segunda-feira, 11 de abril de 2016

ALCMEÃO


        Alcmeão, em grego Ἀλκμαίων, foi um médico e filósofo pré-socrático grego, originário de Crotona, uma comuna italiana da região da Calábria, que viveu no século V a.C., considerado como um dos mais importantes discípulos de Pitágoras, interessado especialmente pelos assuntos ligados à psicologia e à cosmologia. Estudioso da imortalidade da alma, é tido como tendo sido o primeiro a defendê-la de uma forma argumentativa. Dedicado à medicina e às investigações das ciências naturais, foi o primeiro a realizar uma dissecação de um cadáver humano, desenvolvendo uma teoria acerca da origem e dos processos fisiológicos das sensações, sugerindo que os sentidos estariam ligados ao cérebro, ao qual também associou as funções psíquicas, inferindo, também, que nele está a sede do pensamento. Chegou a esta conclusão ao descobrir que certas vias sensoriais terminavam no encéfalo[1]. Pioneiro da embriologia, pode ter sido ele, também, o primeiro descobridor das trompas de Eustáquio.





Segundo Diógenes Laércio, em sua obra, Vida dos Filósofos Mais Ilustres, VIII, 83, Alcmeão, crotonense, também foi discípulo de Pitágoras. Tratava pelas coisas da medicina, pelo que discute algo de fisiologia, dizendo que ordinariamente são dois os gêneros das coisas humanas. Parece que é o primeiro que escreveu sobre a ordem da natureza, como diz Favorino em sua História Vária, afirmando que a natureza da Lua e em gênero todos os corpos celestes acima deste, tem natureza eterna. Foi filho de Pirito, como ele mesmo diz ao comentar em seu livro: Alcmeão, crotonense, filho de Pirito; dizendo deste modo a Brontino, Leão e Batilo: Das coisas invisíveis e das mortais têm os deuses pleno conhecimento, em quanto aos homens, só conjecturar é permitido. (DK 24 B 1)[2]. Diz também que a alma é imortal e está em movimento contínuo, como o Sol. (DK 24 A 1).





            O caráter pitagórico de Alcmeão se manifesta na doutrina dos contrários, ainda que não lhes tenha conduzido características precisas, como farão os pitagóricos ulteriores, cabendo-lhe a importância pela antiguidade destes pontos de vista. Neste contexto, ele definiu a saúde como sendo o resultado do equilíbrio entre os contrários, onde a supremacia de um dos dois seria a causa da doença.



O que mantém a saúde, Alcmeão diz, é o equilíbrio (isonomia) das potências (dýnamis)[3]: molhado-seco, quente-frio, amargo assim por diante; onde a predominância de uma delas (monarquia)[4] gera doença, porque mortal é o domínio do oposto. E a doença pode ter lugar: no que se refere a causa da qual deriva, por excesso de calor ou frio; segundo o local, no sangue ou na medula óssea ou no cérebro. Ela surge por vezes nos extremos devido a causas externas, como em certas umidades, ou lugares, ou até a fadiga ou violência, ou algo semelhante. Por sua vez, a saúde é a mistura harmoniosa das qualidades. (DK 24 B 4)



            Segundo Aristóteles, em sua Metafísica, A 5, 986 a 22, sobre os contrários, outros pitagóricos afirmaram que eles são dez, distintos e em série: limite-ilimitado; ímpar-par...



Parece que também Alcmeão de Crotona pensava desse modo, quer ele tenha tomado essa doutrina dos pitagóricos, quer estes a tenham tomado dele; pois Alcmeão se destacou quando Pitágoras já era velho e professou uma doutrina muito semelhante à dos pitagóricos. Com efeito, ele dizia que as múltiplas coisas humanas, em sua maioria, formam pares de contrários, que ele agrupou não do modo preciso como faziam os pitagóricos, mas ao acaso como, por exemplo: branco-preto, doce-amargo, bom-mau, grande-pequeno. Ele fez afirmações desordenadas a respeito dos pares de contrários, enquanto os pitagóricos afirmaram claramente quais e quantos são. (DK 24 A 3)



            Ainda segundo Aristóteles, em de Anima, I, 405 a 21.



