sexta-feira, 11 de março de 2016

PROÊMIO PARA COMPREENDER OS PRÉ-SOCRÁTICOS


Antes de mais nada, para que se possa comentar alguma coisa sobre o pensamento filosófico antigo, principalmente daqueles personagens que denominamos pré-socráticos, torna-se necessário tecer algumas considerações que, seguramente, ajudarão o leitor a compreender melhor o que será apresentado neste livro.
Primeiramente, é preciso deixar claro, deixar registrado que, na sua quase totalidade, as referências que nos chegaram sobre os primeiros filósofos, sobre suas obras e sobre seus pensamentos, nos chegaram a partir de fragmentos escritos por outros pensadores que, em suas obras, referiam-se a eles. Vale, também lembrar que, no período inicial do pensamento filosófico, a quase totalidade da produção cultural era transmitida de forma oralizada, em diálogos que os mestres primeiros mantinham, ora com alguns escolhidos, ora com qualquer um que desejasse ouvi-los. Estes fragmentos, escritos por doxógrafos, aqueles que registraram as opiniões (δόξα = doxa, opinião + γραφή, grafé, escrito) dos seus predecessores, foram obtidos com base nas (δόξα αλήθής =                    doxa alethès) opiniões aceitas como verdadeiras, conhecidas à época, sobre o pensamento deste ou daquele filósofo. Com exceção das obras de Platão, de Aristóteles, de Plotino e de três cartas de Epicuro, a maior parte destes textos filosóficos se tornaram conhecidos através de citações de eruditos muito posteriores.
De certa forma podemos dizer que, o iniciador da prática de coligir e descrever as doutrinas dos filósofos e das escolas filosóficas, foi Teofrasto (cerca de -371/-287 a.C.), um dos discípulos de Aristóteles, de cujo livro Opiniões dos Filósofos na Natureza restaram alguns fragmentos. Além dele, outros doxógrafos importantes podem ser considerados, como o caso de Sócio de Alexandria (cerca de -200 a.C.), Varro (cerca de -116/-127 a.C.), Cícero (cerca de -106/-46 a.C.), Lucrécio (cerca de -99/-55 a.C.), Sêneca (cerca de -5 a.C./65), Marco Aurélio (121/180), Écio (séc. II), Plutarco (sec. II), Clemente de Alexandria (150/215), Hipólito de Roma (170/236), Sexto Empírico (cerca do ano 190) e Diógenes Laércio (200/250), cujo livro Vidas dos Filósofos Ilustres, ocupa um lugar privilegiado na história da filosofia, Estobeu (séc. V) e Simplício (séc.VI).
Estes fragmentos, desconectados de uma ordem cronológica, para que se tornassem compreensíveis, foram compilados segundo o desejo dos que se propuseram a fazê-lo, geralmente obedecendo um critério temporal subjetivo, agrupados, quase sempre, por semelhança dos temas abordados, o que, de certa forma, foi universalizado, principalmente quando este trabalho se dava como síntese da obra de vários doxógrafos, de vários historiadores. São os pontos comuns, registrados nos fragmentos destes vários doxógrafos, obtidos em diferentes regiões e épocas que nos garantem, com boa margem de segurança, com boa probabilidade de acerto, que representam o pensamento real e verdadeiro daqueles personagens. Por outro lado, boa parte destes fragmentos, antes de serem aceitos, tomados por verdadeiros, (doxa alethès), precisaram mostrar-se compatíveis com outros registros históricos, econômicos, militares, teológicos e geográficos que temos sobre este período e que nos chegaram por outros caminhos. Acrescente-se ainda como um complicador na análise destes fragmentos, o fato de que, na Grécia Antiga clássica, os escritores utilizavam o papiro importado do Egito para fixar as mensagens que confiavam à História, o que implicava na necessidade de que, periodicamente, estes precisassem ser reescritos (copiados), já que este material tinha uma duração máxima próxima aos sessenta anos, quando então as manchas de bolor começavam a comprometer os textos.
Como se pode imaginar, a acribia, o estudo rigoroso destes fragmentos transformou-se em uma tarefa hercúlea, a qualquer um que empreendesse tal objetivo, onde e quando cada pesquisador precisava recorrer aos trabalhos individualizados de cada compilador, de cada doxógrafo, o que, fatalmente implicava, provocava, trabalhos falhos, monografias incompletas, textos e citações suprimidas, etc.


