quinta-feira, 20 de novembro de 2014

SIMPLESMENTE “G”, SUFICIENTEMENTE “G”


G” de Geometria, a arte de medir.
Nos estudos de filosofia, os alunos principiantes, logo no início de sua jornada rumo a conhecimento, deparam-se com a expressão:
Ποιος δεν έχει δεν γεωμετρα μεταξύ της
Quem não é Geômetra não entre!
Eles aprendem que esta frase se refere à famosa advertência que se podia ler no portal da Academia de Platão. 
Aprende, também, que advertências análogas eram comuns nas entradas de templos e santuários antigos, nos quais, no lugar da Geometria, eram requeridas pureza e outras qualidades, funcionando como uma "senha" para os iniciados.
Neles, matemática e a Geometria assumiram, sempre, uma posição de destaque, marcando um momento de Grande importância na definição do pensamento ocidental e da filosofia em seu nascer: aquele da "descoberta" de um "método científico", entre o V e o IV séculos a.C.
A Geometria ajudou a razão a superar os mitos.
O “G” passou a significar a Grande mudança.
Mais tarde, com o advento da modernidade, “G” passou, também a significar God (Deus), Gold (Ouro) e Glory (Glória).
Em seu nome e, por sua causa, Guerras foram travadas e o homem, sacrificando o Gentio, deixou a razão para trás, transformando-a quase em um mito.
Hoje, em seu Gabinete, o homem moderno, Ganancioso, com seu terno de Gabardina, ou em festas com seu traje de Gala, fazendo Gabarolice com o dinheiro público ou, de forma Gaiata, a Gargalhar, Gaba-se de ser Guardião da Gente mais humilde, vendo no irmão sofrido um reles Gaudério.
Como General, empunhando seu Gládio, arrola-se ser Gestor da Gentalha, esta sim, acostumada a viver na Geena e para quem a Gatunagem é coisa à toa.
Mas nem tudo se mostra tão Gritante, de forma tão Grosseira ou Grave.
Na maçonaria, por exemplo, no Grau de companheiro, o estudante aprende que,  inspirado pela letra “G”, de Gnose, que representa a imagem da inteligência universal, ele deve possuir o conhecimento sobre as medidas.
Aprende que, na vida, medem-se todos os aspectos da Natureza exterior e interior; medem-se as palavras e as obras e que, para tanto, são usados instrumentos específicos, símbolos, que devem ser usados com razão e equilíbrio.
Na construção dos templos, exterior e interior, ela é vital porque nada pode ser feito sem uma medida adequada, desde o ponto às linhas retas e curvas e todas as demais dimensões.


Professor Orosco

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

SOBRE AS REVOLUÇÕES

Lendo um capítulo do livro de Tocqueville sobre o "Antigo Regime", acerca da Revolução Francesa, pude perceber que aqueles que, filosoficamente, deram os sustentáculos morais, libertários, para a instalação da revolução, quando esta é deflagrada e, diante da destruição que promove, acabam, como acusado por Antonio Gramsci, sendo chamados para organizar a nova sociedade, que emerge do seio do povo, inculto, seduzido pela proposta de um futuro melhor.
Aconteceu lá, aconteceu aqui.
Os mentores, como Rousseau e Voltaire não gozaram do poder que sonharam para o povo, assim como nossos Ulisses e Montoro.
Lá Robespierre e Danton levaram-na adiante.
Aqui, Brizola, Darci Ribeiro, Salomão Malina e Covas carregaram-na nas costas.
Lá, a contra reforma , termidoriana, sufocou boa parte dos ideais, resgatados pela grandeza de Napoleão.
Aqui, a reforma foi sufocada por Roberto Marinho e seu Collor de Mello, resgatada em parte por Fernando Henrique, ainda que ameaçada por Sarnei, Renan e outros como eles.
Tanto lá, como aqui, vimos surgirem caudilhos oportunistas, que encarnaram o desejo do povo e dele se locupletaram para benefício próprio.
Lá, Napoleão III, mostrou-se um fraco, que foi deposto e, com sua queda, possibilitou a revitalização dos princípios revolucionários que tornaram a França um pais melhor.
Aqui....

