sexta-feira, 15 de abril de 2016

PARMÊNIDES




Parmênides, em grego Παρμενίδης, nasceu em Eléia, hoje Vélia, na Itália, acredita-se que por volta de 530 a.C. No estudo de sua biografia constata-se que foi filho de Pireto e discípulo do pitagórico Ameinias (DK27,1) e que mostrava conhecer a doutrina pitagórica. Percebe-se em sua obra que, provavelmente, também seguiu as lições do velho Xenófanes e, em Atenas, com Zenão, combatia a filosofia dos jônicos. Ensinava que a essência profunda do ser era imutável e dizia que o movimento (a mudança) era um fenômeno de superfície.
            Essa linha de pensamento, que podemos chamar de metafísica não impediu que se desenvolvesse o conhecimento científico dos aspectos mais estáveis da realidade, prevalecendo ao longo da história, porque correspondia, nas sociedades divididas em classes, aos interesses das classes dominantes, chegando a tornar-se hegemônica, empurrando a dialética para um segundo plano.
            Estudar Parmênides, que seguramente influenciou todos os pensadores gregos, graças a seus princípios lógicos, os quais nos induzem a pensar que só devemos perseguir a verdade, fugindo das opiniões, continua, até hoje, sendo extremamente importante para todos aqueles que desejam aprofundar-se nos estudos de filosofia.
Ele escreveu um poema filosófico, em versos: Sobre a Natureza, obra que compreende um proêmio (preâmbulo), rico em metáforas, onde descreve uma experiência de ascese (renúncia ao prazer pessoal; penitência) e de revelação. Na primeira parte deste poema, Parmênides apresenta o conteúdo principal desta revelação, mostrando o que seria a via da verdade. Na segunda parte, ela caracteriza o que seria a “via da opinião”, destacando que, a distância fundamental entre os dois caminhos está em que, no primeiro (a via da verdade), o homem se deixa conduzir apenas pela razão e é, então, levado à evidencia de que “o que é, é – e não pode deixar de ser. No segundo caminho (o da opinião), pelo fato de se atentarem para os dados empíricos, as informações dos sentidos não chegariam à verdade (alethéia) e à certeza, permanecendo no nível instável das opiniões e das convenções de linguagem. Neste jogo metafórico, o caminho da verdade, da razão, é simbolizado pelo dia, onde a luz desnuda o mistério e, o caminho da opinião é simbolizado pela noite, cuja escuridão esconde a realidade e nos induz à imaginação.
Este poema que nos chegou graças ao resgate dos fragmentos de nove de seus doxógrafos[1], composto por 19 fragmentos reconhecidos e por outros 6, de caráter duvidoso ou falso, apoiado na edição realizada por Hermann Diels, Parmenides´ Lehgedicht,  und deustch (Berlim, 1897)  tem a seguinte tradução:
SOBRE A NATUREZA (DK 28 B 1-9)

Fragmento B 1, (DK 28 B 1) composto por 32 versos (linhas)
Fontes:
1-30     –          Sexto Empírico, Adversus mathematicos VII, 111
14        –          Proclo, In Parmenidem 640,39
28-32   –          Simplício, De caelo, 557,25 – 558,2
28-30   –          Diógenes Laércio, Vitae philosophorum, IX,22
29-30   –          Clemente de Alexandria, Stromateis V, IX 59,6
                        Plutarco, Adversus Colotem XIII, 1114 d-e
                        Proclo, In Timaeum, I 345, 15-16

