quinta-feira, 31 de março de 2016

PITÁGORAS



Conforme alertado por Hermann Diels e Walter Kranz, na obra que os consagrou[1], logo de saída, no início do estudo deste personagem, devemos compreender as dificuldades para estabelecer, com alguma propriedade, a quem realmente deve ser atribuído o mérito pelo pensamento que, no senso comum, é atribuído a Pitágoras.
Pelo conjunto de sua obra, podemos definir seu nascimento por volta de 531 a.C. e sua morte nos primeiros anos do século V a.C.

Antes do tempo de Filolau não há ninguém que escreveu sobre Pitágoras e havia apenas uma tradição oral da própria escola; consequentemente, não há Doxografia segura. A biografia deve delimitar-se as narrativas lendárias, em geral, começando cedo no tempo e continuando até Aristóteles e sua escola (com a seleção). Os testemunhos importantes e decisivos sobre Pitágoras são Xenofonte [21 B 7], Heráclito [22 B 40; 81; 129], Empédocles [31 B 129] Íon [36 B 2; 4].
                                                                               (REALE, 2008, pg. 217)

Segundo Diógenes Laércio, em sua obra Vida dos Filósofos Mais Ilustres, VIII.1,ss.:, Pitágoras, filho de Mnesarco, gravador de anéis, era nativo de Samos, como diz Hermipo, ... e ainda segundo Diógenes Laércio, (ib. VIII, 30), temos, inclusive, a possibilidade de que podem ter existido quatro Pitágoras contemporâneos entre si: um crotonense, homem tirânico; outro filásio, treinador de atletas; um terceiro jacinto, do qual são os Arcanos[2] filosóficos e o último, um escultor de Samos.

Conforme Clemente de Alexandria, Stromateis, I, 62, Pitágoras filho de Mnesarco era, de acordo com Hippoboto, de Samos; mas, segundo as afirmações de Aristóxenos, na sua Vida de Pitágoras, de Aristarco e de Teopompo, era tirreno. De acordo com Neante, foi Sirio ou Tirio. Assim, de acordo com a maioria, Pitágoras teria origem bárbara. - Pitágoras, de acordo Aristóxenos, era tirreno, e veio de uma daquelas ilhas que Atenas ocupou... - Aristóxenos, no seu livro Sobre Pitágoras e Seus Discípulos registra que quando Ferecides adoeceu e morreu, foi enterrado por Pitágoras em Delos, - Aristóxenos disse que Pitágoras, vendo por quarenta anos, a tirania de Polícrates ser mais difícil do que era lícito um homem livre suportar de um domínio absoluto, partiu para a Itália. - Androcide de Pitágoras, autor do livro sobre os símbolos de Pitágoras, Eubulides de Mileto Pitágoras e Aristóxenos e Hippoboto e Neante, que mantinham, em seus escritos, a tradição em torno de Pitágoras, dizem que suas reencarnações ocorriam a cada 216 anos. Portanto, após este período, Pitágoras teria chegado a um novo nascimento, e reviveu o cumprimento do primeiro ciclo ... (DK14 A 8)

Conforme registros de Diógenes Laércio, VIII, 27-28, a mulher de Pitágoras se chamava Teano, filha de Brontino, mesmo que alguns supusessem que fosse esposa de Brontino e discípula de Pitágoras. Tinha também uma filha chamada Damo, como diz Lisis na Epístola a Hiparco Teve também dois filhos, Arimnesto (DK 14 A 6) e Telauges, que o sucedeu e que, segundo alguns, foi professor de Empédocles.
Embora não se possa confirmar, é provável que Pitágoras tenha realmente ido ao Egito e à Babilônia, onde adquiriu conhecimentos que foram importantes para o desenvolvimento de sua doutrina esotérica.

Segundo Isócrates, Pitágoras de Samos ..., foi para o Egito e tornou-se discípulo deles, introduzindo, depois, na Grécia, pela primeira vez, a filosofia em seus vários gêneros, distinguindo-se especialmente na ciência de sacrifícios e em rituais celebrados em cerimônias religiosas, acreditando que, se também há recompensa, ele chegaria com ela aos deuses, pelo que tinha grande elogio dos homens. O que de fato, aconteceu com ele. E ele superando muitos outros em fama, todos os jovens aspiravam ser seus discípulos, o que os anciões viam com boa vontade, já que seus filhos se entretendo com ele, agiam no interesse da família. Também não se pode negar fé a esta notícia, uma vez que ainda hoje são mais admirados aqueles que professam ser seus discípulos, e mesmo que em silêncio, aqueles que recebem grande fama com a palavra. (DK 14 A 4)

            Pelos registros existentes, podemos deduzir que o ponto central de sua doutrina religiosa é a crença na transmigração das almas, onde, dizem que foi ele o primeiro a dizer que a alma, fazendo um giro necessário, passa de uns animais a outros[3], aliada a uma forma de vida altamente ascética, ligada à alimentação e ao sacrifício de seres vivos.