Professor Orosco

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

NO TEMPO CERTO



            Queridos amigos.
            Gostaria de compartilhar com vocês uma breve reflexão.
Não é de hoje que tenho refletido sobre o número de coincidências que verifico se apresentarem em minha vida, coincidências estas que me levam a refletir, profundamente, sobre os desígnios, os sinais e as mensagens que recebo do Grande Arquiteto do Universo.
Vejam só.
            Hoje pela manhã, antes de sair para o trabalho, dediquei alguns momentos para planejar uma aula que vou apresentar na próxima sexta, falando sobre o tempo, para alunos do ensino médio.
            Dentre os vários elementos que pesquisei, estava o famoso quadro de Francisco Goya (1746/1828), um grande pintor espanhol, denominado “Saturno Devorando um Filho”, concluído em 1823 e hoje exposto no Museu do Prado em Madri.
            Logo pela manhã, achei o quadro um pouco macabro demais e optei por deixá-lo arquivado no banco de imagens do meu computador, uma vez que, afinal, estudando a “Mitologia Grega” encontramos algumas das primeiras menções sobre o tempo.
Lá, Cronos (em grego Κρόνος, titã do tempo, Χρόνος), era a divindade suprema da primeira geração de titãs, correspondente ao titã romano Saturno.
Filho de Urano, o Céu estrelado, e Gaia, a Terra, era o mais jovem dos Titãs.
Foi durante seu reinado que a humanidade (recém-nascida) viveu a sua "Idade de Ouro".
Como tinha medo de ser destronado por causa de uma maldição, Cronos engolia os filhos ao nascerem, como retratado na tela.
Comeu todos exceto Zeus, que sua esposa Reia conseguiu salvar, enganando-o ao enrolar uma pedra em um pano, que ele engoliu sem perceber a troca.
Quando Zeus cresceu, resolveu vingar-se de seu pai, solicitando para esse feito o apoio de Métis - a Prudência - filha do Titã Oceano.
Esta ofereceu a Cronos uma poção mágica, que o fez vomitar os filhos que tinha devorado.
Então Zeus tornou-se senhor do céu e divindade suprema da terceira geração de deuses da Mitologia Grega ao banir os Titãs para o Tártaro e afastou o pai do trono, e segundo as palavras de Homero prendeu-o com correntes no mundo subterrâneo, onde foi encontrado, após dez anos de luta encarniçada, pelos seus irmãos, os Titãs, que tinham pensado poder reconquistar o poder de Zeus e dos deuses do Olimpo.
            Até aqui, nada mais que história.
            A coincidência é que, à noite, assistindo uma aula de oficina em epistemologia, qual minha surpresa ao ver que, dentre os vários assuntos abordados, estava a referida obra de arte.
            Isto me fez olhar o quadro e pensar no tempo, de modo diferente.
            Atentando-nos para a belíssima obra de Goya, percebemos, em seus traços sombrios e macabros, algo mais aterrador que a mensagem mitológica,
            Percebemos que Cronos, o tempo,  come os deuses.
Percebemos que come, também, os homens e come a carne dos homens.
Come pais e come filhos.
Come sonhos e come as esperanças.
            Come as alegrias e come, também, as tristezas.
            Implacável, o tempo come o próprio tempo, que não volta mais.
            Nada sobrevive a ele.
            Talvez, breves memórias, regurgitadas no presente e por um singelo momento, como aconteceu com os irmãos de Zeus
            Goya era, simplesmente, um gênio.


Professor Orosco.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

QUE BICHO VAI DAR?

            Fazendo uma rápida leitura da obra “O Livro das Bestas” de Raimundo Lúlio (1232/1315), o mais importante escritor, filósofo, poeta, missionário e teólogo da língua catalã, não pude deixar de, cometendo o equívoco de um anacronismo, comparar sua obra com o momento presente, neste outro lado do mundo.
            Seu livro, que me custou R$ 3,00, numa destas máquinas colocadas em uma estação do Metrô paulistano, escrito em forma de prosa, reproduz uma analogia entre seres humanos e animais, apresentando diversos temas, como a descrição de uma sociedade feudal, o efeito das paixões humanas na prática política, a luta entre o bem e o mal e as reformas necessárias para atingir-se o ideal.
            Servindo-se do simbolismo das bestas, Lúlio fala sobre a intriga, a ideologia, o adultério, a mentira e toda a sorte de mazelas que amargam a sociedade dos homens.
            Tudo começa com o processo eleitoral para definir o bicho que será coroado rei.
            Diante do favoritismo do Leão, a Raposa percebe que o Urso, o Leopardo e a Onça, que sonham ser eleitos, pleiteiam que se prolongue o pleito a fim de que se possa determinar qual o animal mais digno de ser coroado rei.
            Ao adivinhar suas intenções, ela conta sua história, afirmando que, se o Leão se torna rei e o Urso, a Onça e o Leopardo se opuserem, eles serão, para sempre, malquistos pelo rei.
            Se, porém, o Cavalo se torna rei, e o Leão lhe fizer alguma ofensa, como poderá ele se vingar da injúria, não sendo animal tão forte quanto o Leão?
            Como carnívoros e herbívoros se distribuem em dois grupos antagônicos, apresentando ideologias diferentes, a astuta Raposa, manipulando a ambos, incentivando a traição, consegue colocar-se como porteira da Câmara Real, cargo que lhe confere poder e prestígio junto ao rei e que lhe assegura o poder de cobrar impostos.
            Diante do adultério cometido pelo Leão com a Leoparda, na ausência do Leopardo, a Onça engalfinha-se com ele (o Leopardo), em defesa do rei.
            Frente a tal peleja, a Serpente pergunta ao Galo sobre quem haveria de vencer o combate, obtendo por resposta que a contenda se dava em defesa da verdade, contra a falsidade.
            O Leopardo, sustentado pelo ódio ao rei e confiante na sua boa razão, mata a Onça, obrigando-a, antes, a dizer, diante de toda a corte, que o rei, seu senhor, era falso e traidor.
            Constrangido, o Leão, tomado de vergonha, mata o Leopardo.
            O livro termina com o Leão emitindo um grande urro, demonstrando conhecer as verdades do reino, pelos informes que recebia da Raposa, o que assusta o Coelho e o Pavão.
  