1 -       Os corcéis que me transportam, tanto quanto o ânimo de impele,
2 -       conduzem-me, depois de me terem dirigido pelo caminho famoso
3-        da divindade[2], que leva o homem iluminado[3] por todas as cidades.
4 -       Por aí me levaram, por aí mesmo me levaram os habilíssimos corcéis,
5 -       puxando o carro, enquanto as jovens mostravam o caminho.
6 -       O eixo, porém nos meões[4], silvava como uma siringe[5],
7 -       incandescendo (ao ser movido pelas duas rodas que vertiginosamente
8 -       o impeliam de um e de outro lado), quando se apressaram
9 -       as jovens filhas do sol a levar-me, abandonando a região da Noite
10 -     para a luz, libertando com as mãos a cabeça dos véus que a escondiam.
11 -     Aí está o portal que separa os caminhos da Noite e do Dia,
12 -     encimado por um dintel[6] e um umbral de pedra;
13 -     o portal, etéreo, fechado por enormes batentes,
14 -     dos quais a Justiça[7] vingadora detém as chaves que os abrem e fecham.
15 -     A ela se dirigiram as jovens, com doces palavras,
16 -     persuadindo-a habilmente a erguer para elas
17 -     por um instante o ferrolho do portal. E ele abriu-se,
18 -     revelando um abismo hiante[8], enquanto fazia girar,
19 -     um atrás do outro, os estridentes gonzos[9] de bronze
20 -     fixados com pregos e cavilhas. Por aí, através do portal,
21 -     as jovens guiaram com celeridade o carro e os corcéis.
22 -     E a deusa[10] acolheu-me de bom grado, e em sua mão
23 -     minha mão direita tomou, e saudando-me com estas palavras proferiu:
24 -     “Ó jovem, acompanhado de aurigas[11] imortais,
25 -     que, com corcéis, chega até nós transportado,
26 -     Salve! Não foi nenhuma moira[12] ruim que te induziu a viajar
27 -     por este caminho, tão apartado dos homens
28 -     mas a Themis[13] e a Justiça. Terás, pois, de tudo aprender:
29 -     tanto do intrépido[14] coração da Verdade persuasiva
30 -     quanto das opiniões de mortais em que não há fé verdadeira.
31 -     Contudo, aprenderás: como as aparências
32 -     têm de patentemente ser, passando todas através de tudo”


Fragmento B 2, (DK 28 B 2)  composto por 8 versos
Fontes:
1-6, 7-8           Proclo, In Timaeum I 345. 18-24, 26-27
3-8                  Simplício, Physica 116.28 – 117.1
3-6                  Proclo, In Parmenidem 1078

1 -       Pois bem, vou dizer-te, e tu, presta a atenção ouvindo a palavra
2 -       quais os únicos caminhos de investigação que há para pensar:
3 -       um para o que é e, como tal, não é para não ser
4 -       é o caminho de persuasão – pois segue pela Verdade –
5 -       outro, para o que não é e, como tal, é preciso não ser,
6 -       esta via, indico-te que é uma trilha inteiramente inviável;
7 -       pois nem mesmo se reconheceria o não ente, pois não é realizável,
8 -       nem tampouco se mostraria...


Fragmento B 3, (DK 28 B 3) composto por apenas 1 verso
Fontes:
Clemente de Alexandria, Stromateis, VI, II 440,12
Proclo, In Parmenidem 1152

1 –      ...pois o mesmo é a pensar e também ser

Fragmento B 4, (DK 28 B4) composto por 4 versos
Fontes:
1 – 4    Clemente de Alexandria, Stromateis, V, 15 (335,25-28)
1          Proclo, In Parmenidem 1152,37

1 -       Vê como o ausente é, no entanto, presente firmemente em pensamento
2 -       pois este não apartará o próprio ente do manter-se ente
3 -       nem se dispersando de toda forma todo pelo mundo
4 -       nem se concentrando
Fragmento B 5,[15] (DK 28 B 5) composto por 2 versos
Fonte:
Proclo, In Parmenidem, 708,16

                                                           Comum[16], porém, é para mim.
            De onde começarei; pois lá mesmo chegarei de volta outra vez.

Fragmento B 6, (DK 28 B 6)  composto por 9 versos
Fontes:
1 -2      Simplício, Physica 117,2

1 -       É preciso que o dizer e pensar que sejam; pois podem ser
2 -       enquanto nada não é: nisto te indico que reflitas.
3 -       Pois [___][17] desta primeira via de investigação
4 -       Em seguida daquela em que os mortais que nada sabem
5 -       vagueiam, com duas cabeças: pois  despreparo guia em frente
6 -       em seus peitos um espírito errante; eles são levados,
7 -       tão surdos como cegos, estupefatos, hordas indecisas,
8 -       para os quais o existir e não ser valem o mesmo
9 -       e o não mesmo, de todos o caminho é de ida e volta

Fragmento B 7, (DK 28 B 7) composto por 6 versos
Fontes:
1-2       Platão, Sophistes, 237 a 8-9; 258 d, 2-3
1              Aristóteles, Metaphysica, 1089 a 4
2-6       Sexto Empírico, Adversus mathematicos VII 111; 114
2              Simplício, Physica 78.6 : 650,13
3              Diógenes Laércio, Vitae philosophorum IX 22