Segundo Heródoto II, 123, Os egípcios alegaram primeiro que a alma do homem é imortal, e que, destruído o corpo migra para outros seres que surgem de tempos em tempos. E quando ela passa por todos os seres, aves terrestres e marinhas, nasce de novo no corpo de um homem; e que em torno disto devem girar três mil anos. Não foram só os gregos que seguiram esta doutrina afirmando como a sua própria, alguns no passado, e outros mais recentemente. Embora soubesse seus nomes, eu não estou escrevendo-os. [...] Eles não usam roupas de lã em templos egípcios, nem ser enterrado com eles seria um sacrilégio. Concordam neste com os chamados costumes órfico e Baco, mas são egípcios; na verdade, mesmo para aqueles que participarem desses ritos é permitido ser enterrado vestidos de lã; há, de fato, sobre eles, que eles chamam de discurso sagrado. (DK 14 A 1)

Segundo Diógenes Laércio,VIII,8-10, é certo que Pitágoras mandou seus discípulos absterem-se de comer coisas animadas, exercitando e acostumando aos homens a simplicidade dos manjares, a fim de que tivessem todo o tempo, a comida necessária pronta, comendo só o que necessitavam e bebendo água, porque disto derivava a saúde corporal e a agudeza do engenho. Ensinava que não se deve ferir o fogo com a espada, fazendo uma alusão ao fato de que não se deve incitar a ira e a indignação dos poderosos; não passar por cima da balança, aludindo ao fato de que não se deve transpassar a igualdade e a justiça; não comer coração, expressando que não se deve atormentar a alma com angústias e dores.

 Também é atribuído a ele a introdução na Grécia do sistema de pesos e medidas (DK 14 A 12), assim como a constatação de que os planetas Véspero e Fósforo eram o mesmo astro (o planeta Vênus), como assegura Parmênides. (D.L. VIII,9)

Diógenes Laércio registra também (VIII,7) que Anticlides, no livro II de Alexandro, diz que Pitágoras adiantou muito a geometria, cujos princípios e rudimentos havia achado antes Meris. Que se exercitou principalmente em uma parte dela que é a aritmética. E que inventou a escala musical por uma única corda. Tampouco se esqueceu da medicina. Apolodoro diz que ele sacrificou uma hecatombe ao descobrir que em um triângulo retângulo, a potestate (potência ou o quadrado da hipotenusa) é igual à soma do quadrado dos catetos que o compõem, o que gerou a epigrama[4]:




Pitágoras, encontrada esta nobilíssima figura, matou bois por ela em sacrifício



Segundo Proclo, In Euclides, 65,11 -  Depois de Thales, ele recorda, como estudioso de geometria, Mamerco, irmão do poeta Estesícoro[5] ... Além destes [Thales, Mamerco, Hípias], houve Pitágoras, que estudando geometria fez dela um ensino teórico, indo com a investigação aos princípios e estudando os seus problemas a partir de um ponto de vista puramente abstrato e conceitual. Na verdade, ele iniciou os estudos das grandezas irracionais[6], e encontrou a construção das figuras cósmicas (poliedro regular) (DK14A 6a).

Ainda segundo Diógenes Laercio, VIII,6, Pitágoras colocou que “a vida do homem é dividida da seguinte forma: a pueril, vinte anos; a adolescência, vinte anos; a juventude, vinte anos e   outros vinte a senilidade. Estas idades são equiparáveis às estações do ano, e dizer: a pueril com a primavera, a adolescência com o estio, a juventude com o outono e a senilidade com o inverno.
Foi ele o primeiro que disse (Loc. Cit.), como assegura Timeu, que entre os amigos todas as coisas são comuns; e que a amizade é uma igualdade e que, por isso, seus discípulos também depositavam seus bens em comum. Calavam-se por cinco anos, ouvindo a doutrina; e nunca viam Pitágoras até que fossem aprovados. Se abstinham da madeira de cipreste para ataúdes, porque dela era o cetro de Júpiter.
Pitágoras afirmava, também, que a alma humana se divide em três partes: em mente, em sabedoria e em ira, e que a ira se encontra também em outros animais, mas que a sabedoria somente no homem. Onde a sabedoria e a mente estão no cérebro, de onde derivam os sentidos, ficando a ira no coração. Que a parte capaz da sabedoria é imortal, sendo as demais mortais. Que a alma se nutre do sangue e que as palavras são os ventos dela, tão invisível quanto as palavras, já que o éter é também invisível. Que os vínculos da alma são as veias, as artérias e os nervos; mas que logo que se fortalece, fica por si só, e seus vínculos são a razão e as operações. Que a alma atirada na terra fica divagando como no ar, semelhante ao corpo. (D.L. VIII,20)
Alguns atribuem a ele, a descrição do circuito que o sangue percorre no coração, muitos anos antes dos primeiros trabalhos de anatomia terem serem elaborados.
      