Professor Orosco

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A CULPA É DA GEOGRAFIA


Quem primeiro chamou os egípcios de egípcios, foram os gregos, assim como chamaram os iraquianos de persas.
Quem chamou os gregos de gregos, foram os romanos, pois eles mesmos se tratavam por helenos.
A história da humanidade está tão repleta de eufemismos e rotulações preconceituosas sobre os povos que, além de um caráter xenofóbico (chamavam-se de bárbaros todos aqueles que não falavam grego), a quase totalidade das denominações tribais se dá de forma puramente histórico geográfica, influenciada por fatores, no mínimo, curiosos.
Assim, os normandos são os descendentes dos vikings que invadiram a França e tomaram a Normandia; os franceses são descendentes dos francos; os russos são descendentes dos povos nômades da Escandinávia conhecidos por Rus, etc.
Ocorre que, bem mais do que a simples rotulação dada aos povos, a grande diferença entre eles pode ser explicada pela geografia, disciplina que praticamente foi retirada do contexto escolar ou mantida de forma desconectada de seus aspectos histórico sociais.
Segundo Montesquieu (1689/1755) em seu “Espírito das Leis” e Rousseau (1712/1778), de quem foi contemporâneo, em seu “Discurso Sobre a Origem da Desigualdade”, ambos grandes filósofos iluministas, para a compreensão das diversas sociedades humanas, é preciso, antes, compreender “o espírito do povo”, ou seja, suas leis, sua cultura, o desenvolvimento de sua história, sua religião, o tamanho de seu Estado (território) e suas implicações geográficas, principalmente aquelas ligadas ao clima.
A Europa, que ganhou status de continente, na verdade fazia parte da Eurásia, que foi dividida, não pelo mar, mas pelos fatores anteriormente citados.
Seu desenvolvimento foi acelerado pelas características climáticas e pela regularidade das chuvas, frequentes, moderadas e constantes durante todo o ano, decorrentes da grande massa de água quente que conhecemos por Corrente do Golfo, que nasce em mares tropicais ao largo da costa africana, desloca-se para o oeste até o Caribe e retorna novamente pelo Atlântico numa direção nordeste.
Associa-se a isto o fato de que a Europa tem invernos suficientemente frios para impedir a propagação de agentes patogênicos e pragas, que beneficiam as atividades agrícolas e pastoris, contribuindo, também, para uma menor incidência de doenças.
O desenvolvimento das práticas de higiene, particularmente do banho e da assepsia das mãos antes de comer após a invenção do sabonete (1791), que pouco a pouco foram incorporadas à cultura local, praticamente eliminaram, no último século, as doenças epidêmicas, como tifo e cólera, bem como reduziram o estado beligerante das pessoas, fenômeno diretamente proporcional à quantidade de banhos praticados, principalmente a partir da segunda metade do século passado, e dizer, depois da segunda grande guerra.
Este suprimento confiável e uniforme de água propiciou um padrão de organização social e política diferente do predominante nas civilizações ribeirinhas onde o poder, o controle dos alimentos cabia inevitavelmente aos que detinham o domínio do curso das águas.
Embora a Europa conheça mais de um clima, apresentando uma precipitação pluvial mais abundante e uniforme ao longo do Atlântico e maior amplitude térmica à medida que avança continente adentro, ou, apesar, das temperaturas moderadas e chuva mais esparsa e irregular nas costas mediterrâneas, ainda apresenta boa condição de pastagem e cultivo de oliveiras e vinhas, em substituição aos cereais.
No Brasil, um país de dimensões continentais, ao exemplo do restante do mundo, a influência do clima, associado à geografia (altitude, longitude e latitude), ajuda-nos a compreender a diversidade de tipos humanos, de sociedades (culturas) que dão uma característica heterogênea à nossa gente, praticamente única em todo o planeta.
De maneira geral, o clima influencia no “espírito do povo”, apresentando, por exemplo, melhores condições de desenvolvimento da sociedade à medida que se apresenta frio e úmido, como no sul, quando comparados ao calor extremo e umidade elevada da selva equatorial ou ao calor extremo e umidade baixa da caatinga.
Nos climas quentes, a generosidade da natureza é maior que nos climas frios.
Consequentemente, o senso de comunidade, de trabalho em grupo, é mais acentuado nas regiões frias que o verificado nas quentes, onde o individualismo é mais marcante.
Face a isto, o amor à liberdade política dos habitantes é maior nas regiões frias que nas quentes, que, por sua vez, usam mais os sentidos e menos a reflexão.
Os habitantes das regiões mais quentes destacam-se em atividades culturais (artesanato, pintura, música, literatura) ao passo que os habitantes das regiões mais frias destacam-se em filosofia e ciências e atividades laborais que envolvem esforço repetitivo.
É explicável, pelo clima, o maior desenvolvimento econômico, da indústria e da agricultura, na região sudeste que no nordeste, principalmente quando ela está associada às características hidrográficas e ao tipo de solo.
Apenas para exemplificar, a temperatura média no ano de 1980 em São Paulo era de 22ºC e a umidade relativa do ar era de 70%, ao passo que na caatinga, a temperatura quase sempre é superior aos 30ºC e a umidade relativa do ar é inferior a 20%.
Pelo melhor desenvolvimento econômico, as condições de vida e a renda per capta, das regiões mais ao sul, acabam sendo privilegiadas quando comparadas ao norte e ao nordeste, inclusive em termos de saúde, de educação, explicando, em parte, o fluxo migratório que ocorreu no século passado.
Diante das melhores condições de vida, da melhora educacional média da população, da melhor compreensão da vida em sociedade, do “amor à liberdade política” e diante do maior desenvolvimento daquilo que chamamos cidadania, compreende-se a maior corrupção no Brasil, comparado à Europa e nele das populações de regiões de clima quente em relação às mais frias.
Os primeiros, mais individualistas, aceitam melhor, toleram mais, a grande corrupção governamental, quando recebem pequenas regalias (outra forma de corrupção), como outrora as Cestas Básicas ou agora o Bolsa Família, um excelente programa de distribuição de renda, infelizmente desconectado, e frise-se isto, de medidas complementares para a promoção da emancipação que lhes daria a autonomia no médio prazo.
Embora a tecnologia venha, aos poucos, amenizando este efeito, ele é um fato, e, ainda, por um bom tempo, mostrará, percentualmente, seus efeitos nos processos eleitorais que teremos pela frente.

Professor Orosco


terça-feira, 21 de outubro de 2014

AONDE AMARRO O MEU CAVALO?


