quinta-feira, 29 de março de 2018

PRÓDICO



                Pródico ( em grego Πρόδικος ) foi um filósofo grego do primeiro movimento sofista, oriundo do povoado de Yulis, na ilha de Ceos, localizada no do arquipélago das Cíclades, no Mar Egeu, que viveu aproximadamente entre os anos 465 e 395 a.C., conhecido como o “precursor de Sócrates”.
            Por sua capacidade intelectual, foi indicado como embaixador de Ceos em Atenas onde, com sua habilidade na arte de falar, inventando a tática da sinonímia na elaboração de discursos, tornou-se conhecido como orador e professor. Do mesmo modo que seu mestre, Protágoras de Abdera, percorreu várias cidades gregas e tornou-se mestre de muitos sofistas almejando treinar seus pupilos para assuntos domésticos e civis; mas diferentemente de Protágoras que focalizava seu ensino principalmente em disciplinas como retórica e estilo, Pródico fazia da ética a disciplina proeminente em seu currículo. E em ética ele era um pessimista. Embora tenha dispensado seus deveres civis a despeito de um físico frágil, ele enfatizava as dores da vida e advogava, contudo, não por uma resignação desesperançosa, mas, antes disso, pela cura encontrada no trabalho, tomando como modelo Hércules - a incorporação da atividade viril.
            Pródico estabeleceu a base para uma teoria naturalista da religião, dizendo que cada cultura deifica aquilo que lhe é mais útil da natureza, motivo pelo qual foi considerado por muitos como um dos primeiros ateus, ao afirmar que a alma era o resultado da organização. Dedicou parte de seus estudos à linguagem, mostrando-se especialmente preocupado pela correta e precisa utilização dos termos e na diferenciação entre palavras aparentemente sinônimas.  Em seu modelo de ética, ele colocava em jogo os tipos de vida; a do vício, dedicada ao ócio e aos prazeres, e a da virtude, austera, esforçada e sensível, elegendo esta última, pois para ele, a primeira daria um prazer que não o era realmente, satisfazendo as necessidades quando ainda não existem. Sua visão a respeito da origem da crença nos deuses era notavelmente moderna para a época. Ele propunha que o homem primeiro adorava as grandes forças que beneficiavam a humanidade (comparando a adoração do rio  Nilo), e após este estágio inicial, os homens que haviam realizado proezas e serviços para a humanidade eram deificados. Contudo, Pródico não deveria ser considerado como um  ateísta, propriamente dito, pois, mesmo o panteísta Zenão resguardava boa opinião sobre ele.
Pródico morreu em sua cidade natal, ou, conforme a Suda, em Atenas, condenado a tomar a cicuta por corromper os jovens, e suas obras fizeram partes distintas de um único escrito. Além das Epideixeis, sua obra-prima intitulou-se Horai, um enigmático título traduzido por As Horas ou As Estações, composta por uma seção intitulada Da Natureza, a qual, por sua vez, dividia-se em duas partes, uma Da Natureza do Homem, incluindo uma fábula sobre Héracles. Essa fábula foi contada por Xenofonte, não nos seus termos exatos, mas no seu conteúdo, e cujo tema principal é o confronto entre a Excelência, a Areté, e a Maldade, Kakía, colocando um jovem perante um problema de escolha. Sua obra, essencialmente civilista, esteve relacionada com uma reflexão sobre a natureza e a ação do divino, interventor permanente nos empreendimentos do homem. Para ele, o desenvolvimento da civilização fazia-se por meio de tudo o que se relacionasse com a terra e com a agricultura. Considerava como deuses os quatro elementos do universo, o Sol e a Lua, e que com todos os demais deuses estavam estreitamente relacionados com os fenômenos naturais. Em seus ensinamentos, dentro de suas tendências políticas não oligárquicas, condenou a homossexualidade, os costumes e as tradições aristocráticas, reconheceu as virtudes dos artistas e dos servos na formação humanística da sociedade, e definia o sofista como um intermediário entre o filósofo e o político e, assim, dedicava-se à formação dos cidadãos que pretendiam participar ativamente nos assuntos políticos.  Seu interesse principal era buscar precisão no uso das palavras. Diz-se que TheramenesEurípedes e Isócrates foram discípulos de Pródico. Por seus sucessores imediatos ele foi estimado de modos variados: Platão, por exemplo, satiriza-o em seus primeiros diálogos.
            Aristófanes, em sua peça teatral As nuvens, o considerava um expert em astronomia, e na obra intitulada As aves  conta que ele compôs uma Cosmogonia. Segundo Sexto Empírico ( Adv. Mat. 9, 18 ) Pródico ensinava que :

“ Os antigos consideraram como deuses o Sol, a Lua, os rios, as fontes e em geral todas aquelas coisas que são úteis para nossa vida, na medida em que a ajudam, da mesma forma que os Egípcios deificavam o rio Nilo, e, alude-se que por esta razão o pão foi chamado Deméter[1], a água Poseidon, o fogo Hefesto, e assim sucessivamente cada coisa que era útil”.

