segunda-feira, 18 de abril de 2016

EMPÉDOCLES

Segundo Diógenes Laércio em sua obra Vida dos Filósofos Mais Ilustres, VIII, (51), Empédocles, em grego μπεδοκλς, foi um filósofo grego, natural da colônia dórica de Agriento, na Sicilia, que, como atesta Hipoboto e confirma Apolodoro, era filho de Metão que, por sua vez era filho de outro Empédocles, uma pessoa influente que criava cavalos e que, segundo nos diz Erastótenes, teria vencido a LXXI Olimpíada [Septuagésima primeira Olimpíada]; (53) Sátiro diz, nas Vidas que Empédocles era filho de Exeneto e que deixou, também, um filho chamado Exeneto, ... , Telauges, filho de Pitágoras, em sua carta a Filolau, diz que Empédocles era filho de Arquinomo, (DK 31 A 1). Teria nascido por volta do ano 490 a.C. e (54) segundo atesta Timeu no livro IX de suas Histórias, Empédocles foi discípulo de Pitágoras. Escreveu dois poemas no dialeto jônico: Sobre a Natureza e Purificações, dos quais nos chegaram apenas fragmentos, onde sua doutrina se mostra como uma primeira síntese filosófica, substituindo a busca dos jônicos de um princípio único das coisas, por quatro elementos (teoria cosmogênica)[1] que ele chamou raízes e que a física, a partir de Platão, mais tarde, chamou de elementos: fogo, terra, água e ar, combinando ao mesmo tempo o ser imóvel de Parmênides com o de perpétua transformação de Heráclito, salvando, ainda, a unidade e a pluralidade dos seres particulares. Empédocles era um médico fortemente influenciado pela religiosidade órfica, tendo a sua cosmologia sido, consequentemente, influenciada pela religião e pelas práticas médicas, como se percebe no fragmento que nos chegou Aécio, 1,3; Sexto Empírico, X, 315

Pois quatro raízes de todas (as coisas) ouve primeiro: Zeus brilhante e Hera portadora da vida, Aidoneus e Nestis, que de lágrimas umedece fonte mortal. (DK 31 B 6)[2]
           
            Empédocles ensina em primeiro lugar, que Parmênides teria razão ao considerar o ser como esférico, isto é, sem princípio nem fim (perene ou eterno) e pleno, sem vazio ou vácuo. Ao mesmo tempo, afirmava que ele não tinha razão ao supor que o ser deveria ser Uno, imóvel e homogêneo, pois é múltiplo, móvel e heterogêneo. Segundo ele, os seres se transformam, isto é, há movimento ou devir para todas as coisas. O devir é a mudança na forma da composição das coisas, na quantidade de raízes que formam um ser. Uma coisa composta de água e terra se transforma se nela entrar também o fogo como componente; uma coisa composta por fogo, água e ar se transforma se dela o ar se retirar, e assim por diante, sendo que a proporção com que cada raiz entra ou sai na composição de um ser, altera esse ser.
Conforme comenta Simplício, Física, 25.21, ao estabelecer suas raízes (princípios ou os quatro elementos corporais) que são eternos e que mudam aumentando e diminuindo mediante mistura e separação, Empédocles afirma que além deles, existem outros dois, pelos quais os primeiros são movidos:  o Amor (φίλία = philia) e o Ódio (νεϊκος = neikós), totalizando, assim, seis princípios para todas as coisas. (DK 31 A 28)

Conforme Aristóteles, Física, VIII, 1. 252 a 7 – Empédocles parece dizer que o poder e a força motriz, possuindo alternadamente o Amor e o Ódio, pertencem às mesmas coisas por necessidade, bem como o repouso no tempo intermediário. (DK 31 A 38)

A um dado momento, do Uno saiu o múltiplo; por divisão, fogo, água, terra e ar altaneiro; e o Uno se formou do múltiplo. Ódio, temível, de peso igual a cada um, e o amor entre eles.
                                    Simplício, Comentário da Física de Aristóteles

            Como médico, Empédocles também formulou uma teoria sobre a origem corporal do pensamento. Para ele, o pensamento e a ignorância seguem o mesmo princípio da semelhança e diferença. O semelhante conhece o semelhante e ignora ou desconhece o diferente. Assim, o que é mais misturado, isto é, o que contém todas as raízes e as várias combinações delas, deve ser o órgão do pensamento, pois senão este não poderia conhecer tantas coisas.

