sexta-feira, 8 de abril de 2016

XENÓFANES


Xenófanes, em grego Ξενοφάνης, foi um filósofo grego, considerado entre os mais longevos dentre os pré-socráticos, nascido por volta do ano 570 a.C. na cidade de Colofão, na Jônia (atual costa ocidental da Turquia) que cedo deixou, passando a viver como um rapsodo, acreditando-se que tenha sido mestre de Parmênides, quando de sua passagem por Eléia e tendo escrito, segundo consta, unicamente em versos, distanciando-se, assim, dos outros filósofos jônios, como Tales, Anaximandro e Anaxímenes, todos de Mileto.


Segundo Diógenes Laércio, em sua obra Vida dos Filósofos Mais Ilustres, IX, 18, (DK 21 A 1) Xenófanes, filho de Dexio, o bem, ou segundo Apolodoro, de Ortomenes, era de Colofão. O celebra Timão dizendo: E Xenófanes, o altivo, senão reto, castigador de homéricas mentiras         (DK 21 A 35). Expulso de sua pátria, veio a Zancle e Catânia, cidades da Sicília. Segundo alguns, não foi discípulo de ninguém, mas, segundo outros, foi de Botono, ateniense, ou como dizem alguns, de Arquelao; e segundo Sócio, foi contemporâneo de Anaximandro. Escreveu versos, elegias e jambos contra Hesíodo e Homero, fazendo deboche daquilo que haviam dito sobre os deuses, cantando seus versos em público. Se diz que suas opiniões eram contrárias a Tales (DK 21 B 19) e a Pitágoras (DK 21 B 7) e que não perdoou Epimênides (DK 21 B 20). Teve uma vida muito longa, como ele mesmo diz em certo texto escrito: “Sessenta e sete anos já se passaram desde que minha inquietação passei em terras helênicas; e após meu nascimento vinte e cinco anos já haviam passado, se bem me lembro da verdade”.[1]


            Destacou-se, também, por um sistemático combate ao antropomorfismo, dizendo que Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo que nos humanos são opróbio e vergonha: roubos, adultérios, enganos recíprocos. Que os mortais imaginam que os deuses são engendrados como eles, que usam roupas, têm voz e forma semelhante às deles. Que se bois, cavalos e leões tivessem mãos e se com elas pudessem pintar e reproduzir obras de arte como os homens, pintariam os deuses com suas formas, segundo sua espécie própria, da mesma forma que os etíopes fazem seus deuses negros e com nariz achatado e os trácios dizem que os seus têm olhos azuis e cabelos ruivos. (DK 21 B 10).

            Considerado por muitos, mais como um religioso do que como um filósofo, Xenófanes, em sua cosmologia dizia que o ser absoluto, essência de todas as coisas, era o Um que “Tudo é o Um e o Um é Deus” e, segundo Diógenes Laércio, em Vida dos Filósofos Mais Ilustres, IX, 19:

que os princípios ou elementos das coisas são quatro; os mundos, infinitos e imutáveis. Que as nuvens se formam das exalações que atraem o sol, e elevadas, as concentra. Que a substância de Deus é esférica, nada tendo de semelhante ao homem. Que tudo vê e tudo ouve, mas nem tudo respira. Que todas as coisas são em conjunto, mente, sabedoria e eternidade. Definiu primeiro que tudo o que se faça é corruptível. Também diz que a alma é espírito, e que muitas coisas são inferiores à mente. Que com os tiranos, ou não se deve tratar ou se tratar com brandura (DK 21 A 1).

            Xenófanes teria sido, também, a primeira pessoa conhecida a utilizar a observação de fósseis como evidência para argumentar sobre a história de Terra, ao constatar a existência de fósseis de peixes e conchas em terras secas, de onde concluiu que, no passado estas regiões estavam em baixo da água.
            Alguns lhe atribuem a fundação da escola de Eléia (DK 21 A 8), embora isto seja pouco provável, dada a sua característica de filósofo errante, iniciada provavelmente após a conquista pelos persas, da cidade de Colofão, por volta do ano 546 a.C.
            No campo de vista moral ele sempre destacou muito os valores intelectuais do homem, afirmando que a superioridade se encontra na inteligência e na sabedoria e não nos dotes físicos, algo muito valorizado pelos gregos da época. Ele achava que o que tornava uma cidade melhor para a sua população era a inteligência do povo que nela habitava, essa sabedoria é que iria fazer com que acontecesse progresso, essa era a verdadeira força necessária para o desenvolvimento, a força do saber, não adiantando lutar apenas por um corpo perfeito, pois tudo vem da terra, princípio das coisas, e para ela volta.

