sábado, 9 de abril de 2016

HERÁCLITO




                Heráclito, em grego Ἡράκλειτος, foi um filósofo grego, nascido em Éfeso, na Jônia, por volta do ano 535 a.C. que, dentre os pré-socráticos, foi considerado o “pai da dialética”, a arte do diálogo e, segundo Diógenes Laércio, em sua obra Vida dos Filósofos Mais Ilustres, IX, 1-17 (DK 22 A 1), era filho de Blóson e de família aristocrática (seu pai era descendente do fundador de Éfeso, o rei Andóclos, que descendia, por sua vez, do rei de Atenas, Codros) conservando a prerrogativa de ser chamado arconte[1], usar manto púrpura e carregar um cetro.

(1). Heráclito, filho de Blóson, ou, segundo outra tradição, de Heraconte, nascido em Éfeso, floresceu[2] durante a LXIX Olimpíada (504/501 a.C.). Opinava sobre as coisas comuns de forma elevada, como consta em seus escritos, onde diz: “Aprender muitas coisas não instrui a mente”. Ensinando Hesíodo, Pitágoras e até Xenófanes e Hecateo (DK 22 B 40)[3]; pois a verdadeira e única sabedoria é conhecer a mente, que pode dispor ou governar todas as coisas por meio de todas as coisas (DK 22 B 41). Dizia que Homero era digno de ser retirado dos certames e esbofeteado, o mesmo que Arquíloco (DK 22 B 42). Que os ímpetos de uma injúria devem apagar-se mais que um incêndio, (DK 22 B 43) e que o povo deve defender as leis como a seus muros (DK 22 B 44). (2). Repreendeu vivamente aos efesinos porque haviam expulso seu companheiro Hermodoro, dizendo: Todos os efesinos adultos deveriam morrer, e os impúberes deixar a cidade, entendido que aqueles que expulsaram Hermodoro, seu benfeitor, dizendo: Nenhum de nós sobressaia em merecimento; se há algum, que vá a parte e este com outros”.(DK 22 B 121). Como lhe pedissem que colocasse leis, omitiu a causa de que a cidade estava depravadíssima nos costumes e mau governo, e retirando-se do templo de Diana, jogava aos dados com os meninos. Aos efesinos que estavam ao seu redor disse: Por que estão admirados? Não é melhor fazer isto do que governar a República com vocês? (3). Cansado dos homens, nos últimos anos de sua vida, ainda mais solado, passou a viver nas montanhas, alimentando-se somente de plantas. Quando adoeceu, atacado por uma hidropisia[4], retornou à cidade, perguntando aos médicos, cujo conhecimento ridicularizava, se seriam capazes de transformar uma inundação em seca. Como eles não entenderam a alusão que fazia à sua doença. Foram expulsos por ele. Recorrendo a um curandeiro, este lhe aconselhou imergir-se no estrume de boi, pois o calor do esterco faria evaporar a água. [...] Conforme Hermipo, este procedimento, dado o sufocamento, só acelerou sua morte, que ocorreu no dia seguinte. Conforme Neantes de Cízico (século III a.C.), Heráclito, ao ser coberto por esterco não foi reconhecido por seus próprios cães que o atacaram e o mataram. (5). O livro que nos chegou dele, intitulado “Da natureza” dividido em três discursos: do Universo; da Política e da Teologia, teria sido depositado no templo de Diana e, segundo alguns, foi escrito de forma nebulosa propositalmente, para que fosse compreendido apenas pelos eruditos e não desprestigiado pelos vulgares. Timon (de Fliunte) chamando-o de “ aquele que se expressa por enigmas”, o descreve da seguinte maneira: Entre eles se erguia como a faca inoportuna, crítico do povo, Heráclito, o inventor de quaisquer coisas. Teofrasto diz que a melancolia o fez deixar seus escritos, alguns com metade por fazer e outros, às vezes, muitos distantes da verdade. O sinal de sua grandeza de ânimo, diz Antístenes nas Sucessões, é ter cedido o reino a seu irmão. Seu livro de fez tão celebre, que chegou a ter seguidores, chamados heraclitiano. (6). Suas opiniões comuns eram as seguintes: Todas as coisas provêm do fogo, e nele se resolvem. [...] (8). Seus dogmas particulares são: Que o fogo é o elemento, e que todas suas vicissitudes ou transformações se fazem por raridade e densidade (DK 22 B 90)[5]. Mas nada disto expõe distintamente. Que todas as coisas se fazem por contrariedade, e todas fluem à maneira dos rios (DK 22 B 12; 91[6]). Que o universo é finito. Que o mundo é único, produzido pelo fogo e arde novamente, de tempos em tempos. Que isto se faz pelo destino. Que dos contrários, aquele que conduz a coisa à geração se chama guerra ou conflito (DK 22 B 80), e o que a encerra concórdia e paz. Que a mutação é um caminho para cima e para baixo, e segundo isto se produz o mundo. Que o fogo adensado se transforma em umidade, e adquirindo maior consistência em água. Que a água condensada se transforma em terra, e este é o caminho para baixo. Se líquida de novo se faz a terra e dela se faz a água, da qual provêm quase todas as demais coisas. Referindo-se à evaporação do mar. Este é o caminho para cima. Que as evaporações se fazem da terra e do mar, umas puras e outras tenebrosas. Das puras se aumenta o fogo, das outras, a água. (DK 22 A 1)

