sexta-feira, 22 de abril de 2016

quarta-feira, 20 de abril de 2016

XUTHOS

Sobre Xuthos, em grego  Ξονθος, um  personagem pré-socrático que deve ter vivido no século V a.C., citado por Hermann Diels e Walter Kranz, em sua obra acerca dos pré-socráticos[1], tudo o que conseguimos levantar foi uma referência acerca da defesa na necessidade do vazio, como necessidade intrínseca para a existência do movimento, conforme se pode observar nas citações de Aristóteles e de Simplício.

Conforme Aristóteles, Física, L 9 , 216 b 22, -  Há alguns que acreditam que a existência do vácuo se torna evidente através da raridade e da densidade. Se, de fato, a raridade e a densidade não existem, eles dizem, nem sendo possível condensar e comprimir, e se isso não pode acontecer, ou não existirá de fato o movimento, ou como dizia Xuthos, tudo vai inchar. O ar e a água devem sempre mudar em quantidades iguais (por exemplo, se o ar foi feito de um copo cheio de água, ao mesmo tempo, uma quantidade igual de ar, um copo cheio de água deve ter sido feita. E conforme Simplício, Stromatei, 683, 24,  - Tudo isso vai inchar, como diz Xuthos, o pitagórico, e inundará, e cada vez mais vai se espalhar, como faz o mar, quando, por causa dele, as ondas chegam à praia. (DK 33,1)


[1] I Presocratici: Prima Traduzione Integrale Com Testi Originali a Fronte Delle Testimonianze e Dei Frammenti Nella Raccolta di Hermann Diels e Walter Kranz, a Cura di Giovanni Reale. Itália, Milano: Edizione Bompiani, Il Pensiero Occidentale, 2008.

terça-feira, 19 de abril de 2016

MENESTOR

Segundo Jâmblico, Vida Pitagórica, 267, 190,11 – Entre os pitagóricos de Sibaris, encontramos, ... , Menestor, em grego Μενέστωρ (DK 31, 1), contemporâneo de Empédocles que viveu no século V a.C., considerado, segundo Teofrasto em sua obra História das Plantas, um pioneiro da botânica que distinguiu plantas quentes, ou seja verdes, como a hera e as folhas de louros, das plantas frias, ricas em água, como juncos e canas, levando em consideração fatores ecológicos, tais como diferentes habitats, clima e tempo de maturação.

Teofrasto, História das Plantas. I 2,3 – Toda a gente sabe que o humor, o que alguns chamam indiscriminadamente em todas as plantas de suco, como faz Menestor; outros, no entanto, em algumas plantas que chamam seiva, em outra lágrima, e para o restante não usam nome algum. (DK32,2)

Ibidem – A lenha é derivada de muitas plantas; a melhor, de acordo com Menestor, a edera[1], porque acende rápido em com grande chama (DK32,3)

Ibidem – Também são boas, a edera e a folha de louro, e em geral as plantas que produzem madeira como brasa. De acordo com Menestor mesmo sicômoro[2] (DK 32,3 a)

Ibidem – Por que, então, a germinação de sicômoro é prematura. Mas, de acordo com Menestor, germinação é tarde para a frigidez da terra e o amadurecimento do fruto é rápido por sua falta de consistência. (DK32,4)

Ibidem - Assim, uma primeira prova que se baseia em serem as plantas quentes e frias é que da sua fertilidade ou infertilidade, assim como o quente é frutífero, o frio, é estéril, bem como se faz entre os animais distinguindo os férteis e os estéreis, como vivíparos e ovíparos. Outra prova é a dependência do lugar, se são, por exemplo, quentes ou frios, como cada planta só pode durar em seu lugar oposto, quente em locais frios, o frio em quente; então apenas dizer que a natureza dos gêneros, o que de modo semelhante são destruídos pelo excesso, mas salvos por contraste, como para a formação de um equilíbrio; assim Empédocles (DK31A73) também fala dos animais, isto é, que a natureza empurra muito quente à umidade. (6) É um seguidor desta visão também Menestor, e não apenas para os animais, mas também se estende às plantas; apenas ele diz que eles são muito quentes, especialmente aquáticos, como a cana, junco, e caniço, e, portanto, também o inverno não congelar; e o outro, aqueles que podem suportar lugares frios, tais como abeto, pinho, cedro, zimbro, edera. Quanto a este último, de fato, nem mesmo os restos de neve, por causa de seu calor; e é então dobrada e torcida pelo calor da sua medula. (7) A terceiro prova, diz ele, é a precocidade de germinação e frutificação; porque estando quente por natureza, também o suco dessas plantas, faz precocemente germinar e maturarem os frutos; além disso, dando um exemplo a edera e outras plantas. Quarta prova é que as plantas verdes, que ele acredita que mantém as folhas para o seu calor, enquanto outros, por falta de esse argumento, as perderam. A confirmação da coisa dita por este argumento é que a brasas mais adequados para acender o fogo são derivados de plantas aquáticas, tais como aqueles, sendo mais parecido com o fogo, inflamando-se mais rapidamente. (DK32,5)

Ibidem - A terra muito gorda[3] não é propícia para qualquer planta, assim como a seca também, como também diz Menestor; tal seria a terra para lavar, de cor esbranquiçada. (DK 32, 6)

Ibidem - Além disso, as diferenças de sabor do suco dependem do maior ou menor grau de mistura dos seus componentes, de modo que a maior parte deles são de grupo semelhante, como o amargo, o graxo, o amargo, o doce. É por isso que até mesmo os naturalistas antigos estabeleceram que fosse indeterminado o número de sabores, como também diz Menestor; uma vez que, conforme está misturando e secreção de humor natural da planta, tal é o seu sabor. (DK 32,7)



[1] Planta trepadeira de folhas perenes, tóxica, que era utilizada para fins medicinais.
[2] Figueira
[3] Terra forte, tenaz, úmida

segunda-feira, 18 de abril de 2016

EMPÉDOCLES

Segundo Diógenes Laércio em sua obra Vida dos Filósofos Mais Ilustres, VIII, (51), Empédocles, em grego μπεδοκλς, foi um filósofo grego, natural da colônia dórica de Agriento, na Sicilia, que, como atesta Hipoboto e confirma Apolodoro, era filho de Metão que, por sua vez era filho de outro Empédocles, uma pessoa influente que criava cavalos e que, segundo nos diz Erastótenes, teria vencido a LXXI Olimpíada [Septuagésima primeira Olimpíada]; (53) Sátiro diz, nas Vidas que Empédocles era filho de Exeneto e que deixou, também, um filho chamado Exeneto, ... , Telauges, filho de Pitágoras, em sua carta a Filolau, diz que Empédocles era filho de Arquinomo, (DK 31 A 1). Teria nascido por volta do ano 490 a.C. e (54) segundo atesta Timeu no livro IX de suas Histórias, Empédocles foi discípulo de Pitágoras. Escreveu dois poemas no dialeto jônico: Sobre a Natureza e Purificações, dos quais nos chegaram apenas fragmentos, onde sua doutrina se mostra como uma primeira síntese filosófica, substituindo a busca dos jônicos de um princípio único das coisas, por quatro elementos (teoria cosmogênica)[1] que ele chamou raízes e que a física, a partir de Platão, mais tarde, chamou de elementos: fogo, terra, água e ar, combinando ao mesmo tempo o ser imóvel de Parmênides com o de perpétua transformação de Heráclito, salvando, ainda, a unidade e a pluralidade dos seres particulares. Empédocles era um médico fortemente influenciado pela religiosidade órfica, tendo a sua cosmologia sido, consequentemente, influenciada pela religião e pelas práticas médicas, como se percebe no fragmento que nos chegou Aécio, 1,3; Sexto Empírico, X, 315

Pois quatro raízes de todas (as coisas) ouve primeiro: Zeus brilhante e Hera portadora da vida, Aidoneus e Nestis, que de lágrimas umedece fonte mortal. (DK 31 B 6)[2]
           
            Empédocles ensina em primeiro lugar, que Parmênides teria razão ao considerar o ser como esférico, isto é, sem princípio nem fim (perene ou eterno) e pleno, sem vazio ou vácuo. Ao mesmo tempo, afirmava que ele não tinha razão ao supor que o ser deveria ser Uno, imóvel e homogêneo, pois é múltiplo, móvel e heterogêneo. Segundo ele, os seres se transformam, isto é, há movimento ou devir para todas as coisas. O devir é a mudança na forma da composição das coisas, na quantidade de raízes que formam um ser. Uma coisa composta de água e terra se transforma se nela entrar também o fogo como componente; uma coisa composta por fogo, água e ar se transforma se dela o ar se retirar, e assim por diante, sendo que a proporção com que cada raiz entra ou sai na composição de um ser, altera esse ser.
Conforme comenta Simplício, Física, 25.21, ao estabelecer suas raízes (princípios ou os quatro elementos corporais) que são eternos e que mudam aumentando e diminuindo mediante mistura e separação, Empédocles afirma que além deles, existem outros dois, pelos quais os primeiros são movidos:  o Amor (φίλία = philia) e o Ódio (νεϊκος = neikós), totalizando, assim, seis princípios para todas as coisas. (DK 31 A 28)

Conforme Aristóteles, Física, VIII, 1. 252 a 7 – Empédocles parece dizer que o poder e a força motriz, possuindo alternadamente o Amor e o Ódio, pertencem às mesmas coisas por necessidade, bem como o repouso no tempo intermediário. (DK 31 A 38)

A um dado momento, do Uno saiu o múltiplo; por divisão, fogo, água, terra e ar altaneiro; e o Uno se formou do múltiplo. Ódio, temível, de peso igual a cada um, e o amor entre eles.
                                    Simplício, Comentário da Física de Aristóteles

            Como médico, Empédocles também formulou uma teoria sobre a origem corporal do pensamento. Para ele, o pensamento e a ignorância seguem o mesmo princípio da semelhança e diferença. O semelhante conhece o semelhante e ignora ou desconhece o diferente. Assim, o que é mais misturado, isto é, o que contém todas as raízes e as várias combinações delas, deve ser o órgão do pensamento, pois senão este não poderia conhecer tantas coisas.