Conforme Aristóteles... (1) Xenófanes argumenta que é impossível que qualquer coisa seja nata, dizendo sobre Deus que: é necessário, de fato, que o que nasceu, tenha nascido ou a partir de semelhantes ou de diferentes, mas nenhuma das alternativas é possível; nem, de fato, ao similar convém ser gerado de semelhante que não pode gera-lo (de fato, as características que são iguais entre eles possuem todas as mesmas propriedades, similarmente dispostas de uma forma recíproca), nem o diferente poderia ser nascido da dessemelhança. (2) Se, de fato, nascesse do mais fraco o mais forte, ou do menor o maior, ou do pior o melhor, ou, se pelo contrário, as coisas piores de melhores, em seguida, o ser nasceria do não ser; considerando que isto é impossível. Por isso, então, Deus é eterno. (3) Se, então, Deus é o maior de todos, Xenófanes diz que ele concorda que é Um. Se, de fato, fossem dois ou mais, não poderiam ser elevados ao melhor de todos. Na verdade, cada um dos muitos, sendo um deus, deve ter as mesmas características, de forma semelhante. Isto, de fato, significa ser Deus e este é o poder de Deus para dominar sem ser dominado, e ser supremo entre todos. Assim, enquanto não somos supremos, não somos Deus. (DK 21 A 28)
Conforme Platão, Sofista, 242 c d, Fala o estrangeiro de Eleia: Parece que todos eles contam-nos uma história, como se fossemos crianças. Um afirma que há três seres, que às vezes, de alguma forma, travam uma espécie de guerra entre si, e que, outras vezes, convertem-se em amigos, casam-se, geram filhos e os educam[2]. Um outro diz que há dois, úmido e seco ou quente e frio, os quais aloja juntos e une em casamento. De sua parte, a escola eleata, em nossa região, a partir de Xenófanes e mesmo antes dele, conta a história de que o que chamas de todas as coisas é realmente a unidade (DK 21 A 29).


Parmênides parece ter entendido o Um segundo a forma [3], Melisso segundo a matéria (e por isso o primeiro sustentou que o Um é limitado, o outro que é ilimitado). Xenófanes afirmou antes deles que a unidade do todo (diz-se, com efeito, que Parmênides foi seu discípulo), mas não oferece nenhum esclarecimento e não parece ter compreendido a natureza nem de uma nem de outra dessas causas, mas, estendendo sua consideração a todo o universo, afirma que o Um é Deus (DK21A30)


Com isso Xenófanes negou a verdade às representações de surgir e desaparecer, transformações, movimentos, etc.; aquelas determinações fazem apenas parte da representação sensível. O primeiro é: só é o um, só é o ser. O um é, aqui, o produto imediato do puro pensamento; em sua imediaticidade é o ser. A determinação do ser nos é conhecida, é trivial; ser é um verbo auxiliar na gramática; mas, se tais coisas devemos de ser e de um, colocamo-los como determinação singular, ao lado de todos os outros. Aqui, pelo contrário, significa que todo o resto não tem realidade efetiva nem ser como tal, apenas aparência. [...] Então, o verdadeiro somente é que Deus é o um – não no sentido de que haja um Deus (isto é, uma outra determinação), mas de que ele é apenas este igual a si mesmo; nisto, pois, não está contida outra determinação que na afirmação da Escola Eleática. (HEGEL, Preleções sobre a Hisória da Filosofia, pp. 275-276, apud SOUZA, Os Pré-Socráticos, 2000, pp.75-76).


            Com sua crítica à concepção agonística, combatente, dos deuses e dos homens, proclamando outro ideal, calcado na sabedoria, na prudência, na justiça e realçando os ideais do homem integrado à polis que começava a se consolidar, Xenófanes dá início a um novo capítulo da história da filosofia, que passa a ser, então, importante ferramenta para a formação do homem (Paidéia) como cidadão.
  



[1] Acredita-se que Xenófanes tenha vivido mais de 100 anos (DK 21 A 7)
[2] Platão parece fazer uma referência a Ferecides e aos primeiros filósofos jônios.
[3] O Um de Parmênides entendido como forma, é aproximável da forma enquanto é limitado e finito, e assim é justamente o ειδος (eidos) ou forma.
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