabilidade, tal qual a manada de gazelas frente o ataque do leão, sonhando sempre com a possibilidade de subjugar o predador.

A história de todas as estruturas sociais que existiram até nossos dias tem sido a história destas lutas.

Opressor e oprimido, em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora franca e declarada, ora disfarçada e dissimulada, culminando sempre por uma transformação evolucionária da sociedade, que transfere o “campo de batalha” para outro local e busca novos objetivos táticos nesta luta sem fim.

Momentaneamente, o indivíduo ou o agrupamento derrotado aceita as novas regras impostas pelo conquistador e busca na união com seus pares alcançar a força necessária para aguardar o momento do novo confronto.

Desde as primeiras épocas através dos registros históricos, verificamos que ao final de cada grande contenda houve uma clara mudança comportamental por parte dos vencedores que, temendo um novo levante, aceitam e até buscam atender parcialmente as demandas originais dos vencidos, realizando ao mesmo tempo em que cedem espaço, a demarcação da “nova fronteira” que incorpora os territórios conquistados na peleja recém terminada.

Este comportamento que pode ser observado para um único indivíduo, na estrutura familiar, por exemplo, também pode ser visto quando se observa grupos específicos frente a pessoas ou grupos dominantes.

Como forma de defesa ou de manutenção das conquistas, vencidos e vencedores tem uma natural tendência para formar novos “bandos”, dividindo tarefas e minimizando as perdas ou consolidando os ganhos.

Estes bandos ou agrupamentos acabam por formalizar aquilo que em determinado momento histórico foi denominado de “classes sociais”.

Assim, na Roma antiga encontramos patrícios, cavaleiros, plebeus, escravos, senadores e imperadores, cada qual exercitando em maior ou menor grau de expressão, sua vontade e poder sobre os demais.

Até mesmo entre os escravos percebia-se a clara manifestação deste comportamento natural, onde, por exemplo, gladiadores tinham regalias que podiam ir desde a posse de mulheres e bebidas até pequenos serviçais que eram oferecidos pelos seus senhores como recompensa por seus feitos na arena.

Como outro exemplo pode-se citar o “feitor de escravos” na recente história colonial americana.

Salvo raras exceções, eram igualmente opressores com os mais fracos, como se encontrassem nessa atitude um conforto para seu infortúnio.

Antes de Roma, inúmeros outros exemplos podem ser observados na história:

Faraós do Egito com seus sacerdotes; na China entre as várias dinastias; nas tribos africanas, nos povos do norte (mongóis e vikings); entre outros.

Na idade média, senhores feudais, vassalos, mestres, oficiais e servos, ora dominantes, ora dominados, pela Igreja, com o Papa, seus bispos, abades e estudantes ou pela força das armas de exércitos conquistadores existentes.

Estudando a história recente podemos observar várias destas transformações sociais, libertárias das classes oprimidas, dentre as quais, para efeito deste trabalho, citamos a revolução cultural iniciada por Martinho Lutero em 1517, que permitiu a difusão do conhecimento até então restrito entre as camadas dominantes apoiadas e apoiadoras do clero romano.

Este movimento ocorreu como forma de protesto à gigantesca corrupção existente na Igreja que privilegiava aqueles que podiam pagar pelas indulgências e condenava “à fogueira” todos os que se recusavam ou que eram suficientemente desnecessários para a manutenção do sistema vigente, cuja execução servia apenas para manter acesa a chama do terror.