       “O sangue chega ao coração pelas veias aos átrios e sai dos ventrículos através das artérias. O sangue com toxinas através da veia cava chega a aurícula direita. Do átrio direito, o sangue passa para o ventrículo direito e deste vai aos pulmões pelas artérias pulmonares. Lá é feita uma troca de gás carbônico por oxigênio. O sangue oxigenado alcança as veias pulmonares chegando à aurícula esquerda e daí ao ventrículo esquerdo, ganhando a circulação sistêmica pela artéria aorta”.


Em seus ensinamentos esotéricos, dizia que o Sol, a Lua e os demais astros eram deuses, posto que neles reina o calor, que é a causa da vida. Que existem contrários, como embaixo e encima. Que no mundo existem pela metade a luz e a sombra, o calor e o frio, o seco e o úmido. Que quando as coisas se dividem em partes iguais, são muito boas as estações do ano, das quais floresce saudável a primavera e a que conclui o enfermo outono. Quanto ao dia, floresce a aurora e falece a tarde, razão pela qual é também mais insalubre. Dizia também que o sêmen é uma gota ou partícula do cérebro, que contém em si o vapor cálido, que quando se infunde na matriz caem do cérebro a leitura, o humor e o sangue, dos quais se formam a carne, os ossos, os pelos e todo o corpo; e do vapor procedem a alma e os sentidos. Sendo sua primeira formação aos quarenta dias, e logo, aperfeiçoando-se por uma razão harmônica, nasce a criança aos sete, aos nove ou no mais tardar aos dez meses. Que têm em si todos os princípios da vida, unidos e ordenados em razão harmônica, sobrevindo cada um em determinados tempos. (D.L. VIII, 16-18).
Nas palavras de Diógenes Laércio, alguns dizem que Pitágoras não escreveu; mas se enganam, pois Heráclito o físico declara que: Pitágoras, filho de Mnesarco, se exercitou na história das coisas mais que todos os homens, e escolhendo este gênero de escritos, granjeou seu saber, sua perícia e mesmo as artes destruidoras dos homens. Falou assim porque havendo Pitágoras começado a escrever sobre a Natureza, disse: “Pelo ar que respiro, pela água que bebo, não sofrerei que este argumento seja vituperado”. Se atribuem a Pitágoras três escritos que são: Instituições, Política, Física, mas estes trabalhos são atribuídos a Lisis de Taranto que, depois de fugir a Tebas, foi professor de Epaminondas.
Pitágoras, finalmente, como escreve Heráclides, filho de Serapião, morreu octogenário ou segundos outros, aos noventa anos de idade. Sua escola durou até dezenove gerações, sendo os últimos pitagóricos: Xenófilo, Diocles, Fanto, Equecrates e Polimnesto. Teria morrido, segundo Diógenes Laércio, degolado junto com quarenta de seus seguidores, pelos crotonenses que o perseguiam, temendo que ele instalasse ali uma tirania. Nesta passagem está registrado que conseguiram fugir à perseguição Arquitas de Taranto e Lisis. Dicearco escreve que ele teria morrido de fome, como fugitivo no templo das Musas, em Metaponto, onde teria permanecido quarenta dias. Por sua vez, Heráclides, diz que, após promover o sepultamento de Ferecides, ele regressou à Itália e, desgostoso, ali morreu privando-se da comida. (D.L. VIII, 25).
Conforme se pode constatar estar registrado na obra de Jâmblico,[7], atribuída ao fragmento 18 de Aristóxenos,

Quílon, membro de uma das antigas famílias de Crotona, era o seu cidadão mais destacado pelo nascimento, reputação e riqueza; mas, por outro lado, era uma pessoa de trato difícil, violento, turbulento e de um caráter tirânico. Manifestou todo o empenho em partilhar do estilo de vida dos pitagóricos e acercou-se do próprio Pitágoras, que era já um ancião, mas foi rejeitado como indigno pelos motivos acima referidos. Quando tal aconteceu, ele e os amigos declararam uma guerra feroz contra o próprio Pitágoras e seus companheiros, e tão excessiva e descomedida se tornou a rivalidade do próprio Quílon e dos seus partidários, que perdurou até o tempo dos últimos pitagóricos. Foi este o motivo pelo qual Pitágoras se retirou para o Metaponto e aí morreu, segundo consta. (DK 14 A 16)