SUDA, sv – Pródico : Pródico da ilha de Ceos e da cidade de Yulis, filósofo natural e sofista, contemporâneo de Demócrito de Abdera e de Górgias, foi discípulo de Protágoras. Morreu em Atenas depois de beber cicuta, acusado de corromper aos jovens. ( DK 84 A 1 )

FILOSTRATO, Vida dos Sofistas 12 – A fama de Pródico de Ceos chegou a ser tão grande, em razão de sua sabedoria, que até o filho de Grilo, prisioneiro na Beócia, assistiu a seus debates, assegurando a ele uma garantia de sua pessoa. Indicado como embaixador em Atenas, em sua apresentação ao conselho, pareceu um homem sumamente capaz, mesmo com uma voz  grave e difícil de entender. Ele andava a seguir os passos dos jovens de famílias nobres ou de casas poderosas, a fim de procurar protetores para a caça que praticava: se deixava, com efeito, dominar pelo dinheiro e era dado aos prazeres. A eleição de Héracles, segundo o discurso de Pródico, da que já fiz menção ao começo, nem sequer Xenofontes desdenhou interpretar. Por que deveríamos caracterizar o estilo de Pródico, quando já o tem esboçado Xenofonte suficientemente? ( DK 84 A 2 ) 

PLUTARCO, Sobre se o Estado deve ser governado por um Ancião, 15, 791e :  O sofista Pródico e o poeta Filitas... mesmo jovens eram magros e de natureza enferma , e passavam a maior parte do tempo, por causa de sua debilidade, acamados. ( DK 84 A 1 b )

PLATÃO, Protágoras 315 c,d : [Sócrates] ‘E mais, ali também Tântalo contemplei, pois sabes que Pródico de Ceos se acha também na cidade. Ele estava num quarto antes empregado por Hipônico como depósito de objetos valiosos, mas que fora agora desocupado por Cálias a fim de disponibilizar mais espaço para seus numerosos visitantes, sendo transformado num quarto para convidados. Pródico ainda estava na cama, envolvido em muitos tosões e cobertores, que a propósito também pareciam muitos. Perto dele, em leitos próximos do seu, estava deitado Pausânias de Cerames e, com ele, um rapaz ainda bastante jovem  - eu diria bem nascido e bem criado, e certamente muito atraente. Penso ter ouvido que seu nome era Agaton, e não me admiraria se descobrisse ser ele o favorito de Pausânias. Além desse jovem, lá estavam os dois Adimantos, filhos de Cepis e Leucolofidas, parecendo-me haver ainda alguns outros. A despeito do meu desejo de ouvir Pródico, não me foi possível descobrir do lado externo quais eram os assuntos de sua conversação. De fato, tenho Pródico na conta de divino detentor de um saber universal. Contudo, devido ao tom penetrante de sua voz, o aposento encheu-se de uma reverberação que tornou a conversação indistinta.’ ( ( DK 84 A 2 )


PLATÃO, Hípias Maior,  282 c : - [ Sócrates ] ‘Um outro caso é o de nosso amigo Pródico que com frequência visita outros lugares em missão pública; da ultima, recentemente, quando aqui esteve prestando serviço a Ceos, granjeou grande reputação graças ao seu discurso no Conselho, e, na sua atividade privada, realizando exibições e associando-se aos jovens, ganhou uma extraordinária soma em dinheiro. ‘ ( DK 84 A 3 )

PLATÃO, Teeteto, 151 b – [ Sócrates ]’  Porém, em alguns casos, Teeteto, quando a mim não parecem exatamente grávidos, e percebo que não têm necessidade de mim, ajo com completa boa vontade como promotor de uniões e, sob a inspiração do deus, intuo com êxito com quem podem associar-se proveitosamente. Assim, tenho confiado muitos deles a Pródico, e também muitos a outros homens sábios e inspirados.’ ( DK 84 A 3 a )

PLATÃO, Apologia a Sócrates, 19 e : - [ Sócrates ] ‘Contudo, julgo admirável a capacidade de ensinar as pessoas, capacidade de homens como Górgias de Leontini, Pródico de Ceos e Hípias de Elis. De fato, cada um desses homens, senhores, é capaz de dirigir-se a qualquer cidade e persuadir os jovens, os quais podem se associar, segundo queiram, com qualquer de seus próprios concidadãos sem pagar, a deixar a companhia dessa pessoa para se juntarem a ele, remunerá-lo e, além disso, mostrar-lhe gratidão. ( (DK 84 A 4 )

XENOFONTES, Simposium ( Banquete ),  IV, 62 : - Se bem disse que tu [ Antístenes ] empenhastes a vender-se o sapiente Pródico a Cálias, aqui presente, ao ver a este apaixonadamente enamorado da filosofia e aquele necessitando de dinheiro ( DK 84 A 4 a )

ATHEN., V 220 b – Seu [ do socrático Ésquines ] diálogo Calias tem como tema a inimizade de Calias com seu pai assim como uma briga com os sofistas Anaxágoras e Pródico. Disse, por exemplo, que Pródico criou a seu discípulo Terâmenes; e o segundo, a Filóxeno, filho de Erxides e Arifrades, irmão do citaredo Arignoto, querendo manifestar, mediante a perversidade e avidez por coisas vis dos personagens mencionados, o gênero de ensino de seus educadores. ( DK 84 A 4 b )

ARISTÓFANES, Nuvens, 360 ss – A nenhum outro dos atuais filósofos celestes estaríamos dispostos a obedecer, à exceção de Pródico. A ele por sua sabedoria e inteligência, e a ti, Sócrates...( DK 84 A 5 )

Escólio a Aristófanes, Nuvens,  361 : Esse [Pródico] foi professor também de Terâmenes, apelidado de Coturno. ( DK 84 A 6 )