            Refletindo um pouco sobre os recentes acontecimentos mundiais, de caráter eleitoral ou não, que são insistentemente apresentados e reapresentados por uma mídia ávida de novas notícias, começo por elaborar, em uma linha de raciocínio frankfurtiana, um pequeno ensaio sobre os caminhos de nossa sociedade contemporânea.
            Acompanhando a crítica de Habermas sobre a sociologia, entendemos que esta disciplina se coloca no campo conservador, dado os próprios métodos que desenvolveu para se solidificar como ciência.
            A linha positivista de Comte, a exemplo do racionalismo cartesiano, só promoveu, de fato, uma redução do elemento humano, reduzindo-o, pelo método, a um emaranhado de normas e procedimentos.
            Esta liberdade negativa, que proíbe os excessos, pode até ser entendida como boa no momento em que permite o livre exercício de todas as alternativas restantes e que, se utilizada para o bem, permitem o desenvolvimento da sociedade como um todo.
            Em contrapartida, como consequência e para prevenir as distorções, por ser negativa, exige, cada vez mais, novas regulamentações, novas leis e novas regras de convivência, e dizer, esta liberdade negativa, atuando como mola reguladora das pressões sociais, como repressora dos abusos, acaba por institucionalizar a burocracia e a normatização da vida em si.
No exemplo do maior temor de Lênin, quando desenvolveu os caminhos para sua revolução bolchevique, a burocracia institucionalizou-se e, com ela, as amarras do livre pensamento foram reforçadas a tal ponto que, a livre iniciativa, o desejo de saber o que existe do outro lado da montanha, mola propulsora da humanidade, ficou submersa em pilhas e pilhas de normas, leis e decretos.
Na prática, ela acabou invertendo a sua própria lógica, passando do “eu posso fazer tudo aquilo que a lei não proíbe” para “só posso fazer aquilo que está na lei”.
Com isso, a sociedade, tornando-se inevitavelmente refém do Estado, fica condenada à estagnação ou até pior, ao retrocesso, já que nem todas as pessoas cumprem a lei.
As observações desapaixonadas dos fenômenos sociais ou das novas descobertas científicas, que poderiam indicar mudanças de rumo para a humanidade, ficam prisioneiras das leis existentes, enclausuradas no fundo “da caverna”, relegadas a meras sombras ou impressões distorcidas da realidade.
Um exemplo prático destas atitudes, em nível mundial, pode ser observado na recente epidemia pelo vírus Ebola que assola a África e atemoriza o mundo.
A primeira vez que este vírus surgiu foi em 1976, em surtos simultâneos em Nzara, no Sudão, e em Yambuku, na República Democrática do Congo (antigo Zaire) em uma região situada próximo do Rio Ebola, que deu nome à doença.
À época descobriu-se que morcegos frutívoros eram os hospedeiros naturais deste vírus, cuja  taxa de fatalidade varia entre 25 e 90%, entre infectados, dependendo da cepa.
A burocracia e as prioridades econômicas de uma geopolítica de um mundo regulado pelas leis de mercado, fizeram com que as medidas de contenção e prevenção fossem relegadas a um segundo plano.
Em outro exemplo, o surgimento do Estado Islâmico, que hoje toma boa parte do noticiário internacional, chocando o mundo com cabeças separadas do corpo, se olharmos para o passado recente, já se mostrava como possibilidade, apresentando-se como resposta real a uma política expansionista americana, mais interessada no petróleo que na verdadeira melhoria da qualidade de vida daquele povo.
A burocracia cegou-nos ao ponto de não visualizarmos que a democracia ocidental que insistimos em exportar, pode não ser o regime que aquela parte do mundo deseja ou que está disposta a adotar.
Novamente relembro o mito da caverna de Platão.
Em um exemplo local, a crise de abastecimento hídrico que nos afeta, apresenta-se também, como consequência de uma burocracia que engessou a máquina estatal, que alterou prioridades e que solapou os investimentos sabidamente necessários para evitá-la.
Todos os que se dispuseram a “pensar”, enxergaram o abismo que se aproximava.
Porém, como comodamente só podemos fazer aquilo que está na lei, não cabia a ninguém, ou melhor, não era prudente , adiantar-se e investir para solucionar um problema que quase ninguém parecia perceber.
As prioridades eram outras: eleições, metrô, saúde, educação, habitações populares, corredores de ônibus e ciclovias, para não falar em outras.
Em suma, repetindo a proposta de Habermas em sua “Teoria da Modernidade”, se não conseguirmos, enquanto sociedade, nos libertar deste racionalismo burro que impede que se veja além do caminho previamente demarcado, que nos liberte dos grilhões impostos pelo mercado, que nos proteja do gládio de uma máquina estatal burocratizada, não teremos local seguro para amarrar nosso cavalo.

Professor Orosco.