Segundo Teofrasto, Da Sensação, (1) Parmênides, Empédocles e Platão, atribuem a sensação ao semelhante, enquanto os da escola de Anaxágoras e de Heráclito atribuem-na ao contrário... (2) A respeito de cada uma delas em particular, os outros praticamente as negligenciaram; Empédocles, porém tenta referi-las à semelhança. (7) Empédocles fala de todos os sentidos de modo semelhante, afirmando que se tem sensação ao adaptarem-se os poros de cada sentido. Por isso um também não pode julgar os objetos do outro, porque de certo modo os poros de um são largos demais e os de outro, estreitos demais para as coisas percebidas, de maneira que os objetos sensíveis podem ter grande força (penetrando) sem tocar ou não podem absolutamente entrar. (8)[...] Na composição de partes iguais consiste a melhor mistura e a mais excelente visão. (9) A audição, segundo Empédocles, origina-se dos sons vindos de fora. Pois quando o homem é excitado pela voz, ela ressoa dentro dele. ... O olfato tem origem na respiração [...] Do mesmo modo Empédocles se exprime com relação à sabedoria e à ignorância. (10) A sabedoria seria própria dos semelhantes; a ignorância, dos dessemelhantes, de sorte que a sabedoria é para ele a mesma coisa que a sensação ou está muito próxima. [...] Por isso também conclui que é próprio sobretudo o pensar, pois sobretudo por ele é que se misturam os elementos das partes. (12) É assim que Empédocles admite que se produzem a sensação e o pensamento. (DK 31 A 86)

            Nietzsche, em sua obra O Nascimento da Filosofia na Época da Tragédia Grega, (PP. 113-121) nos fala sobre ele:

Empédocles é de família agonal; em Olímpia fez sensação. Apresentava-se vestido de púrpura, cingido de ouro, com sandálias de bronze nos pés e uma coroa délica na cabeça. Usava os cabelos longos; seu rosto era imutavelmente sombrio. Sempre se fazia acompanhar de servidores. Em sacrifício de vitória, ofereceu um touro feito de farinha e mel, para não infringir seus princípios. Tentou, evidentemente, converter os gregos à nova maneira de viver e filosofar dos pitagóricos; aparentemente, tratava-se apenas de uma reforma dos ritos sacrificiais. [...] Ele é o filósofo trágico, o contemporâneo de Ésquilo. O que mais surpreende nele é o seu extraordinário pessimismo, mas um pessimismo ativo e não quietista. Se suas opiniões políticas são democráticas, seu pensamento básico é levar os homens à “sociedade de amigos”, dos pitagóricos. Quer, pois, a reforma social e a abolição da propriedade. [...] É racionalista e, por essa razão, odiado pelos crentes. Sem contar que admite ainda todo o mundo dos deuses e dos demônios, em cuja realidade acredita tanto quanto na dos homens. [...] Nesse mundo de discórdia, de sofrimento e de conflito, ele só descobre um princípio que lhe garanta uma ordem do mundo inteiramente diferente: é Afrodite; todos a conhecem, mas não como princípio cósmico. [...] Ora, o verdadeiro pensamento de Empédocles é a unidade de tudo aquilo que se ama: há em todas as coisas um elemento que as impele a se misturar e a se unir, mas também uma força hostil que as separa brutalmente; esses dois instintos estão em luta. Essa luta produz todo o vir-a-ser e toda a destruição. É um castigo terrível estar sujeito ao ódio.

            Sobre sua morte, como registra Diógenes Laércio, existem muitas versões, inclusive uma em que, para demonstrar sua superioridade diante dos homens, considerando-se como um deus, teria se atirado no Etna. (DK31 A 1, 69)
            De sua obra Sobre a Natureza destacamos os seguintes fragmentos:

De Plutarco, Contra Colotes, 10 - Ainda outra coisa te direi. Não há nascimento para nenhuma das coisas mortais, como não há fim na morte funesta, mas somente composição e dissociação dos elementos compostos: nascimento não é mais do que um nome usado pelos homens. (DK 31 B 8)

De Aristóteles, Sobre Melisso, Xenófanes e Górgias, 2,6 - 975 b 1 – É impossível que algo possa ser gerado do que não é, e jamais se realizou nem se ouviu dizer que o que é seja exterminado; o que é, sempre estará lá, onde foi colocado por cada um. (DK 31 B 12)

Ibidem, 2,28 – No todo não há vazio. Donde poderia provir o que se lhe acrescentasse?  (DK 31 B 14)

De Simplício, Física, 157 – Duas coisas quero dizer; às vezes, do múltiplo cresce o uno para um único ser; outras, ao contrário, divide-se o uno na multiplicidade. Dupla é a gênese das coisas mortais, duplo também seu desaparecimento. Pois uma gera e destrói a união de todos (elementos); a outra, apenas surgida, se dissipa, quando aqueles (os elementos) se separam. E esta constante mudança jamais cessa: às vezes todas as coisas unem-se pelo amor, outras, separam-se novamente (os elementos) na discórdia do Ódio. Como a unidade aprendeu a nascer do múltiplo e, pela sua separação, constituir-se novamente em múltiplo, assim geram-se as coisas e a vida não lhes é imutável; na medida, contudo, em que a sua constante mudança não encontra termo, subsistem eternamente imóveis durante o ciclo.  Escuta as minhas palavras! Pois o estudo te fortalece o entendimento. Como já disse antes, ao expor o objetivo de minha doutrina, duas coisas quero anunciar. Às vezes, do múltiplo cresce o uno para um único ser; outras, ao contrário, divide-se o uno na multiplicidade: fogo e água e terra e do ar a infinita altura; e separado deles, o Ódio funesto, igualmente forte em toda parte, e o Amor entre eles, igual em comprimento e largura. Contempla-o com teu espírito, e não permaneças sentado, com olhos pasmos. A ele, julgam-no os mortais, enraizado em seus membros, e com ele nutrem pensamentos de amor e realizam obras de união; enlevo chamam-no Afrodite. E nenhum dos homens mortais sabe que ele se move circularmente entre eles (os elementos). Quando a ti, escuta a sequência sem equívocos de meu discurso. Pois todos aqueles (elementos e forças) são de igual força e idade quanto à sua origem, embora cada um deles tenha missões diversas, sua natureza particular, predominando, ora um, ora outro, no ciclo do tempo. Fora disto nada se acrescenta e nada deixa de existir. Pois tivessem perecido até seu termo, já não existiriam. E o que poderia aumentar este Todo e donde poderia vir? Como poderiam perecer, pois nada é deles vazio? Não, somente eles são, e circulando uns através dos outros, tornam-se ora isto, ora aquilo, e assim para sempre os mesmos. (DK 31 B 17)

            Conforme nos deixa registrado BORNHEIM (1998, p.67)[3] este fragmento, de número 17 é o que melhor permite compreender a doutrina de Empédocles, quando ele se refere ao processo de geração e corrupção, além das quatro raízes que compõem, através do Amor e do Ódio, todos os entes.

De Plutarco, Da Deficiência do Oráculo, 15 – Belo é dizer mesmo duas vezes o que é necessário (DK 31 B 25)

De Apolodoro, Sobre os Deuses, - Mas (o Sol) é concentrado e circula em volta do vasto céu. (DK 31 B 41)

De Plutarco, Da Face da Lua, 16, p. 929 c – E ela ( a Lua) interrompe os seus raios (do Sol), quando passa por ele, projetando sobre a Terra, tão larga quanto a lua de brilhantes olhos.

            De sua obra Purificações, destacamos o seguinte fragmento, que destaca sua arrogância para com os homens, aos quais oferece uma mensagem de teor moral. .

De Diógenes Laércio, Vida dos Filósofos Mais Ilustres, VIII, 62 – Amigos, que habitais a grande cidade, junto aos fulvos rochedos de Acragas, no alto da cidadela, amadores de nobres trabalhos, respeitáveis abrigos para os estrangeiros, homens inexperientes da maldade, eu vos saúdo! Eu, porém, caminho entre vós qual Deus imortal, e não mais como mortal, por todos honrado como me convém, coroado de guirlandas floridas. Desde minha entrada nas florescentes cidades, sou honrado por homens e mulheres; seguem-se aos milhares, a fim de saber qual o caminho da riqueza; uns necessitando oráculos; outros, feridos por atrozes dores, pedem uma palavra salvadora para as suas múltiplas doenças. (DK 31 B 112)



[1] Empédocles é considerado o criador da teoria cosmogênica que teve forte influencia no pensamento ocidental até meados do século XVIII.
[2] Neste fragmento Zeus é o fogo, Hera o Ar, Aidoneus a Terra e Néstis a Água.
[3] BORNHEIM, Gerd A. Os Filósofos Pré-Socráticos. São Paulo: Cultrix, 1998

domingo, 17 de abril de 2016

MELISSO

Melisso, em grego Μέλισσος, foi um militar, político, poeta e filósofo da escola eleata, que nasceu na ilha de Samos, no Mar Egeu, por volta do ano 470 a.C. Acredita-se que foi discípulo de Parmênides, assim como, seja o mesmo personagem que comandou a esquadra naval de Samos na batalha que derrotou os atenienses de Péricles em 442 a.C., como menciona Plutarco (DK 30 A 3), sendo esta, praticamente, a única ação que se sabe sobre sua vida, além de, como filósofo, ter atingido o apogeu de sua existência nos anos posteriores a esta batalha. Pela sua obra depreende-se que foi mais um polemista e defensor das ideias de Parmênides, principalmente a da imobilidade, colocando-se, desde logo, como antipitagórico e contra Empédocles (não se sabe, ao certo, como teria tomado contato com as doutrinas da escola ocidental). Tratou de ajustar os extremismos do eleatismo com a filosofia jônica, tornando-se responsável pela sistematização dessa doutrina, além de mudar alguns pontos de vista, e estabeleceu que o ser é infinito, tal como é infinito o tempo, ou seja eterno. Seu principal poema foi Sobre o Ser ou Sobre a Natureza, do qual se conservaram até nossos dias dez fragmentos. Simplício se referiu a um seu livro, denominando-o Tratado sobre a física ou do ente. Melisso morreu em data e lugar incertos.
Dos testemunhos que nos chegaram sobre ele, podemos ler, segundo os Diógenes Laércio em sua obra Vida dos Filósofos Mais Ilustres, IX, 24 que:

(1) Melisso, filho de Itágenes, era de Samos e discípulo de Parmênides, que tendo conhecido Heráclito o recomendou aos efesinos que não o conheciam, como Hipócrates fez conhecer Demócrito aos abderitas. Foi um homem muito político e civil, muito aceito e estimado por seus concidadãos e, ademais, havendo sido eleito general do mar, cresceram-lhe as honras por seu grande valor. (2) Tinha por opiniões que o universo é ilimitado, imutável, imóvel, uno, semelhante a si mesmo e cheio. Que não existe coisa segura sobre os deuses, posto que deles não temos conhecimento certo. Apolodoro diz que floresceu à época da LXXXIV (Octogésima quarta) Olimpíada. [ 444-441 a.C.] (DK 30 A 1)

Conforme Plutarco, referindo-se a Péricles:

...quando este se fez ao mar, Melisso, filho de Itagenes, um filósofo que detinha, por essa altura, o comando de Samos, por desprezo pelo pequeno número de barcos dos Atenienses ou pela inexperiência de seus comandantes, convenceu os sâmios a lançarem o ataque. Travou-se, então, um combate, de que os sâmios saíram vencedores. Fizeram um número tão elevado de prisioneiros e destruíram tantos navios, que se tornaram senhores do mar e destinaram, à continuação da guerra, uma determinada quantidade de provisões, como até então não haviam possuído. O próprio Péricles, no dizer de Aristóteles, havia sido também derrotado por Melisso numa anterior batalha naval. (DK 30 A 3)
Conforme Suida, Melisso viveu ao tempo de Zenão de Eléia e de Empédocles. Escreveu um livro Intorno all’essere. Foi adversário político de Péricles e em qualidade de estrategista de Samos combateu, conforme Sófocles, o poeta trágico, uma batalha naval na octogésima quarta olimpíada (444-441 a.C.). (DK 30 A 2)

            E dos fragmentos:

Conforme o fragmento 1,( de Simplício em Física. 162,24 – “Sempre era o que era e sempre há de ser. Pois se se gerou, necessário é que nada fosse antes de se ter gerado. Ora, se nada era, de modo algum podia o que quer que fosse nascer do nada”. ( DK 30 B 1)

De onde se conclui que, antes de Parmênides e da sua prova manifesta de que os sentidos eram completamente falazes, prova que, evidentemente, chocou os seus contemporâneos, para os quais os desvios do senso comum só podiam ser aceitos, quando as provas em seu abono fossem extremamente fortes, Melisso, tal qual Parmênides, começa a sua dedução das propriedades consequentes da existência com uma demonstração de que, se algo existe, não pode ter nascido. Argumentando que o nascer requer uma não-existência prévia, e que nada podia nascer do que não existe, permitindo-nos construir. também, uma prova isomórfica contra a destruição. Parmênides, contudo, havia obscuramente concluído que o que é nunca foi nem será, mas existe num eterno presente. Melisso rejeita firmemente esta conclusão: admitindo os tempos “era” e “será”, e atribui ao que é uma existência eterna mais facilmente inteligível.

Dos fragmentos 2, 3 e 4, obtidos de Simplício em Física. 109,20 – 110,3, - ( DK 30 B 2) Visto, pois, não ter sido gerado, mas é, sempre foi e sempre há de ser, e não tem princípio nem fim, mas é ilimitado. É que, se tivesse nascido, teria tido um começo (pois teria, em determinada altura, começado a existir) e um fim (pois teria, em determinada altura, deixado de existir). Mas como não teve começo nem fim, sempre foi e sempre há de ser e não tem princípio nem fim; pois o que não é todo não pode ser sempre. (DK 30 B 3) Mas, assim como é sempre, assim também deve ser sempre ilimitado em grandeza. (DK 30 B 4) Nada do que tem começo e fim é eterno ou ilimitado.

Melisso chega, assim, à conclusão, de que, por não ter princípio nem fim, o que é, é ilimitado em extensão espacial e eterno. Percebe-se, também, que ele pretendia, uma vez mais, partir das premissas de Parmênides para alcançar uma conclusão que redondamente contradiz as da Verdade: a linguagem, obscura de Parmênides sobre os limites é posta de parte, em prol da tese da extensão infinita, ao assumir que, se uma coisa tivesse de nascer, haveria uma parte dela a ser a primeira no tempo e que é (por isso) a pequena porção dela a ser a primeira na posição espacial, assim como uma outra parte que vem a ser a última no tempo, seria a última na posição espacial. A sua argumentação consiste, portanto, em que, visto o que é não poder começar ou acabar de existir, não pode ter tais primeiras e últimas partes e, consequentemente, é ilimitado em extensão, o que, para Aristóteles, Física A 3, 186 a 10, era um argumento falacioso, por pensar que tudo o que nasceu tem um princípio e o que não nasceu não tem, assim como tudo tem um começo , como se a mudança não pudesse ocorrer ao mesmo tempo. (DK 30 A 8)
Do fragmento 6 (DK 30 B 6) Simplício, De Caelo 557,14 –  Porque a existência do sensível resulta imediatamente evidente, e se o ser é uno, não poderá existir outro em função disso. De fato Melisso diz: “Pois se fosse infinito, seria uno; é que se fosse dois, os dois não poderiam ser infinitos, mas limitar-se-iam mutuamente.

            Neste fragmento, percebe-se que ele extrai uma conclusão monista de uma premissa (a extensão ilimitada).
No fragmento 7 onde ele trata do Uno, conforme Simplício, Física. 111,18 , 112,6 - podemos ler:

Melisso fala depois, concluindo o que dissera primeiro, passando deste modo ao tratamento do movimento: (1) Assim, pois, ele é eterno e ilimitado e uno e todo semelhante. (2) E nada poderá perder, nem tornar-se maior, nem reordenar-se, nem sente dor ou angústia; pois, se qualquer destas coisas o afetasse, deixaria de ser uno. É que, se se altera, força é que o que é não fosse semelhante, mas o que era antes pereça e o que é não chegue a ser. Com efeito, se chegasse a tornar-se diferente num só cabelo por um período de dez mil anos, pereceria inteiramente na totalidade do tempo. (3) Nem tampouco lhe é possível ser reordenado. É que a ordem (cosmos) que antes existia, não perece, nem nasce uma ordem que não existe. E visto nada ser acrescentado ou destruído ou alterado, como é que poderia ser reordenada uma coisa que é? Pois, se se tornasse diferente em qualquer aspecto, seria reordenada por este meio. (4) Nem sequer sente dor, já que não seria inteira se sentisse dores, porquanto uma coisa que sofre de dores não podia ser sempre; nem tem um poder igual ao do que tem saúde; nem seria semelhante, se tivesse dores, pois tê-las-ia em consequência de perder ou de lhe acrescentar alguma coisa. (5) E não mais seria semelhante. (6) Nem o que é saudável podia ter dores, pois nesse caso, o que é pereceria e o que não é havia de nascer. E o mesmo argumento se aplica tanto à angustia como ao sofrimento.  E nada disso está vazio, pois o que está vazio é nada. Ora, o que é nada não podia realmente existir. Nem se move, pois não se pode de modo algum deslocar, mas está cheio. É que se houvesse uma tal coisa assim vazia, havia de se deslocar para o que está vazio; mas como não existe tal coisa assim vazia, não tem para onde se deslocar. (8) O denso e o raro não podem existir, porque o que é raro não pode estar tão cheio como o que é denso, mas o que é raro torna-se, por isso mesmo, mais vazio do que é denso). (9) Este é o critério para distinguir o que está cheio do que não está: se algo se desloca ou se acomoda, não está cheio; mas se se não desloca nem se acomoda, está cheio (10) Portanto, força é que esteja cheio, se não está vazio. Ora, se está cheio, não se move. (DK 30 B 7)

            Percebe-se nestes argumentos, provavelmente inspirados em Xenófanes, que Melisso os utilizou de uma forma orientada para suas considerações sobre homogeneidades, apoiando-se na argumentação fundamental contra a geração e destruição e, melhorando extraordinariamente as observações de Parmênides sobre a mudança e o movimento, criando uma das noções clássicas do pensamento grego: “o vazio como pré-condição do movimento”, ponto de referência para os postulados desenvolvidos pelos atomistas.

De Simplício, De Caelo, 558,21 – (1) Este argumento é, pois, a maior prova de que só existe o uno; mas também o comprova o seguinte. (2) Se houvesse uma pluralidade, as coisas teriam que ser da mesma espécie da que eu afirmo ser a do uno. É que se existe terra e água, e ar e fogo, e ferro e ouro, e se um ser está vivo e o outro morto, e se algumas coisas são negras e brancas e existem realmente todas quantas os homens afirmam que existem – se isto assim é, e se a nossa vista e ouvido não nos enganam, força é que cada uma destas coisas seja tal como nós antes declaramos, e não podem mudar-se ou alterar-se, mas cada uma deve ser sempre precisamente como é. (3) Mas, na realidade, nós dizemos que vemos e ouvimos e compreendemos corretamente, e além disso acreditamos que o que está quente arrefece, e o que está frio aquece; o que é duro amolece, e o que é mole endurece; o que vive, morre, e que as coisas nascem do que não tem vida; e que todas as coisas se transformam, e o que elas eram e o que agora são não têm entre si qualquer semelhança. Acreditamos que o ferro, que é duro, se desgasta com o simples contato dos dedos, e o mesmo se passa com o ouro e a pedra e tudo o que supomos ser resistente; e que a terra e as rochas são feitas de água. Ora, estas coisas não concordam umas com as outras. (4) Dissemos nós que havia muitas coisas que eram eternas e que tinham formas e robustez que lhes eram próprias, e, contudo, imaginamos que todas elas sofrem alterações e que a cada instante se transformam do que vemos. (5) É evidente, pois, que, no fim das contas, não vemos bem, nem temos razão, quando acreditamos que todas estas coisas são muitas. Não se transformariam, se fossem reais, mas cada coisa seria precisamente o que nós acreditamos que é, já que nada é mais forte do que a verdadeira realidade.(6) Mas se se transformou, o que é pereceu e o que não é nasceu. Assim, pois, se houvesse uma pluralidade, as coisas teriam de ser precisamente da mesma natureza do uno. (DK 30 B 8)