Para amenizar este problema, Hermann Alexander Diels (1848/1922), um filólogo, helenista e historiador da filosofia alemão coligiu todos os documentos e fragmentos antigos conhecidos à sua época, que se referiam à doutrina dos filósofos chamados pré-socráticos (ele foi o primeiro a utilizar esta expressão, isto no séc. XIX) elaborando sua obra “Die Fragmente der Vorksokratiker” (1903)[1], que se tornou referência para os trabalhos subsequentes, a partir de então.
Após sua morte, outro filólogo alemão, Walter Kranz (1884/1960), a partir de 1934 deu continuidade à sua obra, mesmo precisando refugiar-se na Turquia no período da Segunda Grande Guerra do séc. XX, (sua esposa era judia) transformando-a na referência aceita globalmente sobre os filósofos pré-socráticos.
Para compreender seu trabalho, basta-nos saber que as referências se dão pelas letras DK (Diels-Kranz), autores da obra, seguida pelo número correspondente ao capítulo (11 para Tales de Mileto; 12 para Anaximandro de Mileto; 13 para Anaxímenes de Mileto; ...; 31 para Empédocles; 55 para Demócrito, etc.), seguidos da letra A, para indicar testemunho, B para indicar fragmentos literais ou C para indicar imitação ou falsificação.
            Assim, um fragmento classificado com DK 22 A 1, por exemplo, corresponde ao relato da vida e obra de Heráclito de Éfeso, elaborado por Diógenes Laércio. Outro, classificado como DK 28 B 1, por exemplo, corresponde ao primeiro fragmento de Parmênides, que contém a introdução de seu poema Sobre a Natureza.
            Desta forma, para facilitar nossos estudos, transcrevemos na sequência, a classificação adotada por Diels-Kranz para a classificação dos fragmentos acerca dos pré-socráticos.[2]

            A Poesia cosmológica dos tempos antigos

1 – Orfeo de Tracia (Ορφέο)
2 – Museo de Atenas (Μουσαίος)
3 – Epimenedes de Creta (Επιμενίδης)

            A Poesia Astrológica do século VI a.C.

4 – Hesíodo[3] (Ησίοδος)
5 – Foco de Samos (ΦώϏον)
6 -  Cleostrato de Tenedos (Κλϵόστρατος)

            A Antiga Prosa Cosmologica e Gnômica

7 – Ferecides de Siro (Φερεκνδης)
8 – Teagene de Megara (Θεαγένης)
9 – Acusilau de Argos (Άκονσίλαον)
10 – Os Sete Sábios [4]

            Fragmentos dos Filósofos do Século VI e V a.C.

            Filósofos Jônicos

11 – Tales de Mileto (Θαλής)
12 – Anaximandro de Mileto (Άναξίμανδρος)
13 – Anaxímenes de Mileto (Άναξίμένης)

            Pitágoras e os pitagóricos mais antigos

14 – Pitágoras de Samos (Πυθαγόρας)
15 – Cercopes de Mileto (Κέρκωπως)
16 – Petrono de Imera (Πέτρωνος)
17 – Brontino de Metaponto (Βροντίνος)
18 – Hipaso de Metaponto (Ιππασος)
19 – Califonte (ΚαλλιΦώντος) e Domocedes (Δημοκήδης) de Crotona
20 – Parmisco de Metaponto (Παρμίσκος)

21 – Xenofane de Colofon ( ΞενοΦάνης )

22 – Heráclito de Éfeso (Ήράκλειτος)

            Epicarmo e outros pitagóricos

23 – Epicarmo de Crasto (Ἐπίχαρμος)
24 – Alcmeão de Crotona (Ἀλκμαίων)
25 – Icos de Taranto (Ἴκκος)
26 – Paron (Πάρων)
27 – Ameinias (Ἀμεινίας)

            Os Eleatas

28 – Parmênides de Eleia (Παρμενίδης)
29 – Zenão de Eléia (Ζήνων)
30 – Melisso de Samos (Μέλισσος)

31 – Empédocles de Agriento (Ἐμπεδοκλῆς)

Segundos Pitagóricos e os Naturalistas Menores

32 – Menestor de Sibari (Μενέστωρ)
33 – Xuthos ( Ξονθος)
34 – Boidas (Βοίδαν)
35 – Trasialco de Taso (Θρασvάλκον)
36 – Ion de Quios (Ίων)
37 – Damon de Atenas (Δάμων)
38 – Hipon de Metaponto (Ίππωνα)
39 – Phaleas de Calcedônia (Φαλέας) e Hipodamus de Mileto (Ἱππόδαμος)
40 – Policleto de Sicião (Πολύκλειτος)
41 – Enopide de Quios (Οινοπίδης)
42 – Hipócrates de Quios (Ίπποκράτης) e Ésquilo (Αἰσχύλος)
43 – Teodoro de Cirene (Θεοδωρος)
44 – Filolau de Crotona (Φιλόλαος)
45 – Eurito de Crotona (Εϋρντος)
46 – Arquipo (Άρχιππος) Lisis (Λνσίς) de Taranto e Opsimo (Όψιμος) de Reggio
47 – Arquitas de Taranto (Ἀρχύτας)
48 – Ocelo de Lucania (Όκκελος)
49 – Timeu de Lócrida (Τίμαίός)
50 – Hiceta de Siracusa (Ίκέτης)
51 – Ecfantos de Siracusa (Ἔκφαντος)
52 – Xenófilo de Cálcis ( Ξενόϕιλός )
53 – Diocles (Διοκλής), Equecrátes (Έϰεκράτης) e  Polimnesto (Πολνμαστος)
        Fanto (Φάντων) todos de Flionte e Arion (Αρίων) de Locri
54 – Proros (Πρωρον) de Cirene; Amiclas (Άμύκλαν) e Clinias (Κλεινίαν) de Taranto
55 – Damon (Δάμωνα) e Fintias (Φιντίας) da Sicilia
56 – Simon (Σιμον), da Posidonia[5], Miômides (Μνωμύδην), Eufranor (Εύϕράνορα)
        de Corinto
57 – Licon (Λύκων) de Taranto