DIONÍSIO DE HELICARNASSO, Isócrates, 1 : [ Sócrates ] Seguiu os ensinamentos de Pródico de Ceos, Górgias de Leontinos e Tisias de Siracusa, os que de mais fama gozaram em sua época, na Grécia, por sua sabedoria. Segundo contam alguns, também as do retórico Terâmenes, ao que os Trinta condenaram à morte por sua fama de ser partidário da democracia. ( DK 84 A 7 )

GÉLIO, XV 20, 4 – [Eurípides] foi discípulo do filósofo natural Anaxágoras e do retórico Pródico. ( DK 84 A 8 )

MARCELINO, Vida de Tucídides, 36 : [ Tucídides ] imitou, em pequena medida, como afirma Antilo, também os párisos e antíteses de palavras de Górgias de Leontinos, que por aquela época estavam na moda entre os gregos, assim como também a precisão no uso das palavras de Pródico de Ceos. ( DK 84 A 9 )

QUINTILHIANO, III, 1, 12 : - Se disse que, dos que mencionei, os primeiros a fazer uso dos lugares comuns foram Protágoras e Górgias; dos efeitos emotivos, Pródico, Hípias, o mesmo Protágoras e Trasímaco. - Escólio a Aristófanes, Aves, 692 : Para que, ouvindo de nós uma explicação correta e completa dos fenômenos do céu...podias mandar Pródico, na frente, a passeio. ( DK 84 A 10 )

PLATÃO, Crátilo, 384 a ; [ Sócrates ] ‘Hermógenes, filho de Hipônico, segundo um antigo adágio, o conhecimento de coisas admiráveis é de difícil conquista. E certamente o conhecimento dos nomes não é assunto de pouca monta. Ora, se eu tivesse frequentado o ciclo de palestras de Pródico que custa cinquenta dracmas, graças ao qual, conforme ele próprio afirma, um indivíduo obtém instrução completa acerca dessa matéria, nada haveria que te barrasse o imediato aprendizado da verdade em torno da correção dos nomes. Entretanto, como ouvi apenas o curso de uma dracma, desconheço a verdade acerca dessa matéria.   ( DK 84 A 11 )

ARISTOT. Retórica 1415 b 12 : Dessa forma, quando surgir a ocasião, dever-se-á dizer: “Prestai aqui ainda vossa atenção, pois estais tão interessados no assunto quanto eu”. E “Vou dizer-vos uma coisa a tal ponto terrível ou espantosa que jamais ouvistes nada de parecido”. Isso nos leva ao procedimento de – 1415 b 15 – Pródico, ou seja, toda vez que percebia que seu auditório começava a cochilar, o advertia que ia incorporar ao desenvolvimento de seu discurso “algo que não lhes ensinaria senão pelo preço de cinquenta dracmas”. ( DK 84 A 12 )

PLATÃO, Protágoras, 337 a – Dito isso, Pródico observou: “Penso que falas com acerto, Crítias. Aqueles que escutam discussões como esta devem unir-se para ouvir de maneira imparcial, mas não igual, ambos os debatedores. De fato, neste caso há uma diferença. Devemos ouvir imparcialmente, mas não dividir igualmente nossa atenção, cabendo-nos prestar mais atenção no mais sábio e – 337 b – menos no mais ignorante. De minha parte, Protágoras e Sócrates, também vos solicito que atendam ao nosso pedido, e que discutam as questões, mas dispensem a disputa pela disputa. Amigos discutem entre si harmoniosamente, ao passo que a disputa por si mesma ocorre entre aqueles que estão divididos pelo desentendimento e a inimizade. Dessa forma, nossa reunião será coroada de sucesso e vós, os oradores, ganharão com toda a certeza o máximo de respeito, e não louvor, de nós que os ouvimos. De fato, o respeito reside sinceramente nas almas dos ouvintes, enquanto o louvor com demasiada frequência está nos discursos dos mentirosos que – 337 c – ocultam o que realmente pensam. Por outro lado, nós, os ouvintes, com isso ficaremos maximamente confortados, não agradados. Com efeito, é confortado aquele que aprende algo e obtém uma parcela de bom senso exclusivamente para sua mente, ao passo que o ser agradado tem a ver com o comer ou o experimentar de qualquer sensação exclusivamente no próprio corpo”.  ( DK 84 A 13 )