            Por tudo o que apresentamos até aqui, pode-se concluir que o que se conhece da figura de Pitágoras pertence muito mais ao mundo das lendas do que à realidade, como registrado na obra Os Filósofos Pré-Socráticos (BORNHEIN, 1998,pg.47), o que nos remete à necessidade de estudar seus postulados como o resultado de trabalhos elaborados pelo conjunto de elementos que constituíram sua escola (Pitágoras,  Discípulos e aqueles que se valeram de seus ensinamentos) que, segundo o Catálogo de Pitagóricos elaborado por Jâmblico, era composta por 224 homens e 18 mulheres.[8] Homens que foram iniciadores daquele tipo de vida que seria chamada “bios theoretikós”, em grego βίος θεωρητικός, vida contemplativa (bios = vida; theo = Deu;, retikós = caminho reto), caminho em direção a Deus ou ao logos, não ligada às necessidades do corpo.
            De qualquer forma, o registro de sua existência, ainda que escurecida pela falta de dados mais confiáveis, não pode ser questionada, principalmente diante de tantos testemunhos.

Segundo Heródoto, IV, 95, - Eu ouvi dizer pelos gregos que habita o Helesponto e o Mar Negro este homem Zalmoxis[9], que vivera como escravo em Samos, tendo sido servo de Pitágoras, filho de Mnesarco. Depois, tornado livre, acumulou grande riqueza, e com ela voltou para casa (Trácia). Este Zalmoxis, que tinha aprendido a viver como os iones, em trajes civis como os dos trácios, pessoas pobres e rudes, porque ele tinha vivido com os gregos, e dentre eles um dos mais sábio dos gregos, Pitágoras, construiu uma casa hospitaleira, onde aos convidados, principalmente seus concidadãos, para um grande banquete, ele ensinava que nem ele nem seus convidados, nem aqueles que, gradualmente, nascessem deles iriam morrer, mas iriam para um lugar onde viveriam para sempre. ... Eu, por minha parte, para a história do subterrâneo ou dos que se recusam a acreditar, ou pensar muito; eu acho que, pelo contrário, que este Zalmoxis viveu muitos anos antes de Pitágoras.(DK 14 A 2)


Segundo Diógenes Laércio, VIII,8, Aristoxeno[10] também diz que Pitágoras recebeu os preceitos mais morais de Temistocleia[11], sacerdotisa de Delfos.(DK 14 A 3)


Alcidamas em sua Física (31 A 1.56) diz que Empédocles seguiu a escola de Anaxágoras e Pitágoras, e que deste último se por um lado imitou a dignidade da vida e do comportamento, e por outro a doutrina da natureza. - Diz Alcidamas que todos devem honrar o sábio. Assim, os cidadãos de Paros prestaram homenagem a Arquíloco[12], embora ele fosse um caluniador ... e Itálicos a Pitágoras; e os cidadãos de Lámpsaco renderam honras fúnebres para Anaxágoras, embora ele era um estrangeiro, e ainda reverenciam. (DK 14 A 5)


Conforme Diógenes Laércio, Parece, ao falar de Trasilo, (IX,4) que Demócrito era rival dos pitagóricos; na verdade, de Pitágoras em particular, de quem fala com admiração no seu escrito homônimo (cfe. 68 A 33;. B 1, 1). Parece que com ele teria aprendido tudo, e que também foi seu discípulo, se não se opuserem as datas cronológicas. No entanto, não há dúvidas de que Demócrito era um discípulo de algum Pitagórico, como afirma Glauco Reggio, seu contemporâneo - Duris de Samos, no segundo livro das Crônicas, registra como filho de Pitágoras, Arimnesto, o mestre de Demócrito. Arimnesto voltando do exílio, teria oferecido no templo de Hera um presente de bronze, com um diâmetro de cerca de dois côvados, no qual estava escrito a epigrama: “Me ofertou em voto o querido filho de Pitágoras, Arimnesto por haver encontrado formas múltiplas nos relacionamentos (musical). ”  Simo[13], seu discípulo, suprimiu esta epigrama, tomando posse dela e propalando-a como a dele. (DK 14 A 6)
  

Segundo Aristóteles, Met. A 5, 986 a 29[14]  -  Alcmeão era jovem, ele foi contemporâneo de Pitágoras, mais velho, [do livro de Aristóteles Sobre os Pitagóricos, derivou a primeira discussão dobre a lenda de Pitágoras]. Ele os seguiu [Epimênides, Aristeu, Hermótimo, Abaris, Ferecides] Pitágoras, filho de Mnesarco, que, num primeiro momento, voltou sua mente para as ciências e os números, mas depois não se absteve de fazer milagres ao modo de Ferecides. (DK 14 A 7)