É verdade que Melisso, no frag. 8, chamou a atenção para o fato de algumas coisas aparentemente “estáveis” realmente se transformarem: “o ferro é desgastado pela fricção do dedo, e assim por diante”. Esta observação ocorre num contexto que talvez tenha referências verbais a Heráclito. Contudo, não há qualquer motivo para pensar que Melisso quisesse dizer que a mudança devesse, neste caso, ser contínua, mesmo quando pudesse ser invisível. Todas as vezes que o dedo fricciona o ferro, tira dele uma porção invisível; no entanto, quando ele não o fricciona, que razão há para pensar que o ferro está ainda a transformar-se? O ponto de vista de Melisso é antes o de que as aparências mostram que todas as coisas, mesmo as aparentemente estáveis, estão sujeitas a mudanças. É isto precisamente o que Heráclito deve ter pensado; poderá ter ou não mencionado mudanças infravisíveis, mas em qualquer caso só as aceitaria, quando fossem deduzíveis – e a mudança contínua não é deduzível em muitos objetos aparentemente estáveis. O argumento de Melisso consistia, certamente, em que os sentidos devem ser falazes; pois entre Heráclito e ele próprio, tinha surgido Parmênides.
Assim, com Melisso, o eleatismo termina afirmando um ser eterno, infinito, uno, igual, imutável, imóvel, incorpóreo, que exclui qualquer possibilidade de um múltiplo, porque corta pela raiz qualquer pretensão de reconhecimento dos fenômenos.


sábado, 16 de abril de 2016

ZENÃO


Zenão, em grego Ζήνων, foi um filósofo pré-socrático que, segundo Apolodoro, nasceu em Eleia, hoje Vélia, na Itália, por volta do ano 490 a.C. tendo sua akmé, o seu apogeu, situado por volta da septuagésima nona Olimpíada, entre os anos 464 e 460 a.C. Filho de Teleutágoras, foi discípulo de Parmênides (DK 29 A 1), quarenta anos mais velho que ele[1], defendendo de modo apaixonado a doutrina de seu mestre, valendo-se, para isso, de um método particular, que consistia na elaboração de paradoxos onde, ao invés de refutar diretamente as teses que combatia, procurava mostrar os absurdos nos quais elas se amparavam. Procedia desta forma para mostrar que, fora do caminho intelectual, lógico e ontológico de Parmênides, não existe caminho, solução, conhecimento e que, somente o ser, em sua imobilidade perene, é.
Acredita-se que Zenão tenha criado cerca de quarenta destes paradoxos (DK 29 A 15), todos contra a multiplicidade, a divisibilidade e o movimento (que segundo a escola eleática e o pensamento de Parmênides, não seriam nada mais do que simples ilusões). Com isso, demonstrando que as teses adversárias conduziam a conclusões contraditórias e que, portanto, eram falsas, ele desenvolveu a arte da argumentação para a filosofia (utilizada até então apenas para a política) o que lhe valeu, na opinião de Aristóteles, o título de criador da dialética[2], no sentido negativo, ou seja, para provar o absurdo da tese contrária. Acredita-se que tenha conhecido Sócrates, quando este era jovem ainda.[3]
            Justamente por não pretender demonstrar a verdade de uma teoria, mas os absurdos das opiniões adversárias, sua argumentação era formada pelo que os gregos chamavam de aporia[4], uma palavra que representa uma dificuldade insolúvel.
Como discípulo de Parmênides, Zenão tornou-se um professor muito respeitado em sua cidade, e devido a isso, envolveu-se bastante com a política local, onde, juntamente com outros companheiros e conspiradores, tentou derrubar o tirano Nearco que governava a cidade, sendo preso e torturado até a morte, o que ocorreu por volta do ano 430 a.C. A partir de sua morte, tornou-se um herói para os gregos, deixando uma marca na lembrança de seus compatriotas contemporâneos e muitas lendas surgiram sobre as circunstâncias em que verdadeiramente tudo aconteceu. Em uma dessas versões, Zenão, ao ser torturado impiedosamente pelo tirano, em praça pública, e querendo este arrancar-lhe a todo custo a confissão dos nomes de seus companheiros conspiradores, teria primeiro delatado o nome de todos os amigos do tirano como sendo participantes ativos da rebelião (DK 29 A 1). Diz ainda a lenda, que Zenão, já todo ensanguentado, postou-se como se quisesse dizer ainda uma última coisa aos ouvidos do tirano, e quando este se aproximou, mordeu-lhe, então, a orelha, cerrando tão firmemente os dentes, que para soltá-los teve que ser trucidado pelos soldados, que o mataram ali naquele instante (DK 29 A 6). Tal história de bravura e coragem, teria se espalhado posteriormente entre os cidadãos de Eleia, que por fim reagindo contra a tirania, ergueram-se contra seu governante, e ganharam sua liberdade.
De sua doxografia, as citações de Aristóteles (Física, Refutações Sofísticas), de Platão (no diálogo Parmênides) de Simplício e de Diógenes Laércio que nos chegaram são as mais extensas, ressaltando-se que Aristóteles, como citado, toma, desde logo, uma posição crítica sobre os postulados defendidos por Zenão.
Sobre sua doutrina, Aristóteles, Metafísica, B 4, 1001 b 7 nos diz:

Um em si é indivisível, de acordo com a doutrina de Zenão, não é nada. (De fato, ele diz que aquilo que acrescentado ou tirado não torna uma coisa, respectivamente, maior ou menor não é ser, convicto de que o ser é uma grandeza. E se é uma grandeza, é corpóreo, pois o corpóreo existe em todas as dimensões. Os outros objetos matemáticos, ao contrário, se acrescentados de certo modo às coisas as tornam maiores, se de outro modo, não: do primeiro modo a superfície e a linha; do outro modo, o ponto e a unidade não aumentam em nada a coisa à qual se acrescentam)[5]. Posto que esse modo de raciocinar é grosseiro e que é possível existir algo indivisível, poder-se-ia objetar que o indivisível acrescentado a alguma coisa não aumenta seu tamanho, mas seu número. Mas então, como é que de Um desse tipo, ou de numerosos Um desse tipo poderá derivar a grandeza? De fato, essa afirmação é equivalente à que diz que a linha deriva de pontos. Por outro lado, mesmo sustentando, como alguns o fazem, que o número deriva do Um-em-si e de outro princípio que não é um, dever-se-á investigar por que e como o que dele deriva é às vezes um número e às vezes uma grandeza, dado que o não-um é a desigualdade e, portanto, o mesmo princípio num caso como no outro. De fato, não é claro como do Um e dessa desigualdade, ou de certo número e dessa desigualdade as grandezas podem ser geradas. (DK 29 A 21)

Em sua cosmologia, o pensamento de Zenão, aproxima-se das características atribuídas a Deus por Xenófanes (DK 21 A 28), o mestre de seu mestre Parmênides, onde os atributos de Deus são: a eternidade e a unidade, ser idêntico a si mesmo, esférico, nem limitado nem ilimitado, nem em repouso nem em movimento. Assim, seguindo o pensamento de Parmênides, que afirmava a unidade do Ser, Zenão concebeu contra a pluralidade os seguintes argumentos ou paradoxos:
(1) ”Se a pluralidade existe, as coisas serão ao mesmo tempo limitadas e infinitas em número”. – De fato, se há mais de uma coisa, vemos que entre a primeira e a segunda existe, então, uma terceira. Assim, entre a primeira e a terceira, existirá uma quarta; e assim, ao infinito. (2) ”Se a pluralidade existe, as coisas, ao mesmo tempo, serão infinitas em tamanho e não terão tamanho algum”. – Igualmente aqui, se duas coisas possuem cada uma sua espessura, e entre essas duas espessuras há uma terceira espessura, há que se concluir que entre a primeira espessura e essa terceira espessura, haverá também uma quarta espessura; e assim, até o infinito.

E dizer, enquanto infinito, o ser também é necessariamente uno, pois, com efeito, se fossem dois, não poderiam ser infinitos, já que um teria, obrigatoriamente, o seu limite estabelecido pelo outro.
Como Zenão acreditava que o movimento, tal como as mudanças e as transformações físicas, nada mais eram do que ilusões provocadas pelos nossos sentidos, para defender a proposta de que ele (o movimento) não existe, Zenão concebeu os seguintes argumentos ou paradoxos, aporias refutadas, posteriormente, por Aristóteles:

Paradoxo da dicotomia – Imagine um móvel que está no ponto A e quer atingir o ponto B. Este movimento é impossível, pois antes de atingir o ponto B, o móvel tem que atingir o meio do caminho entre A e B, isto é, um ponto C. Mas para atingir C, terá que primeiro atingir o meio do caminho entre A e C, isto é, um ponto D. E assim, ao infinito. Argumento refutado por Aristóteles, Física, VI, 9, 239 b 9 – Por isso o argumento de Zenão supõe, sem razão, que os infinitos não podem ser percorridos ou tocados sucessivamente num tempo finito. Com efeito, a extensão e o tempo, e em geral todo o conteúdo, chamam-se infinito em dois sentidos, seja em divisão, seja com relação aos extremos. Sem dúvida, os infinitos em quantidade não podem ser tocados num tempo finito; mas os infinitos em divisão, sim, uma vez que o próprio tempo também é infinito dessa maneira. Por conseguinte, é no tempo infinito e não no tempo finito que se pode percorrer o infinito, e, se se tocam infinitos, é por infinitos, não por finitos. – Tópicos, VII, 8. 160 b 7: Pois temos muitos argumentos contrários à opinião comum, como o de Zenão, que não admite mover-se ou atravessar o estádio. (DK 29 A 25)

Conforme Aristóteles, Física, VI, 9, 239 b 14 - Paradoxo de Aquiles – O segundo (argumento) é o que leva o nome de Aquiles. É o seguinte: o mais lento na corrida jamais será alcançado pelo mais rápido; pois o que persegue deve sempre começar por atingir o ponto donde partiu o que foge. É o mesmo argumento que o da dicotomia: a única diferença está em que, se a grandeza sucessivamente acrescentada é bem dividida, não o é mais em dois. (DK 29 A 26)

            Zenão, nestas aporias, coloca que, em ambas as situações acima descritas, como antes de alcançar o ponto A, é preciso ter alcançado antes o ponto B, situado na metade da distância, e antes dele o ponto C, igualmente situado na metade da distância do ponto B, e assim sucessivamente até o infinito, pode-se concluir que o movimento não se inicia, ou seja, o corredor não sai do lugar.