Lutero, que traduziu a Bíblia do Latim para o Alemão, no seu desejo reformista, a bem da verdade, serviu de instrumento para outros grupos que, alijados do poder, viram neste movimento a oportunidade e possibilidade de enfraquecer o poder do clero, abalar a estrutura feudal dominante e criar as condições para a ascensão de uma nova classe.
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Martinho Lutero (em alemão: Martin Luther, Eisleben, 10 de novembro de 1483 – Eisleben, 18 de fevereiro de 1546) foi um padre e professor de teologia alemão que é creditado por ter iniciado a Reforma Protestante.  Contestando a alegação de que a liberdade da punição de Deus sobre o pecado poderia ser comprada, confrontou a igreja e sua recusa em retirar seus escritos a pedido do Papa Leão X em 1520 e do Imperador Carlos I de Espanha , em 1521 resultou em sua excomunhão pelo papa e a condenação como um fora-da-lei pelo imperador.
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Um destes grupos, herdeiros dos “Templários”, proscritos desde o ano 1307 por obra do Papa Clemente V, protegido e vassalo do Rei de França, Felipe (o Belo), na fuga, abandonou a região da Gália levando consigo suas riquezas, armas e navios acabando por instalar-se nas terras Ibéricas, formando ali um novo centro do poder mundial, incentivando o desenvolvimento do comércio, da navegação e dos ciclos de descobrimentos.

Com o advento da imprensa, publicar e distribuir em vários idiomas o trabalho de Lutero, além de outros livros, foi o novo campo de batalha escolhido pelos litigantes.

Como resposta, a Igreja intensificou a inquisição na Europa, declarando hereges todos os que levantavam sua voz contra o poder dominante, inclusive excomungando Lutero em 1521.

Como a repressão religiosa não conseguiu sufocar o Movimento Iluminista, encabeçado por “jacobinos”, de tendência republicana e pelos “girondinos”, defensores da monarquia constitucional, que acelerava a produção de livros, publicando abertamente os trabalhos mais variados, a Realeza Francesa, intensificou a repressão armada às camadas insurgentes.

Novamente derrotados, os membros da oligarquia francesa dominante foram massacrados no período da Revolução Francesa (1789/1799) cujo símbolo maior acabou sendo a “guilhotina” tal o seu uso exagerado e indiscriminado (de Danton a Robespierre) que, de certa forma, quase ofuscou a mensagem maior do levante popular manifesto na tríade da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade.
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Georges Jacques Danton, formado advogado em 1784 em Reims e exerce a profissão em Paris e em 1789, no início da Revolução Francesa, entra para a política como presidente dos cordeliers, líderes das massas populares de Paris (os Sans-culottes).
Torna-se membro da Sociedade dos Amigos da Constituição, que dá origem ao Partido Jacobino, organização política radical representante dos anseios das camadas populares.
Ao defender posições mais moderadas, como por exemplo, a negociação com a burguesia, é substituído por Robespierre e recolhe-se à sua cidade natal em 1793. No final do ano, volta a Paris para fazer oposição ao Terror, fase da Revolução Francesa marcada pela repressão violenta a qualquer crítico do novo regime, implantado pelos jacobinos. Condenado por conspiração, morre guilhotinado em Paris com outros 14 revolucionários. Disse antes de morrer "Minha única tristeza é que vou antes de Robespierre.
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Maximilien François Marie Isidore de Robespierre (6 de maio de 1758, Arras — 28 de julho de 1794, Paris), advogado e político francês, foi uma das personalidades mais importantes da Revolução Francesa.
Em 1780 Robespierre formou-se em Direito tendo sido eleito deputado em 26 de abril de 1789, pelo Terceiro Estado da região de Artois, fazendo o seu primeiro discurso em 18 de Maio de 1789. Após a tomada da Bastilha, em 31 de Março de 1790, assumia a liderança do Clube dos Jacobinos, vindo a tornar-se um dos principais oradores da Assembleia Constituinte.
O Clube dos Jacobinos representava já uma das alas mais radicais dos revolucionários, tornando-se Robespierre num dos principais articuladores da Revolução Francesa.
Maximilien de Robespierre foi guilhotinado em Paris no dia 28 de Julho de 1794, sem ter sido julgado, juntamente com o seu irmão Augustin de Robespierre e dezessete de seus colaboradores, dentre eles, seus dois grandes amigos, companheiros desde o início de sua jornada, Saint-Just e Couthon.
Robespierre foi um dos raros defensores do sufrágio universal e da igualdade dos direitos, defendendo a abolição da escravidão e as associações populares.
Ele defendia que "a mesma autoridade divina que ordena aos reis serem justos, proíbe aos povos serem escravos".
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Durante a Revolução Francesa, como fruto da lacuna deixada no poder e com a quase total supressão da realeza, foi natural o crescimento e o poder dos burgos, pequenas cidades protegidas por muros (nossos bandos ou agrupamentos sociais) compostos por mercadores e artesãos que se dedicavam ao comércio.