PLATÃO, Protágoras,  340 b : - { Sócrates a Pródico ] ‘Do mesmo modo, recorro a tua ajuda para não vermos Protágoras destruir Simônides. Realmente, a reabilitação de Simônides requer tua arte especial, por meio da qual és capaz de discriminar entre querer e desejar como duas coisas distintas e efetuar todas as outras excelentes distinções da maneira que fizeste há pouco. Assim, rogo-te que consideres se compartilhas de minha opinião. De fato, não ficou claro se Simônides realmente se contradiz. Agora Pródico, dá-nos, sem maiores cerimônias, tua opinião, e a título de veredito. Consideras o vir-a-ser e o ser idênticos ou diferentes?’. ‘Por Zeus, claro que diferentes’, respondeu Pródico. ‘Ora, na primeira passagem Simônides apresentou como sua própria opinião que é difícil para um homem tornar-se (vir-a-ser) verdadeiramente bom’. – 340 c – ‘Dizes a verdade’, confirmou Pródico. ‘E ele critica Pítaco’, prossegui, ‘por dizer não o mesmo que ele, como sustenta Protágoras, mas por dizer algo diferente. De fato, o que disse Pítaco não foi, como disse Simônides, que é difícil tornar-se (vir-a-ser) bom, mas ser bom. Ora, Protágoras, ser e vir-a-ser, como afirma nosso amigo Pródico, - 340 d - não são idênticos; e se não é o mesmo que vir-a-ser, Simônides não se contradiz. Talvez Pródico e muitos outros poderiam afirmar com Hesíodo que tornar bom é difícil, a saber: Os deuses colocaram a Virtude num lugar que nos exige suor /  Para atingi-la. Mas uma vez alcançado o cimo em que se encontra, / É tão fácil possuí-la então quanto foi difícil antes”.[2] Depois de ouvir isso, Pródico assentiu, dando-me sua plena aprovação. Mas Protágoras observou: ‘ Tua correção, Sócrates, encerra um erro maior do que o que estás corrigindo’. ‘ Nesse caso, parece que realizei mal meu trabalho. Protágoras’, observei por meu turno, ‘revelando-me um tipo ridículo de médico, já que meu tratamento agrava a doença’. ‘Exatamente’, ele disse. – 340 e - ‘E onde está meu erro?’, perguntei-lhe. ‘A ignorância do poeta seria imensa se ele estimasse como algo trivial a posse da virtude, quando todos são unânimes em considerar que é a coisa mais difícil do mundo’. Ao que eu repliquei: ‘Por Zeus, a participação de Pródico – 341 a - em nossa discussão não poderia ser mais oportuna! Com efeito, é muito provável, Protágoras, que a sabedoria de Pródico seja um antigo dom dos deuses, que remonta ao tempo de Simônides, ou mesmo a uma época anterior a essa. Mas tu, tão hábil em tantas outras coisas, mostra-te inábil nesse ramo do conhecimento, te faltando aquilo de que eu poderia me gabar porque sou discípulo do grande Pródico. Assim percebo agora que não entendes que talvez Simônides não haja concebido a palavra difícil do modo como a concebes. Da mesma forma, Pródico corrige-me toda vez que uso a palavra – 341 b - espantoso para louvar-te ou alguém mais. Quando digo, por exemplo, que Protágoras é um homem espantosamente sábio, ele me pergunta se não me envergonho de chamar as coisas boas de espantosas. Segundo ele, o espantoso é mau. Ninguém jamais fala de uma espantosa riqueza, ou de uma espantosa paz, ou de um espantosa saúde, embora digamos uma espantosa (terrível) doença. Uma espantosa (terrível) guerra ou espantosa (terrível) pobreza, tomando espantoso como mau, negativo. Consequentemente, talvez os habitantes de Ceos e Simônides concebiam difícil como mau ou outra coisa que não entendes. Consultemos, portanto Pródico, que – 341 c - é a pessoa certa a ser indagada a respeito da linguagem de Simônides. Pródico, o que entendia Simônides por difícil?’ ‘Mau’, ele respondeu. ‘Então é por isso, Pródico’, eu disse, ‘que ele critica Pítaco por dizer que é difícil ser bom, pois é como se o ouvisse dizer que é mau ser bom.’ ‘Ora, Sócrates, o que mais pensas que Simônides queria dizer? Não estaria criticando Pítaco por este desconhecer como distinguir corretamente as palavras? Afinal, lesbiano como era e educado numa língua bárbara!’ ‘Bem, Protágoras, estás ouvindo as sugestões de Pródico. Tens algo a dizer a respeito?   ( DK 84 A 14 )

PLATÃO, Mênon, 75 d-e: [Sócrates para Mênon ] ‘É assim que procurarei discutir contigo. Diz-me: há algo que chamas de fim? Refiro-me a algo como um limite ou extremo, usando todos esses vocábulos num sentido idêntico, o que poderia nos levar a um desentendimento com Pródico. Mas certamente chamas uma coisa de terminada ou consumada e é a isso que desejo me referir, não a nada elaborado.’ ( DK 84 A 15 )

PLATÃO, Eutidemo,  277 e : - [ Sócrates a Clinias ] ‘Deves agora, em conformidade com isso, imaginar que estás ouvindo a primeira parte dos mistérios sofísticos. Em primeiro lugar, como diz Pródico, tens que aprender o correto emprego das palavras, o que é precisamente o que os nossos dois visitantes estrangeiros [ Eutidemo e Dionisidoro ] estão salientando, ou seja, que não compreendeste que os indivíduos usam a palavra aprendizado não só na situação em que alguém que – 278 a – desconhece uma coisa inicialmente passa a conhece-la posteriormente, mas também quando alguém que já conhece (já possui esse conhecimento) o utiliza para investigar a mesma matéria, ocorrente na ação ou no discurso. É verdadeiro que se inclinam, de preferência,a chama-lo de entendimento em lugar de aprendizado, embora ocasionalmente o chamem de aprendizado também. E esse ponto, como estão demonstrando nossos amigos, te passou desapercebido, a saber, como a mesma palavra para pessoas que se encontram nas condições opostas de conhecer e não conhecer.’ ( DK 84 A 16 )