Diógenes, bem como alguns outros, disse que a alma é ar, julgando ser o ar composto das menores partículas e princípio de tudo... Também Heráclito disse que a alma é o princípio, se de fato ela é a exalação a partir do que tudo o mais se constitui... Com alguma semelhança a eles, também Alcmeão parecia fazer suposições a respeito da alma, pois diz que ela é imortal por assemelhar-se aos imortais; e que isso é atribuído a ela em virtude de ser sempre movente, pois tudo o que é divino move-se sempre continuamente – a lua, o sol, os astros e o céu inteiro.(DK24A12).



            Com referência ao tema da anatomia humana, Alcmeão afirma, segundo registra Aécio, em sua obra Opiniões dos Filósofos, IV: “que ouvimos graças ao vazio que existe dentro do ouvido e que, com efeito, isso é o que ressoa” (DK 24 A 6); diz ainda que, aquilo que governa está no cérebro, atraindo os odores quando inspiramos (DK 24 A 8); assim como distinguimos os sabores por meio do úmido e o calor pela língua, além da sua suavidade (DK 24 A 9).

            Assim, como podemos ver, de acordo com estes fragmentos, parece que Alcmeão explicava a audição como consequência do vazio existente no ouvido, que permitiria a ressonância do ar em seu interior; o gosto como uma propriedade da língua, a qual graças a seu calor e umidade pode dissolver e distinguir os alimentos e transmitir a impressão ao cérebro; ele entendia o olfato como o reconhecimento por parte do cérebro dos odores que até ele seriam transportados diretamente pelo ar inspirado e, a visão,  como um reflexo da imagem na água do olho, cujo brilho e transparência se deviam ao fogo que também ele possui (DK 24 A 10).

Destas observações, aquilo que de mais original podemos retirar de suas explicações, é a ideia da confluência dos condutos dos órgãos dos sentidos ao cérebro, o centro primário responsável pelas sensações, sendo que desta ideia, do cérebro como centro sensorial, Alcmeão retirou outro de seus postulados: o de estabelecer a capacidade do homem para compreender, reunindo no cérebro os dados procedentes dos sentidos, constituindo esta sua faculdade a propriedade que o distingue dos animais, que só podem sentir.



Conforme Teofrasto, De Sensu., 25: Alcmeão define, em primeiro lugar, a diferença entre homens e animais. O homem com efeito, diz, se diferencia dos animais somente por que compreende; os animais, por sua vez, sentem, mas não compreendem, de modo que o entender e o sentir são coisas distintas e no mesmo, como sustenta Empédocles. (DK 24 B 1 a)



            Alcmeão também tentou explicar o fenômeno dos sonhos que ocorreria pela diminuição da quantidade de sangue no cérebro, quando retirado pelos vasos por onde flui. Segundo ele, é este mecanismo de fluxo e refluxo do sangue entre o cérebro e os vasos sanguíneos, que explica a morte, que ocorre quando o sangue se retira das veias e não volta a irrigar o cérebro.  De fato, como explica Casertano (Os pré-socráticos, 2011, pg.77), “Alcmeão disse que a morte é um processo fisiológico muito semelhante ao sono: o sono chega quando o sangue se concentra nas veias, desperta-se quando o sangue alastra, e morre-se quando se retira completamente”, (DK 24 A 18). A propósito da morte, em outro fragmento ele disse que: por isso morrem os homens, porque não podem unir o princípio com o fim” (DK 24 B 2), o que, em nossos termos, significa ter intuído que o metabolismo humano é um processo irreversível, que não tem retorno ou recuperação.



[1] Ramificações e terminações nervosas
[2] Nesta mensagem, Alcmeão afirma a característica do conhecimento humano, baseado na construção de hipóteses sempre novas, a serem discutidas e verificadas, em face da sabedoria divina, a única que já possui todas as noções cristalizadas num saber certo, fixo e imóvel (CASERTANO, Os Pré-Socráticos, 2011, pg.77).
[3] O primeiro médico a empregar o termo dýnamis foi Alcmeão, retomando um emprego que data de tempos imemoriais, pois os gregos sempre usaram dýnamis para significar a presença de uma força ou de uma potência para mostrar-se ou para poder mostrar-se tal como é. Em outras palavras, a dýnamis se refere às ações atuais ou potências que uma coisa pode realizar apenas por si mesma ou por natureza. (CHAUI, 2002, pg.149)
[4] Do grego μοναρχία
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