domingo, 10 de abril de 2016

EPICARMO


Epicarmo, em grego Ἐπίχαρμος, foi um comediógrafo e filósofo pré-socrático, que viveu no século VI a.C. (cerca de 550 a 450 a.C.), pertencente à escola pitagórica ao qual se pode atribuir o início das comédias[1] no teatro grego, cuja origem é atribuída por Aristóteles, em sua Poética, a Megara, na Sicília; por alguns, à Cós, em Siracusa e,  ainda por outros a Crasto ou a Samos, sendo Crasto a mais provável.

Conforme se pode ler nos fragmentos compilados por Hermann Diels e Walter Kranz (DK 23 A 1), Epicarmo seria filho de Tiro ou Chimaro ou Sedice, de Siracusa ou Crasto, Cidade da Sicania. Foi o inventor da comédia em Siracusa, juntamente com Formo, tendo representado 52 dramas, ou 35 segundo Licone. Alguns dizem que foi Cos, e foi um dos que se mudou para Siracusa com Cadmus, outros dizem que era de Samos, outros de Megara, na Sicília. Tendo representado suas peças em Siracusa, seis anos antes das Guerras Persas (cerca de 480 a.C.).

Conforme Diógenes Laércio, em sua obra Vida dos Filósofos Mais Ilustres, VIII, 78, Epicarmo, filho de Elotalo, nativo de Cos, foi também discípulo de Pitágoras. Aos três meses de idade foi levado da Sicília para Megara, e dali para Siracusa, como ele mesmo diz em suas obras onde fizeram estes versos, colocados aos pés de sua estátua: “Quando do grande sol os resplendores em luz excedem os luminosos astros; quanto do mar a força é maior que a força dos rios, tal, a sabedoria de Epicarmo (a quem honra sua pátria Siracusa) excede as demais sabedorias”. Escreveu comentários, nos quais trata coisas filosóficas, sentenciosas e de medicina. A muitos destes comentários coloca versos acrósticos[2], com os quais manifesta que aqueles escritos são seus. Morreu depois de haver vivido noventa anos. (DK 23 A 3).

Alguns afirmam que Epicarmo, quando estava exilado na ilha de Cós, começou a compor este tipo de poesia, e, assim, de Cós viria o nome da comédia (DK 23 A 3 a).

Outros dizem ainda, que Epicarmo era tido como um visitante externo às lições pitagóricas, e que não pertencia à seita dos pitagóricos. Após chegar a Siracusa, por causa da tirania de Gerone[3], ele se absteve de filosofar abertamente, mas introduziu as idéias de Pitágoras sob a forma de estratagemas. Todos aqueles que têm lidado com as questões sobre a natureza costumam citar Empédocles e Parmênides de Eléia, enquanto aqueles que optam por formular julgamentos sobre a vida, apresentam os pensamentos de Epicarmo, que são bem aceitos por quase todos os filósofos (DK23A4)

            De qualquer forma, o certo é que ele aperfeiçoou este gênero teatral, dividido em dez atos, acrescentando-lhe assuntos míticos e personagens da vida cotidiana dos gregos, falando de homens comuns, dando-lhe maior densidade de expressão, agilidade de ação e perfeita construção dramática.

A encenação da comédia antiga era dividida em duas partes, com um intervalo. Na primeira, chamada agón[4], prevalecia um duelo verbal entre o protagonista e o coro. No intervalo, o coro retirava suas máscaras e falava diretamente com o público para definir uma conclusão para a primeira parte. A seguir, vinha a segunda parte, cujo objetivo era esclarecer os problemas que surgiram na agón.

É obvio que a comédia antiga, por fazer alusões jocosas aos mortos, satirizar personalidades vivas e até mesmo os deuses, teve sempre a sua existência muito ligada a liberdade de expressão, à democracia. De modo que, rendição de Atenas na Guerra do Peloponeso (conflito armado entre Atenas e Esparta) no ano de 404 a. C., extinguiu a democracia e, consequentemente, pôs fim a comédia antiga, fazendo surgir um novo tipo de comédia onde o coro já não era um elemento atuante, ficando sua participação resumida à coreografia dos momentos de pausa da ação, e onde a política quase não era discutida. Seu tema passou a ser as relações humanas, como por exemplo, as intrigas amorosas. Não havia mais sátiras violentas, substituídas pelo estudo das emoções humanas, por meio de uma linguagem bem-comportada.





[1] O termo comédia deriva do termo grego komoidía => komos = procissão (komoi), originando-se, na Grécia Antiga, das festas em homenagem ao deus Dioniso da mesma forma que a Tragédia, da qual se diferenciava. Na comédia, os jovens saiam, em procissão, às ruas, fantasiados de animais, batendo de porta em porta pedindo prendas, brincando com os habitantes da cidade, falando de homens comuns. Na Tragédia, celebrava-se a fertilidade da natureza, contando a história de deuses e heróis. No tocante a importância do gênero, a comédia era considerada um gênero literário menor, onde o júri que apreciava a tragédia  era nobre (pertencia à aristocracia), e o da comédia era escolhido entre as pessoas da platéia.
[2] Acróstico é um gênero de composição geralmente poética, que consiste em formar uma palavra vertical com as letras iniciais ou finais de cada verso gerando um nome próprio ou uma sequência significativa.
[3] Gerone foi tirano em Siracusa duzentos anos antes, quando em Atenas era arconte Cálias [472/471]. No mesmo momento em que era Epicarmo poeta. - Epicarmo primeiro reviveu a comédia de forma dispersa, servindo-se de estratagemas ao tempo da septuagésima terceira Olimpíada [488/485 a.C.]. Em sua poesia era sentencioso e rico em inventividade e arte. A ele se atribuem 40 dramas, quatro dos quais são contestados. DK 23 A 5 
[4] Agón, em grego clássico  ἀγών,  significava contenda ou disputa que, na comédia se referia a uma convenção formal em função da qual a luta entre os personagens deveria desenvolver-se proporcionando a base para a ação

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