terça-feira, 15 de março de 2016

HESÍODO

            
Hesíodo, em grego Ἡσίοδος, foi um poeta da Antiguidade, que teria vivido entre 750 e 650 a.C., por volta do mesmo período em que teria vivido Homero. Tudo o que se sabe, com segurança, sobre sua vida, é narrado por ele próprio em seus poemas. Três obras atribuídas a ele por comentaristas antigos sobreviveram até os nossos dias: Os Trabalhos e os Dias (em grego:Ἔργα καὶ Ἡμέραι = Erga kaí Hemérai, ou As Obras e os Dias), a Teogonia, e O Escudo de Héracles (embora exista alguma dúvida a respeito da autoria deste último, tido por alguns estudiosos como sendo do século VI a.C.). Outras obras atribuídas a ele existem apenas na forma de fragmentos que nos chegaram através de Plutarco, de Erastóstenes, Plinio e outros (DK 4 B 1 a 8). As obras e fragmentos existentes foram todos escritos na língua e na métrica convencional da poesia épica e, ao escrevê-las, Hesíodo valeu-se de diversos estilos do verso tradicional, incluindo a poesia gnômica, hínica, genealógica e narrativa.
A narrativa épica não permitia a poetas como Homero qualquer oportunidade para revelações pessoais, porém a obra existente de Hesíodo abrange também poemas didáticos, e nestes o autor desviou-se de sua trajetória para compartilhar com o público alguns detalhes de sua vida, incluindo três referências explícitas em Os Trabalhos e os Dias, além de algumas passagens da Teogonia, que permitem que algumas inferências sobre ela sejam feitas. No primeiro, o leitor fica sabendo que o pai de Hesíodo era originário de Cime, na Eólia, litoral da Ásia Menor, ao sul da ilha de Lesbos, onde possuía uma pequena empresa de navegação. Arruinado, atravessou o mar Egeu, retornando a Beócia, berço de sua raça, para fixar-se num vilarejo, nas proximidades de Téspias, chamada Ascra, "uma aldeia amaldiçoada, cruel no inverno, penosa no verão, jamais agradável" (Trabalhos, l. 640), onde nasceu, viveu e morreu Hesíodo. Ao morrer, o pai deixou a Hesíodo e seu irmão Perses as terras que, devido ao clima rude da região, continuaram com esforço a cultivar. Na partilha dos bens, o patrimônio de Hesíodo, um pequeno pedaço de terra no sopé do Monte Hélicon, foi responsável por processos judiciais contra seu irmão, que parece ter inicialmente se apossado indevidamente da parte devida a Hesíodo graças a autoridades (ou "reis") corruptos. Perses, mais tarde acabou ficando pobre e sobrevivendo às custas do poeta, mais precavido (Trabalhos l. 35, 396). É esta polemica com Perses que serve de tema central de sua obra Os Trabalhos e os Dias.
            Ao contrário de seu pai, Hesíodo evitava viagens marítimas, embora tenha registrado haver cruzado, certa vez, o estreito que separa a Grécia continental da ilha de Eubeia para participar nos ritos fúnebres de um certo Átamas de Cálcis, onde conquistou um prêmio após participar de uma competição de canto. Também descreveu um encontro entre ele próprio e as Musas[1], no Monte Hélicon, onde ele havia levado suas ovelhas para pastar, quando as deusas lhe presentearam com um ramo de louros, símbolo de autoridade poética (Teogonia, ll. 22–35).