Heráclito, inserido no contexto dos pré-socráticos, parte do princípio de que tudo é movimento, e que nada pode permanecer parado - Panta rei, do grego πάντα ῥεῖ , ou "tudo flui", "tudo se move", exceto o próprio movimento. Para ele, o devir, a mudança que ocorre em todas as coisas, é sempre fruto da alternância entre contrários, onde, por exemplo: as coisas quentes esfriam, as coisas frias esquentam; coisas úmidas secam e coisas secas umedecem, etc. Neste contexto, pode-se dizer que “A doença faz da saúde algo agradável e bom; o mal, o bem; a fome, a saciedade; a fadiga, o repouso” (DK 22 B 111).
 A realidade acontece, então, não em uma das alternativas, posto que ambas são apenas parte de uma mesma realidade, mas sim na mudança ou, como ele chama, na guerra entre os opostos. Esta guerra é a realidade, aquilo que podemos dizer que é. No exemplo "A doença faz da saúde algo agradável e bom"; ele quer dizer que, se não houvesse a doença, não haveria por que valorizar-se a saúde. Assim, ele sustenta que só a mudança e o movimento são reais e que a identidade das coisas é ilusória (transitória), sujeita ao tempo e às transformações. Desta forma, nada existiria se não existisse, ao mesmo tempo, o seu oposto e, destes contrários, se constitui o logos, a razão ou sabedoria divina, a lei universal da natureza.
Atribuindo ao fogo a natureza de todas as coisas, ele corrobora a ideia do movimento, quando traz à mente que ele (o fogo) exprime de um modo paradigmático as características da perene mutação. De fato, ele é perenemente móvel, é vida até que ocorra a morte do combustível que o nutre, causa de sua incessante transformação em fumaça e cinzas.
            Em sua cosmologia, nosso mundo é cercado pelos astros que nada mais são do que barcos, cujas concavidades estão voltadas para nós, e que carregam dentro de si chamas brilhantes, onde, a mais brilhante e mais quente (para nós) é a chama do Sol. Os demais astros, por estarem mais distantes, tem seu brilho menos intenso e menos quente. A Lua, que está bem próxima da Terra, é mais fria por não se encontrar num espaço puro – a escuridão, diferentemente do Sol que está em uma região clara e pura. Assim, os eclipses do Sol e da Lua acontecem quando as concavidades dos barcos se voltam para cima.
Dentro do pensamento de Heráclito, Deus não tinha a aparência de um homem nem de outro animal qualquer; nem criador, nem onipotente; identificável apenas com os opostos, os quais persistem apesar de suas mudanças e assim são capazes de compreender sua própria unidade. Da mesma forma, a explicação das coisas deve ser buscada no próprio íntimo de cada um.
            Dos inúmeros fragmentos que nos chegaram[7], listamos abaixo apenas aqueles que consideramos mais significativos, ou seja, aqueles que demonstram com maior clareza, tudo o que até agora foi afirmado.

DK 22 B 1 – SEXTO EMPÍRICO, Contra os Matemáticos, VII, 132.  Este Logos, os homens, antes ou depois de o haverem ouvido, jamais o compreendem. Ainda que tudo aconteça conforme este Logos, parece não terem experiência experimentando-se em tais palavras e obras, como eu as exponho, distinguindo e explicando a natureza de cada coisa. Os outros homens ignoram o que fazem em estado de vigília, assim como esquecem o que fazem durante o sono.

DK 22 B 3 –  AÉCIO, II, 21,4 - O Sol tem a largura de um pé humano.