Segundo Teofrasto, Da Sensação, (1) Parmênides, Empédocles e Platão, atribuem a sensação ao semelhante, enquanto os da escola de Anaxágoras e de Heráclito atribuem-na ao contrário... (2) A respeito de cada uma delas em particular, os outros praticamente as negligenciaram; Empédocles, porém tenta referi-las à semelhança. (7) Empédocles fala de todos os sentidos de modo semelhante, afirmando que se tem sensação ao adaptarem-se os poros de cada sentido. Por isso um também não pode julgar os objetos do outro, porque de certo modo os poros de um são largos demais e os de outro, estreitos demais para as coisas percebidas, de maneira que os objetos sensíveis podem ter grande força (penetrando) sem tocar ou não podem absolutamente entrar. (8)[...] Na composição de partes iguais consiste a melhor mistura e a mais excelente visão. (9) A audição, segundo Empédocles, origina-se dos sons vindos de fora. Pois quando o homem é excitado pela voz, ela ressoa dentro dele. ... O olfato tem origem na respiração [...] Do mesmo modo Empédocles se exprime com relação à sabedoria e à ignorância. (10) A sabedoria seria própria dos semelhantes; a ignorância, dos dessemelhantes, de sorte que a sabedoria é para ele a mesma coisa que a sensação ou está muito próxima. [...] Por isso também conclui que é próprio sobretudo o pensar, pois sobretudo por ele é que se misturam os elementos das partes. (12) É assim que Empédocles admite que se produzem a sensação e o pensamento. (DK 31 A 86)

            Nietzsche, em sua obra O Nascimento da Filosofia na Época da Tragédia Grega, (PP. 113-121) nos fala sobre ele:

Empédocles é de família agonal; em Olímpia fez sensação. Apresentava-se vestido de púrpura, cingido de ouro, com sandálias de bronze nos pés e uma coroa délica na cabeça. Usava os cabelos longos; seu rosto era imutavelmente sombrio. Sempre se fazia acompanhar de servidores. Em sacrifício de vitória, ofereceu um touro feito de farinha e mel, para não infringir seus princípios. Tentou, evidentemente, converter os gregos à nova maneira de viver e filosofar dos pitagóricos; aparentemente, tratava-se apenas de uma reforma dos ritos sacrificiais. [...] Ele é o filósofo trágico, o contemporâneo de Ésquilo. O que mais surpreende nele é o seu extraordinário pessimismo, mas um pessimismo ativo e não quietista. Se suas opiniões políticas são democráticas, seu pensamento básico é levar os homens à “sociedade de amigos”, dos pitagóricos. Quer, pois, a reforma social e a abolição da propriedade. [...] É racionalista e, por essa razão, odiado pelos crentes. Sem contar que admite ainda todo o mundo dos deuses e dos demônios, em cuja realidade acredita tanto quanto na dos homens. [...] Nesse mundo de discórdia, de sofrimento e de conflito, ele só descobre um princípio que lhe garanta uma ordem do mundo inteiramente diferente: é Afrodite; todos a conhecem, mas não como princípio cósmico. [...] Ora, o verdadeiro pensamento de Empédocles é a unidade de tudo aquilo que se ama: há em todas as coisas um elemento que as impele a se misturar e a se unir, mas também uma força hostil que as separa brutalmente; esses dois instintos estão em luta. Essa luta produz todo o vir-a-ser e toda a destruição. É um castigo terrível estar sujeito ao ódio.

            Sobre sua morte, como registra Diógenes Laércio, existem muitas versões, inclusive uma em que, para demonstrar sua superioridade diante dos homens, considerando-se como um deus, teria se atirado no Etna. (DK31 A 1, 69)
            De sua obra Sobre a Natureza destacamos os seguintes fragmentos:

De Plutarco, Contra Colotes, 10 - Ainda outra coisa te direi. Não há nascimento para nenhuma das coisas mortais, como não há fim na morte funesta, mas somente composição e dissociação dos elementos compostos: nascimento não é mais do que um nome usado pelos homens. (DK 31 B 8)

De Aristóteles, Sobre Melisso, Xenófanes e Górgias, 2,6 - 975 b 1 – É impossível que algo possa ser gerado do que não é, e jamais se realizou nem se ouviu dizer que o que é seja exterminado; o que é, sempre estará lá, onde foi colocado por cada um. (DK 31 B 12)

Ibidem, 2,28 – No todo não há vazio. Donde poderia provir o que se lhe acrescentasse?  (DK 31 B 14)