Conta a lenda que Hesíodo, o pastor, acordava com o Sol e deixava o vilarejo de Ascra para cuidar de seus rebanhos, nos campos vizinhos ao monte Helicão. Caminhava depressa. Mas seus passos tornavam-se mais lentos quando se aproximava do templo das Musas. Ele as amava. Gostava de ouvi-las cantar, e parava extasiado para admirar as figuras graciosas, envoltas em véus diáfanos a mover-se com harmonia na dança. À noite, os olhos abertos no escuro, escutava-as entoando hinos esplêndidos em homenagem ao senhor do Olimpo. As vozes claras e doces chegavam com a lua e acalentavam-no. Assim adormecia o pastor Hesíodo. Tão grande devoção chegou ao conhecimento das nove deusas. E elas decidiram procura-lo. Encontraram-no deitado sobre a relva, distraído, com o olhar posto nas nuvens que pairavam sobre a montanha. Silenciosas, respeitando seu devaneio, as Musas observaram-no: jovem, belo, corpo forte, pele queimada de sol, O cajado descansava ao lado como um fiel companheiro. Sem vê-las, imaginando contemplá-las, Hesíodo era contemplado por suas deusas prediletas. O tempo correu e o pastor voltou a si num sobressalto. Olhou em torno como se visse o campo e os rebanhos pela primeira vez. Olhou para si mesmo como se não se conhecesse. Sentia-se completamente diferente. Não tinha adormecido, mas parecia que acordava de longo e pesado sono. Não reconhecia seus próprios pensamentos. Pela segunda vez estendeu o olhar ao redor, e só então viu as Musas, sentadas no campo. Não podia caber em seus olhos tão grande beleza. Elas lhe falaram. Hesíodo escutou-as, presa de espanto. As deusas ofertaram-lhe um ramo de oliveira e ordenaram-lhe que “celebrasse a raça dos bem-aventurados sempre vivos e, antes de mais nada, elas mesmas, no começo assim como no fim de seus cantos”. Desta forma fizeram nascer no jovem pastor a missão poética, despertando-lhe o gênio.  (CIVITA, 1973, pg. 384).

Depois deste acontecimento, além de cultivar os campos e apascentar os rebanhos, Hesíodo tornou-se Aedo[2] sob inspiração das Musas, como ele mesmo relata em sua outra grande obra, a Teogonia.
Teogonia costuma ser considerada a primeira obra de Hesíodo e, apesar da diferença no tema principal abordado neste poema e nos OsTrabalhos e os Dias, a maior parte dos estudiosos acredita que realmente as duas obras foram escritas pelo mesmo homem. A Teogonia fala das origens do mundo (cosmogonia) e dos deuses (teogonia), desde seus inícios com  CaosGaia e Eros, e mostra um interesse especial na genealogia. Dentro da mitologia grega  permaneceram fragmentos de contos extremamente variados, o que aponta à rica variedade mitológica que existia, variando de cidade para cidade; porém a versão de Hesíodo destas antigas histórias acabou por se tornar, de acordo com o historiador Heródoto, do século V a.C., a versão aceita que unia todos os helenos.
O drama teogônico tem início, em Hesíodo, com a apresentação das entidades primordiais: adotando implicitamente o postulado de que tudo tem origem, Hesíodo mostra que primeiro teve origem o Caos – abismo sem fundo – e, em seguida, a Terra e o Amor (Eros), criador de toda a vida. De Caos sairá a sombra, sob a forma de um par: Érebo e Noite. Da sombra sai, por sua vez, a luz sob a forma de outro par: Éter e Luz do Dia, ambos filhos da Noite. Terra dará nascimento ao céu, depois às montanhas e ao mar. Segue-se a apresentação dos filhos da luz, dos filhos da sombra e da descendência da Terra – até o momento do nascimento de Zeus, que triunfará sobre seu pai, Cronos. Começará então a era dos Olímpicos. A Teogonia de Hesíodo enumera três gerações de deuses: a de Céu, a de Cronos e a de Zeus.

Sim bem primeiro nasceu Caos, depois também
Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre,
dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado,
e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias,
e Eros: o mais belo entre Deuses imortais,
solta-membros, dos Deuses todos e dos homens todos
ele doma no peito o espírito e a prudente vontade.

Do Caos Érebos e Noite negra nasceram.
Da Noite aliás Éter e Dia nasceram,
gerou-os fecunda unida a Érebos em amor.
Terra primeiro pariu igual a si mesma
Céu constelado, para cerca-la toda ao redor
e ser aos Deuses venturosos sede irresvalável sempre.
Pariu altas montanhas, belos abrigos das Deusas
ninfas que moram nas montanhas frondosas.
E pariu infecunda planície impetuosa de ondas
o Mar, sem desejoso amor. Depois pariu
do coito com Céu: Oceano de fundos remoinhos
e Coios e Crios e Hipérion e Jápeto
e Teia e Réia e Têmis e Memória
e Febe de áurea coroa e Tétis amorosa.
E após com ótimas armas Crono de curvo pensar,
filho o mais terrível: detestou o florescente pai.

Pariu ainda os Ciclopes de soberbo coração:
Trovão, Relâmpago e Arges de violento ânimo
que a Zeus deram o trovão e forjaram o raio.
Eles no mais eram comparáveis aos Deuses,
único olho bem no meio repousava na fronte.
Vigor, violência e engenho possuíam na ação.

