segunda-feira, 28 de março de 2016

ANAXIMANDRO


          Anaximandro, filho de Praxíades, nasceu em de Mileto, acredita-se por volta do ano 610/611 a.C.[1], tendo sido concidadão, discípulo e sucessor de Tales. Dos estudos sobre sua vida, sabe-se que foi geógrafo, matemático, astrônomo e político e que os relatos doxográficos sobre ele dão-nos conta, também de que teria escrito um livro intitulado Sobre a Natureza, do qual nos chegou um fragmento, tido pelos gregos como a primeira obra filosófica escrita no seu idioma (DK 12 A 2) onde, entre outras coisas, considerava que a Terra, flutuando imóvel no espaço, ocupava uma posição central no Universo, tendo um formato cilíndrico (nota 1) ao redor do qual circundavam várias rodas cósmicas, imensas e cheias de fogo. Para ele, o brilho da Lua não era próprio dela e que, de fato, ela era iluminada pelo Sol, composto por puro fogo e que este, por sua vez, não era menor do que a Terra. (DK 12 A 1).




            Como geógrafo e astrônomo, atribui-se a ele a confecção do primeiro mapa do mundo habitado à época e da introdução na Grécia[2] do gnômon (a parte triangular do relógio de sol) que, em sua forma mais simples, consistia apenas de uma vara fincada, geralmente na vertical, no chão, cuja sombra provocada pela incidência dos raios solares, permitia materializar a posição do Sol no céu, ao longo do tempo.[3] (DK 12 A 1).
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Nota 1:

A ideia de que a Terra, como centro do Universo tinha um formato cilíndrico (DK 12 A 25), provavelmente se deu diante da constatação de que, embora as estrelas parecessem girar ao seu redor, algumas delas não se movem, permanecendo no céu a noite toda. No hemisfério Norte uma estrela (Polar) fica fixa, enquanto outras, próximas a ela, giram em sentido anti-horário. A estrela polar, pode ser encontrada traçando-se uma linha imaginária a partir das guardas Merak e Dubhe, pertencentes à constelação da Ursa Polar, uma das mais facilmente identificáveis no céu, com formato de uma carroça puxada por bois, até alcançá-la como expoente da Ursa Menor, descrita por Tales, como uma fonte segura para os navegantes (DK 11 A 3).[4]
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            Como político, parece ter exercido um papel mais destacado que Tales, tendo comandado uma colônia de Mileto que se estabeleceu em Apolônia (DK 12 A 3).
            Como filósofo, Anaximandro, na verdade, foi o primeiro a valer-se do termo (αρχή = arché) para designar o primum, a realidade primeira e última das coisas, discordando de Tales, para quem a água era o princípio gerador de tudo. Para ele, o princípio não era a água, mas o ápeiron (άπειρος), o ilimitado ou o infinito.

Conforme Simplício, Física, 24, 13, - Dentre os que afirmam que há um só princípio, móvel e ilimitado, Anaximandro, filho de Praxíades, de Mileto, sucessor e discípulo de Tales, disse que o ápeiron (ilimitado) era o princípio e o elemento das coisas existentes. Foi o primeiro a introduzir o termo princípio. Diz que não é a água nem algum dos chamados elementos, mas alguma natureza diferente, ilimitada, e dela nascem os céus e os mundos neles contido: “Donde a geração ... do tempo” (DK 12 B 1)[5]. Assim ele diz em termos acentuadamente poéticos. É manifesto que, observando a transformação recíproca dos quatro elementos, não achou apropriado fixar um destes como substrato, mas algo diferente, fora estes. Não atribui então a geração ao elemento em mudança, mas à separação dos contrários por causa do eterno movimento. É por isso que Aristóteles o associou à escola de Anaxágoras. 150, 24. Contrários são quente e frio, seco e úmido e outros. – Conforme Aristóteles, Física, I 4. 187 a 20. Segundo uns, da unidade que os contém, procedem, por divisão, os contrários, como diz Anaximandro. Outros afirmam existir a unidade e a multiplicidade dos seres, como Empédocles e Anaxágoras. Estes fazem proceder tudo da mistura por divisão. (DK 12 A 9).

             Este ápeiron, que é só traduzido de forma imperfeita como infinito ou ilimitado, que literalmente significa o que é privado de peras (limites) e determinações internas ou externas, onde, no primeiro caso, como um infinito qualitativo e no segundo caso como um infinito em grandeza, quantitativo. (REALE, 2012, pg.53), coloca-se, então, como um princípio não determinado (como a água ou o ar, por exemplo) que abraça todos os infinitos universos, como se pode ler, também,  em Aristóteles, Física, III, 4. 203 b 6.