O terceiro argumento de Zenão, refutado por Aristóteles, Física, VI, 9, 239 b 30, o Paradoxo da flecha imóvel – pretende que a flecha, ao ser projetada, esteja em repouso. – É a consequência da suposição de que o tempo seja composto de instantes; se se recusa esta hipótese, não há mais o silogismo. Conforme 239 b 5: Zenão comete um paralogismo[6]: pois, se toda coisa – diz ele – está num dado momento em repouso ou em movimento (mas nada está em movimento) quando está num espaço igual a si mesmo, o que é projetado está sempre no momento presente (e toda coisa num lugar a si mesmo está no momento presente), a flecha projetada está sempre imóvel. (DK 29 A 27)

                        Conforme nos esclarece Marilena Chaui (2002, pg. 98; 488), nesta aporia Zenão coloca que, estando a flecha em permanente repouso, o movimento não é possível, uma vez que seria a somatória de vários repousos, ou seja, o argumento consiste em mostrar que a flecha possui um comprimento e que suas posições sucessivas não são pontos, mas linhas espaciais. No entanto, na perspectiva do tempo, são pontos temporais. Assim, a incompatibilidade entre espaço e tempo, novamente é posta para marcar a contradição do movimento. Móvel no espaço, a flecha estará imóvel no tempo; móvel no tempo, estará imóvel no espaço. Ela ressalta, ainda, que a dificuldade que temos para acompanhar o argumento de Zenão se dá pelo fato de que fomos habituados a pensar, anacronicamente, no espaço como um meio neutro, diferente do tempo, o que não era o caso dos gregos. Eles não falavam em espaço, mas em lugares, sendo o lugar idêntico ao corpo que o ocupa e se desloca com este corpo, de tal modo que o tempo de deslocamento e o lugar são uma e a mesma coisa.

O quarto argumento apresentado por Zenão, e refutado por Aristóteles, Física, VI, 9, 239 b 33, o Paradoxo do Estádio, trata de massas iguais que se movem em sentido contrário no estádio ao longo de outras massas iguais, umas a partir do fim do estádio, outras do meio, com velocidades iguais; a consequência pretendida é a de que metade do tempo seja igual a seu dobro. O paralogismo consiste em se pensar que uma grandeza igual, com velocidade igual, se movimente num tempo igual, tanto ao longo do que está em movimento como ao longo do que está em repouso. Mas isso é falso. (DK 29 A 28)

O sentido destas aporias, não significa que Zenão acreditasse que assim acontece, pois, o movimento se demonstra andando do ponto A até o ponto B, assim como se observa que a flecha lançada alcança o alvo, mas de explicar o movimento que, dentro das ideias do tempo, é impossível, necessitando, então, para ser compreendido ontologicamente, de uma outra ideia do ente, o que Platão e posteriormente Aristóteles iriam explicar.
Dos fragmentos compilados por Hermann Diels e Walter Kranz, listamos:

Simplício, Física, 140,34 - Se o que existe não tivesse grandeza não existiria. Mas se existe, cada (parte) terá necessariamente certa grandeza e certa espessura e uma deverá estar a certa distância de outra. E o mesmo pode ser dito para a que estiver frente a ela. Também esta terá grandeza e outra (parte) estará frente a ela. O mesmo se pode dizer uma vez e repeti-lo sempre. Pois nenhuma parte dele será o limite extremo, e nunca estará uma sem relação com a outra. Se, portanto, as coisas existem em multiplicidade, deverão ser concomitantemente grandes e pequenas: pequenas até não possuírem grandeza e grandes até o ilimitado. (DK 29 B 1).

Ibidem, 139,5 – Em seu livro, rico em demonstrações, mostra que quem admite a multiplicidade, cai em contradição. Uma destas demonstrações é a seguinte. Quer mostrar que, se há multiplicidade, esta deve ser grande e pequena, grande até o ilimitado, e pequena até o nada. E com isto tenta dizer que uma coisa, destituída de grandeza, de espessura e de massa, não poderia existir. Pois, se acrescentada a uma outra coisa (assim se expressa), não a aumentaria em nada. Porque se uma grandeza igual a nada for acrescentada (a uma outra), esta não poderia resultar aumentada. E o acrescentado seria (igual) a nada. Quando, ao contrário, pela subtração de uma grandeza de outra coisa, esta não se tornar menor, e, por outro lado, quando adicionada a outra coisa, esta não se tornar maior, faz-se evidente que o adicionado como o subtraído é nada. Zenão não dizer essas coisas com a intenção de negar o um, mas porque cada uma das muitas e infinitas coisas tem tamanho, porque na frente de qualquer parte é preciso levar em conta que há sempre algo mais, a razão pela qual sempre se pode dividir indefinidamente. Isto demonstra que, depois de se ter demonstrado pela primeira vez que nada tem magnitude, argumentando pelo fato de que cada um dos muitos é idêntica a si e é um. (DK 29 B 2)

Ibidem, 140,27 – Mas por que você deve falar tanto sobre isto, uma vez que está escrito em Zenão? Zenão, na verdade, provando, com um argumento adicional, que se as coisas são múltiplas, as mesmas coisas serão a um tempo finitas e infinitas, escreve no texto que: Se os seres são múltiplos, é necessário que eles sejam tantos quanto eles são, nem mais, nem menos. Agora, se eles são tantos quanto eles são, eles devem ser finitos. E se eles são múltiplos, os seres serão infinitos. De fato, entre um e outro desses seres haverá sempre uma metade de outros seres, e entre um e o outro destes haverá ainda outro. E assim os seres são infinitos. Desta forma Zenão demostra que a multiplicidade de coisas é infinita utilizando a dicotomia. (DK 29 B 3)

Diógenes Laércio, Vida dos Filósofos Mais Ilustres, IX, 72 – Enquanto Xenófanes, Zenão de Eleia e Demócrito, segundo o pirroniano são céticos. Zenão, de fato, nega o movimento, argumentando deste modo: O que se move, não se move no local onde está, senão para um lugar onde não está.  (DK 29 B 4)



Hegel, em sua obra Preleções sobre a História da Filosofia, pp 295 – 318, (apud SOUZA, 2000 pp. 144-156)[7] tece um interessante comentário sobre a figura de Zenão, que sintetizamos na sequência:

A filosofia pitagórica não possuía ainda a forma especulativa da expressão para o conceito. Números são o conceito, mas à maneira da representação, da intuição – diferenças expressas na forma do que é qualitativo e não como conceitos puros; uma mistura de ambos. A expressão do ser absoluto através daquilo que é um conceito puro, ou através de algo que é pensado e movimento do conceito ou do pensamento, é o seguinte elemento que veremos necessariamente surgir; e isto encontramos na Escola Eleática. Nela vemos o pensamento tornar-se ele mesmo livre para si mesmo – nisto que os eleatas enunciam como o ser absoluto, captando puramente para si o pensamento e o movimento do pensamento em conceitos. [...] A característica de Zenão é a dialética. Ele é o mestre da Escola Eleática; nela seu puro pensamento torna-se o movimento do conceito em si mesmo, a pura alma da ciência – é o iniciador da dialética. Pois até agora só vimos nos eleatas a proposição: “O nada não possui realidade, não é, e aquilo que é surgir e desaparecer cai fora”. Em Zenão, pelo contrário, também descobrimos tal afirmar e sobressumir daquilo que o contradiz, mas não o vemos, ao mesmo tempo, começar com esta afirmação; é a razão que realiza o começo – ela aponta, tranquila em si mesma, naquilo que é afirmado como sendo sua destruição. Parmênides afirmou: “O universo é imutável, pois na mudança seria posto o não-ser daquilo que é; mas somente é ser, no não-ser é se contradizem sujeito e predicado”. Zenão, pelo contrário, diz: “Afirmai vossa mudança: nela enquanto mudança, é o nada para ela, ou ela não é nada”. Nisto consistia o movimento determinado, pleno para aquela mudança; Zenão falou e voltou-se contra o movimento como tal ou puro movimento. [...] Vemos, em tal tipo de raciocínio, uma dialética que se pode denominar de raciocínio metafísico. O princípio da identidade lhe serve de fundamento: “O nada é igual ao nada, não passa para o ser, nem vice-versa; do igual, portanto, nada pode provir”. O ser, o um da Escola Eleática é apenas esta abstração, este afundar-se no abismo da identidade do entendimento. [...] Particularmente digno de nota é o fato de que, em Zenão, já há a consciência mais alta de que uma determinação é negada, de que esta negação mesma é novamente uma determinação, devendo então, na negação absoluta, não ser negada apenas uma determinação, mas ambas as negações se opõem. Antes é negado o movimento e a essência absoluta aparece como em repouso; ou é negado o movimento e a essência absoluta aparece como em repouso; ou é negada enquanto finita, e então é puramente infinita.[...] O elemento universal da dialética, a preposição universal da escola eleática foi, portanto: “O verdadeiro é apenas o um, todo o resto é não-verdadeiro”.[...] Pois Zenão e os Eleatas afirmaram sua proposição com a seguinte significação: “O mundo sensível é em si mesmo apenas mundo fenomenal, com suas formas infinitamente diversas – este lado não possui verdade em si mesmo”.