Os habitantes dos burgos, os “burgueses”, quer pela sua ignorância e falta de uma educação formal, quer pelo hábito de verem a ascensão pessoal diretamente ligada à realeza e, na total ausência de um modelo popular participativo e democrático, armaram o movimento que ficou conhecido como Reação Termidoriana (1795) que marcou o fim da participação popular no movimento revolucionário, estabelecendo um novo governo, denominado Diretório, formado por cinco diretores eleitos por um período de cinco anos, de caráter autoritário e fundamentado numa aliança com o exército.

Esta sociedade burguesa que brotou das ruínas da sociedade feudal não aboliu os antagonismos de classes e, nada mais fez do que substituir velhas condições de opressão por outras novas, criando as bases para aquilo que se transformaria mais tarde no capitalismo.

Em seu curto período de existência, o Diretório (1795/1799), enfrentou internamente os movimentos populares com “mão de ferro”, sufocando o levante socialista e derrotando a “Conspiração dos Iguais”, inclusive executando o jornalista François Noel Babeuf e externamente travou lutas contra a Suíça, Malta, Egito e Síria, fazendo despontar a figura de Napoleão Bonaparte.

De origem humilde, apoiado pelas tropas, tanto por sua comprovada capacidade como estrategista militar quanto pelo discurso populista, Napoleão Bonaparte, apoiado pela alta burguesia (girondinos) dissolveu o Diretório, restabeleceu a ordem interna na França, declarando-se imperador em 1804.

Combatido internamente pelos monarquistas e externamente pelos republicanos, Napoleão optou por manter uma política expansionista como forma de manter-se no poder e consolidar o apoio das massas populares.

Avançando sobre as terras Ibéricas seu exército colocou em fuga os remanescentes dos “Cavaleiros Templários” que, também desgostosos com a opulência e com a corrupção das cortes espanhola e portuguesa, foram refugiar-se na Inglaterra de onde, com o apoio do Rei Jorge III, fizeram frente às campanhas de Napoleão.

Derrotado Napoleão, foi instituída a República na França e o poder foi distribuído entre aqueles que detinham as riquezas acumuladas (os burgueses) e os representantes do povo.

A sociedade dividia-se cada vez mais em dois vastos campos opostos, duas grandes classes diametralmente opostas: burguesia e proletariado.
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Napoleão Bonaparte; Ajaccio, 15 de agosto de 1769Santa Helena, 5 de maio de 1821) foi o dirigente efetivo da França a partir de 1799 e, adotando o nome de Napoleão I, foi imperador da França de 18 de maio de 1804 a 6 de abril de 1814, quando conquistou e governou grande parte da Europa central e ocidental. Foi um dos chamados "monarcas iluminados", que tentaram aplicar à política as ideias do movimento filosófico chamado Iluminismo.

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Dos servos da Idade Média nasceram os plebeus livres das primeiras cidades; desta população municipal, saíram os primeiros elementos da burguesia.

Curiosamente, os mesmos Cavaleiros que apoiaram e foram apoiados pelo Rei Jorge III contra Napoleão, foram anteriormente apoiados pela França na libertação da principal colônia Inglesa na América, onde implantaram o sistema republicano e tornaram os Estados Unidos independentes da Inglaterra e de seu Rei Jorge III.

O ideal republicano instalado na América e no centro da Europa, somado à Monarquia Constitucionalista vigente na Inglaterra, na Alemanha e em outros países importantes, criaram as condições para que as atenções e demandas populares fossem direcionadas para as questões de sobrevivência e progresso individual.

