domingo, 27 de março de 2016

TALES


Aforismo: Lembre-se dos amigos, presentes e ausentes (DK 10 A 3.4)

Tales de Mileto (Θαλής ο Μιλήσιος) é considerado o mais antigo físico grego e investigador da natureza das coisas como um todo. Segundo Diógenes Laércio   “conforme afirmam Herótodo e Dúris e Demócrito, era filho de Exâmias e de Cleobulina, da família de Teleu, que sendo da mais alta nobreza fenícia, fazem remontar a sua origem a Cadmo e Agenor...”, tendo nascido, conforme Diógenes Laércio I, 37-8, por volta do ano 624 a.C. (DK 11 A 1)[1], sendo considerado o marco inicial da filosofia ocidental.
Segundo Aristóteles, em sua cosmogonia, Tales, como a maioria dos primeiros filósofos naturalistas, pensando que o princípio (αρχή = arché), sob a forma de matéria, era único para todas as coisas, considerava a água como sendo a origem de tudo e que a Terra flutuava sobre ela. (Arist., de Caelo, B 13, 294a28 e Met. A 3, 983 b 6). Para ele, a água apresentava-se sob as mais variadas formas e em todos os estados em que vemos os corpos da natureza, quais sejam: sólido, líquido e gasoso e onde, a olhos nus, podia-se vê-la passar de um estado a outro, mantendo, contudo, sua identidade.

Tales, iniciador desse tipo de filosofia, diz que o princípio é a água (por isso afirma também que a terra flutua sobre a água), certamente tirando esta convicção da constatação de que o alimento de todas as coisas é úmido, e da constatação de que até o calor se gera do úmido e vive no úmido. Ora, aquilo de que todas as coisas se geram é o princípio de tudo. Ele tirou, pois, esta convicção desse fato e também do fato de que as sementes de todas as coisas têm uma natureza úmida, sendo a água o princípio da natureza das coisas úmidas. Há também quem acredite que os mais antigos, que por primeiro discorreram sobre os deuses, muito antes da presente geração, também tiveram essa mesma concepção da realidade natural. De fato, afirmaram Oceano e Tétis como autores da geração das coisas, e disseram que aquilo sobre o quê juram os deuses é água, chamada por eles de Estiga. Com efeito, o que é mais antigo é também mais digno de respeito, e aquilo sobre o quê se jura é o que há de mais respeitável. Mas não é absolutamente claro que tal concepção da realidade tenha sido tão originária e tão antiga; ao contrário, afirma-se que Tales foi o primeiro a professar essa doutrina da causa primeira (de fato, ninguém pensaria em por Hipão [2] junto com esses, dada a inconsistência de seu pensamento). Aristóteles, Met., A 3, 983 b 20 (DK 11 A 12)

O fenômeno da evaporação fê-lo pensar que a água é a causa do céu e do que nele existe, assim como no fenômeno da chuva, a água é a causa da terra e do que nela existe.

Alguns dos que afirmam um só princípio de movimento – Aristóteles, propriamente, chama-os de físicos – consideram que ele é limitado; assim Tales de Mileto, filho de Exâmias e Hipão, que parece ter sido ateu, afirmavam que a água é o princípio, tendo sido levados a isto pelas coisas que lhes apareciam segundo a sensação; pois o quente vive com o úmido, as coisas mortas ressecam-se, as sementes de todas as coisas são úmidas e todo alimento é suculento. Donde é cada coisa, disto se alimenta naturalmente: a água é o princípio da natureza úmida e é continente de todas as coisas; por isso supuseram que a água é o princípio de tudo e afirmaram que a terra está deitada sobre ela. Os que supõem um só elemento afirmam-no ilimitado em extensão, como Tales diz da água. Simplício, Física, 23,21. (DK 11 A 13)

            Viajando pelo Egito e observando as cheias do Nilo que transformava a terra seca em terra fértil, ele concluiu que a água era, também, a causa das plantas.

Nesta época, era costume atribuir aos sábios a realização de viagens ao Egito, manadeiro tradicional da filosofia grega, pelo que, segundo Proclo, in Euclidem, “Tales, ..., depois de se ter dedicado à filosofia no Egito, veio para Mileto, numa idade bastante avançada. ” (DK 11 A 11), o que reforça outra informação, dada por Écio (IV, 1,1), de que teria apresentado uma teoria sobre as cheias do Nilo (Diels, DoxographyGraeci226 e ss.) onde “Tales pensa que os ventos etésios[3], ao soprarem de frente contra o Egito, fazem crescer a massa das águas do Nilo, impedindo assim o seu escoamento, devido ao aumento de volume do mar que se lhe opõe” (KIRK, 1994, pg.77)

A existência de fósseis de animais marinhos encontrados nas montanhas, em grandes altitudes, teria levado Tales a pensar que no início tudo era água e que a vida fora causada pela água.
            No estudo de sua doxografia, segundo Aristóteles, encontramos registrado que:

“atribui-se a Tales de Mileto, por sua grande sabedoria, uma especulação lucrativa, que, aliás, nada tem de extraordinária. Reprovava-se a sua pobreza, dizendo-lhe que a filosofia para nada serve. Ele havia previsto, diz-se, por seus conhecimentos astronômicos, que iria haver uma grande colheita de azeitonas. Estava-se ainda no inverno. Procurou Tales o dinheiro necessário, arrendou todas as prensas de óleo de Mileto e de Quio por um preço bem módico, pelo fato de não ter concorrentes. Quando veio a colheita, as prensas foram procuradas de repente por uma multidão de interessados. Alugou-lhas então pelo preço que quis, e, realizando assim grandes lucros, mostrou que é fácil aos filósofos enriquecer quando querem, embora não seja esse o fim dos seus estudos (Aristóteles, A Política, 1259 a8)