1 -       Pois nunca isto será demonstrado: que são coisas que não são;
2 -       mas afasta o pensamento desta via de investigação
3 -       nem o hábito multitudinário ao longo desta via te force
4 -       a vagar o olhar sem escopo, e ressoar ouvido
5 -       e língua, mas discerne pela palavra a litigiosa contenda
6 -       por mim proferida


Fragmento B 8, (DK 28 B 8) composto por 61 versos
Fontes:
todos os citados, e, particularmente

Simplício, Physica, 114,29 , De Caelo 557,18
Platão, Sophistes, 237 A (versos 7, 1-2) Teeteto, 180e 1
Sexto Empírico, VII, 114 (versos 7,3-6)
Clemente de Alexandria, Stromateis, V, XIV (II 402,8-9)
Plutarco, Adversus Colotem, XIII, 114c
Proclo, In Parmenidem 665,25-16; 1152,27;

1 -       Ainda um só mito[18] resta do caminho:
2 -       que é, sobre este há bem muitos sinais:
3 -       que sendo ingênito também é imperecível.
4 -       Pois é todo único[19] como intrépido e sem meta
5 -       nem nunca era nem será, pois é todo junto agora.
6 -       uno, contínuo; pois que origem sua buscarias?
7 -       Por onde, de onde se distenderia? Não permitirei que tu
8 -       digas nem penses que do não ente: pois não é dizível nem pensável
9 -       que seja enquanto não é. E que Necessidade o teria impelido,
10 -     depois ou antes, a desabrochar começando do nada?
11 -     Assim, ou é necessário existir totalmente ou de modo algum.
12 -     Tampouco que do ente, nunca força de Fé permitirá
13 -     surgir algo para além do mesmo; por isso Justiça nem vir a ser
14 -     nem sucumbir deixa, afrouxando amarras,
15 -     mas mantém; a decisão sobre tais está nisto:
16 -     é ou não é. Mas já está decidido, por Necessidade.
17 -     qual deixar como impensável e inominado – pois é um caminho
18 -     não verdadeiro – e qual há de existir e ser autêntico.
19 -     Como existiria depois, o que é? Como teria surgido?
20 -     Pois, se surgiu, não é, nem há de ser algum dia.
21 -     Assim origem se apaga como o insondável ocaso.
22 -     Nem é divisível, pois é todo equivalente:
23 -     nem algo maior lá, que o impeça de ser contínuo
24 -     nem algo menor, mas é todo pleno do que é.
25 -     Por isso, é todo contínuo: pois ente a ente cerca.
26 -     Além disso, imóvel, nos limites de grandes amarras,
27 -     fica sem começo, sem parada, já que origem e ocaso
28 -     muito longe se extraviaram, rechaçou-os Fé verdadeira.
29 -     O mesmo no mesmo ficando, sobre si mesmo pousando,
30 -     e assim, aí fica firme, pois poderosa Necessidade
31 -     mantém nas amarras do limite, cercando-o por todos os lados,
32 -     porque é norma o ente não ser inacabado.
33 -     Pois é não carente, não sendo, careceria de tudo.
34 -     O mesmo é o que é a pensar e o pensamento de que é.
35 -     Pois sem o ente, no qual está apalavrado,
36 -     não encontrarás o pensar. Pois nenhum outro nem é
37 -     nem será além do ente, pois que Moira já o prendeu
38 -     para ser todo imóvel; assim será nome tudo
39 -     quanto os mortais instituíram persuadidos de ser verdadeiro,
40 -     surgir e também sucumbir, ser e também não,
41 -     mudar de lugar e variar pela superfície aparente.
42 -     Além disso, por um limite extremo, é completado
43 -     por todo lado, semelhante à massa de esfera bem redonda,
44 -     do centro por toda parte igualmente tenso, pois nem algo maior,
45 -     nem algo menor é preciso existir aqui ou ali.
46 -     Pois nem há não ente, que o impeça de alcançar
47 -     o mesmo, nem há ente o qual estivesse sendo
48 -     aqui mais ali menos, já que é todo inviolável.
49 -     pois de todo lado igual a si, se estende nos limites por igual,
50 -     Aqui cesso para ti um discurso fiável e um pensamento.
51 -     acerca da Verdade; e a partir daqui apreende opiniões
52 -     de mortais, ouvindo o mundo enganoso de minhas palavras.
53 -     Pois estabeleceram duas perspectivas de nomear formas,
54 -     das quais uma não é preciso, no que estão errantes.
55 -     Em contrários cindiram os corpos e puseram sinais
56 -     separados uns dos outros: de um lado fogo etéreo da chama,
57 -     tênue, muito leve, o mesmo que si mesmo em toda parte,
58 -     mas não o mesmo que o outro, oposto ao que é por si mesmo
59 -     os contrários, noite sem brilho, compacto denso e pesado.
60 -     Eu te falo esta ordenação de mundo, verossímil em todos os pontos
61 -     para que nunca nenhum dos mortais te supere em perspectiva