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

DE VOLTA AO ESTADO DE NATUREZA


Tanto Hobbes quanto Locke, e até mesmo o próprio Rousseau, reconheciam o estado de natureza em que possivelmente a espécie humana começou a se desenvolver.
Estado este em que os homens eram livres, não se sujeitando a ninguém, além de sua própria vontade, onde não haviam leis civis, principalmente porque a sociedade ainda não tinha sido constituída, reafirmavam o comportamento antissocial  dos homens de maneira geral.
Hobbes, que acreditava que eles eram maus, os colocava em permanente estado de guerra, todos contra todos; Locke, que acreditava que eram bons, os colocava em estado de paz, porém, de forma desconectada e independente.
Rousseau, salientava a piedade, que mais referia-se à sorte de haver escapado do infortúnio do que à compaixão de um pelo outro.
De qualquer forma, os primórdios da sociedade começaram a se estabelecer pela união carnal de macho e fêmea, a exemplo de todos os outros animais, onde, na maioria das espécies, esta união dura pouco mais que o período do coito, pois a fêmea se mostra independente e capaz de cuidar da cria, até que esta se mostre suficientemente capacitada para sobreviver sozinha.
Isto acontece com a maioria dos herbívoros.
Já entre os predadores, onde a fêmea tem dificuldades para caçar e alimentar as crias de forma concomitante, a presença do macho, formando a família, costuma durar um pouco mais.
Isto é um fato e um comportamento ainda mais acentuado entre os pássaros.
Neste período, o macho torna-se o provedor do sustento e da segurança do lar, da fêmea e da crias.
No caso humano, como a cria gerada tem um período de dependência muito mais acentuada, o estabelecimento da relação familiar costuma durar ainda mais.
Como, no início dos tempos, a fêmea humana costumava engravidar antes mesmo da autossuficiência da cria gerada anteriormente, a presença do macho, do homem, como provedor do alimento e da segurança à prole, acabou por eternizar-se, incluindo na dependência dos filhos, também o período de educação e formação profissional.
Chegou-se, por um tempo, a determinar a maioridade, a independência dos filhos, aos 21 anos de idade.
Isto não significava para o macho, necessariamente a permanência no lar, pois tão logo a oportunidade surgisse, um novo relacionamento se estabelecia e uma nova família era formada.
Com o desenvolvimento da espécie, acompanhando a evolução dos filhos, surgiu, além da cumplicidade, o amor e o desejo de perpetuar a sensação de afetividade estabelecida, estabelecendo-se, em definitivo, os laços familiares sobre os quais se construiu a célula mãe de todas as sociedades.
Estes laços se estenderam se tal forma, que a relação familiar cresceu a tal ponto que, vivendo em pequenos grupos, a família passou a ser composta por país, filhos, avós, tios, irmãos e primos, de tal sorte que o próprio amparo dos mais velhos, promovido pelos jovens, em retribuição ao que haviam recebido, tornou-se um fator aglutinador da espécie.
Estes grupos familiares, reuniram-se a outros, formando clãs e tribos que, por sua vez, cresceram e formaram a sociedade, agora regida por leis, que garantiam os direitos de todos e asseguravam a paz ao grupo.
Ocorre que, com o desenvolvimento do progresso tecnológico experimentado nos últimos séculos, particularmente no último, onde as fêmeas da espécie foram, finalmente, reconhecidas como seres de igual direito aos homens, face às dificuldades econômicas de uma sociedade capitalista formada no consumo de bens e de serviços, a manutenção dos laços familiares, que formavam o povo e a nação, começaram a esfacelar-se.
A família excluiu primeiramente os primos, depois os tios.
Aos poucos distanciou irmãos e afastou filhos e pais.
Com o advento do divórcio, separou marido e mulher e a guarda dos filhos, inicialmente compartilhada, está sendo relegada àquele que se dispuser gastar um pouco do seu tempo para com os rebentos.
Surgiram e se multiplicaram os colégios de período integral e os internatos.
Face ao fracasso do modelo educacional, o próprio Estado propõe as escolas em período integral.
Diante do pragmatismo americano, vimos surgir vilas e vilas de idosos, largados à própria sorte, amparados por políticas assistenciais do Estado, distante dos filhos, que costumam ver no dia de ação de graças, isto quando não estão me viagem de negócios ou, então, quando os netos desejam ir à Disney.
Por aqui, multiplicam-se os asilos.
É um fato incontestável, desta sociedade do século XXI, que estamos ficando a cada dia que se passa, mais conectados na Internet e mais distantes das pessoas reais.
Estamos, a largos passos, adentrando o Estado de Natureza do qual viemos.

Professor Orosco.

sábado, 20 de setembro de 2014

PENSAMENTOS DE UM REVOLUCIONÁRIO


Afinal, Proudhon tinha ou não tinha razão?

Se olharmos desapaixonadamente para as coisas, como elas se apresentam, ou melhor, como nos são apresentadas, facilmente constataremos que a propriedade privada, roubada do coletivo, e o capital que dela se origina, assassina milhões de pessoas no mundo, e o faz desde que foi pensada, usurpada e controlada por uma minoria, fruto de engodos aplicados aos mais tolos, que acreditaram em suas mentiras.
Financiando o Estado lockeano e suas mazelas, torna os filhos tão onerosos aos pais, que estes os sacrificam, matando-os antes mesmo de serem gerados, negando-se às fêmeas humanas o direito gestacional que é dado, pela natureza, às semelhantes das outras espécies.
Assassina o futuro, negando aos não nascidos o direito de sentir o calor do Sol ou o frescor de uma brisa úmida, de ver e de cheirar o aroma agradável das flores do campo, que se destacam sobre a relva molhada pelo orvalho da noite.
Limitando as oportunidades, controlando a oferta de alimentos, perpetua um modelo de dominação que existe quase desde o tempo em que os homens perderam o rabo e aprenderam a caminhar em pé.

Professor Orosco.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

ÁGUA MOLE E PEDRA DURA


A recente estiagem prolongada em São Paulo está provocando a abertura de uma significativa quantidade de poços artesianos por toda a parte, dada a preocupação de todos em garantir o abastecimento d'água para uma população superior a 20 milhões de pessoas, somente na área próxima da Capital.
Diferentemente dos velhos poços d'água, de baldes e sarilhos, estes poços têm uma profundidade considerável, ultrapassando, na maioria dos casos, os cem metros de profundidade.
Geralmente, oferecem água de qualidade razoável, porém, impotável pelos padrões sanitários, requerendo, quase sempre, tratamento adicional , o que raramente é feito com o devido zelo.
A água, para ser retirada desta profundidade, geralmente necessita de um processo mecânico que, injeta ar, por exemplo, para compensar a água retirada, mantendo o nível do reservatório subterrâneo com a pressão  necessária.
Ocorre que, em grande escala, esta pressão não se equaliza e, forma-se bolsas flutuantes de ar, sob o solo.
Um único poço, não oferece grandes riscos, mas muitos podem provocar a movimentação do solo e afetar as construções na superfície.
A poucos anos, uma gigantesca cratera formou-se em Cajamar, engolindo casas e ruas, como consequência do uso inadequado e da quantidade excessiva de poços artesianos naquela região.
Qualquer engenheiro de solos, qualquer geólogo, sabe o que estou dizendo.
A conivência e a ausência do poder público nesta hora, pressionado pelas eleições, como agente fiscalizador e  regulador do número destes poços, caracteriza-se um verdadeiro crime que, dadas as características da metrópole, pode provocar acidentes muito graves e com muitas vítimas, já no curto prazo.
Imaginem a construção de prédios sobre um solo que se comporta como uma bexiga de ar, pronta para estourar.
O assunto é sério e de maneira egocêntrica, parece que as pessoas não estão querendo abordá-lo.
Grandes edifícios, grandes condomínios, agindo por conta própria, cavando poços, aleatoriamente e, por toda a parte, em número elevado, trarão conseqüências gravíssimas para todos nós. 