            Assim, abandonando tudo aquilo que está associado ao lendário, principalmente diante do fato de que, em sua escola, como a doutrina adotada por ele era considerada secreta, devemos aceitar o fato de que Pitágoras, nada deixou escrito, cabendo ao seu discípulo Filolau de Crotona, ser o primeiro a desobedecer este preceito, ao escrever um livro em que expunha a doutrina pitagórica, doravante vamos nos ater ao estudo de seus postulados, objetivo maior de nossa pesquisa, onde a figura de Aristóteles ganha relevada importância.
No estudo de sua doutrina, três pontos tornam-se marcantes e não deixam dúvidas: 1 – A ideia de que o Número é o primeiro princípio; o Número e suas relações ou “harmonias” como os elementos de todas as coisas. Cujo estudo se reflete no comportamento humano. 2 – A forma dualista da teoria dos opostos, de tão larga consequência para todo o pensamento pré-socrático e 3) A descoberta de verdades matemáticas, sobretudo do teorema que lhe é atribuído.


O princípio de todas as coisas é a unidade, da qual procede a dualidade, que é indefinida e depende, como matéria, da unidade que a causa. Assim, o número provém da unidade e da dualidade indefinida. Dos números proveem os pontos; destes, as linhas; das linhas, as figuras planas; das figuras planas, as sólidas e destas, os corpos sólidos, dos quais constam os quatro elementos, fogo, água, terra e ar, que transcendem e giram por todas as coisas, e deles se engendra o mundo animado, intelectual, esférico, que abraça ao meio a terra, também esférica e habitada em todo seu derredor. (D.L.VIII, 15)


Enquanto a maior parte afirma que a Terra está colocada no centro, os itálicos, chamados pitagóricos, dizem o contrário: asseveram que o fogo ocupa o lugar central; a Terra, sendo um dos astros, move-se circularmente em torno do centro, produzindo assim noite e dia. Constroem outra Terra, contraposta a esta, que chamam de Antiterra, buscando sua hipóteses e causas, não nas manifestações celestes, mas na subordinação destas a certas teorias e opiniões suas, tentando combiná-las harmonicamente. Também a muitos outros pensadores parecia desnecessário atribuir à Terra a posição central, deduzindo esta convicção, não de fenômenos e sim de puros raciocínios. Julgam que o mais excelente deve ocupar o lugar mais excelente; e que o fogo é mais excelente que a terra, o limite mais excelente do que o espaço intermediário, sendo que limites são o extremo e o centro. (Aristóteles., De Caelo, II, 13, 293 a).


Os assim chamados pitagóricos[15]  são contemporâneos e até mesmo anteriores a esses filósofos.[16] Eles por primeiro se aplicaram às matemáticas, fazendo-as progredir e, nutridos por elas, acreditaram que os princípios delas eram os princípios de todos os seres. E dado que nas matemáticas os números são, por sua natureza, os princípios primeiros, e dado que justamente nos números, mais do que no fogo e na terra e na água, eles achavam que viam muitas semelhanças com as coisas que são e que se geram – por exemplo, consideravam que determinada propriedade nos números era a justiça,[17] outra, a alma e o intelecto, outra 
ainda o momento e o ponto oportuno, e, em poucas palavras, de modo semelhante para todas as outras coisas – e, além disso, por verem que as notas e os acordes musicais consistiam em números; e, finalmente, porque todas as outras coisas em toda a realidade lhes pareciam feitas à imagem dos números e porque os números tinham a primazia na totalidade da realidade, pensaram que os elementos dos números eram elementos de todas as coisas, e que a totalidade do céu era harmonia e número... como o número dez parece ser perfeito e parece compreender em si toda a realidade dos números, eles afirmavam que os corpos que se movem no céu também deviam ser dez[18]; mas, como apenas nove podiam ser vistos, eles introduziram um décimo: a Antiterra.[...] Também estes parecem considerar que o número é princípio não só enquanto constitutivo material dos seres, mas também como constitutivo das propriedades e dos estados dos mesmos. Em seguida eles afirmam como elementos constitutivos do número o par e o ímpar; dos quais o primeiro é ilimitado e o segundo limitado. O Um deriva desses dois elementos, porque é par e ímpar ao mesmo tempo. Do Um procede, depois, o número; e os números, como dissemos, constituem a totalidade do universo. Outros pitagóricos afirmaram que os princípios são dez, distintos em série : 1) limitado – ilimitado; 2) ímpar – par; 3) um – múltiplo; 4) direito – esquerdo; 5) macho – fêmea; 6) repouso – movimento; 7) reto – curvo; 8) luz – trevas; 9) bom – mau; 10) quadrado – retângulo. (ARISTÓTELES, Metafísica, 985 b 23 – 986 a 27)