Fragmento B 9, (DK 28 B 9) composto por 4 versos
Fontes:
Simplício, Physica 180.9-12

1 -       Todavia, desde que tudo foi nomeado Luz e Noite
2 -       em face disto e daquilo segundo as suas forças,
3 -       tudo está cheio ao mesmo tempo de Luz e de Noite escura
4 -       ambos iguais pois que nada leva a nenhum dos dois


Fragmento B 10, (DK 28 B 10) composto de 7 versos
Fontes:
Clemente de Alexandria, Stromateis, V, 14 (II 419,14-20)

1 -       E conhecerás a natureza do Éter e no éter de todos os
2 -       sinais e dos raios da pura lâmpada do sol
3 -       as obras destruidoras, e de onde nascem,
4 -       e conhecerás as obras que rodam em torno da lua de olho redondo
5 -       e sua natureza, e saberás do céu que os tem à volta
6 -       e de onde nasce, e como guiando-o a Necessidade o obriga
7 -       a conter os limites dos astros
Fragmento B 11, (DK 28 B 11) composto de 4 versos
Fontes:
Simplício, De caelo, 559,22-25

1 -       ... como a terra e o sol e a lua
2 -       e o éter que a tudo é comum e a Via Láctea e o Olimpo
3 -       extremo e ainda força quente dos astros impeliram-se
4 -       para vir a ser


Fragmento B 12, (DK 28 B 12) composto de 6 versos
Fontes:
1 – 3    Simplício, Physica 39, 14-16
2 – 6    Simplício, Physica 31, 13-17

1 -       Umas são mais estreitas, repletas de fogo e sem mistura,
2 -       outras, face àquelas, de noite; ao lado jorra uma parte de chama;
3 -       no meio destas está uma divindade, que tudo dirige:
4 -       pois em tudo comanda o parto doloroso e a mistura
5 -       enviando a fêmea para unir-se ao macho, e ao contrário
6 -       o macho à fêmea.


Fragmento B 13, (DK 28 B 13) composto por apenas 1 verso
Fontes:
Aristóteles, Methaphysica, 984 b6-26-27
Platão, Symposium, 178b11
Plutarco, Amatorius, 13, 756f
Sexto Empírico, Adversus mathematicos, IX 9
Simplício, Physica, 39.18

1 -       Primeiro que todos os deuses, concebeu Eros


Fragmento B 14, (DK 28 B 14) composto por apenas 1 verso
Fonte:
Plutarco, Adversus Colotem, XV, 1116ª

1 -       Facho noturno, em torno à terra, alumiado a uma alheia luz

Fragmento B 15, (DK 28 B 15) composto por 1 verso
Fonte:
Plutarco, De facie quae in orbe lunae apparet, 16. 929b
Plutarco, Questiones romanae, 76, 282b

1 -       Sempre à espreita dos raios do sol[20]
Fragmento B 15a, (DK 28 B 15 a) composto por 1 verso

1 -       Radicada na água[21]


Fragmento B 16, (DK 28 B 16) composto por 4 versos
Fontes:
Aristóteles, Metaphysica, 1009 b22-25

1 -       Pois, tal como cada um tem mistura nos membros errantes,
2 -       assim aos homens chega o pensamento; pois o mesmo
3 -       é o que nos homens pensa, a natureza dos membros,
4 -       em cada um e em todos; pois o pleno é o pensamento.


Fragmento B 17, (DK 28 B 17) composto por 1 verso
Fonte:
Galeno, in Hippocratis libros Epidemiarum, in librun VI commentarius 2 (XVII, 1002)

1 -       à direita os machos, à esquerda as fêmeas


Fragmento B 18, (DK 28 B 18) composto por 6 versos
Fontes:
Cáelius Aurelianus, Tardarum vel chronicarum passionum, IV 9. 134-135

1 -       Quando a mulher e o homem misturam juntos as sementes de Vênus
2 -       a força que se forma nas veias a partir de sangues diversos
3 -       mantendo o equilíbrio, gera corpos bem formados.
4 -       Se, contudo, misturados os sêmens, as forças se opõem,
5 -       e não fazem unidade, misturados no corpo, cruéis
6 -       atormentam o sexo da criança com o duplo sêmen.