PLATÃO, Laques, 197 a : [Nicias] ‘Não, Laques, de modo algum classifico como corajosos animais selvagens ou quaisquer outras coisas que, por falta de entendimento, não temem o temível. Pelo contrário, eu os classifico como temerários e estúpidos. Ou supões que – 197 b – classifico todas as crianças de corajosas, já que elas não têm medo pelo fato de lhes faltar entendimento? Pelo contrário, sustento que o temerário e o corajoso não são o mesmo. Minha opinião é a de que são pouquíssimos os dotados de coragem e previdência, ao passo que a audácia, a ousadia e a temeridade desacompanhadas da previdência para guia-las são encontradas em meio a um grande número de homens, mulheres, crianças e animais.’ ... – 197 d – [Sócrates] ‘Não te importa com ele, Laques. De fato, a mim parece que não percebeste que ele obteve essa sabedoria de nosso bom amigo Damon, e este passa a maior parte de seu tempo com Pródico, que goza da reputação de ser o mais hábil dos sofistas na elaboração dessas distinções verbais.’ (DK 84 A 17)

PLATÃO, Cármides,  163 b – [Sócrates] ‘Diz-me, Crítias’, eu disse, ‘não classificas fazer e executar como o mesmo?’ ‘ De modo algum’, respondeu, ‘tanto quanto não classifico como o mesmo trabalhar e fazer, o que aprendi com Hesíodo, que declarou: Trabalho não é objeto de censura. Ora, supões que se ele tivesse atribuído as palavras trabalhar e executar aos trabalhos que mencionavas há pouco, teria dito que não havia objeto de censura em confeccionar calçados, vender peixe salgado ou servir nos bordéis? Não se deve conceber isso, Sócrates; ao contrário, ele sustentou, segundo penso, que fazer era distinto de executar e trabalhar, e que enquanto uma coisa feita poderia – 163 c - ser censurável se não estivesse acompanhada do honroso, o trabalho jamais poderia ser objeto de censura. De fato, ele atribuiu o nome de trabalhos a coisas feitas de maneira honrosa e útil, e são produções desse tipo que são trabalhos e ações. Caberia a nós representa-lo pensando que apenas coisas desse tipo são as que nos são particulares, ao passo que todas as coisas danosas são alheias. Assim, é imperioso concluirmos que Hesíodo e qualquer outro indivíduo de bom senso, classificam aquele que executa seus próprios negócios como moderado.’ – 163 d – ‘Crítias, mal começaras teu discurso e eu já percebia o que pretendias ao dizeres que chamavas as coisas particulares e próprias de boas e chamavas o executar de coisas boas de ações. A razão disso é já ter ouvido Pródico estabelecer distinções entre os nomes inúmeras vezes. Bem, permitirei que faças qualquer aplicação de um nome que te agrade, porém com a condição de esclareceres a que coisas vinculas esse ou aquele nome.’ ( DK 84 A 18 )

ARISTÓT. Órganon, Tópicos, 112 b 22 – Além disso, é preciso apurar se o interlocutor afirmou alguma coisa como um predicado acidental do sujeito, tomando-o como algo diferente porque ostenta um nome diferente, exatamente como Pródico dividiu o prazer em alegria, deleite e divertimento, pois estes são todos nomes para a mesma coisa, a saber, o prazer. Se, portanto, alguém vier a asseverar que a alegria é um predicado acidental do divertimento, estará dizendo que é um predicado acidental de si mesmo. – AEXANDRO DE AFRODISIA, Comentário à passagem, 181,2 : Protágoras tentava assinalar a cada um destes nomes um significado próprio, do mesmo modo que os estoicos, que definiam a alegria como uma exaltação razoável, o prazer como uma exaltação irracional; como deleite, o prazer que procuram os ouvidos, e gozo íntimo, que se exprimem com as palavras. Isto é próprio de preceptistas, que não dizem, sem exageros, nada razoável.  ( DK 84 A 19 )

 PLATÃO, Fedro,  267 b – Numa ocasião em que Pródico ouviu falar dessas descobertas, ele se pôs a rir e declarou que a descoberta da arte do discurso correto se devia exclusivamente a ele: que discursos não deviam ser nem longos nem curtos, mas de uma extensão moderada.   ( DK 84 A 20 )

Fragmentos Horas[3]

Escólio a Aristófanes, Nuvens, 361 –n Se menciona também um livro de Pródico intitulado Horas, em que representou o encontro de Héracles com a Virtude e com o Vício, encontro em que um e outro convidavam a adotar seus modos de vida, se bem que Héracles se inclinou para a virtude e preferiu os suores desta aos passageiros prazeres do vicio. – PLATÃO, Simpósio (O Banquete) 177 b – Se queres, à tua vez considerar aos bons sofistas, (observa) que compuseram em prosa o encômio de Heracles e de outros heróis, como fez o excelente Pródico. – PLATÃO, Protágoras, 340 d – E quicas Pródico, aqui presente, e outros diriam, à maneira de Hesíodo. ( DK 84 B 1 )

