domingo, 17 de abril de 2016

MELISSO

Melisso, em grego Μέλισσος, foi um militar, político, poeta e filósofo da escola eleata, que nasceu na ilha de Samos, no Mar Egeu, por volta do ano 470 a.C. Acredita-se que foi discípulo de Parmênides, assim como, seja o mesmo personagem que comandou a esquadra naval de Samos na batalha que derrotou os atenienses de Péricles em 442 a.C., como menciona Plutarco (DK 30 A 3), sendo esta, praticamente, a única ação que se sabe sobre sua vida, além de, como filósofo, ter atingido o apogeu de sua existência nos anos posteriores a esta batalha. Pela sua obra depreende-se que foi mais um polemista e defensor das ideias de Parmênides, principalmente a da imobilidade, colocando-se, desde logo, como antipitagórico e contra Empédocles (não se sabe, ao certo, como teria tomado contato com as doutrinas da escola ocidental). Tratou de ajustar os extremismos do eleatismo com a filosofia jônica, tornando-se responsável pela sistematização dessa doutrina, além de mudar alguns pontos de vista, e estabeleceu que o ser é infinito, tal como é infinito o tempo, ou seja eterno. Seu principal poema foi Sobre o Ser ou Sobre a Natureza, do qual se conservaram até nossos dias dez fragmentos. Simplício se referiu a um seu livro, denominando-o Tratado sobre a física ou do ente. Melisso morreu em data e lugar incertos.
Dos testemunhos que nos chegaram sobre ele, podemos ler, segundo os Diógenes Laércio em sua obra Vida dos Filósofos Mais Ilustres, IX, 24 que:

(1) Melisso, filho de Itágenes, era de Samos e discípulo de Parmênides, que tendo conhecido Heráclito o recomendou aos efesinos que não o conheciam, como Hipócrates fez conhecer Demócrito aos abderitas. Foi um homem muito político e civil, muito aceito e estimado por seus concidadãos e, ademais, havendo sido eleito general do mar, cresceram-lhe as honras por seu grande valor. (2) Tinha por opiniões que o universo é ilimitado, imutável, imóvel, uno, semelhante a si mesmo e cheio. Que não existe coisa segura sobre os deuses, posto que deles não temos conhecimento certo. Apolodoro diz que floresceu à época da LXXXIV (Octogésima quarta) Olimpíada. [ 444-441 a.C.] (DK 30 A 1)

Conforme Plutarco, referindo-se a Péricles:

...quando este se fez ao mar, Melisso, filho de Itagenes, um filósofo que detinha, por essa altura, o comando de Samos, por desprezo pelo pequeno número de barcos dos Atenienses ou pela inexperiência de seus comandantes, convenceu os sâmios a lançarem o ataque. Travou-se, então, um combate, de que os sâmios saíram vencedores. Fizeram um número tão elevado de prisioneiros e destruíram tantos navios, que se tornaram senhores do mar e destinaram, à continuação da guerra, uma determinada quantidade de provisões, como até então não haviam possuído. O próprio Péricles, no dizer de Aristóteles, havia sido também derrotado por Melisso numa anterior batalha naval. (DK 30 A 3)
Conforme Suida, Melisso viveu ao tempo de Zenão de Eléia e de Empédocles. Escreveu um livro Intorno all’essere. Foi adversário político de Péricles e em qualidade de estrategista de Samos combateu, conforme Sófocles, o poeta trágico, uma batalha naval na octogésima quarta olimpíada (444-441 a.C.). (DK 30 A 2)

            E dos fragmentos:

Conforme o fragmento 1,( de Simplício em Física. 162,24 – “Sempre era o que era e sempre há de ser. Pois se se gerou, necessário é que nada fosse antes de se ter gerado. Ora, se nada era, de modo algum podia o que quer que fosse nascer do nada”. ( DK 30 B 1)

De onde se conclui que, antes de Parmênides e da sua prova manifesta de que os sentidos eram completamente falazes, prova que, evidentemente, chocou os seus contemporâneos, para os quais os desvios do senso comum só podiam ser aceitos, quando as provas em seu abono fossem extremamente fortes, Melisso, tal qual Parmênides, começa a sua dedução das propriedades consequentes da existência com uma demonstração de que, se algo existe, não pode ter nascido. Argumentando que o nascer requer uma não-existência prévia, e que nada podia nascer do que não existe, permitindo-nos construir. também, uma prova isomórfica contra a destruição. Parmênides, contudo, havia obscuramente concluído que o que é nunca foi nem será, mas existe num eterno presente. Melisso rejeita firmemente esta conclusão: admitindo os tempos “era” e “será”, e atribui ao que é uma existência eterna mais facilmente inteligível.