Professor Orosco.



sábado, 23 de agosto de 2014

VIVEMOS OU NÃO UMA NOVA ÉPOCA GEOLÓGICA?

CIENTISTAS DEBATEM SE VIVEMOS UMA NOVA ÉPOCA GEOLÓGICA


Desde o surgimento Geologia enquanto ciência, poucos séculos atrás, mais precisamente, cerca de 300 anos atrás, o ser humano começou a se preocupar com a datação dos eventos que marcaram as eras e épocas do planeta Terra.




Eras Geológicas – A história geológica da Terra pode ser resumida em quatro eras geológicas, caracterizadas de acordo com os principais eventos ocorridos na evolução do planeta.



Tempo em MAA
Época
Período
Era
0,01
Holoceno


Neogeno




Cenozóico
2
Pleistoceno
5
Plioceno
23
Mioceno
36
Oligoceno

Paleogeno
55
Eoceno
65
Paleoceno

Na escala de tempo geológico, o Plistoceno ou Pleistoceno é a época do período Quaternário da era Cenozoica do éon Fanerozoico que está compreendida entre 2,588 milhões e 11,5 mil anos atrás, abrangendo o período recente no mundo de glaciações repetidas.
O Pleistoceno sucede o Plioceno e precede o Holoceno, ambos de seu período. Divide-se nas idades Pleistoceno Inferior, Pleistoceno Médio e Pleistoceno Superior, da mais antiga para a mais recente.
O Pleistoceno (época geológica na história da Terra que, estende-se de cerca de 2,5 milhões de anos a 11,5 mil anos atrás), que abrangeu um período chamado Idade do Gelo, é considerado a etapa mais importante da evolução humana, em virtude do maior número de alterações  (anatômicas e fisiológicas) sofridas neste período.
            Estudos geológicos comprovam que o Pleistoceno teve um clima bastante instável, com fases úmidas, de chuvas torrenciais e com períodos de glaciações intercalados com períodos de seca, onde o avanço e recuo das geleiras provocaram mudanças drásticas no clima, afetando a vida animal e vegetal do planeta, forçando a migração espécies e provocando a extinção de outras (seleção natural).
            Dividido geologicamente em Pleistoceno Inferior (até 700 mil anos atrás), Pleistoceno Médio (entre 500 mil e 150 mil anos atrás) e Pleistoceno Superior (entre 500 mil e 150 mil anos atrás), foi sucedido pelo Holoceno, período também chamado de época atual, que se iniciou a cerca de10 mil anos, onde o homem tal como o reconhecemos hoje (Homo Sapiens Sapiens), afirmou-se.
            A evidencia da evolução do homem, a partir de ancestrais pré-humanos, encontra-se nos registros de fósseis descobertos, acompanhando os períodos geológicos citados, pode ser classificada como:
            1 – O Pré homínida, o Australopithecus, ou homem-macaco, cujos fósseis foram datados de um a três milhões anos atrás.
            Este espécime era bípede, andava ereto (constatado pela anatomia da pélvis, pernas, posição do crânio e coluna vertebral, além dos pés), habitava terrenos abertos e alimentava-se de carne e vegetais
            Existem evidencias de que usos instrumentos feitos de pedra e osso
            Seu antecessor teria sido o fóssil denominado “Lucy”, encontrado no lago Turkana, no Quênia, em 1979.
            2 – O Homo Erectus, o Pithecantropus, que viveu entre um milhão de anos e 100 mil anos atrás, com vários espécimes fósseis encontrados: Homem de Java (1891), Homem de Pequim (38 unidades), Homem Erectus Mauritanicus (descoberto no norte da África), Homem Erectus Heildelbergensis (Alemanha, 1908), que aparece associado a artefatos de pedra e armas, evidenciando que caçava animais de médio e grande porte (elefantes, rinocerontes, búfalos, etc.)
            3 – O Homo Sapiens, o Neanderthal, que teria surgido a aproximadamente 150 mil anos, no período da glaciação denominada Würn, e possuía estrutura esquelética similar ao homem moderno, embora mais volumosa, vivia em cavernas e usava o fogo para aquecer e iluminar o seu ambiente.
            Vestia-se com peles, alimentava-se de carne e vegetais (aprimorou facas, martelos e pontas de lança) e, sepultavam seus mortos junto com artefatos (descobriu-se uma sepultura na região de fronteira entre o Irã e o Iraque inclusive com pólen, evidenciando flores), o que nos leva a inferir ritos funerários e a crença na imortalidade da alma ou espírito.
            4 – O Homo Sapiens Sapiens, o grupo final de homens fósseis, conhecido pela designação Cro-Magnon, que viveu durante o Pleistoceno Superior, representa também o protótipo dos grandes grupos raciais: Cro-Mognon para os brancos, Chancelade para os asiáticos e Grimaldi para os negros.
            Possuía uma tecnologia material avançada, resultante de uma cultura intelectual bastante criativa (gravuras multicoloridas nas paredes de cavernas) e, segundo fosseis encontrados na Espanha, pode ter existido no mesmo período do homem de Neanderthal.
            Isto significa que, apesar das evidências encontradas nesses dados, a vida humana não se desenvolveu de forma idêntica em todos os lugares habitados.
A época Holocena, que sucede à época Pleistocena de seu período, costuma ser dividi-la em cinco cronozonas baseadas nas flutuações climáticas.