XENOFONTE, Recordações de Sócrates, II 1,20 – Por outro lado, os frutos da indolência e dos prazeres ocasionais nem tem capacidade para produzir vigor ao corpo, como dizem os professores de ginástica, nem provocam na alma nenhum conhecimento digno de menção. Os exercícios, em troca, realizados com constância fazem alcançar a meta das belas e boas obras, como dizem os homens de mérito. Em uma passagem, por exemplo, Hesíodo disse ( Trabalhos 287-292 ): Também é possível eleger facilmente a legião dos vícios. “É plano o caminho e muitos habitam. Diante da virtude os deuses imortais têm colocado [o suor]. E o caminho que a ela conduz é largo, empinado e áspero ao começo. Mas quando se chega em cima, te resulta já fácil, apesar de ser duro.” Epicarmo o atesta também no seguinte verso “ Todos os bens nos vendem os deuses ao preço de nossos trabalhos”. E em outra passagem diz: “Cuidado, não busques o fácil, para não sofrer, depois, duras penas”. Pródico, o sábio, em seu escrito sobre Heracles, que é também uma declamação dirigida ao grande público, se manifesta também desse mesmo sentido a propósito da virtude, expressando-se aproximadamente, pelo que posso recordar, nestes termos. Heracles, disse, ao sair da infância, quando entrava na adolescência – esta idade é a dos jovens, sem depender já mais do que além deles mesmos, deixam ver se vão tomar, no curso de sua vida, o caminho da virtude ou o do vício – se retirou a um lugar solitário, onde permaneceu inativo, vítima da dúvida sobre qual dos caminhos deveria seguir. Lhe pareceu, então, que vinham a seu encontro duas mulheres de elevada estatura. Uma delas, de agradável aparência, de natural liberdade, adornada com a pureza de sua cor, o pudor de seus olhos, a modéstia de seu porte e a brancura de seu traje. A outra, em compensação, bem entrada em tenras carnes, levava a pele embelezada com afeites, ao ponto de parecer mais branca e roseada do que realmente era. Seu porte, tão altivo que parecia mais alta do que era, olhos atrevidos e vestidos que faziam resplandecer sua beleza em flor. Se contemplava a miúde, observando se alguma outra pessoa a olhava e, inclusive frequentemente voltava os olhos para sua própria sombra. Quando se aproximaram mais de Heracles, a que descrevemos em primeiro lugar continuou avançando em sua atitude característica; a outra, querendo adiantar-se, correu para Heracles e lhe disse: ‘Te vejo Heracles, duvidando sobre o caminho que deves tomar em tua vida. Se fazes de mim tua amiga e me segues, eu te conduzirei pelo caminho mais agradável e cômodo e não te verás privado de nenhum prazer e tua existência não conhecerá dificuldade alguma. Em primeiro lugar, em vez de cuidar da guerra e dos negócios, não terás que preocupar-te em encontrar a comida ou o vinho mais agradável ao teu gosto, ou de buscar a forma de deleitar teus olhos e teus ouvidos cujo trato e o aroma de produzem prazer; os jovens, cujo trato te encante; o leito mais macio para dormir, e o modo de alcançar tudo isso sem nenhum esforço. Se alguma vez te assalta a inquietude pelo dinheiro indispensável para fazer frente a todos estes gastos, não tenhas medo de que eu te induza a adquiri-lo ao preço de fadigas e sofrimentos de teu corpo e de tua alma. Ao contrário, tu gozarás do fruto do trabalho de outros, sem privar-se de nada do que possas obter proveito. Porque àqueles que estão do meu lado lhes ofereço a possibilidade de tirar proveito de todas partes1. Heracles, ao ouvir estas promessas, disse: ‘Qual é, mulher, o teu nome?’. Ao que ela respondeu: ‘Meus amigos me chamam Felicidade, meus inimigos, em troca, para denegrir-me, me denominam vicio. ’ Neste momento, a outra mulher, aproximando-se, disse: ‘Também eu venho perante ti, Heracles, porque conheço a teus pais assim como tua natureza, de que soube durante tua educação. É isso que me faz conceber a esperança de que, se tomas o caminho que conduz até mim, chegues a ser um nobilíssimo artífice de ações belas e nobres e me farás aparecer aos olhos de todos mais digna de estima e mais insigne por benefícios que procuro. Não vou enganar-te começando com promessas de prazer, se não que te exporei, sendo fiel à verdade, a realidade das coisas, tal como os deuses as têm disposto. De tudo o que é bom e belo, os deuses não concederam nada aos homens sem esforço e dedicação. Pelo contrário, se queres que eles te sejam benévolos, deves honrá-los. Se quiseres ser estimado por teus amigos, deves ser seu benfeitor; se queres obter honras de alguma cidade, deves ser útil a ela. Se pretenderes que toda a Grécia admire tua virtude, deves esforçar-te para fazer o bem à Grécia; se queres que a terra produza para ti frutos em abundância, deves oferecer cuidados à terra. Se julgares conveniente enriquecer-se com o gado, deves ocupar-te de teu gado. Se te propões engrandecer-se pela guerra e queres estar em situação de liberar teus amigos e submeter teus inimigos, deves aprender dos expertos a arte da guerra e exercitar-se no emprego de suas táticas. Se queres, enfim, ser robusto de corpo, deves acostumar-se a pôr o corpo a serviço do espírito e exercitá-lo com o suor e fadiga’. Então o vício tomou a palavra e disse, segundo Pródico: ‘Não vês, Héracles, quão penoso e duro é o caminho para a alegria, pelo qual esta mulher quer conduzir-te? Eu, em troca, te conduzirei à felicidade por um caminho cômodo e breve. ’ A isso replicou a virtude: ‘Desventurada, que bem possuis tu? Ou que coisa prazerosa conheces, se não está disposta a fazer nada para obtê-la? Nem sequer espera que nasça o desejo de sensações prazerosas, senão que, entes que tenha surgido, te sacias delas: de comer, antes de ter fome; de beber, antes de ter sede. Preparas artificialmente os alimentos, para comer, voluptuosamente; adquires custosos vinhos, para beber voluptuosamente; e, em pleno verão, corres por todas as partes para conseguir neve. E para dormir prazerosamente, não só moles mantas, senão também moles colchões com seus travesseiros. E não é pelo cansaço por que desejas dormir, senão por que não tens nada para fazer. Excitas por todos os meios os desejos amorosos, antes de senti-los e empregas indiferentemente, para isso, homens e mulheres. Assim educas aos teus amigos, induzindo-os ao excesso durante a noite, e a dormir as horas mais preciosas do dia. Ainda que deusa imortal estás desterrada do mundo dos deuses, e desonrada perante os homens honestos. O que para qualquer ouvido é o mais agradável de ouvir, o elogio próprio, não o ouve tu jamais. O que é mais agradável de ver, não o vês jamais; jamais tens podido ver uma bela obra saída de tuas mãos. Quem poderia ter confiança em tuas palavras? Quem te levaria socorro, em caso de necessidade? Qual pessoa em são juízo ousaria formar parte de teu cortejo? Aqueles que formam parte dele, enquanto são jovens, são débeis de corpo; na velhice, insensatos de espírito, por haver crescido, em sua juventude, na abundância sem conhecer fadigas; penosamente, em troca, passa sua velhice, necessitados, envergonhados de suas ações; esmagados por suas obrigações, depois de haver corrido, em sua juventude, uma rápida caminhada através dos prazeres, tem reservado para a velhice as incomodidades da idade. Eu, em troca, vivo com os deuses, vivo com os homens de bem. Nenhuma façanha gloriosa divina ou humana se efetua sem meu concurso. Eu sou a mais honrada de todos entre os deuses e entre os homens de bem, cujos elogios contam. Sou face associada aos artesãos, guardiã fiel da casa para seus donos, assistente benévola dos servos, boa colaboradora nos trabalhos da paz, sólida aliada nas fadigas da guerra, a melhor companhia da amizade. Em relação a meus amigos, podem gozar do prazer agradável isento de afanos da comida e da bebida. Pois sabem abster-se até o momento em que sobrevém o desejo. Mais doce é para eles o sonho que para os ócios sós.Não se sentem afligidos se devem interrompê-lo, nem, por dormir, descuidam de suas obrigações. E os jovens, se regozijam com os elogios que lhes dedicam os maiores e os maiores exultam com as mostras de respeito dos jovens. Recordam, também, com satisfação suas ações passadas e encontram ainda prazer nas ocupações do presente. Graças a mim, são amados pelos deuses, apreciados por seus amigos, honrados por seus concidadãos. Quando finalmente lhes chega a hora fatal, não são enterrados, entre os esquecidos, sem honras, senão que, celebrada em hinos, sua memória reverbera nos séculos futuros. A ti, Heracles, filho de excelentes pais, te é possível, com uma vida tal de árduas fadigas, possuir a felicidade suprema.’ Em tais termos descreveu Pródico a educação de Heracles pela Virtude. Suas razões, sem exagero, as adornou com expressões mais elevadas que as minhas agora. ( DK 84 B 2 )