Dos fragmentos 2, 3 e 4, obtidos de Simplício em Física. 109,20 – 110,3, - ( DK 30 B 2) Visto, pois, não ter sido gerado, mas é, sempre foi e sempre há de ser, e não tem princípio nem fim, mas é ilimitado. É que, se tivesse nascido, teria tido um começo (pois teria, em determinada altura, começado a existir) e um fim (pois teria, em determinada altura, deixado de existir). Mas como não teve começo nem fim, sempre foi e sempre há de ser e não tem princípio nem fim; pois o que não é todo não pode ser sempre. (DK 30 B 3) Mas, assim como é sempre, assim também deve ser sempre ilimitado em grandeza. (DK 30 B 4) Nada do que tem começo e fim é eterno ou ilimitado.

Melisso chega, assim, à conclusão, de que, por não ter princípio nem fim, o que é, é ilimitado em extensão espacial e eterno. Percebe-se, também, que ele pretendia, uma vez mais, partir das premissas de Parmênides para alcançar uma conclusão que redondamente contradiz as da Verdade: a linguagem, obscura de Parmênides sobre os limites é posta de parte, em prol da tese da extensão infinita, ao assumir que, se uma coisa tivesse de nascer, haveria uma parte dela a ser a primeira no tempo e que é (por isso) a pequena porção dela a ser a primeira na posição espacial, assim como uma outra parte que vem a ser a última no tempo, seria a última na posição espacial. A sua argumentação consiste, portanto, em que, visto o que é não poder começar ou acabar de existir, não pode ter tais primeiras e últimas partes e, consequentemente, é ilimitado em extensão, o que, para Aristóteles, Física A 3, 186 a 10, era um argumento falacioso, por pensar que tudo o que nasceu tem um princípio e o que não nasceu não tem, assim como tudo tem um começo , como se a mudança não pudesse ocorrer ao mesmo tempo. (DK 30 A 8)
Do fragmento 6 (DK 30 B 6) Simplício, De Caelo 557,14 –  Porque a existência do sensível resulta imediatamente evidente, e se o ser é uno, não poderá existir outro em função disso. De fato Melisso diz: “Pois se fosse infinito, seria uno; é que se fosse dois, os dois não poderiam ser infinitos, mas limitar-se-iam mutuamente.

            Neste fragmento, percebe-se que ele extrai uma conclusão monista de uma premissa (a extensão ilimitada).
No fragmento 7 onde ele trata do Uno, conforme Simplício, Física. 111,18 , 112,6 - podemos ler:

Melisso fala depois, concluindo o que dissera primeiro, passando deste modo ao tratamento do movimento: (1) Assim, pois, ele é eterno e ilimitado e uno e todo semelhante. (2) E nada poderá perder, nem tornar-se maior, nem reordenar-se, nem sente dor ou angústia; pois, se qualquer destas coisas o afetasse, deixaria de ser uno. É que, se se altera, força é que o que é não fosse semelhante, mas o que era antes pereça e o que é não chegue a ser. Com efeito, se chegasse a tornar-se diferente num só cabelo por um período de dez mil anos, pereceria inteiramente na totalidade do tempo. (3) Nem tampouco lhe é possível ser reordenado. É que a ordem (cosmos) que antes existia, não perece, nem nasce uma ordem que não existe. E visto nada ser acrescentado ou destruído ou alterado, como é que poderia ser reordenada uma coisa que é? Pois, se se tornasse diferente em qualquer aspecto, seria reordenada por este meio. (4) Nem sequer sente dor, já que não seria inteira se sentisse dores, porquanto uma coisa que sofre de dores não podia ser sempre; nem tem um poder igual ao do que tem saúde; nem seria semelhante, se tivesse dores, pois tê-las-ia em consequência de perder ou de lhe acrescentar alguma coisa. (5) E não mais seria semelhante. (6) Nem o que é saudável podia ter dores, pois nesse caso, o que é pereceria e o que não é havia de nascer. E o mesmo argumento se aplica tanto à angustia como ao sofrimento.  E nada disso está vazio, pois o que está vazio é nada. Ora, o que é nada não podia realmente existir. Nem se move, pois não se pode de modo algum deslocar, mas está cheio. É que se houvesse uma tal coisa assim vazia, havia de se deslocar para o que está vazio; mas como não existe tal coisa assim vazia, não tem para onde se deslocar. (8) O denso e o raro não podem existir, porque o que é raro não pode estar tão cheio como o que é denso, mas o que é raro torna-se, por isso mesmo, mais vazio do que é denso). (9) Este é o critério para distinguir o que está cheio do que não está: se algo se desloca ou se acomoda, não está cheio; mas se se não desloca nem se acomoda, está cheio (10) Portanto, força é que esteja cheio, se não está vazio. Ora, se está cheio, não se move. (DK 30 B 7)