Fragmento B 19, (DK 28 B 19) composto por 3 versos
Fontes:
Simplício, De caelo, 558.9-11

1 -       Assim, segundo a opinião, as coisas nasceram e agora são
2 -       e depois crescerão e hão de ter fim
3 -       A essas coisas puseram um nome que cada uma distingue.

  
Fragmentos Duvidosos ou Falsos

Embora os fragmentos duvidosos ou falsos de Parmênides raramente sejam editados, consideramos importante o vislumbre destes, com o objetivo de contribuir para que se alcance um trabalho crítico da coleta dos fragmentos dos primeiros filósofos. Este trabalho de recomposição do poema de Parmênides, que começou no século XVI, com a edição de Henri Estienne, ganhando posteriormente sucessivas contribuições, passa pela coleta e triagem de todas as citações do filósofo nos autores antigos. Os fragmentos foram coletados, principalmente, a partir de passagens em que o doxógrafo atribui a autoria da citação ao filósofo, ou em outras vezes em que o trecho citado aparece apenas como “o poeta”. Ocorre que, muitos fragmentos são considerados como engano, dada a confusão que se fez ao analisá-los, com a dramatização de Platão, de Empédocles ou com o trabalho do historiador Armênides. Assim, consideramos o fragmento como sendo de Parmênides sempre que não conseguimos refutar sua autoria e o consideramos duvidosos, ou até mesmo falsos, quando conseguimos estabelecer uma razoável possibilidade de não ser sua a autoria, o que não invalida considerá-los para efeitos de estudos, face a sua importância filosófica e literária, como é o caso do fragmento XX.


Fragmento B 20 [22]
Fonte:
Hipólito, Refutatio Omnium Haeresium, v 8, 97.2

            Mas debaixo dela há um caminho aterrador,
            Encavado, lamacento; mas o melhor a conduzir
            Ao prado fascinante da venerável Afrodite[23]


Fragmento B 21
Fonte:
Aécio. De Placitis Reliquae, II 30.4 (361b24)

            Furta-brilho [24]


Fragmento B 22
Fonte:
Platão, Parmênides, 135 a

            Espantosamente difícil de dissuadir

Fragmento B 23
Fonte:
Suídas, M.58

            Ilha dos bem-aventurados: como antigamente chamavam a cidade alta dos tebanos na Beócia. [25]


Fragmento B 24
Fonte:
Suetônio, Fragmentae 417 (Miller), 4.31-37  (Taillardat)

            Os Telquines[26] surgiram dos cães de Acteon que por Zeus foram transformados em homens.[27]


Fragmento B 25
Fontes:
Estobeu, Eclogae, I 15.2 (W. 144,19)

            Mas o por toda parte igual a si mesmo e totalmente infinito,
            Esfero[28] redondo, em solidão circunda gaudério.[29]


Na análise do conjunto de sua obra, é tentador pensar que, uma vez introduzido por Parmênides, o hábito de expor argumentos teria se imposto consequentemente a todos os pensadores; talvez por essa razão os filósofos de tradição analítica estimam na maioria dos casos que Heráclito, na medida em que parece ignorar a necessidade de argumentação, teria vivido antes de Parmênides.
            Para muitos intérpretes, com Parmênides teria nascido o que conhecemos como ontologia (conhecimento do ser).
            Ele teria, pela primeira vez, formulado os dois princípios lógicos fundamentais de todo o pensamento: o princípio de identidade, o ser é o ser, e o princípio de não contradição, se o ser é, o seu contrário, não ser, não é.
            Em outros termos, se o ser é e pode ser pensado e dito, então o ser é ele mesmo, idêntico a si mesmo e será impossível que seu negativo, o nada ou não ser, também seja e também possa ser pensado e dito.