De Simplício, Física, 157 – Duas coisas quero dizer; às vezes, do múltiplo cresce o uno para um único ser; outras, ao contrário, divide-se o uno na multiplicidade. Dupla é a gênese das coisas mortais, duplo também seu desaparecimento. Pois uma gera e destrói a união de todos (elementos); a outra, apenas surgida, se dissipa, quando aqueles (os elementos) se separam. E esta constante mudança jamais cessa: às vezes todas as coisas unem-se pelo amor, outras, separam-se novamente (os elementos) na discórdia do Ódio. Como a unidade aprendeu a nascer do múltiplo e, pela sua separação, constituir-se novamente em múltiplo, assim geram-se as coisas e a vida não lhes é imutável; na medida, contudo, em que a sua constante mudança não encontra termo, subsistem eternamente imóveis durante o ciclo.  Escuta as minhas palavras! Pois o estudo te fortalece o entendimento. Como já disse antes, ao expor o objetivo de minha doutrina, duas coisas quero anunciar. Às vezes, do múltiplo cresce o uno para um único ser; outras, ao contrário, divide-se o uno na multiplicidade: fogo e água e terra e do ar a infinita altura; e separado deles, o Ódio funesto, igualmente forte em toda parte, e o Amor entre eles, igual em comprimento e largura. Contempla-o com teu espírito, e não permaneças sentado, com olhos pasmos. A ele, julgam-no os mortais, enraizado em seus membros, e com ele nutrem pensamentos de amor e realizam obras de união; enlevo chamam-no Afrodite. E nenhum dos homens mortais sabe que ele se move circularmente entre eles (os elementos). Quando a ti, escuta a sequência sem equívocos de meu discurso. Pois todos aqueles (elementos e forças) são de igual força e idade quanto à sua origem, embora cada um deles tenha missões diversas, sua natureza particular, predominando, ora um, ora outro, no ciclo do tempo. Fora disto nada se acrescenta e nada deixa de existir. Pois tivessem perecido até seu termo, já não existiriam. E o que poderia aumentar este Todo e donde poderia vir? Como poderiam perecer, pois nada é deles vazio? Não, somente eles são, e circulando uns através dos outros, tornam-se ora isto, ora aquilo, e assim para sempre os mesmos. (DK 31 B 17)

            Conforme nos deixa registrado BORNHEIM (1998, p.67)[3] este fragmento, de número 17 é o que melhor permite compreender a doutrina de Empédocles, quando ele se refere ao processo de geração e corrupção, além das quatro raízes que compõem, através do Amor e do Ódio, todos os entes.

De Plutarco, Da Deficiência do Oráculo, 15 – Belo é dizer mesmo duas vezes o que é necessário (DK 31 B 25)

De Apolodoro, Sobre os Deuses, - Mas (o Sol) é concentrado e circula em volta do vasto céu. (DK 31 B 41)

De Plutarco, Da Face da Lua, 16, p. 929 c – E ela ( a Lua) interrompe os seus raios (do Sol), quando passa por ele, projetando sobre a Terra, tão larga quanto a lua de brilhantes olhos.

            De sua obra Purificações, destacamos o seguinte fragmento, que destaca sua arrogância para com os homens, aos quais oferece uma mensagem de teor moral. .

De Diógenes Laércio, Vida dos Filósofos Mais Ilustres, VIII, 62 – Amigos, que habitais a grande cidade, junto aos fulvos rochedos de Acragas, no alto da cidadela, amadores de nobres trabalhos, respeitáveis abrigos para os estrangeiros, homens inexperientes da maldade, eu vos saúdo! Eu, porém, caminho entre vós qual Deus imortal, e não mais como mortal, por todos honrado como me convém, coroado de guirlandas floridas. Desde minha entrada nas florescentes cidades, sou honrado por homens e mulheres; seguem-se aos milhares, a fim de saber qual o caminho da riqueza; uns necessitando oráculos; outros, feridos por atrozes dores, pedem uma palavra salvadora para as suas múltiplas doenças. (DK 31 B 112)



[1] Empédocles é considerado o criador da teoria cosmogênica que teve forte influencia no pensamento ocidental até meados do século XVIII.
[2] Neste fragmento Zeus é o fogo, Hera o Ar, Aidoneus a Terra e Néstis a Água.
[3] BORNHEIM, Gerd A. Os Filósofos Pré-Socráticos. São Paulo: Cultrix, 1998
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