Pois tudo ou é princípio ou procede de um princípio, mas do ilimitado não há princípio: se houvesse, seria seu limite. E ainda: sendo princípio, deve também ser não engendrado e o indestrutível, porque o que foi gerado necessariamente tem fim e há um término para toda destruição. Por isso, assim dizemos: não tem princípio, mas parece ser princípio das demais coisas e a todas envolver e a todas governar, como afirmam os que não postulam outras causas além do ilimitado, como seria Espírito (Anaxágoras) ou Amizade (Empédocles). E é isto que é o divino, pois é “imortal e imperecível” [6], como dizem Anaximandro e a maior parte dos físicos. (DK 12 A 15)
            
Anaximandro concebe a ordem do tempo como uma lei necessária, segundo a qual os elementos se separam do princípio formando a multiplicidade das coisas como opostas ou como contrárias em luta que, depois, retornam ao princípio, dissolvendo-se nele para pagar o preço da individualização. Ele procura explicar, assim, como do indeterminado e do ilimitado surgem coisas determinadas e limitadas, ou a origem das coisas individualizadas e suas diferenças e oposições.
           
Enquanto o tipo geral do filósofo emerge, na imagem de Tales, como que saído de um nevoeiro, a imagem de seu grande sucessor já fala conosco de forma muito mais clara. Anaximandro de Mileto, o primeiro escritor filosófico da Antiguidade, escreve de modo como o filósofo típico deverá escrever, enquanto o desacanhamento e a ingenuidade não lhe tiverem sido roubados por estranhas exigências: em linguagem pétrea, altamente estilizada, testemunhando a cada frase uma nova iluminação e uma nova expressão do demorar-se em contemplações sublimes. O pensamento e sua forma são marcos miliários no caminho para esta sabedoria suprema. Com essa eficácia lapidar, disse Anaximandro certa vez: “Onde as coisas têm sua origem – é lá também que devem perecer, por necessidade; pois devem fazer penitência e redimir-se de suas injustiças, conforme a ordem do tempo”. [...] Tudo que alguma vez veio a ser logo volta a perecer, pouco importando se com isso pensamos na vida humana, na água, ou no calor e no frio: em toda parte, onde quer que se pense encontrar propriedades definidas, poderemos, segundo uma terrível evidência empírica, profetizar o ocaso dessas propriedades. (NIETZSCHE, 2013, pg. 33-34)





[1] Segundo o testemunho de Apolodoro em Diógenes Laércio, II,2 (DK 12 A 1) o filósofo teria nascido no segundo ano da 58ª Olimpíada.
[2] Alguns historiadores afirmam que ele apenas introduziu o gnômon para a Grécia e que a invenção teria ocorrido, realmente, em terras da Babilônia.
[3] Observando a sombra da gnômon ao longo de um dia, podia-se perceber que ela era muito longa ao amanhecer e que ia mudando tanto de direção como de comprimento ao longo do dia. Assim, o instante em que a sombra era a mais curta do dia, correspondia ao instante que dividia a parte clara do dia em duas metades. A esse instante deram o nome de Meio-dia e a direção em que a sombra se encontrava nesse instante recebeu o nome de Linha do Meio-dia, ou seja, linha meridiana. A linha horizontal perpendicular à linha meridiana chamou-se de linha Leste-Oeste, sendo que a direção Leste foi nomeada aquela que correspondia a do lado do nascer do Sol, ficando o Oeste para o lado oposto. De pé, com os dois braços esticados na horizontal, e apontando o direito para o leste, definia-se o Norte como sendo a direção da linha meridiana à frente da pessoa e Sul para trás. Assim foram definidos os pontos cardeais Norte, Sul, Leste e Oeste.
[4] Estudos recentes demonstram que apesar de se apresentar fixa, a estrela Polar muda levemente sua posição num período de 19 anos, e que também se movimenta, no sentido anti-horário, em torno de um ponto da constelação Draco, porém com um período de 26.000 anos.
[5] Donde a geração é para os seres, é para onde também a corrupção se gera segundo o necessário; pois concedem eles mesmos justiça e deferência uns aos outros pela injustiça, segundo a ordenação do tempo” (DK 12 B 1).
 [6] Imortal ... e imperecível (o ilimitado enquanto o divino) DK 12 B 3
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