58 – Escola Pitagórica

59 – Anaxágoras ( Ἀναξαγόρας) de Clazômenas

            Discípulos de Anaxágoras, Físicos Ecléticos e de Heráclito

60 – Arquilao (Άρχέλαος) de Atenas ou de Mileto
61 – Metrodoro de Lampaso
62 – Clidemos (Κλείδημος) de Atenas
63 – Ideo ( Ίδαίος) de Imera
64 – Diógenes ( Διογένης ) de Apolonia
65 – Crátilo ( Κρατύλος )
66 – Antistenes  (Ἀντισθένης)[6]

            Os atomistas de Abdera

67 – Leucipo (Λεύκιππος) de Abdera[7]
68 – Demócrito (Δημόκριτος) de Abdera

            Os atomistas menores

69 – Nessa ( Νεσσάς) de Quios
70 – Metrodoro (Μητρόδωρος) de Quios
71 – Diógenes ( Διογένης ) de Smirna
72 – Anaxarco (Ἀνάξαρχος) de Abdera
73 – Hecateo (Ἑκαταῖος) de Abdera
74 – Apolodoro (Ἀπολλόδωρος) de Cizico
75 – Nausifane (Ναυσιφάνης) de Teo
76 – Diotimo ( Διότμος) de Tiro
77 – Bion (Βίωνς) de Abdera
78 – Bolos (Βωλος)

            Os sofistas antigos

79 – Origem do Nome e conceito
80 – Protágoras (Πρωταγόρας) de Abdera
81 – Xeníades ( Ξενιάδης ) de Corinto
82 – Górgias (Γοργίας) de Leontino

            Os sofistas menores

83 – Licofron (Λυκόφρων)
84 – Pródicos (Πρόδικος) de Ceos
85 – Trasimaco (Θρασύμαχος) da Calcedonia
86 – Hípias (Ιππίας) de Diópide
87 – Antifonte (Ἀντιφῶν) de Atenas
88 – Critias (Κριτίας) de Atenas[8]
89 – Anônimo de Jâmblico[9]
90 – Discursos duplos



[1] Reeditada com acréscimos em 1906, 1912, 1922, 1934 e 1952.
[2] Segundo a obra I Presocratici: Prima Traduzione Integrale Com Testi Originali a Fronte Delle Testimonianze e Dei Frammenti Nella Raccolta di Hermann Diels e Walter Kranz, a Cura di Giovanni Reale. Itália, Milano: Edizione Bompiani, Il Pensiero Occidentale, 2008.
[3] Não existe referência sobre a cidade natal de Hesíodo, mas sabe-se que seu pai era de Cime, que migrou para a cidade de Ascra, na Beócia, onde Hesíodo chegou a disputar judicialmente a posse de terras com seu irão.
[4]  Segundo o texto atribuído a Higino, os sete sábios da Grécia Antiga são: Pítaco de Mitilene, Periandro de Corinto, Tales de Mileto, Sólon de Atenas, Quílon de Esparta, Cleóbulo de Lindos e Bias de Priene.
[5] Atual Pesto
[6] Segundo Diógenes Laércio (VI 19) existem três Antístenes, um é Heraclitídeo (o que Diels classifica com o número 66), outro é de Éfeso e outro, deRodes, um histórico, conforme DK 22ª 1, §15)
[7] Segundo Diógenes Laércio, Leucipo também poderia, segundo alguns, ser originário de Eléia ( Dióg. IX 30)
[8] Como Platão esclarece através de Crítias no Timeu em 27 a-b, o Crítias foi concebido como uma continuação do Timeu, não existindo uma confirmação da existência histórica e real deste personagem
[9] Anonymous Jâmblico refere-se a um autor sofista desconhecido que escreveu um breve texto entre o final do século V e início do Século IV a.C,.
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