[1] Segundo Platão, sobre o encontro de Sócrates com Parmênides, Zenão presente, contava com quarenta anos e, neste caso, seria apenas vinte e cinco anos mais jovem que Parmênides.
[2] Segundo Hegel, a criação da dialética como arte de confrontar teses contrárias para provar que uma delas é falsa, coube a Heráclito e não a Zenão de Eleia, pelo que nós consideramos os dois como os criadores deste método, onde Zenão, diferentemente de Heráclito, valia-se da construção de argumentos sólidos.
[3] CHAUI, Marilena. Dos Pré-Socráticos a Aristóteles, V. 1, São Paulo: Cia das Letras, 2002, p.53
[4] Aporia é a palavra composta do prefixo negativo “a” e pelo substantivo poros (passagem, caminho), representando abrir o caminho, conduzir a algum lugar, significando, assim, a incapacidade de chegar a algum lugar, a incapacidade de deduzir ou concluir.
[5] Nova objeção contra a existência do Um em si – Aristóteles aduz aqui uma argumentação que Zenão utilizava contra a multiplicidade, mas que vale também contra o Um em si: Zenão não fala aqui sobretudo do ser único, mas, partindo da hipótese da multiplicidade, diz como deveria ser pensada cada uma das coisas múltiplas. Mas enquanto ele demonstra que toda coisa, para ser um, deveria ser também indivisível, a sua afirmação poderia ser aplicada também para o ser único: também este deve, para ser um, ser indivisível”. (REALE,Aristóteles, Met., Vol. III, 2002, pp. 141-142).
[6] Paralogismo (do grego antigo παραλογισμός, "reflexão", "raciocínio") é um raciocínio falaz, ou seja, falso, mas que tem aparência de verdade. 
[7] SOUZA, José Cavalcanti. Os Pré-Socráticos. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2000

sexta-feira, 15 de abril de 2016

PARMÊNIDES




Parmênides, em grego Παρμενίδης, nasceu em Eléia, hoje Vélia, na Itália, acredita-se que por volta de 530 a.C. No estudo de sua biografia constata-se que foi filho de Pireto e discípulo do pitagórico Ameinias (DK27,1) e que mostrava conhecer a doutrina pitagórica. Percebe-se em sua obra que, provavelmente, também seguiu as lições do velho Xenófanes e, em Atenas, com Zenão, combatia a filosofia dos jônicos. Ensinava que a essência profunda do ser era imutável e dizia que o movimento (a mudança) era um fenômeno de superfície.
            Essa linha de pensamento, que podemos chamar de metafísica não impediu que se desenvolvesse o conhecimento científico dos aspectos mais estáveis da realidade, prevalecendo ao longo da história, porque correspondia, nas sociedades divididas em classes, aos interesses das classes dominantes, chegando a tornar-se hegemônica, empurrando a dialética para um segundo plano.
            Estudar Parmênides, que seguramente influenciou todos os pensadores gregos, graças a seus princípios lógicos, os quais nos induzem a pensar que só devemos perseguir a verdade, fugindo das opiniões, continua, até hoje, sendo extremamente importante para todos aqueles que desejam aprofundar-se nos estudos de filosofia.
Ele escreveu um poema filosófico, em versos: Sobre a Natureza, obra que compreende um proêmio (preâmbulo), rico em metáforas, onde descreve uma experiência de ascese (renúncia ao prazer pessoal; penitência) e de revelação. Na primeira parte deste poema, Parmênides apresenta o conteúdo principal desta revelação, mostrando o que seria a via da verdade. Na segunda parte, ela caracteriza o que seria a “via da opinião”, destacando que, a distância fundamental entre os dois caminhos está em que, no primeiro (a via da verdade), o homem se deixa conduzir apenas pela razão e é, então, levado à evidencia de que “o que é, é – e não pode deixar de ser. No segundo caminho (o da opinião), pelo fato de se atentarem para os dados empíricos, as informações dos sentidos não chegariam à verdade (alethéia) e à certeza, permanecendo no nível instável das opiniões e das convenções de linguagem. Neste jogo metafórico, o caminho da verdade, da razão, é simbolizado pelo dia, onde a luz desnuda o mistério e, o caminho da opinião é simbolizado pela noite, cuja escuridão esconde a realidade e nos induz à imaginação.
Este poema que nos chegou graças ao resgate dos fragmentos de nove de seus doxógrafos[1], composto por 19 fragmentos reconhecidos e por outros 6, de caráter duvidoso ou falso, apoiado na edição realizada por Hermann Diels, Parmenides´ Lehgedicht,  und deustch (Berlim, 1897)  tem a seguinte tradução:
SOBRE A NATUREZA (DK 28 B 1-9)

Fragmento B 1, (DK 28 B 1) composto por 32 versos (linhas)
Fontes:
1-30     –          Sexto Empírico, Adversus mathematicos VII, 111
14        –          Proclo, In Parmenidem 640,39
28-32   –          Simplício, De caelo, 557,25 – 558,2
28-30   –          Diógenes Laércio, Vitae philosophorum, IX,22
29-30   –          Clemente de Alexandria, Stromateis V, IX 59,6
                        Plutarco, Adversus Colotem XIII, 1114 d-e
                        Proclo, In Timaeum, I 345, 15-16

1 -       Os corcéis que me transportam, tanto quanto o ânimo de impele,
2 -       conduzem-me, depois de me terem dirigido pelo caminho famoso
3-        da divindade[2], que leva o homem iluminado[3] por todas as cidades.
4 -       Por aí me levaram, por aí mesmo me levaram os habilíssimos corcéis,
5 -       puxando o carro, enquanto as jovens mostravam o caminho.
6 -       O eixo, porém nos meões[4], silvava como uma siringe[5],
7 -       incandescendo (ao ser movido pelas duas rodas que vertiginosamente
8 -       o impeliam de um e de outro lado), quando se apressaram
9 -       as jovens filhas do sol a levar-me, abandonando a região da Noite
10 -     para a luz, libertando com as mãos a cabeça dos véus que a escondiam.
11 -     Aí está o portal que separa os caminhos da Noite e do Dia,
12 -     encimado por um dintel[6] e um umbral de pedra;
13 -     o portal, etéreo, fechado por enormes batentes,
14 -     dos quais a Justiça[7] vingadora detém as chaves que os abrem e fecham.
15 -     A ela se dirigiram as jovens, com doces palavras,
16 -     persuadindo-a habilmente a erguer para elas
17 -     por um instante o ferrolho do portal. E ele abriu-se,
18 -     revelando um abismo hiante[8], enquanto fazia girar,
19 -     um atrás do outro, os estridentes gonzos[9] de bronze
20 -     fixados com pregos e cavilhas. Por aí, através do portal,
21 -     as jovens guiaram com celeridade o carro e os corcéis.
22 -     E a deusa[10] acolheu-me de bom grado, e em sua mão
23 -     minha mão direita tomou, e saudando-me com estas palavras proferiu:
24 -     “Ó jovem, acompanhado de aurigas[11] imortais,
25 -     que, com corcéis, chega até nós transportado,
26 -     Salve! Não foi nenhuma moira[12] ruim que te induziu a viajar
27 -     por este caminho, tão apartado dos homens
28 -     mas a Themis[13] e a Justiça. Terás, pois, de tudo aprender:
29 -     tanto do intrépido[14] coração da Verdade persuasiva
30 -     quanto das opiniões de mortais em que não há fé verdadeira.
31 -     Contudo, aprenderás: como as aparências
32 -     têm de patentemente ser, passando todas através de tudo”


Fragmento B 2, (DK 28 B 2)  composto por 8 versos
Fontes:
1-6, 7-8           Proclo, In Timaeum I 345. 18-24, 26-27
3-8                  Simplício, Physica 116.28 – 117.1
3-6                  Proclo, In Parmenidem 1078

1 -       Pois bem, vou dizer-te, e tu, presta a atenção ouvindo a palavra
2 -       quais os únicos caminhos de investigação que há para pensar:
3 -       um para o que é e, como tal, não é para não ser
4 -       é o caminho de persuasão – pois segue pela Verdade –
5 -       outro, para o que não é e, como tal, é preciso não ser,
6 -       esta via, indico-te que é uma trilha inteiramente inviável;
7 -       pois nem mesmo se reconheceria o não ente, pois não é realizável,
8 -       nem tampouco se mostraria...


Fragmento B 3, (DK 28 B 3) composto por apenas 1 verso
Fontes:
Clemente de Alexandria, Stromateis, VI, II 440,12
Proclo, In Parmenidem 1152

1 –      ...pois o mesmo é a pensar e também ser

Fragmento B 4, (DK 28 B4) composto por 4 versos
Fontes:
1 – 4    Clemente de Alexandria, Stromateis, V, 15 (335,25-28)
1          Proclo, In Parmenidem 1152,37

1 -       Vê como o ausente é, no entanto, presente firmemente em pensamento
2 -       pois este não apartará o próprio ente do manter-se ente
3 -       nem se dispersando de toda forma todo pelo mundo
4 -       nem se concentrando
Fragmento B 5,[15] (DK 28 B 5) composto por 2 versos
Fonte:
Proclo, In Parmenidem, 708,16

                                                           Comum[16], porém, é para mim.
            De onde começarei; pois lá mesmo chegarei de volta outra vez.

Fragmento B 6, (DK 28 B 6)  composto por 9 versos
Fontes:
1 -2      Simplício, Physica 117,2

1 -       É preciso que o dizer e pensar que sejam; pois podem ser
2 -       enquanto nada não é: nisto te indico que reflitas.
3 -       Pois [___][17] desta primeira via de investigação
4 -       Em seguida daquela em que os mortais que nada sabem
5 -       vagueiam, com duas cabeças: pois  despreparo guia em frente
6 -       em seus peitos um espírito errante; eles são levados,
7 -       tão surdos como cegos, estupefatos, hordas indecisas,
8 -       para os quais o existir e não ser valem o mesmo
9 -       e o não mesmo, de todos o caminho é de ida e volta

Fragmento B 7, (DK 28 B 7) composto por 6 versos
Fontes:
1-2       Platão, Sophistes, 237 a 8-9; 258 d, 2-3
1              Aristóteles, Metaphysica, 1089 a 4
2-6       Sexto Empírico, Adversus mathematicos VII 111; 114
2              Simplício, Physica 78.6 : 650,13
3              Diógenes Laércio, Vitae philosophorum IX 22

1 -       Pois nunca isto será demonstrado: que são coisas que não são;
2 -       mas afasta o pensamento desta via de investigação
3 -       nem o hábito multitudinário ao longo desta via te force
4 -       a vagar o olhar sem escopo, e ressoar ouvido
5 -       e língua, mas discerne pela palavra a litigiosa contenda
6 -       por mim proferida


Fragmento B 8, (DK 28 B 8) composto por 61 versos
Fontes:
todos os citados, e, particularmente

Simplício, Physica, 114,29 , De Caelo 557,18
Platão, Sophistes, 237 A (versos 7, 1-2) Teeteto, 180e 1
Sexto Empírico, VII, 114 (versos 7,3-6)
Clemente de Alexandria, Stromateis, V, XIV (II 402,8-9)
Plutarco, Adversus Colotem, XIII, 114c
Proclo, In Parmenidem 665,25-16; 1152,27;