DK 22 B 4 – ALBERTO MAGNO, Ide Vegetatione, VI, 401 - Se a felicidade consistisse nos prazeres do corpo, deveríamos proclamar felizes os bois, quando encontram ervilhas para comer.

DK  22 B 7 – ARISTÓTELES, Meteorologia, II, 2. 355 a 13 - Se todas as coisas se tornassem fumaça, conhecer-se-iam com as narinas.

DK 22 B 9 –  Ibidem, X, 5.1176 a 7 - Os anos prefeririam a palha ao ouro.

DK 22 B 12 –  ARIO DÍDIMO, Eusébio, Preparação Evangélica, XV, 20 - Para os que entram nos mesmos rios, correm outras e novas águas. Mas também almas são exaladas do úmido.

DK 22 B 13 – CLEMENTE DE ALEXANDRIA, Stromatei, I, 2 - Os porcos alegram-se na lama mais do que na água limpa

DK 22 B 19 – Ibidem, II, 24 - Os homens não sabem nem escutar nem falar

DK 22 B 21 – Ibidem, III, 21 - Morto é tudo o que nós vemos acordamos, sonho, tudo o que vemos dormindo.

DK 22 B 22 – Ibidem, IV, 4 - Os que procuram ouro, cavam em muita terra e pouco encontram.

DK 22 B 24 – Ibidem, IV, 16 - Deuses e homens honram os caídos em combate

DK 22 B 47 – DIÓGENES LAÉRCIO, I, 23 - Não devemos julgar apressadamente as grandes coisas

DK 22 B 53 –  HIPÓLITO, Refutação, IX, 9 - A guerra é o pai de todas as coisas e de todas o rei; de uns fez deuses, de outros, homens; de uns, escravos, de outros, homens livres.

DK 22 B 60 – Ibidem, IX, 10 -  O caminho para baixo e para cima é um e o mesmo

DK 22 B 61 – Ibidem, IX, 10 - O mar contém a água mais pura e mais contaminada: para os peixes, ela é potável e saudável, para os homens, impotável e prejudicial.

DK 22 B 81 – FILODEMO, Retórica, I, c. 57 - Pitágoras ancestral dos charlatães

DK 22 B 82 – PLATÃO, Hipias Maior, 289 a - O mais belo símio é feio comparado ao homem

DK 22 B 83 –  Ibidem, 289 b - O mais sábio dos homens, comparado a Deus, parecer-se-á um símio, em sabedoria, beleza e todo o resto.

DK 22 B 103 –  PORFÍRIO, Questões Homéricas, Ilíada, XIV, 200 - Na circunferência, o princípio e o fim se confundem

            A despeito de muitas obscuridades e incerteza (KIRK, 1994, pg. 220), é evidente que o pensamento de Heráclito possuía uma compreensiva unidade, onde praticamente todos os aspectos do mundo são explicados de forma sistemática, cuja descoberta central está no fato de que todas as mudanças naturais das coisas são regulares e equilibradas, onde o comportamento humano é governado pelo logos.
             Mais ou menos contemporâneo de Parmênides, que defendia a imobilidade ontológica, Heráclito, com sua defesa do eterno movimento, distanciou de tal forma as posições defendidas pela escola eleata da jônica, criando uma barreira tão grande entre elas, que seus seguidores não conseguiram superar. A síntese destas correntes filosóficas, só encontrou bom termo, muitos anos depois, com o pensamento de Platão.



[1] Arconte, do grego αρχων, alto oficial, magistrado.
[2] A idade do florescimento, como potencial para a produção de sementes, ou seja, a idade a partir da qual a maturidade é capaz de contrabalançar a impetuosidade na produção de postulados, costuma ser estabelecida entre os 35 e 45 anos de idade.
[3] Saber muitas coisas não ensina a pensar de modo reto, caso contrário teria ensinado a Hesíodo, a Pitágoras e até a Xenófanes e a Hecateo. (DK 22 B 40)
[4] Do grego hýdrops (ὕδρωψ, de ὕδωρ = "água") acumulação anormal de fluido nas cavidades naturais do corpo ou no tecido celular.
[5] O fogo se transforma em todas as coisas e todas as coisas se transformam em fogo, assim como se trocam as mercadorias por ouro e ouro por mercadorias (DK 22 B 90)
[6] Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Dispersa-se e reúne-se; avança e se retira (DK 22 B 91), na segunda tentativa, ambos serão outros, ambos já terão mudado.
[7] Diels/Krans listam 126 confirmados e outros tantos considerados duplicados, imitações ou falsos
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