O Holoceno inicia-se com o fim da última era glacial principal, ou Idade do Gelo.
A época é informalmente chamada Antropogeno, por abranger todo o período de civilizações, embora essa denominação não seja reconhecida pela Comissão Internacional sobre Estratigrafia ( a disciplina que analisa as marcas da passagem do tempo no planeta) da União Internacional de Ciências Geológicas.
No período geológico denominado Holoceno, período Neolítico (pedra nova, polida) evidencia-se a presença do Homo Sapiens Sapiens, caracterizado pela produção de alimentos, inferindo uma agricultura incipiente, depois intensiva, pela domesticação de animais, que deu origem ao pastoreio, pelo sedentarismo, com a formação de aldeias e pelo surgimento da cerâmica.
O que se discute agora, é o estabelecimento de uma nova época geológica, chamada Antropoceno, provocada pela presença e ação do homem, do Homo Sapiens Sapiens, no planeta, principalmente a partir da Revolução Industrial, final do século XVIII, onde a produção e consumo de combustíveis fósseis começou a alterar as condições climáticas da Terra.
             A ideia foi lançada no início deste século (século XXI) pelo químico Paul Crutzen, do Instituto Max Plank, prêmio Nobel de Química em 1995 por seus estudos sobre a camada de ozônio na atmosfera.
            A pergunta que os cientistas tentam responder é se estas transformações são tão relevantes e profundas quanto as promovidas pelas grandes forças da natureza.
            Classificar o Antropoceno como uma nova época geológica é uma caracterização que depende da observação de uma mudança nos registros geológicos, como, por exemplo, no padrão de sedimentação em escala global.
            Com o aumento do nível do mar, haverá outro padrão de depósito de sedimentos e, onde hoje é continente, amanhã será mar.
É um processo muito lento, de anos, talvez décadas de análise e medições.
Essa nova marcação no tempo, porém, não se restringiria ao aquecimento global, mas às diversas ações humanas, impulsionadas pelo aumento populacional, como perda de habitats, mudança no uso do solo, sobre exploração de recursos naturais, causando, por exemplo, perda da biodiversidade, acidificação dos oceanos e perturbação dos ciclos naturais, sendo este último, as evidencias mais robustas do impacto humano.
Diversos estudos, nos últimos anos, apontam para uma mudança nos ciclos de carbono, nitrogênio e fósforo, além do hidrológico, onde, por exemplo, os dados compilados e publicados em 2009, pelo sueco Johan Rockström, junto com outros 28 cientistas, demonstram que a humanidade já ultrapassou três de nove barreiras do planeta que mantêm o sistema funcionando como o conhecemos.
As nove barreiras são: 1) O uso da água doce, 2) Conversão das florestas em plantações, 3) Acidificação dos oceanos, 4) Ciclo do fósforo, 5) Contaminação química da atmosfera, 6) Aerossóis na atmosfera, 7) Aquecimento global, 8) Extinção de espécies, 9) Ciclo do nitrogênio.
Já foram transpostos os limites da biodiversidade, da mudança climática e do ciclo de nitrogênio, por causa do uso excessivo de fertilizantes.
Três anos depois, em 2012, já se considera também superado o limite de fósforo e alerta-se para o fato de que o de carbono já está para ser atingido.
Hoje as emissões de carbono ultrapassam 40 bilhões de toneladas anuais, o que, indica que em menos de um século, vamos ter o dobro de CO2 na atmosfera.
Outra corrente de cientistas, ainda mais radical, defende que a presença do homem no planeta, alterou de tal forma o ciclo natural do desenvolvimento das espécies, que o Antropoceno, não se trata mais de classificar o tempo, apenas em fatores geológicos, a como época ou período, mas de era.  
A ERA ATÕMICA.


Professor Orosco



Texto elaborado a partir da Reportagem de Giovana Girardi e publicada no Jornal O Estado de São Paulo em 26 de Dezembro de 2.012

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

CAPÃO DO EMBIRA


Meu querido Capão do Embira
De guarús e lambaris
Rio caudaloso de minha infância
Que meus filhos não chegaram a conhecer.

Deitaram-lhe asfalto por em cima
Fizeram de teu leito esgoto mal cheiroso
Esqueceram tuas pontes de madeira
Soterraram teu passado glorioso

Meu querido Capão do Embira
De guarús e lambaris
Te guardarei eterna lembrança
De uma inocente época feliz.