1 -       Ainda um só mito[18] resta do caminho:
2 -       que é, sobre este há bem muitos sinais:
3 -       que sendo ingênito também é imperecível.
4 -       Pois é todo único[19] como intrépido e sem meta
5 -       nem nunca era nem será, pois é todo junto agora.
6 -       uno, contínuo; pois que origem sua buscarias?
7 -       Por onde, de onde se distenderia? Não permitirei que tu
8 -       digas nem penses que do não ente: pois não é dizível nem pensável
9 -       que seja enquanto não é. E que Necessidade o teria impelido,
10 -     depois ou antes, a desabrochar começando do nada?
11 -     Assim, ou é necessário existir totalmente ou de modo algum.
12 -     Tampouco que do ente, nunca força de Fé permitirá
13 -     surgir algo para além do mesmo; por isso Justiça nem vir a ser
14 -     nem sucumbir deixa, afrouxando amarras,
15 -     mas mantém; a decisão sobre tais está nisto:
16 -     é ou não é. Mas já está decidido, por Necessidade.
17 -     qual deixar como impensável e inominado – pois é um caminho
18 -     não verdadeiro – e qual há de existir e ser autêntico.
19 -     Como existiria depois, o que é? Como teria surgido?
20 -     Pois, se surgiu, não é, nem há de ser algum dia.
21 -     Assim origem se apaga como o insondável ocaso.
22 -     Nem é divisível, pois é todo equivalente:
23 -     nem algo maior lá, que o impeça de ser contínuo
24 -     nem algo menor, mas é todo pleno do que é.
25 -     Por isso, é todo contínuo: pois ente a ente cerca.
26 -     Além disso, imóvel, nos limites de grandes amarras,
27 -     fica sem começo, sem parada, já que origem e ocaso
28 -     muito longe se extraviaram, rechaçou-os Fé verdadeira.
29 -     O mesmo no mesmo ficando, sobre si mesmo pousando,
30 -     e assim, aí fica firme, pois poderosa Necessidade
31 -     mantém nas amarras do limite, cercando-o por todos os lados,
32 -     porque é norma o ente não ser inacabado.
33 -     Pois é não carente, não sendo, careceria de tudo.
34 -     O mesmo é o que é a pensar e o pensamento de que é.
35 -     Pois sem o ente, no qual está apalavrado,
36 -     não encontrarás o pensar. Pois nenhum outro nem é
37 -     nem será além do ente, pois que Moira já o prendeu
38 -     para ser todo imóvel; assim será nome tudo
39 -     quanto os mortais instituíram persuadidos de ser verdadeiro,
40 -     surgir e também sucumbir, ser e também não,
41 -     mudar de lugar e variar pela superfície aparente.
42 -     Além disso, por um limite extremo, é completado
43 -     por todo lado, semelhante à massa de esfera bem redonda,
44 -     do centro por toda parte igualmente tenso, pois nem algo maior,
45 -     nem algo menor é preciso existir aqui ou ali.
46 -     Pois nem há não ente, que o impeça de alcançar
47 -     o mesmo, nem há ente o qual estivesse sendo
48 -     aqui mais ali menos, já que é todo inviolável.
49 -     pois de todo lado igual a si, se estende nos limites por igual,
50 -     Aqui cesso para ti um discurso fiável e um pensamento.
51 -     acerca da Verdade; e a partir daqui apreende opiniões
52 -     de mortais, ouvindo o mundo enganoso de minhas palavras.
53 -     Pois estabeleceram duas perspectivas de nomear formas,
54 -     das quais uma não é preciso, no que estão errantes.
55 -     Em contrários cindiram os corpos e puseram sinais
56 -     separados uns dos outros: de um lado fogo etéreo da chama,
57 -     tênue, muito leve, o mesmo que si mesmo em toda parte,
58 -     mas não o mesmo que o outro, oposto ao que é por si mesmo
59 -     os contrários, noite sem brilho, compacto denso e pesado.
60 -     Eu te falo esta ordenação de mundo, verossímil em todos os pontos
61 -     para que nunca nenhum dos mortais te supere em perspectiva


Fragmento B 9, (DK 28 B 9) composto por 4 versos
Fontes:
Simplício, Physica 180.9-12

1 -       Todavia, desde que tudo foi nomeado Luz e Noite
2 -       em face disto e daquilo segundo as suas forças,
3 -       tudo está cheio ao mesmo tempo de Luz e de Noite escura
4 -       ambos iguais pois que nada leva a nenhum dos dois


Fragmento B 10, (DK 28 B 10) composto de 7 versos
Fontes:
Clemente de Alexandria, Stromateis, V, 14 (II 419,14-20)

1 -       E conhecerás a natureza do Éter e no éter de todos os
2 -       sinais e dos raios da pura lâmpada do sol
3 -       as obras destruidoras, e de onde nascem,
4 -       e conhecerás as obras que rodam em torno da lua de olho redondo
5 -       e sua natureza, e saberás do céu que os tem à volta
6 -       e de onde nasce, e como guiando-o a Necessidade o obriga
7 -       a conter os limites dos astros
Fragmento B 11, (DK 28 B 11) composto de 4 versos
Fontes:
Simplício, De caelo, 559,22-25

1 -       ... como a terra e o sol e a lua
2 -       e o éter que a tudo é comum e a Via Láctea e o Olimpo
3 -       extremo e ainda força quente dos astros impeliram-se
4 -       para vir a ser


Fragmento B 12, (DK 28 B 12) composto de 6 versos
Fontes:
1 – 3    Simplício, Physica 39, 14-16
2 – 6    Simplício, Physica 31, 13-17

1 -       Umas são mais estreitas, repletas de fogo e sem mistura,
2 -       outras, face àquelas, de noite; ao lado jorra uma parte de chama;
3 -       no meio destas está uma divindade, que tudo dirige:
4 -       pois em tudo comanda o parto doloroso e a mistura
5 -       enviando a fêmea para unir-se ao macho, e ao contrário
6 -       o macho à fêmea.


Fragmento B 13, (DK 28 B 13) composto por apenas 1 verso
Fontes:
Aristóteles, Methaphysica, 984 b6-26-27
Platão, Symposium, 178b11
Plutarco, Amatorius, 13, 756f
Sexto Empírico, Adversus mathematicos, IX 9
Simplício, Physica, 39.18

1 -       Primeiro que todos os deuses, concebeu Eros


Fragmento B 14, (DK 28 B 14) composto por apenas 1 verso
Fonte:
Plutarco, Adversus Colotem, XV, 1116ª

1 -       Facho noturno, em torno à terra, alumiado a uma alheia luz

Fragmento B 15, (DK 28 B 15) composto por 1 verso
Fonte:
Plutarco, De facie quae in orbe lunae apparet, 16. 929b
Plutarco, Questiones romanae, 76, 282b

1 -       Sempre à espreita dos raios do sol[20]
Fragmento B 15a, (DK 28 B 15 a) composto por 1 verso

1 -       Radicada na água[21]


Fragmento B 16, (DK 28 B 16) composto por 4 versos
Fontes:
Aristóteles, Metaphysica, 1009 b22-25

1 -       Pois, tal como cada um tem mistura nos membros errantes,
2 -       assim aos homens chega o pensamento; pois o mesmo
3 -       é o que nos homens pensa, a natureza dos membros,
4 -       em cada um e em todos; pois o pleno é o pensamento.


Fragmento B 17, (DK 28 B 17) composto por 1 verso
Fonte:
Galeno, in Hippocratis libros Epidemiarum, in librun VI commentarius 2 (XVII, 1002)

1 -       à direita os machos, à esquerda as fêmeas


Fragmento B 18, (DK 28 B 18) composto por 6 versos
Fontes:
Cáelius Aurelianus, Tardarum vel chronicarum passionum, IV 9. 134-135

1 -       Quando a mulher e o homem misturam juntos as sementes de Vênus
2 -       a força que se forma nas veias a partir de sangues diversos
3 -       mantendo o equilíbrio, gera corpos bem formados.
4 -       Se, contudo, misturados os sêmens, as forças se opõem,
5 -       e não fazem unidade, misturados no corpo, cruéis
6 -       atormentam o sexo da criança com o duplo sêmen.



Fragmento B 19, (DK 28 B 19) composto por 3 versos
Fontes:
Simplício, De caelo, 558.9-11

1 -       Assim, segundo a opinião, as coisas nasceram e agora são
2 -       e depois crescerão e hão de ter fim
3 -       A essas coisas puseram um nome que cada uma distingue.

  
Fragmentos Duvidosos ou Falsos

Embora os fragmentos duvidosos ou falsos de Parmênides raramente sejam editados, consideramos importante o vislumbre destes, com o objetivo de contribuir para que se alcance um trabalho crítico da coleta dos fragmentos dos primeiros filósofos. Este trabalho de recomposição do poema de Parmênides, que começou no século XVI, com a edição de Henri Estienne, ganhando posteriormente sucessivas contribuições, passa pela coleta e triagem de todas as citações do filósofo nos autores antigos. Os fragmentos foram coletados, principalmente, a partir de passagens em que o doxógrafo atribui a autoria da citação ao filósofo, ou em outras vezes em que o trecho citado aparece apenas como “o poeta”. Ocorre que, muitos fragmentos são considerados como engano, dada a confusão que se fez ao analisá-los, com a dramatização de Platão, de Empédocles ou com o trabalho do historiador Armênides. Assim, consideramos o fragmento como sendo de Parmênides sempre que não conseguimos refutar sua autoria e o consideramos duvidosos, ou até mesmo falsos, quando conseguimos estabelecer uma razoável possibilidade de não ser sua a autoria, o que não invalida considerá-los para efeitos de estudos, face a sua importância filosófica e literária, como é o caso do fragmento XX.


