terça-feira, 29 de março de 2016

ANAXÍMENES


              Anaxímenes, filho de Euristrates, de Mileto, foi discípulo de Anaximandro, diferenciando-se deste ao propor que o princípio primeiro, embora infinito em grandeza e quantidade, não era indeterminado, pois era o ar, do qual todas as coisas derivavam.

Conforme Teofrastro (Simplício, Física, 24, 26) Anaxímenes de Mileto, filho de Euristrates, companheiro de Anaximandro, afirma também que uma só é a natureza subjacente, e diz, como aquele, que é ilimitada, não porém indefinida, como aquele (diz), mas definida, dizendo que ela é ar. Diferencia-se nas substâncias, por rarefação e condensação. Rarefazendo-se, torna-se fogo; condensando-se, vento, depois nuvem, e ainda mais, água, depois terra, depois pedras, e as demais coisas (provêm) destas. Também ele faz eterno o movimento pelo qual se dá a transformação. É preciso saber que uma coisa é o ilimitado e limitado em quantidade, o que era próprio dos que afirmavam serem muitos os princípios, e outra coisa é o ilimitado e limitado em grandeza, o que precisamente... se adapta ao caso de Anaximandro e Anaxímenes, que supõem o elemento único e ilimitado em grandeza. – Pois só a respeito deste (Anaxímenes) Teofrasto, na História, falou da rarefação e condensação, mas é evidente que também os outros se serviram (das noções) de rarefação e condensação. (DK 13 A 5).

            Para ele, ao contrário da água que precisa de um suporte ou de um continente, o ar sustenta-se a si mesmo; possui uma autonomia ou autossuficiência, própria de um fundamento ou princípio. Respirar é o primeiro ato de um ser vivo e também o último, antes de morrer, por isso o ar é o princípio vital e, conforme Aécio, I, 3, 4, “ele diz que, na verdade, como a nossa alma, que é o ar, nos sustenta e nos governa, assim o sopro e o ar abraçam todo o cosmo”. (DK3B2).
Anaxímenes concebe o ar como naturalmente dotado de movimento e, pela sua própria natureza móvel, se presta muito melhor que o infinito de Anaximandro, como estando em perene movimento (REALE, 2012, p. 61)
De certa forma, é do pensamento de Anaxímenes que a ideia do sopro de vida que transformou um boneco de barro no homem, possivelmente foi retirada, uma vez que, conforme Santo Agostinho, A cidade de Deus, VIII, 2, “como nos é referido pelos antigos, que Anaxímenes tenha chamado o ar de deus; e crer também que tenha chamado de deuses as coisas que derivam do ar. (DK 13 A 10).
Anaxímenes foi o primeiro a associar os pares de qualidade quente e seco com frio e molhado com a densidade de um único material, conforme nos relata Plutarco:
         
Anaxímenes diz que o frio é a matéria que se contrai e se condensa, enquanto o quente é a matéria dilatada e atenuada (exatamente esta é a expressão que ele usa). Portanto, não sem razão, segundo Anaxímenes, diz-se que o homem deixa sair da boca o quente e o frio: a respiração, de fato, se esfria se é comprimida pelos lábios cerrados, mas se ao invés sai da boca aberta torna-se quente pela dilatação. (DK 13 B 1).
           
            Ao referir-se às condições naturais de rarefação e de condensação, para explicar o movimento do ar que gerava todas as coisas, diferentemente de seus antecessores, Anaxímenes assumiu claramente uma posição naturalista, que marcaria toda a geração dos chamados pré-socráticos.

Em lugar da matéria indeterminada de Anaximandro, põe ele novamente um elemento determinado da natureza (o absoluto numa forma real) – em vez da água de Tales, o ar. Ele achava, com certeza, que para a matéria era necessário um ser sensível; e o ar possui, ao mesmo tempo, a vantagem de ser o mais liberto de forma. Ele é menos corpo que água; não o vemos, apenas experimentamos o seu movimento.  Dele tudo emana e nele tudo se dissolve. Ele o determinou igualmente como infinito. Diógenes Laércio diz que o princípio é o ar e o infinito, como se fossem dois princípios. Mas Simplício diz expressamente que para Anaxímenes o ser originário foi uma natureza infinita e una, como para Anaximandro, só não, como para ele, uma natureza infinita, mas uma determinada, a saber o ar, que ele, porém, parece ter concebido como algo animado. Plutarco determina a maneira de representação de Anaxímenes, que do ar (posteriores chamaram-no éter) tudo se produz e nele se dissolve, mais precisamente assim: “Como nossa alma, que é ar, nos mantém unido (periékhei) também o mundo inteiro; espírito e ar significam a mesma coisa”. (HEGEL, Preleções sobre a História da Filosofia, pp 214-215, apud. SOUZA, 2000, pg. 58)








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