TESTEMUNHOS:

DK 28 A 24 – ARISTÓTELES, Metafísica, I, 5. 986 b 18

            Parmênides parece ter entendido o Um segundo a forma (katà tòn lógon), enquanto Melisso, à unidade material ( katà tèn húlen). Ibid. b 27: Parmênides parece, neste ponto, raciocinar com mais penetração. Julgando que fora do ser o não-ser nada é, forçosamente admite que só uma coisa é, a saber, o ser, e nenhuma outra... Mas, constrangido a seguir o real (tois phainoménois), admitindo ao mesmo tempo a unidade formal (katà tòn lógon) e a pluralidade sensível (katà tèn áistesin), estabelece duas causas e dois princípios: quente e frio, vale dizer, Fogo e Terra. Destes (dois princípios) ela ordena um (o quente) ao ser, o outro ao não-ser. Ibid., III, 5. 1010 a 1: Examinando a verdade nos seres, como seres admitia só as coisas sensíveis.

DK 28 A 25 – ARISTÓTELES, Do Céu, III, 1. 298 b 14

            Uns negam absolutamente geração e corrupção, pois nenhum dos seres nasce ou perece, a não ser em aparência para nós. Tal é a doutrina na escola de Melisso e de Parmênides, doutrina que, por excelente que seja, não pode ser tida como fundada sobre a natureza das coisas. Pois, se existem seres engendrados e absolutamente imóveis, pertencem mais a ciência outra que não à da natureza, e anterior a ela.

DK 28 A 26 – PLATÃO, Teeteto, 181 a

            Mas se os partidários do imobilismo do todo nos parecem dizer mais a verdade, havemos de procurar junto deles nosso refúgio contra os que fazem mover-se o imóvel. – Sexto Empírico, Contra os Matemáticos, X, 46.: (O movimento) não existe segundo os filósofos da escola de Parmênides e de Melisso. Aristóteles, num de seus diálogos relacionados à posição de Platão, os chama de imobilistas e não físicos; imobilistas porque são partidários da imobilidade; e não físicos porque a natureza é o princípio de movimento, que eles negam, afirmando que nada se move.

DK 28 A 28 – SIMPLÍCIO, Fisica, 115, 11

            Segundo Alexandre, Teofrasto, no primeiro livro de sua Física, relata assim o raciocínio de Parmênides: “O que está fora do ser não é ser; o não ser é nada; o ser, portanto, é um”. E Eudemo (conta) da seguinte forma: O que está fora do ser não é ser; e só de uma maneira se chama o ser; um, portanto, é o ser”. Se Eudemo escrever isso em alguma outra parte com tanta sabedoria, não sei dizer. Mas nos Físicos, a respeito de Parmênides, escreveu o seguinte, donde é igualmente possível deduzir o que foi dito: “Parmênides não parece demonstrar que um é o ser, nem se alguém com ele concordaria em chamar o ser de uma forma, a não ser o que foi revelado nele de cada um como o homem dentre os homens”.

DK 28 A 46 – TEOFRASTO, Da Sensação, 1 ss.

            A respeito da sensação, as numerosas opiniões em geral se reduzem a duas: uns com efeito, atribuem-na ao semelhante; outros, ao contrário. Parmênides, Empédocles e Platão (atribuem-na) ao semelhante, e os da escola de Anaxágoras e Heráclito, ao contrário... (3) Parmênides não definiu absolutamente nada, apenas afirmou que, por haver só dois elementos, do predomínio de um sobre o outro depende o conhecimento...

                                                                                           
Enquanto o orgulho e a majestade da verdade, mas da verdade a verdade apreendida pela intuição, não aquela escalada com a escada de corda lógica, é proferida em cada palavra de Heráclito, enquanto observa em um êxtase sibílico, mas sem espreitar, enquanto conhece, mas não calcula, o contemporâneo Parmênides se lhe é posto ao lado como par complementar; da mesma forma, ele possui o tipo do profeta da verdade, porém esculpido em gelo, e não em fogo, e uma luz fria e ofuscante dele emana. Parmênides teve, certa vez, provavelmente apenas em idade avançada, um momento da mais pura, serena e totalmente exangue abstração; esse momento – sem dúvida o menos grego nos dois séculos da era trágica -, cujo produto é a doutrina do ser, tornou-se um marco divisório para sua própria vida e separava-a em dois períodos: simultaneamente, o mesmo divide o pensamento pré-socrático em duas metades, a primeira das quais pode ser chamada de anaximândrica, e a segunda, de parmenídica.
                                (NIETZSCHE,  2013 , pg 48)                                  




Referências Bibliográficas:


BORNHEIM, Gerd A. (Org). Os Filósofos Pré Socráticos. 3 ed. São Paulo: Cultrix, 2000
DIELS, Hermann. Die Fragmente Der Vorsokratiker. Berlim: Weidmannsche Buchhandlung, 1903
Property of the University of Michigan Libraries
NIETZSCHE, Friedrich. Obras Escolhidas. A Filosofia Na Era Trágica dos Gregos. Trad. Gabriel Valadão Silva. Porto Alegre: LP&M, 2013
OROSCO, José Carlos. Euskadi. São Paulo: Editora Jasa, 2013
PARMÊNIDES. Da Natureza. Trad. José Trindade dos Santos. 3 Ed. São Paulo: Loyola, 2013
SANTORO, Fernando. O Poema de Parmênides. Da Natureza. Rio de Janeiro: Laboratório OUSIA, UFRJ, s/d
SOUZA, José Cavalcante de (Org). Os Pré-Socráticos. Fragmentos, doxografia e Comentários. São Paulo: Nova Cultural, 2000. Coleção os Pensadores



[1] Sexto Empírico, Simplício, Proclo, Clemente de Alexandria, Platão, Plutarco, Aristóteles, Galeno e Célio Aureliano.
[2] Em grego daimones, são divindades de intermediação acessíveis aos homens, através dos quais os humanos podem acender a um plano divino.
[3] O iluminado, Eidota phôta, formado pelo particípio do verbo eido, saber; o que viu, ao qual Parmênides acrescenta o objeto phôta, as luzes
[4] Cubos de roda
[5] Flauta
[6] pórtico
[7] Diké, a Justiça, é quem indica o caminho da verdade
[8] escancarado
[9] dobradiças
[10] Heidegger propunha que esta deusa seria a própria Verdade, Aletheia, mas é significativo o fato de restar inominada, pelo que a trataremos como Deusa inominada.
[11] cocheiros
[12] Destino
[13] Norma, aquela que impõe o que deve ser; a lei divina
[14]Paráfrase texto Sexto Empírico § 111; – destemido
[15] A posição deste fragmento varia segundo o editor. O próprio Diels antes de posicioná-lo como quinto, o colocara em terceiro. De fato, ele refere-se à indiferença de começar por um ou por outro dos dois caminhos. Se os dois caminhos são convergentes e tendem ao encontro, é que, no fundo, trata-se de um único caminho circular em que, de qualquer ponto, de um ponto comum, saem dois caminhos de sentido inverso e ambos retornam ao mesmo lugar.
[16] Xynon é um adjetivo que denota continuidade e meio comum
[17] [te afasto]
[18] Mithós, narrativa de caráter simbólico-imagético
[19] Todo único, Simplício; único de um só gênero, Clemente de Alexandria; íntegro, Plutarco
[20] Parmênides refere-se aqui à Lua
[21] Parmênides diz que a terra tem raízes na água
[22] Hipólito atribui estes versos ao Poeta, simplesmente, que pode ser Parmênides ou Empédocles, até mesmo Orfeu, pelo que Diels o considera duvidoso, conforme DK 31 B 66.
[23] O contexto trata dos mistérios eleusinos, citando as deusas Perséfone e Afrodite.
[24] Literalmente: brilho enganoso, extraída da coleção de Aécio das citações de físicos acerca dos reflexos da lua, pouco acima da referência a Parmênides. O adjetivo era usado por Anaxágoras para referir-se ao astro.
[25] A frase é claramente de um historiador. Diels sugere, em vez de Parmênides, o nome de Armênidas, que se aproxima do assunto, conforme o escólio (breve citação, comentário) da Argonáutica de Apolônio de Rodes (1.551) e a citação idêntica do Léxico de Fócio.
[26] Os Telquines são numes (divindades) anfíbios, propícios a metamorfoses, ora em peixes ora em humanos, filhos de Pontos (o Mar), da região de Rodes, Creta, Ceos e Chipre. Assim, também eram chamados os invejosos, os acusadores, fato citado no Peri Blasphemion de Suetôno, uma listagem de vitupérios (insultos) gregos..
[27] Diels corrige a procedência da citação, atribuindo-a a Armênidas e, na edição de Taillardat do Sobre as Blasfêmias de Suetônio, esta já consta no lugar
[28] Sphaiîros, outro adjetivo transformado em nome de um nume (divindade)
[29] Vadio, malandro

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