Fragmento B 20 [22]
Fonte:
Hipólito, Refutatio Omnium Haeresium, v 8, 97.2

            Mas debaixo dela há um caminho aterrador,
            Encavado, lamacento; mas o melhor a conduzir
            Ao prado fascinante da venerável Afrodite[23]


Fragmento B 21
Fonte:
Aécio. De Placitis Reliquae, II 30.4 (361b24)

            Furta-brilho [24]


Fragmento B 22
Fonte:
Platão, Parmênides, 135 a

            Espantosamente difícil de dissuadir

Fragmento B 23
Fonte:
Suídas, M.58

            Ilha dos bem-aventurados: como antigamente chamavam a cidade alta dos tebanos na Beócia. [25]


Fragmento B 24
Fonte:
Suetônio, Fragmentae 417 (Miller), 4.31-37  (Taillardat)

            Os Telquines[26] surgiram dos cães de Acteon que por Zeus foram transformados em homens.[27]


Fragmento B 25
Fontes:
Estobeu, Eclogae, I 15.2 (W. 144,19)

            Mas o por toda parte igual a si mesmo e totalmente infinito,
            Esfero[28] redondo, em solidão circunda gaudério.[29]


Na análise do conjunto de sua obra, é tentador pensar que, uma vez introduzido por Parmênides, o hábito de expor argumentos teria se imposto consequentemente a todos os pensadores; talvez por essa razão os filósofos de tradição analítica estimam na maioria dos casos que Heráclito, na medida em que parece ignorar a necessidade de argumentação, teria vivido antes de Parmênides.
            Para muitos intérpretes, com Parmênides teria nascido o que conhecemos como ontologia (conhecimento do ser).
            Ele teria, pela primeira vez, formulado os dois princípios lógicos fundamentais de todo o pensamento: o princípio de identidade, o ser é o ser, e o princípio de não contradição, se o ser é, o seu contrário, não ser, não é.
            Em outros termos, se o ser é e pode ser pensado e dito, então o ser é ele mesmo, idêntico a si mesmo e será impossível que seu negativo, o nada ou não ser, também seja e também possa ser pensado e dito.

TESTEMUNHOS:

DK 28 A 24 – ARISTÓTELES, Metafísica, I, 5. 986 b 18

            Parmênides parece ter entendido o Um segundo a forma (katà tòn lógon), enquanto Melisso, à unidade material ( katà tèn húlen). Ibid. b 27: Parmênides parece, neste ponto, raciocinar com mais penetração. Julgando que fora do ser o não-ser nada é, forçosamente admite que só uma coisa é, a saber, o ser, e nenhuma outra... Mas, constrangido a seguir o real (tois phainoménois), admitindo ao mesmo tempo a unidade formal (katà tòn lógon) e a pluralidade sensível (katà tèn áistesin), estabelece duas causas e dois princípios: quente e frio, vale dizer, Fogo e Terra. Destes (dois princípios) ela ordena um (o quente) ao ser, o outro ao não-ser. Ibid., III, 5. 1010 a 1: Examinando a verdade nos seres, como seres admitia só as coisas sensíveis.

DK 28 A 25 – ARISTÓTELES, Do Céu, III, 1. 298 b 14

            Uns negam absolutamente geração e corrupção, pois nenhum dos seres nasce ou perece, a não ser em aparência para nós. Tal é a doutrina na escola de Melisso e de Parmênides, doutrina que, por excelente que seja, não pode ser tida como fundada sobre a natureza das coisas. Pois, se existem seres engendrados e absolutamente imóveis, pertencem mais a ciência outra que não à da natureza, e anterior a ela.

DK 28 A 26 – PLATÃO, Teeteto, 181 a

            Mas se os partidários do imobilismo do todo nos parecem dizer mais a verdade, havemos de procurar junto deles nosso refúgio contra os que fazem mover-se o imóvel. – Sexto Empírico, Contra os Matemáticos, X, 46.: (O movimento) não existe segundo os filósofos da escola de Parmênides e de Melisso. Aristóteles, num de seus diálogos relacionados à posição de Platão, os chama de imobilistas e não físicos; imobilistas porque são partidários da imobilidade; e não físicos porque a natureza é o princípio de movimento, que eles negam, afirmando que nada se move.

DK 28 A 28 – SIMPLÍCIO, Fisica, 115, 11

            Segundo Alexandre, Teofrasto, no primeiro livro de sua Física, relata assim o raciocínio de Parmênides: “O que está fora do ser não é ser; o não ser é nada; o ser, portanto, é um”. E Eudemo (conta) da seguinte forma: O que está fora do ser não é ser; e só de uma maneira se chama o ser; um, portanto, é o ser”. Se Eudemo escrever isso em alguma outra parte com tanta sabedoria, não sei dizer. Mas nos Físicos, a respeito de Parmênides, escreveu o seguinte, donde é igualmente possível deduzir o que foi dito: “Parmênides não parece demonstrar que um é o ser, nem se alguém com ele concordaria em chamar o ser de uma forma, a não ser o que foi revelado nele de cada um como o homem dentre os homens”.

DK 28 A 46 – TEOFRASTO, Da Sensação, 1 ss.

            A respeito da sensação, as numerosas opiniões em geral se reduzem a duas: uns com efeito, atribuem-na ao semelhante; outros, ao contrário. Parmênides, Empédocles e Platão (atribuem-na) ao semelhante, e os da escola de Anaxágoras e Heráclito, ao contrário... (3) Parmênides não definiu absolutamente nada, apenas afirmou que, por haver só dois elementos, do predomínio de um sobre o outro depende o conhecimento...

                                                                                           
Enquanto o orgulho e a majestade da verdade, mas da verdade a verdade apreendida pela intuição, não aquela escalada com a escada de corda lógica, é proferida em cada palavra de Heráclito, enquanto observa em um êxtase sibílico, mas sem espreitar, enquanto conhece, mas não calcula, o contemporâneo Parmênides se lhe é posto ao lado como par complementar; da mesma forma, ele possui o tipo do profeta da verdade, porém esculpido em gelo, e não em fogo, e uma luz fria e ofuscante dele emana. Parmênides teve, certa vez, provavelmente apenas em idade avançada, um momento da mais pura, serena e totalmente exangue abstração; esse momento – sem dúvida o menos grego nos dois séculos da era trágica -, cujo produto é a doutrina do ser, tornou-se um marco divisório para sua própria vida e separava-a em dois períodos: simultaneamente, o mesmo divide o pensamento pré-socrático em duas metades, a primeira das quais pode ser chamada de anaximândrica, e a segunda, de parmenídica.
                                (NIETZSCHE,  2013 , pg 48)                                  




Referências Bibliográficas:


BORNHEIM, Gerd A. (Org). Os Filósofos Pré Socráticos. 3 ed. São Paulo: Cultrix, 2000
DIELS, Hermann. Die Fragmente Der Vorsokratiker. Berlim: Weidmannsche Buchhandlung, 1903
Property of the University of Michigan Libraries
NIETZSCHE, Friedrich. Obras Escolhidas. A Filosofia Na Era Trágica dos Gregos. Trad. Gabriel Valadão Silva. Porto Alegre: LP&M, 2013
OROSCO, José Carlos. Euskadi. São Paulo: Editora Jasa, 2013
PARMÊNIDES. Da Natureza. Trad. José Trindade dos Santos. 3 Ed. São Paulo: Loyola, 2013
SANTORO, Fernando. O Poema de Parmênides. Da Natureza. Rio de Janeiro: Laboratório OUSIA, UFRJ, s/d
SOUZA, José Cavalcante de (Org). Os Pré-Socráticos. Fragmentos, doxografia e Comentários. São Paulo: Nova Cultural, 2000. Coleção os Pensadores



[1] Sexto Empírico, Simplício, Proclo, Clemente de Alexandria, Platão, Plutarco, Aristóteles, Galeno e Célio Aureliano.
[2] Em grego daimones, são divindades de intermediação acessíveis aos homens, através dos quais os humanos podem acender a um plano divino.
[3] O iluminado, Eidota phôta, formado pelo particípio do verbo eido, saber; o que viu, ao qual Parmênides acrescenta o objeto phôta, as luzes
[4] Cubos de roda
[5] Flauta
[6] pórtico
[7] Diké, a Justiça, é quem indica o caminho da verdade
[8] escancarado
[9] dobradiças
[10] Heidegger propunha que esta deusa seria a própria Verdade, Aletheia, mas é significativo o fato de restar inominada, pelo que a trataremos como Deusa inominada.
[11] cocheiros
[12] Destino
[13] Norma, aquela que impõe o que deve ser; a lei divina
[14]Paráfrase texto Sexto Empírico § 111; – destemido
[15] A posição deste fragmento varia segundo o editor. O próprio Diels antes de posicioná-lo como quinto, o colocara em terceiro. De fato, ele refere-se à indiferença de começar por um ou por outro dos dois caminhos. Se os dois caminhos são convergentes e tendem ao encontro, é que, no fundo, trata-se de um único caminho circular em que, de qualquer ponto, de um ponto comum, saem dois caminhos de sentido inverso e ambos retornam ao mesmo lugar.
[16] Xynon é um adjetivo que denota continuidade e meio comum
[17] [te afasto]
[18] Mithós, narrativa de caráter simbólico-imagético
[19] Todo único, Simplício; único de um só gênero, Clemente de Alexandria; íntegro, Plutarco
[20] Parmênides refere-se aqui à Lua
[21] Parmênides diz que a terra tem raízes na água
[22] Hipólito atribui estes versos ao Poeta, simplesmente, que pode ser Parmênides ou Empédocles, até mesmo Orfeu, pelo que Diels o considera duvidoso, conforme DK 31 B 66.
[23] O contexto trata dos mistérios eleusinos, citando as deusas Perséfone e Afrodite.
[24] Literalmente: brilho enganoso, extraída da coleção de Aécio das citações de físicos acerca dos reflexos da lua, pouco acima da referência a Parmênides. O adjetivo era usado por Anaxágoras para referir-se ao astro.
[25] A frase é claramente de um historiador. Diels sugere, em vez de Parmênides, o nome de Armênidas, que se aproxima do assunto, conforme o escólio (breve citação, comentário) da Argonáutica de Apolônio de Rodes (1.551) e a citação idêntica do Léxico de Fócio.
[26] Os Telquines são numes (divindades) anfíbios, propícios a metamorfoses, ora em peixes ora em humanos, filhos de Pontos (o Mar), da região de Rodes, Creta, Ceos e Chipre. Assim, também eram chamados os invejosos, os acusadores, fato citado no Peri Blasphemion de Suetôno, uma listagem de vitupérios (insultos) gregos..
[27] Diels corrige a procedência da citação, atribuindo-a a Armênidas e, na edição de Taillardat do Sobre as Blasfêmias de Suetônio, esta já consta no lugar
[28] Sphaiîros, outro adjetivo transformado em nome de um nume (divindade)
[29] Vadio, malandro