sábado, 12 de março de 2016

ORFEU

            Na mitologia helênica, como uma das mais geniais concepções que a humanidade produziu, os gregos, como amantes da ordem e observadores dos fenômenos, em sua fantasia tão brilhantemente exposta por sua arte, particularmente por suas esculturas, muitas das quais sobreviveram ao tempo, povoaram o céu, os mares e a terra com deuses, semideuses e heróis, hierarquicamente distribuídos, na tentativa de explicar a origem dos seres e do mundo.   
Com a palavra mitologia designa-se dois conceitos: o conjunto de mitos (μύθοι = contos) que um povo imaginou e logos (λόγος) que significava inicialmente a palavra escrita ou falada, o Verbo. Diferentemente de uma fábula, o mito relata uma história verdadeira, na medida em que esta toca profundamente o homem, sem preocupar-se com a temporalidade dos acontecimentos, mas sim com sua repetibilidade, pelo que se torna perene, eterno.
            Quando os homens, vendo atendidas as necessidades básicas de alimento, habitação e segurança, descobriram que o cérebro era capaz de elaborar pensamentos que nada tinham a ver com comer, dormir e encontrar abrigo, começaram a especular sobre muitos problemas que os confrontavam. Começaram a perguntar de onde vinham as estrelas? Quem produzia o som do trovão? E, em cada agrupamento humano, as questões eram as mesmas e a respostas similares. Como verbalização do inconsciente e como representação do supraconsciente. Como projeção artística e religiosa, os povos constituíam mitos e simbologias para expressar a concepção de Deus. Assim, o mito se transforma naquilo que dá sentido, onde quer que possa emergir, às questões que não podem ser explicadas pela ciência. Eles nunca morrem, apenas se transformam. Quando os analisamos podemos entender sua lógica, os princípios que encerram e às leis que subjazem às suas imagens simbólicas. 
Cada tribo, em cada região da Terra, chegando à mesma conclusão, elegeu Deus e deuses para justificar sua existência, admitindo-se a partir daí sua relação com a natureza e com o firmamento. A teogonia, por exemplo, narrava por meio das relações sexuais entre os deuses, o nascimento de todos os deuses, titãs, heróis, homens e coisas do mundo natural.  A cosmogonia, por sua vez, narrava a geração da ordem do mundo pela ação e pelas relações sexuais entre forças vitais que são entidades concretas e divinas, e ambas, teogonia e cosmologia, por sua vez, são gênesis, nascimento, descendência, reunião de todos os seres criados, ligados por laços de parentesco.
            Desta preocupação com as coisas divinas, a teologia (em grego θεολογία), que significa o estudo de Deus, melhor dizendo, da concepção de Deus, fazendo-se aqui o aparte de que o objeto da reflexão na teologia não é Deus (isto porque Deus não é o objeto), começa a desenvolver-se como uma ciência (em grego, επιστήμη, episteme) que busca compreender estas relações religiosas, buscar a verdade (em grego αλήθεια, aletheia; em latim re-velátio, revelação).  É esta revelação que se concretiza como uma tradição religiosa (religião, re-ligare, re-legere) que vai acumulando uma possível figura de mundo, consolidando-se a partir de etapas.
            A primeira delas, o primeiro homem que experimenta esta revelação, não pelo estudo, mas pela experiência, é o místico (aquele que experiência o mistério, que desvenda o mistério) e, para quem, o sentido de Deus e da vida convergem. É ele que procura desenvolver uma “mistagogia” (sistema que busca criar as condições para que outros façam a experiência que ele viveu), fazendo-o primeiramente através da literatura, da poesia. É a poesia que nos leva a pensar, por sua forma construtiva, que a revelação deve ser contemplada, de forma ética, experimentada.
            Na Grécia antiga, as pessoas seguiam uma religião politeísta, pública, ou seja, acreditavam em vários deuses, cada um possuindo características de comportamento e atributos semelhantes aos humanos. O poema de Hesíodo “O trabalho e os dias”, assim como os dos poetas Focilides e Teognides, imprimiram na mentalidade grega a ideia de que a justiça é a virtude fundamental e condição de todas as outras virtudes.
Na mitologia grega, podemos encontrar várias explicações para a origem do homem, como por exemplo, a estória dos irmãos Epimeteu e Prometeu que, atendendo a um pedido de Zeus, desejoso de ver na Terra seres animados que pudessem alegrar a monotonia de um “Cosmos” organizado e que servissem para lhe render homenagens, foram encarregados de povoar nosso planeta.
Conta a lenda que Epimeteu, extremamente prestativo, rapidamente criou todos os animais, dando-lhes uma plenitude do Ser, conferindo-lhes tudo o que necessitariam para existir, nada precisando desejar. Prometeu, um pouco distraído, incumbido de criar apenas o homem que, por ser uma tarefa menor, uma só espécie, acabou por relaxar nos seus afazeres, de tal sorte que, ao perceber que o prazo dado por Zeus findava, constatou que nada poderia dar ao homem, já que seu irmão tudo dera aos outros animais. Preocupado em nada ter para apresentar, além de um animal incompleto, o que o tornaria motivo de riso diante dos deuses, furtou de sua cunhada, Pandora, um atributo que estava guardado a sete chaves. Furtou-lhe a “astúcia”, qualidade única, que concedeu ao homem, de tal sorte que, com sua posse, este teria condições de encontrar tudo o que precisasse para lograr sobreviver no mundo e agradar aos deuses do Olimpo.