            Aristóteles sustentava que esta tese (dos contrários) era comum a quase todos os seus predecessores, colocando que, na realidade eles sempre se exprimem e são sempre reconhecíveis, sendo, portanto, princípios da realidade de cada coisa que é. (DK58B5), pelo que é indubitável que os pitagóricos lhe atribuíssem, também, um significado cosmológico, ligando um dos pares ao céu, vendo nele uma direita e uma esquerda (DK58B30) e defendendo que a terra era habitada pelos homens e se encontrava na parte superior direita do céu (DK58B31).
            Ainda segundo Aristóteles, o número, como entidade simultaneamente matemática e espacial, comporta também a postulação do vazio, que os pitagóricos admitiam já em nível cósmico, cuja concepção podia ser facilmente visualizada pelo método do gnômon, isto é, do quadrado, onde se o gnômon é colocado em redor do um ou do dois, têm-se duas séries fundamentais de números: a do ímpar e a dor par (DK58B28)
           

Os pitagóricos notaram como a música (que cultivavam como meio de purificação e catarse) era traduzível por número e por determinações numéricas; a diversidade dos sons que produzem os martelos ao bater sobre uma bigorna depende da diferença de seu peso, assim como a diversidade dos sons de um instrumento de cordas depende da diferença do comprimento das cordas; e, em geral, eles descobriram as relações harmônicas de oitava, de quinta e de quarta e as leis matemáticas que as governam, (1:2, 2:3, 3:4) sendo que a maior dificuldade que encontramos para compreendê-los é que, para nós, o número é um ente e razão, abstrato, mas para eles, era algo real, o mais real das coisas.
            Vários autores tardios conservaram coleções de máximas, por eles apresentadas como parte das doutrinas pitagóricas, onde a maior parte, como era evidente, foram transmitidas verbalmente, conforme a designação acusmata (coisas ouvidas), já que exigia-se dos iniciados pitagóricos que as memorizassem, por conter um tipo de catecismo doutrinal e prático, pelo que, podemos conceder um certo crédito, mas não absoluta certeza, à inclusão de alguns desses textos dedicados à vida e pensamento de Pitágoras.
            Outro campo em que a atividade de Pitágoras e de sua escola se expandiu foi o da política, onde tanto ele como seus seguidores participaram ativamente das lutas políticas que agitaram a vida de todas as cidades da Magna Grécia, influenciando a legislação de muitas colônias gregas.
            A rigor, não se pode dizer, com base em dados precisos, se o indubitável compromisso dos círculos pitagóricos na política das várias cidades significava um claro alinhamento da parte da velha aristocracia latifundiária ou das ascendentes classes comerciais e mercantis, como se pode compreender no texto de Jâmblico (254 e ss.:)

Enquanto Pitágoras esteve disponível para conversar com quem quer que fosse ter com ele, foi bem visto pela cidade, mas assim que começou a privar apenas com seus discípulos perdeu o favor [...] Dizia-se que aqueles jovens vinham das famílias mais ilustres e abastadas e que, com o passar do tempo, eles se tornaram chefes da cidade [...] apesar de serem apenas de uma pequena parte da cidade.

            Podemos, portanto, visualizar esta posição como o firme propósito de tomada gradual do poder por parte dos pitagóricos que, num primeiro momento não desestabilizaria a ordem das cidades, mas que levava, de fato, ao governo um grupo bastante heterogêneo formado por expoentes da aristocracia latifundiária e por expoentes da burguesia comercial, transformando-se em um governo de marca oligárquica, o que, com o passar dos anos provocou a revolta das classes mais pobres, que se viam exploradas, principalmente em Crotona.
            No entanto, um testemunho de Porfírio (DK14A8) nos diz, de forma clara e inequívoca, que o início do sucesso de Pitágoras se deu, precisamente, não só pela novidade e beleza de suas doutrinas, mas também por seu alto valor ético e pedagógico, o que, de claramente a distanciava de ser classificada como eminentemente oligárquica,
Colocando-a como uma escola de tendência democrática e heterogênea.
Igual acusação costuma, ainda nos dias de hoje, ser atribuída a grupos esotéricos que compartilham, em segredo, mistérios de suas ordens, principalmente daqueles grupos onde os processos de ingresso e de iniciação não são abertos a quaisquer indivíduos que desejem neles entrar, sendo necessário, antes, passar por um rigoroso processo seletivo, em que precisam comprovar que são “homens livres e de bons costumes”.
  