                                             “Teogonia: Os Deuses Primordiais, 31”.


Hesíodo decidiu fazer recuar a ascendência dos deuses até ao princípio do mundo, e o excerto 31 (vv 116 a 146 ) constitui a sua versão das fases mais antigas, em que a produção dos constituintes cósmicos, como Urano (céu) conduz gradualmente à geração de personagens míticas, vagas mas inteiramente antropomórficas, como os Titãs. Examinando sua Teogonia, verifica-se que nela se encontra o modelo geral que será seguido depois pelas cosmogonias dos primeiros filósofos: 1) no começo há o caos, isto é, um estado de indeterminação ou de indistinção em que nada aparece; 2) dessa unidade primordial vão surgindo, por segregação e separação, pares de opostos – quente e frio, seco e úmido; 3) os opostos começam a se reunir, a se mesclar, a se combinar, mas, em cada caso, um deles é mais forte que os outros e triunfa sobre eles, sendo o elemento predominante da combinação realizada. Este será o modelo seguido pelos filósofos quando elaborarem suas cosmologias: unidade primordial, segregação ou separação dos elementos, luta e união dos opostos, mudança cíclica eterna. Tomando como ponto de partida velhos mitos, que coordena e enriquece, Hesíodo traça uma genealogia sistemática das divindades. Dele provém a ideia de que os seres individuais que constituem o universo do divino estão vinculados por sucessivas procriações, que os prendem aos mesmos antecedentes primordiais. Nessa genealogia percebe-se o esboço de um pensamento racional sustentado pela exigência da causalidade, a abrir caminho para as posteriores cosmogonias filosóficas.
Os Trabalhos e os Dias, por sua vez, é um poema de mais de 800 versos que aborda duas verdades gerais: o trabalho é a sina universal do Homem, porém aquele que estiver disposto a trabalhar sobreviverá. Estudiosos interpretaram esta obra, ao longo do tempo, diante de um cenário de uma crise agrária na Grécia continental, que teria inspirado uma onda documentada de colonizações, em busca de novas terras. Este poema é uma das primeiras meditações sobre o pensamento econômico.
A obra apresenta as cinco Eras do homem (vv. 106- 201) além de conter conselhos e recomendações, prescrevendo uma vida de trabalho honesto, atacando a ociosidade e juízes injustos (como aqueles que decidiram a favor de Perses), bem como a prática da usura. Descreve seres imortais que vagariam pela terra, cuidando da justiça e da injustiça. O poema fala do trabalho como fonte de todo o bem, na medida que tanto os deuses quanto os homens desprezam os ociosos, que seriam como zangões em uma colmeia. Este poema, assim como os dos poetas Focílides e Teogonides, imprimiram na mentalidade grega a ideia de que a justiça é a virtude fundamental e condição de todas as outras virtudes (CHAUI, 2002, pp. 34 - 35).
A história é aí vista como a perda de uma idade primeira, a da raça de ouro, que teria vivido livre de cuidados e sofrimentos. Essa primeira raça foi transformada nos gênios bons, guardiões dos mortais. Depois surge uma raça inferior, de prata, cujos indivíduos vivem uma longa infância de cem anos, mas, crescendo, entregam-se a excessos e recusam-se a “oferecer culto aos imortais”. Por isso, quando o solo os recobriu, foram transformados em gênios inferiores, os chamados bem-aventurados. Zeus cria então uma terceira raça de homens perecíveis, raça de bronze, bem diferente da raça de prata. Violentos e fortes, munidos de armas de bronze, os indivíduos dessa raça acabam sucumbindo nas mãos uns dos outros e transportados para o Hades, sem deixar nome sobre a terra. Em seguida, surge a raça dos heróis, que combatem em Tebas e Troia; para eles Zeus reservou uma morada na Ilha dos Bem-Aventurados, onde vivem felizes, distantes dos mortais. Finalmente advém o duro tempo da raça de ferro, o tempo do próprio Hesíodo, tempo de incessantes fadigas, misérias e angústias, mas quando ainda alguns bens estão misturados aos males (SOUZA, 2000,p.13).
                             