            Nesta mitologia grega, Orfeu era um poeta e médico, filho da musa Calíope e de Eagro, rei da Trácia (DK 1 A 1), inventor do canto e de inúmeros instrumentos musicais, com os quais atraía não só os homens, mas também árvores e animais. Como um dos cinquenta homens – argonautas - que atenderam ao chamado de Jasão em sua busca pelo Tosão de Ouro, embarcando na nau Argos (Άργος), ele acalmava as brigas que aconteciam no navio com sua lira, sendo-lhe atribuída a façanha de, com seu canto, haver silenciado as sereias responsáveis por inúmeros naufrágios. Conta-se em sua odisseia que, após o retorno de sua infrutífera descida ao mundo subterrâneo, na tentativa de resgatar sua esposa Euridice, tendo comovido com sua música a deusa Perséfone e o próprio Hades (Άδη), o rei dos mortos, este restitui-lhe por poucos momentos a visão de sua amada, tomando-a novamente, quando, então, Orfeu tornou-se uma pessoa amargurada. Em sua angústia, deu origem ao orfismo (Ορφισμός), um conjunto de crenças e de práticas religiosas que pretendia ajudar e aconselhar os demais homens, diminuindo-lhes o sofrimento, através de ritos e procedimentos que influenciariam sobremaneira o pensamento e a forma de agir do povo grego.
Nesta reconciliação do homem com a vida e com a morte, uma impossível sem a outra, mal distinguindo-se da natureza, a mitologia sempre procurou compensar a distância que o separa do universo irracional, tratando dos problemas existenciais, morais e sociais.
            O orfismo transformou-se, assim, em uma religião essencialmente esotérica, que guardava seus segredos para revela-los somente àqueles que se dispunham a seguir determinado caminho de vida; uma forma ascética de vida que deveria garantir não apenas o desprendimento das sucessivas reencarnações, mas também uma comunhão com os deuses. Os órficos acreditavam na imortalidade da alma e na metempsicose, ou seja, na transmigração da alma através de vários corpos, recurso indispensável à sua purificação. Eles possuíam uma concepção própria sobre a origem do universo e do homem, que estaria vinculada a um crime onde, em sua visão, os Titãs, inimigos dos olímpicos, matam o jovem deus Dionísio, pelo que são exterminados por Zeus, que os reduz a cinzas. Para os órficos, é destas cinzas que foi constituída a raça humana, marcada visceralmente por uma dupla natureza: dionisíaca e titânica, onde se confrontam antagonicamente as forças do bem e do mal. Na concepção órfica, o tempo presente é visto apenas como uma etapa a ser vencida rumo ao futuro da salvação. Para eles, é a alma, enquanto centelha de luz divina, o aspecto mais elevado do homem, enquanto que os corpos, dos quais se reveste em suas múltiplas passagens, são apenas cárceres dos quais ele precisa renascer, tendo apenas um valor provisório de transição.
            Como para os órficos nada tinha um valor definitivo e absoluto, implicando em uma concepção de um princípio anímico que transcende os corpos e as situações concretas, relativizando o momento, diante de uma sociedade que era dominada pela aristocracia, compreende-se o porquê desta religião ser tão rapidamente aceita pela população abastada, uma vez que prometia um futuro diante do qual todos os homens eram iguais.
            A salvação prometida pelo orfismo pretendia levar o indivíduo para além de si mesmo, para além de sua situação imediata, a um sair de si, motivo pelo qual as suas práticas religiosas os conduzissem ao entusiasmo, a um êxtase, onde a música representava um recurso propiciatório indispensável, tendo Orfeu por patrono e Dionísio, o deus do vinho, bebida que ajudava a exaltar os sentidos e libertar a alma, ocupando lugar de destaque.       Sua importância para a filosofia pauta-se no fato de introduzir na civilização grega um novo esquema de crenças e uma nova interpretação da existência humana, proclamando a imortalidade da alma e concebendo o homem segundo um esquema dualista que contrapunha corpo e alma. E dizer, com o orfismo rompia-se a visão naturalista pregada pela religião pública, baseada na representação dos deuses, onde tudo era divino e ocorria segundo sua vontade, fazendo despertar, a partir dele, um conceito de ciência, onde a atividade do pensamento se apresenta como pesquisa para compreender a verdadeira vida do homem. Com o orfismo nascia a ideia dos prêmios e castigos de além-túmulo, para justificar os absurdos que se constata por sobre a terra, explicando as deficiências e sofrimentos daqueles que “aparentemente” se mostram inocentes, pois, como já dissemos, para os órficos ninguém era inocente e todos deviam pagar por culpa de suas gravidades nesta ou em vidas anteriores,
            Muitos dos documentos que nos chegaram sobre o pensamento órfico não podem ser comprovados como exatos, dado o período em que teriam sido produzidos, particularmente no neoplatônico, outros, porém, não carecem de dúvidas, como o fragmento 131 de Píndaro:

O corpo de todos obedece à poderosa morte, em seguida permanece ainda viva uma imagem da vida, pois só esta vem dos deuses: ela dorme enquanto os membros agem, mas em muitos sonhos mostra aos que dormem o que é furtivamente destinado de prazer e de sofrimento.                                                                                               (REALE, 2012, p. 178-179)[1]       




[1] REALE, Giovani. Pré-Socráticos e Orfismo. 2 ed. Trad. Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 2012
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