                                         Lista dos Pitagóricos
Segundo seu lugar de procedência (Discípulos ou pessoas influenciadas pela doutrina de Pitágoras), segundo Jâmblico, em sua obra Vida Pitagórica, escrita o século II de nossa era.
Lugar de Procedência
Nomes
Crotona
Ageas, Agelas, Agilo, Alcmeão, Antimedon, Aristeo,[19]Brias, Bulagoras, Buto, Cleofron, Cleóstenes, Damocles, Dimas, Ecfanto[20],Egon, Episipo, Erato, Eurito, Evandro, Ficiadas, Filolau[21], Filtis, Gartidas, Hemon, Hipóstenes, Hipostrato, Itaneo, Leofron, Menon, Mia, Milias, Mnemarco[22], Onatas, Rodipo, Silo, Timeu[23] e Timica
Metaponto
Agesarco, Agesidamo, Alcias, Alopeco, Antimenes, Aristeas, Aristomenes, Astilo, Brontino, Damarmeno, Eirisco, Eneas, Epifron, Eufemo, Eurifemo, Evandro, Glicino, Haníoco, Hipaso, Lácidas,  Lácrates, Lácrito, Lafaon, Leocides, Leon, Megistias, Melesias, Orestadas, Parmisco, Pirron, Procles, Quilas, Rexibo, Teano, Traseas, Trasimedes, Xenócades e Xenofantes
Agriento
Empédocles
Elea
Parmênides
Taranto
Acmonidas, Acusiladas, Arceas, Aristipo, Aristoclidas, Arquemaco, Arquitas, Asteas, Brias, Carofântidas, Cenias, Clearato, Cleon, Clinagoras, Clinias, Dicearco, Dicas, Dinocrates, Equécrates, Eurimedonte, Eurito, Eutino, Filonides, Frinico, Frontidas, Habroteles, Habrotelia, Helandro, Hestieo, Ico, Leonteo, Licon, Lisibo, Lisis, Mimnomaco, Pactio, Psicrates, Pisirrode, Psirrodo, Polemarco, Simiquias, Teodoro, Zopiro.
Sibaris
Diocles, Empedo, Endio, Evanor, Leanax, Menestor, Metopo, Polemeo, Próxeno, Timasio, Tirsenis, Tirseno.
Cartago
Antes, Hodio, Leocrito, Milciades
Paros
Alcímaco, Dexiteo, Dinarco, Eecio, Eumorio, Fenecles, Meton. Timaridas, Timeu, Timesianax
Locros
Estenonidas, Eudico, Eutino, Evetes, Filodamo, Gitios, Sosistrato, Timares, Xenon, Zaleuco
Possidônia
Atamante, Batilao, Cranao, Fedon, Mies, Proxeno, Simo
Lucânia
Aresas, Aresandro, Cerambo, Ecelo, Ocelo, Ocilo
Dardania
Malion
Argos
Babelica, Boio, Criton, Eveltonte, Hipomedonte, Polictor, Timostenes, Trasidamo
Lacedemonia
Autocáridas, Cleanor, Cleecma, Cratesíclea, Euricrates, Quilonide, Teadusa
Hiperborea
Abaris

Regio
Aristides, Aristocrates, Calais, Demostenes, Euticles, Eutosion, Fitio, Helicaon, Hiparquides, Mnesíbulo, Opsimo, Selinuncio
Siracusa
Hicetas, Damon, Ecfanto19, Fintias, Leptines
Samos
Arquipo, Heloripo, Heloris, Hipon, Lacon, Melisso
Caulônia
Calimbroto, Dicon, Drimon, Nastas, Xeneas
Fliunte
Diocles, Equecrates, Equecratia, Fanton, Polimnasto
Sicion
Demon, Estratio, Poliades, Sostenes
Cirene
Aristangelo, Melanipo, Proro, Teodoro
Cizico
Butero, Hipostenes, Pitodoro, Xenófilo
Catania
Carondas, Lisiades
Corinto
Crisipo
Tirrenia
Nausitoo
Atenas
Neócrito
Ponto
Liramno
Arcádia
Lastenia
Aspendo
Diodoro
Megara
Epicarmo

Neste catálogo elaborado por Jâmblico, para grande maioria dos nomes indicados não existem outras citações além desta.