Fragmentos Sobre a Natureza:

GALENO, Dos elementos segundo Hipócrates, 19 – Todas as obras dos antigos filósofos levam por título Sobre a natureza, a de Melisso, a de Parmênides, a de Empédocles, a de Alcmeão, a de Górgias, a de Pródico e a de todos os demais. – CICERO, Do orador,  III 32, 128 – Que posso dizer de Pródico de Ceos, de Trasímaco da Calcedônia, de Protágoras de Abdera? Cada um deles tratou e escreveu também, naquela época, amplamente sobre a natureza. ( DK 84 B 3 )

GALENO, Das faculdades naturais,  II 9 – Protágoras, ao chamar, em seus escritos sobre A natureza do homem, ao produto da inflamação e, como se disséssemos, do excessivo conhecimento dos humores flegma, derivando-o do resultado do verbo, emprega a palavra em outro sentido, se bem que mantendo o fenômeno com a mesma significação dos demais. Suas inovações com as palavras também Platão as mostrou de modo suficiente. Mas aquele que é chamado por todos flegma, de aspecto branco, e que Pródico denomina blenna (catarro) é o humor frio e  úmido que se acumula em grande quantidade nos velhos e nos que, de algum modo, se resfriaram e ninguém, nem mesmo que estivesse louco, o chamaria de outro modo que não fosse frio e úmido.  ( DK 84 B 4 )