            Percebe-se nestes argumentos, provavelmente inspirados em Xenófanes, que Melisso os utilizou de uma forma orientada para suas considerações sobre homogeneidades, apoiando-se na argumentação fundamental contra a geração e destruição e, melhorando extraordinariamente as observações de Parmênides sobre a mudança e o movimento, criando uma das noções clássicas do pensamento grego: “o vazio como pré-condição do movimento”, ponto de referência para os postulados desenvolvidos pelos atomistas.

De Simplício, De Caelo, 558,21 – (1) Este argumento é, pois, a maior prova de que só existe o uno; mas também o comprova o seguinte. (2) Se houvesse uma pluralidade, as coisas teriam que ser da mesma espécie da que eu afirmo ser a do uno. É que se existe terra e água, e ar e fogo, e ferro e ouro, e se um ser está vivo e o outro morto, e se algumas coisas são negras e brancas e existem realmente todas quantas os homens afirmam que existem – se isto assim é, e se a nossa vista e ouvido não nos enganam, força é que cada uma destas coisas seja tal como nós antes declaramos, e não podem mudar-se ou alterar-se, mas cada uma deve ser sempre precisamente como é. (3) Mas, na realidade, nós dizemos que vemos e ouvimos e compreendemos corretamente, e além disso acreditamos que o que está quente arrefece, e o que está frio aquece; o que é duro amolece, e o que é mole endurece; o que vive, morre, e que as coisas nascem do que não tem vida; e que todas as coisas se transformam, e o que elas eram e o que agora são não têm entre si qualquer semelhança. Acreditamos que o ferro, que é duro, se desgasta com o simples contato dos dedos, e o mesmo se passa com o ouro e a pedra e tudo o que supomos ser resistente; e que a terra e as rochas são feitas de água. Ora, estas coisas não concordam umas com as outras. (4) Dissemos nós que havia muitas coisas que eram eternas e que tinham formas e robustez que lhes eram próprias, e, contudo, imaginamos que todas elas sofrem alterações e que a cada instante se transformam do que vemos. (5) É evidente, pois, que, no fim das contas, não vemos bem, nem temos razão, quando acreditamos que todas estas coisas são muitas. Não se transformariam, se fossem reais, mas cada coisa seria precisamente o que nós acreditamos que é, já que nada é mais forte do que a verdadeira realidade.(6) Mas se se transformou, o que é pereceu e o que não é nasceu. Assim, pois, se houvesse uma pluralidade, as coisas teriam de ser precisamente da mesma natureza do uno. (DK 30 B 8)

É verdade que Melisso, no frag. 8, chamou a atenção para o fato de algumas coisas aparentemente “estáveis” realmente se transformarem: “o ferro é desgastado pela fricção do dedo, e assim por diante”. Esta observação ocorre num contexto que talvez tenha referências verbais a Heráclito. Contudo, não há qualquer motivo para pensar que Melisso quisesse dizer que a mudança devesse, neste caso, ser contínua, mesmo quando pudesse ser invisível. Todas as vezes que o dedo fricciona o ferro, tira dele uma porção invisível; no entanto, quando ele não o fricciona, que razão há para pensar que o ferro está ainda a transformar-se? O ponto de vista de Melisso é antes o de que as aparências mostram que todas as coisas, mesmo as aparentemente estáveis, estão sujeitas a mudanças. É isto precisamente o que Heráclito deve ter pensado; poderá ter ou não mencionado mudanças infravisíveis, mas em qualquer caso só as aceitaria, quando fossem deduzíveis – e a mudança contínua não é deduzível em muitos objetos aparentemente estáveis. O argumento de Melisso consistia, certamente, em que os sentidos devem ser falazes; pois entre Heráclito e ele próprio, tinha surgido Parmênides.
Assim, com Melisso, o eleatismo termina afirmando um ser eterno, infinito, uno, igual, imutável, imóvel, incorpóreo, que exclui qualquer possibilidade de um múltiplo, porque corta pela raiz qualquer pretensão de reconhecimento dos fenômenos.


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