[1] I Presocratici: Prima Traduzione Integrale Com Testi Originali a Fronte Delle Testimonianze e Dei Frammenti Nella Raccolta di Hermann Diels e Walter Kranz, a Cura di Giovanni Reale. Itália, Milano: Edizione Bompiani, Il Pensiero Occidentale, 2008.
[2] Mistérios
[3] Fenômeno da Metempsicose.
[4] Chamava-se Epigrama, entre os antigos gregos, a qualquer inscrição, em prosa ou verso, colocada em monumentos, estátuas, moedas etc., dedicada à lembrança de um evento memorável, uma vida exemplar, etc.
[5] Estesícoro é o nome pelo qual ficou conhecido um poeta lírico grego originário da Magna Grécia.
[6] Os números irracionais, representados pela letra I, não admitem ser escritos sob a forma de frações, pois em suas formas decimais, consistem em números infinitos não periódicos, como por exemplo o π (pi, de pitagóricos)
[7] Jamblico foi um filósofo neoplatônico que viveu entre 245 e 325 de nossa era, autor de Vida Pitagórica, pp 265-267
[8] A relação completa, segundo o local de origem, dos discípulos e seguidores está anexada ao final do texto.
[9] Zalmoxis (em grego: Ζάλμοξις), também conhecido como Salmoxis (Σάλμοξις),  era, de acordo com Heródoto um deus cultuado pelos getas que habitavam a região conhecida como Trácia na Antiguidade (atuais Romênia e Bulgária) que prometia a imortalidade a seus devotos, onde as tribos que o veneravam se comunicavam com ele através do sacrifício de uma vítima-mensageiro a cada de quatro anos; outros o tinham por um escravo que serviu a Pitágoras.
[10] Filósofo grego da escola peripatética, teórico da música, que teria vivido de 360 a 300 a.C.
[11] Temistocleia, em grego Θεμιστόκλεια, foi uma profetisa de Delfos, um dos mais importantes oráculos da Antiguidade grega, considerada a mestre de Pitágoras que, tornou-se a primeira mulher na história à qual o termo "filósofa" foi aplicado depois de Pitágoras ter criado o termo filosofia, o que, que lhe valeu o título de "pai da filosofia".
[12] Arquíloco, em grego Ἀρχίλοχος, foi um poeta lírico que teria vivido entre 712 e 664 a.C. na ilha jônia de Paros
[13] Segundo Jâmblico, Simo da Possidônia, teria sido um dos seguidores da doutrina de Pitágoras
[14]Parece também que Alcmeão de Crotona pensava desse modo, quer ele tenha tomado essa doutrina dos pitagóricos, quer estes a tenham tomado dele; pois Alcmeão se destacou quando Pitágoras já era velho e professou uma doutrina muito semelhante à dos pitagóricos.
[15] Acredita-se que Aristóteles tenha utilizado o termo pitagórico, ao invés de Pitágoras, aludindo ao fato de que, até então, toda as referências se davam a um indivíduo e que, pela primeira vez, elas eram atribuídas a uma equipe (REALE, Aristóteles, Metafísica, Vol. III, São Paulo: Loyola, 2002, pg.35)
[16] Aristóteles se refere a Demócrito e a Leucipo.
[17] Estando convencidos de que o caráter peculiar da justiça era a reciprocidade e a igualdade, e achando que isso se encontra nos números, por esse motivo diziam que a justiça é o primeiro número quadrado... Com efeito, é claro que no número quadrado os dois fatores são iguais e o primeiro trata o segundo do mesmo modo que este trata aquele. Para alguns pitagóricos esse número era o 4 (= 2 x 2, isto é, o primeiro quadrado de um par), para outros, o 9 (= 3 x 3, o primeiro quadrado de um ímpar). – A alma e o intelecto eram, ao invés, o número 1, porque persistente e todo igual e dominante, e assim eles pensavam que era o número 1...Os pitagóricos chamavam momento justo (καιρόν) o número 7, porque os fenômenos naturais pareciam ter ciclos setenários: o homem, por exemplo, pode nascer com sete meses, solta os dentes depois de sete meses, chega à puberdade depois do segundo setênio e gera em torno do terceiro setênio. Depois, como o sol parece ser a causa desses ciclos setenários, os pitagóricos o colocavam no lugar que é próprio do número 7, que eles chamavam de ponto justo. De  fato, o sol ocupa o sétimo lugar dos corpos que se movem em torno do centro... Ademais, indicavam as núpcias com o número 5, porque as núpcias são a união do macho (ímpar) e fêmea (par), sendo 5 a união do primeiro ímpar 3 e do primeiro par 2 (REALE, 2002, pg.36)
[18] Os astros a que se referem eram 1) A Antiterra, 2) A Terra, 3) A Lua, 4) O Sol, 5) Vênus, 6) Mercúrio, 7) Marte, 8) Júpiter, 9) Saturno, 10) O céu das estrelas fixas.
[19] Segundo Jâmblico, Aristeo foi quem dirigiu a escola após a morte de Pitágoras
[20] Alguns colocam Ecfanto como sendo de Siracusa, pelo que poderia não ser a mesma pessoa
[21] Jâmblico coloca Filolau, de Crotona, como procedente de Taranto
[22] Que Jâmblico registra como filho de Pitágoras
[23] Outros autores colocam sua procedência como Locri
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