Raça de Ouro –

Se queres. Com outra estória esta encimarei;
bem e sabiamente lança-a em teu peito!
[Como da mesma origem nasceram deuses e homens.]
Primeiro de ouro a raça dos homens mortais
criaram os imortais, que mantêm olímpias moradas.
Eram do tempo de Cronos, quando no céu este reinava;
como deuses viviam, tendo despreocupado coração,
apartados, longe de penas e misérias; nem temível
velhice lhes pesava, sempre iguais nos pés e nas mãos,
alegravam-se em festins, os males todos afastados,
morriam como por sono tomados; todos os bens eram
para eles: espontânea a terra nutriz fruto
trazia abundante e generoso e eles, contentes,
tranquilos nutriam-se de seus pródigos bens.
Mas depois que a terra a esta raça cobriu
eles são, por desígnios do poderoso Zeus, gênios
corajosos, ctônicos, curadores dos homens mortais.
[Eles então vigiam decisões e obras malsãs,
vestidos de ar vagam onipresentes pela terra.]
E dão riquezas: foi este o seu privilégio real.

Raça de Prata –

Então uma segunda raça bem inferior criaram,
argêntea, os que detêm olímpia morada;
à áurea, nem por talhe nem por espírito, semelhante;
mas por cem anos filho junto à mãe cuidadosa
crescia, menino grande, em sua casa brincando,
e quando cresciam e atingiam o limiar da adolescência
pouco tempo viviam padecendo horríveis dores
por insensatez; pois louco Excesso não podiam
conter em si, nem aos imortais queriam servir
nem sacrificar aos venturosos em sagradas aras,
lei entre os homens segundo o costume. Então
Zeus Cronida encolerizado os escondeu porque honra
não davam aos ditosos deuses que o Olimpo detêm.
Depois também esta raça sob a terra ele ocultou
e são chamados hipoctônicos, venturosos pelos mortais,
segundos, mas ainda assim honra os acompanha.

Raça de Bronze –

E Zeus Pai, terceira, outra raça de homens mortais
brônzea criou em nada se assemelhando à argêntea;
era do freixo, terrível e forte, e lhes importavam de Ares
obras gementes e violências; nenhum trigo
eles comiam e de aço tinham resistente o coração;
inacessíveis: grande sua força e braços invencíveis
dos ombros nasciam sobre as robustas partes.
Deles, brônzeas as armas e brônzeas as casas,
com bronze trabalhavam: negro ferro não havia.
E por suas próprias mãos tendo sucumbido
desceram ao úmido palácio do gélido Hades;
anônimos; a morte, por assombrosos que fossem,
pegou-os negra. Deixaram, do sol, a luz brilhante.

Raça dos Heróis-

Mas depois também a esta raça e terra cobriu,
de novo ainda outra, quarta, sobre fecunda terra
Zeus Cronida fez mais justa e mais corajosa,
raça divina de homens heróis e são chamados
semideuses, geração anterior à nossa na terra sem fim.
A estes a guerra má e o grito temível da tribo
a uns, na terra Cadméia, sob Tebas de Sete Portas,
fizeram perecer pelos rebanhos de Édipo combatendo,
e a outros, embarcados para além do grande mar abissal
a Tróia levaram por causa de Helena de belos cabelos,
ali certamente remate de morte os envolveu todos
e longe dos humanos dando-lhes sustento e morada
Zeus Cronida Pai nos confins da terra os confinou.
E são eles que habitam de coração tranquilo
a Ilha dos Bem-Aventurados, junto ao oceano profundo,
heróis afortunados, a quem doce fruto
traz três vezes ao ano a terra nutriz.

Raça de Ferro –

Antes não estivesse eu entre os homens da quinta raça,
mais cedo tivesse morrido ou nascido depois.
Pois agora é a raça de ferro e nunca durante o dia
cessarão de labutar e penar e nem à noite de se
destruir; e árduas angústias os deuses lhes darão.
Entretanto a esses males bens estarão misturados.
Também esta raça de homens mortais Zeus destruirá,
no momento em que nascerem com têmporas encanecidas.
Nem pai a filhos se assemelhará, nem filhos a pai; nem hóspedes a
hospedeiro ou companheiro a companheiro,
e nem irmão a irmão caro será, como já havia sido;
vão desonrar os pais tão logo estes envelheçam
e vão censurá-los, com duras palavras insultando-os;
cruéis; sem conhecer o olhar dos deuses e sem poder
retribuir aos velhos pais os alimentos;
[com a lei nas mãos, um do outro saqueará a cidade]
graça alguma haverá a quem jura bem, nem ao justo
nem ao bom; honrar-se-á muito mais ao malfeitor e ao
homem desmedido; com justiça na mão, respeito não
haverá; o covarde ao mais viril lesará com
tortas palavras falando e sobre elas jurará.
A todos os homens miseráveis a inveja acompanhará,
ela, malsoante, malevolente, maliciosa ao olhar.
Então, ao Olimpo, da terra de amplos caminhos,
com os belos corpos envoltos em alvos véus,
à tribo dos imortais irão, abandonando os homens,
Respeito e Retribuição; e tristes pesares vão deixar
aos homens mortais. Contra o mal força não haverá!
                                                                        Os Trabalhos e os Dias