Professor Orosco

domingo, 17 de agosto de 2014

FILOSOFIA DA NATUREZA

            Quando falamos de natureza, do que exatamente estamos falando ?
            A ciência, a religião e a política, apesar dos seus esforços, mostraram-se insuficientes para responder a esta pergunta que, a filosofia, como amante do conhecimento, procura compreender.
            Antes de iniciar o estudo da "filosofia da natureza", primeiramente devemos reconhecer a característica equívoca dos termos natureza e natural, de modo que ao empregá-los, compreendamos exatamente sua função.
            Natureza, que pode referir-se ao caráter metafísico (que não está restrita à matéria), natureza de algo, sua essência ou índole, que a distingue das demais, ou ainda ao conjunto de todos os seres físicos, de todos os processos, geralmente identificados com o corpóreo.
            Natural, que pode ser empregado como sinônimo de espontâneo; como forma de distinguir algo do artificial produzido pelos viventes, incluído o homem; como distinto do espiritual, não identificado com o corpóreo, como a liberdade, por exemplo e na acepção do termo, como distinto do sobrenatural.
            A caracterização do mundo natural, como um mundo heraclitiano, em constante movimento, evolutivo, pressupõe a produção de estruturas distintas, segundo o tempo e o espaço, formas a priori da interioridade e da exterioridade, que se desenvolvem independentemente da intervenção humana, onde o dinamismo e a estruturação são características estritamente relacionadas.
            Patentes nos seres viventes, estas características estão presentes em toda a matéria, ainda que de forma microfísica ou de equilíbrio.
            Embora o homem possa interferir na dinâmica destes processos, ele não pode modificar suas leis, que seguem caminhos próprios, autônomos e não passivos e independentes.
            A natureza está construída em torno de estruturas que se repetem, que formam padrões, pautas, como nos viventes, por exemplo, que possuem uma estrutura unitária na qual as diferentes partes desempenham funções específicas.
            Tijolo sobre tijolo, que formam o alicerce sobre o qual se edificam as paredes, a natureza está repleta de exemplos de onde a ciência experimental busca identificar estes padrões no intuito de ampliar nosso conhecimento dos fenômenos.
            Na natureza nem tudo são pautas, porém, tudo gira em torno delas, e o simples reconhecimento deste fato denota a especificidade deste nosso mundo, onde as estruturas espaciais referem-se à ordem que os componentes naturais adotam, suas configurações; e as estruturas temporais referem-se aos processos, ao desenvolvimento temporal do dinamismo natural que, com pautas características podem ser denominadas ritmos.
            Interligados, o dinamismo e a estruturação, condicionando-se mutuamente produzem ora novas estruturas espaciais, ora novos dinamismos, segundo suas potencialidades e virtualidades, cujos desdobramentos, de forma contingente, dependem das circunstâncias externas, podendo-se, desta forma, caracterizar o natural segundo sua atividade.
            Dada esta caracterização do natural em função do entrelaçamento entre o dinamismo e a estruturação, não é possível distinguir a matéria das leis de seu comportamento em um momento específico, como nas ciências, que precisam formular leis limitadas a situações experimentais controladas, pelo que, ditas leis, só podem ser válidas em circunstâncias muito específicas.
            Exatamente por isso, por retirar a possibilidade contingente, que o artificial difere do natural, e dizer: o artificial não tem um dinamismo próprio, o que fica restrito às entidades naturais que o compõem, contendo, apenas, estruturas espaço-temporais correspondentes ao projetado pelo homem.
            Uma escultura produzida em bronze, por mais bonita que seja, sofrerá do desgaste natural e dos efeitos da corrosão à qual este metal está sujeito.
            No entanto, mesmo nesta situação, dado o dinamismo próprio das entidades naturais que compõem o artificial, não é possível ao homem modifica-los, limitando-se, neste caso, quando muito, a direcioná-los.
            O próprio dinamismo natural humano, relacionado a suas estruturas espaço-temporais, dada sua racionalidade, as transcende, alterando outras e produzindo o artificial, ou seja: mesmo submetidos a leis naturais, pela racionalidade, permitem contemplá-las, conceitua-las e controlá-las.
            Como síntese que o caracteriza, o natural contempla as propriedades do corpóreo, do sensível, do material, da extensão cartesiana, do espaço-temporal, do quantitativo, não se deixando, contudo, definir em função destes.
            Não pode ser definido apenas pelo corpóreo, pois este implica, quase sempre em extensão, associado aos sólidos, desconsiderando líquidos e gasosos, ou ainda os campos de força, todos indubitavelmente com dinamismo próprios.
            Além disso, outra consideração importante é o fato de que os artificiais também podem ser corpóreos, ou seja, possuírem extensão.
            Igualmente, o natural não pode ser definido apenas pelo sensível, uma vez que as entidades microfísicas, por exemplo, não são percebidas pelos sentidos, ao menos sem o auxílio do artificial.
            Também o conceito de material não é suficiente para definir o natural, uma vez que este termo também é um equívoco, podendo representar o corpóreo ou aquilo de que algo seja feito, distinto do formal, que se refere ao modo de ser das coisas.
            A extensão também não é suficiente, uma vez que nem sempre é necessária para justificar o natural, ainda que percebido pelos sentidos, como o vento ou a luz do dia.
            Pelos mesmos motivos, o conceito espaço-temporal também é insuficiente para definir o natural, pois refere-se a dimensões, que, assim como o critério quantitativo expressa característica dimensionais, de localização, são tidas como primárias do mundo físico que, embora necessárias, aplicam-se também aos artificiais.
            O próprio conceito de necessário, que se contrapondo ao racional, no âmbito da liberdade, negando-lhe a possibilidade, não é suficiente para significar o natural.
            Por sua vez, o dinamismo e a estruturação, em todos os casos acima, apresenta melhores condições de identificar o natural, pois estendem-se não só às formas corpóreas, mas também a qualquer outro tipo de entidade natural, independentes da ação humana.
             E dizer: a caracterização do natural, conforme Aristóteles, se dá em função do dinamismo e da estruturação, apresentando a natureza como princípio interior de atividade nas substâncias.
            Pode até apresentar-se com o um exagero, mas, a relevância do assunto demonstra que, sem o correto entendimento dos termos natureza e natural; da correta observação do dinamismo e da estrutura espaço temporal das coisas, indo além daquilo que a ciência normalmente define, o processo do conhecimento e da tentativa de compreensão do mundo que nos circunda fica limitado e incompleto.


Professor Orosco

Extraído da obra de: ARTIGAS, Mariano. Filosofia da Natureza. Tradução de José Eduardo de Oliveira e Silva. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lulio, 2005.