E, segundo Platão,

Enquanto estudava os astros e olhava para cima, caiu num poço. E uma divertida e espirituosa serva trácia zombou dele – dizem – porque mostrava-se tão ansioso por conhecer as coisas do céu que não conseguia ver o que se encontrava ali diante de si sob seus próprios pés. (Diálogos: Teeteto, 174 a)

Embora seja provável que nenhuma destas histórias seja estritamente histórica (KIRK, 2010, pg.78) sua origem se localize por volta do século quarto a.C., o que nos demonstra que Tales, efetivamente, era reconhecido como um filósofo típico.
Ainda, segundo Diógenes Laércio, teria, também, sido atribuído a ele a previsão de um eclipse durante o sexto ano da guerra entre Medos e Lídios (segundo os cálculos modernos, ocorrido por volta de 28 de maio do ano 585 a.C.) (DK 11 A 5), fato descrito possivelmente na senda de Apolodoro de Atenas (Ἀπολλόδωρος) [cerca de 180/119 a.C.] Tal façanha teria se dado, com grande probabilidade de êxito, devido ao            acesso que Tales teve aos registros Babilônios, cujos sacerdotes realizavam, para fins religiosos, observações sistêmicas de eclipses do Sol, tanto parciais quanto totais, chegando à época há estabelecer um ciclo de solstícios[4], durante os quais poderiam verificar-se a ocorrência de eclipses em determinados locais.
Tudo o que seria necessário para isto, seria uma série de observações com um marcador de solstícios, quando então se perceberia que seu ciclo não é sempre igual), valendo-se, como instrumento, de uma vareta vertical fixada ao solo, por meio da qual podia ser registrado com exatidão, o comprimento da sombra do Sol. Acredita-se que foi este o método utilizado por Tales para, a partir da comparação da sombra do Sol, produzida na vareta e em uma pirâmide, estabelecer uma relação de proporcionalidade que permitisse calcular a altura desta última. Diog. I, 27, Plin. XXXVI 82.  (DK 11 a 21).





            Em outra passagem, conforme Proclo, (in Euclidem, 157), a maior parte de seus estudos e conclusões serviram de base, muito depois, para o surgimento da geometria euclidiana, chegando a demonstrar que, se duas retas são transversais a um feixe de retas paralelas, então a “razão” entre dois segmentos quaisquer de uma delas, é igual à razão entre os segmentos correspondentes da outra e que os ângulos alternos são iguais entre si.(DK 11 A 21).





Como se pode observar na figura, a intersecção de uma única reta por um feixe de retas paralelas, forma ângulos alternos externos geometricamente iguais, assim como ângulos alternos internos também geometricamente iguais.
            Junto com Anaximandro e Anaxímenes, este trio de pensadores jônios[5] pode ser consideradocomo os verdadeiros pioneiros da filosofia, que na verdade começou em Mileto, antiga colônia grega que hoje fica em terras da Turquia

A proposição de Tales de que a água é o absoluto ou, como diriam os antigos, o princípio, é filosófica; com ela, a Filosofia começa, porque através dela chega à consciência de que o Um é a essência, o verdadeiro, o único que é em si e para si. Começa aqui um distanciar-se daquilo que é em nossa percepção sensível; um afastar-se deste ente imediato - um recuar diante dele. Os gregos consideravam o Sol, as montanhas, os rios, etc., como forças autônomas, honrando-os como deuses, elevados pela fantasia a seres ativos, móveis, conscientes e dotados de vontade. (HEGEL, Preleções sobre a História da Filosofia, pg. 203 Apud SOUZA, 2000,P.43)


A filosofia grega parece começar com uma ideia absurda, com a proposição: a água é a origem e a matriz de todas as coisas. Será mesmo necessário determo-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque faz sem imagem e fabulação; e enfim, em terceiro lugar, porque nela, embora apenas em estado de crisálida, está contido o pensamento: “Tudo é Um”. A razão citada em primeiro lugar deixa Tales ainda em comunidade com os religiosos e supersticiosos, a segunda o tira dessa sociedade e no-lo mostra como investigador da natureza, mas, em virtude da terceira, Tales se torna o primeiro filósofo grego. (NIETSZCHE, 2013, pg 28)






[1]Cadmo (em  grego Κάδμος), filho do rei Agenor, foi um herói da mitologia grega, fundador da cidade de Tebas e introdutor do alfabeto fenício na Grécia (BULFINCH, 2013, PG.149)
[2] O Hipão ao qual Aristóteles se refere alegoricamente, e posteriormente Simplício, é o pitagórico, de Metaponto (Samos ou Régio), que também defendia a água como princípio das coisas.
[3]Ventos que periodicamente sopram do Norte em direção ao Mediterrâneo oriental.
[4]Chama-se solstício ao momento em que o Sol, durante seu movimento aparente na esfera celeste, atinge a maior latitude, medida a partir da linha do equador, o que, no verão produz o dia mais longo do ano e, consequentemente, no inverno, à noite mais longa do ano, fatos que ocorrem nos meses de dezembro e junho. Com este conhecimento, pode-se, também, determinar o chamado equinócio, data que marca respectivamente o início da primavera e do verão, quando o dia e a noite têm, exatamente a mesma duração, ocorrendo em setembro e março, respectivamente
[5]Jônia era uma região da costa sudoeste da Turquia, banhada pelo mar Egeu (e não pelo mar jônico como se pode pensar) que compreendia as cidades de Samos, Quios, Mileto, Éfeso, Colofon, Miunte, Priente, Lebedos, Teos, Clazomenes, Éritras e Fócia, às quais somou-se, posteriormente, Esmirna.

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