Se na Teogonia Hesíodo mostra como se organiza o mundo dos deuses, em Os Trabalhos e os Dias, ele mostra a organização do mundo dos mortais, falando do seu próprio trabalho como agricultor e dirigindo-se a um público específico, qual seja, seu irmão e os pequenos agricultores da região em que vivia, colocando-se como porta voz das musas e valendo-se de um repertório ético-religioso, tanto no vocabulário quanto nos temas narrados, onde as duras condições de trabalho de sua gente lhe sugerem uma visão pessimista da humanidade, perseguida pela animosidade dos deuses, como pode, também, ser observada na passagem teogônica (v. 522 ss) em que Zeus pune Prometeu por ter-lhe roubado o fogo, dando-o aos homens. Prometeu é condenado a ser acorrentado e a ter seu fígado comido por uma águia durante o dia, regenerando-se à noite e voltando a sofrer o suplício no dia seguinte. Os homens são igualmente punidos, sendo contemplados com os males da caixa de Pandora, na qual ficou esquecida apenas a Esperança.
É provável que Hesíodo tenha escrito ou ditado seus poemas, não apresentando-os oralmente, como faziam os rapsodos[3] - do contrário o estilo acentuadamente pessoal que emerge de seus poemas teria seguramente sido diluído através da transmissão oral de um rapsodo a outro, de onde se deduz que, se ele de fato escreveu ou ditou suas obras, provavelmente o fez para ajudar a memorizá-los, ou porque ele não tinha confiança na sua capacidade de produzir poemas de improviso, como costumavam fazer os rapsodos com mais treinamento, fazendo-o provavelmente  durante períodos de ócio na sua fazenda, na primavera, antes da colheita de maio, ou no meio do inverno. Certamente não foi visando qualquer tipo de fama ou posteridade, já que os poetas de seu tempo não conheciam esta noção.
Com Hesíodo surge a noção de que a virtude ( αρετή = areté) é filha do esforço e a de que o trabalho é o fundamento e a salvaguarda da justiça (δική = diké )
Embora não tenha inaugurado nenhuma escola dentro da tradição helênica, foi ele que iniciou os trabalhos em que os poetas cantam em primeira pessoa.

  





[1] Na mitologia grega as Musas eram divindades femininas inspiradoras da música, da poesia, das artes e das ciências, que passaram a ser reconhecidas publicamente por seus nomes, a partir de Hesíodo, a quem teriam dado os dons que o consagraram como poeta. Segundo a lenda, nasceram de nove noites de amor entre Zeus e Mnemósine (Memória, de onde tem Origem do termo mnemônico que se usa para auxiliar a memorização ), uma das titânides. Eram elas: 1) Calíope, a maior, de bela voz, a musa da eloquência, da beleza e da poesia épica; 2) Clio, a musa da história; 3) Erato, a musa da poesia lírica-amorosa; 4) Euterpe, a musa da música, especialmente daquela tocada com flauta; 5) Melpômeme, a musa da tragédia; 6) Polimnia, a musa dos cantos sagrados e da poesia sacra; 7)Terpsícore, a musa da dança; 8) Tália, a musa da comédia e da poesia bucólica e finalmente 9) Urania, a celestial, a musa da astronomia, poesia didática e das ciências exatas.
[2] Cantor que apresentava suas composições religiosas ou épicas, acompanhando-se ao som da cítara
[3] Rapsodo (en grego clássico ραψῳδός / rhapsôidós) era o nome dado a um artista popular ou cantor que, na antiga Grécia, ia de cidade em cidade recitando poemas (principalmente epopeias).
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