A colonização da América, com o fortalecimento do comércio, o incremento dos meios de troca e, em geral, das mercadorias imprimiram um impulso, desconhecido até então, ao comércio, à indústria, à navegação e, por conseguinte, desenvolveram rapidamente o elemento revolucionário da sociedade feudal em decomposição.

A antiga organização feudal da indústria, que estando circunscrita a corporações fechadas, já não podia satisfazer às necessidades que cresciam com a abertura de novos mercados, sendo substituída pela manufatura.

A pequena burguesia industrial suplantou os mestres das corporações e a divisão do trabalho entre diferentes corporações desapareceu diante da divisão do trabalho dentro da própria oficina.
Surgia aí, a definição registrada por Friedrich Engels em1888 que afirmava:

“Ser a burguesia a classe dos capitalistas modernos, proprietários dos meios de produção social, que empregam o trabalho assalariado e proletariado a classe dos trabalhadores assalariados modernos que, privados de meios de produção próprios, se vêem obrigados a vender sua força de trabalho para poder existir.”

Todavia, os mercados ampliavam-se cada vez mais. A procura de mercadorias aumentava sempre. A própria manufatura tornou-se insuficiente, então, o vapor e a maquinaria revolucionaram a produção industrial. A grande indústria moderna suplantou a manufatura; a média burguesia industrial cedeu lugar aos milionários da indústria, chefes de verdadeiros exércitos industriais, os burgueses modernos.

A grande indústria criou o mercado mundial preparado pela descoberta e desenvolvimento da América. O mercado mundial acelerou prodigiosamente o desenvolvimento do comércio, da navegação e dos meios de comunicação.
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Friedrich Engels (Barmen, 28 de novembro de 1820Londres, 5 de agosto de 1895) foi um teórico revolucionário alemão que junto com Karl Marx fundou o chamado socialismo científico ou marxismo.
Ele foi coautor de diversas obras com Marx, sendo que a mais conhecida é o Manifesto Comunista, onde faz uma breve apresentação de uma nova concepção de história, afirmando que "a história da humanidade é a história da luta de classes".
Também ajudou a publicar, após a morte de Marx, os dois últimos volumes de O Capital, principal obra de seu amigo e colaborador.
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Esse desenvolvimento reagiu por vez sobre a extensão da indústria e, à medida que a indústria, o comércio, a navegação e as vias férreas se desenvolviam, crescia a burguesia, multiplicando seus capitais e relegando a um segundo plano as classes legadas pela Idade Média.

Vemos, pois, que a própria burguesia moderna é o produto de um longo processo de desenvolvimento, de uma série de revoluções no modo de produção e de troca.

Cada nova etapa da evolução percorrida pela burguesia foi acompanhada de um progresso político correspondente, alcançando no estabelecimento da grande indústria e do mercado mundial a soberania política exclusiva no Estado representativo moderno, que fica reduzido a ser um grande comitê gestor dos negócios comuns a toda a classe burguesa.

A burguesia desempenhou na história um papel eminentemente revolucionário.

Onde quer que tenha conquistado o Poder, a burguesia destruiu as relações feudais, patriarcais e idílicas, destruindo todos os complexos e variados laços que prendiam o homem feudal a seus “superiores naturais”, para deixar subsistir, entre os homens, o laço do frio interesse, as cruéis exigências do “pagamento à vista”.

Ela afogou os fervores sagrados do êxtase religioso, do entusiasmo cavalheiresco, do sentimentalismo pequeno-burguês nas águas gélidas do cálculo egoísta, fazendo da dignidade pessoal um simples “valor de troca”, substituindo as liberdades conquistadas pela única e implacável liberdade do comércio.
O homem passou a valer exatamente o que possuía, sendo despojado de sua auréola mística e privado do sentimentalismo que envolvia as relações familiares e reduzido a uma simples relação monetária.

Ou seja, tudo exatamente como sempre foi.


Professor Orosco
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