FILODEMO, Da piedade, 9, 75 – É evidente que Perseu... menospreza o valor dos deuses ou bem o desconhece tudo sobre ele mesmo, quando em sua obra Sobre os deuses disse que não deixam de ser persuasivos os argumentos escritos por Pródico no sentido de que em um começo foram considerados e honrados como deuses os elementos úteis e nutritivos, e, depois, aqueles que inventaram meios de alimentar-se, de ocultar-se e demais artes, como Demeter, Dionísio, etc. ... Pródico afirma que foram acolhidos entre os deuses aqueles que serviram à utilidade do homem com o invento, em suas peregrinações, de novos produtos de recompilação. – CICERO, Da natureza dos deuses, I 37, 118 – Ainda mais, Pródico de Ceos, que afirmou que foram incluídas no número de deuses as forças úteis à vida humana, que classe de religião deixou? Perseu afirma que foram considerados deuses aqueles por cuja intervenção foi inventada alguma utilidade importante para a vida civilizada e que os mesmos objetos úteis e proveitosos foram chamados com ele nomes de deuses. SEXTO EMPÍRICO, Adv. Math., IX 18 – Pródico de Ceos disse que ‘os antigos  consideraram deuses, em razão da utilidade que deles deriva, o Sol, a Lua, os rios, as fontes e, em geral, a tudo que beneficia nossa vida, do mesmo modo que fizeram os egípcios com o Nilo’ e, por essa razão, o pão era considerado como Demeter, o vinho como Dionísio, a água como Poseidon, o fogo como Hefesto e assim cada um dos elementos que nos são úteis. Negam que existam os deuses denominados ateus, como Evemero, Diágoras de Melos, Pródico de Ceos e Teodoro... Pródico, por sua parte, afirmou, que o que resulta útil à vida foi considerado deus, tal como o Sol, a Lua, os rios, os lagos, as pradarias, os frutos e tudo dessa natureza. Na verdade, aqueles que afirmam que os homens antigos supuseram que eram deuses todos os elementos úteis para a vida como o Sol, a Lua, os rios, os lagos e outros fenômenos semelhantes, além de sustentar uma opinião improvável, condenam também, réus de suma estultícia, aos antigos. Por que não é verossímil que foram tão estúpidos como que para considerar deuses a elementos que, à vista de todos, se corrompiam ou de testemunhar o poder divino aos frutos que eles comiam e se dissolviam... Porque, em tal caso, houvesse sido necessário que os homens, e especialmente os filósofos, considerassem deuses – dado que, com sua utilidade, contribuem também para nossas vidas – a maior parte dos animais irracionais – pois compartilham conosco a fadiga do trabalho -, os objetos domésticos e qualquer outra coisa que possa existir mais humilde que isso. – EPIFÂNIO, Contra os hereges III 21 – Pródico chama deuses aos quatro elementos e, depois, ao Sol e à Lua. Porque destes, dizia, procede a vitalidade para todos os seres. – TEMISTIO, Discursos 30 – Se invocamos também a Dionísio e às ninfas e à filha de Deméter e a Zeus que envia a chuva, e a Poseidon, nos aproximamos já das iniciações misteriosas e mesclaremos nossas palavras à sabedoria de Pródico, o qual faz depender todos os sacrifícios realizados pelo homem e os mistérios e iniciações dos bens da agricultura, porque considerava que, a partir dela, a ideia de deus se havia insinuado aos homens e engendrado neles toda a manifestação de piedade. ( DK 84 B 5 )

PLATÃO, Eutidemo, 305 b 6 – [Sócrates fala para Críton ] Esses são os homens que, segundo Pródico, ocupam a fronteira entre o filósofo e o político. Pensam que são os mais sábios dos seres humanos, e que não apenas são, mas que assim são considerados pela maioria esmagadora da humanidade; em consonância com isso, sentem que os únicos que obstruem seu caminho para o renome universal são os adeptos da filosofia. Consequentemente, acreditam que se conseguirem reduzir os adeptos da filosofia a uma posição de nulidade, haverá unanimidade quanto a conceder a eles o prêmio da vitória, isso sem contestação ou demora, de forma que sua pretensão à sabedoria será granjeada. Julgam-se realmente os mais sábios, mas acham que no caso de conversações privadas são interrompidos abruptamente por Eutidemo e seu grupo. Esse orgulho de sua sabedoria é bastante natural porque se consideram moderadamente versados em filosofia e em política, situando-se em posições inteiramente razoáveis, visto que mergulharam em ambas na medida de suas necessidades e, esquivando-se a todo risco e todo conflito, contentam-se em colher os frutos da sabedoria. ( DK 84 B 6 )


[1] Deusa da agricultura, da terra cultivada, das colheitas e das estações do ano. Uma olímpica filha de Cronos e Reia.
[2] HESÍODO. Os trabalhos e os dias, 289 e seguintes.
[3] Segundo os estudiosos deste personagem, o título Horas pode ser interpretado de forma diversa, dado à falta de informação, sendo-lhe atribuído dois significados possíveis: ‘Flor de Juventude’, em cujo caso a obra teria contido, ao modo de paradigmas éticos, a narração da juventude de diversos heróis e ‘Estações’, a narração, em diversas etapas (adolescência, idade adulta e velhice) da vida de Héracles, assim como rasgos de caráter desenvoltos pelo exercício da virtude que caracterizavam cada uma delas.

segunda-feira, 26 de março de 2018

LICOFRON


Licofrão ou Licofron[1] ( em grego Λυκόφρων ) foi um sofista da Grécia Antiga, conhecido pela afirmação acerca da convenção da lei como garantia dos direitos mútuos, reproduzida por Aristóteles, em A Política, ou seja, da lei entendida apenas como um meio, no contexto de uma primitiva teoria do contrato social.

ARISTOT. Metafísica, 1045 b 8 – Para resolver essa dificuldade alguns falam de participação, mas ficam depois em dificuldades quando se trata de apresentar a causa da participação e de explicar o que significa participar. Outros, ao contrário, falam de comunhão: por exemplo, Licofron afirmava que a ciência é a comunhão do saber e da alma. Outros ainda falam que a vida é a composição e conexão da alma com o corpo. - ALEX.[2] Metaf. 563, 32.- Outros dizem comunhão da alma, como o sofista Licofron, que chama a ciência de comunhão de conhecimento e alma. A sentença desta forma seria mais correta e clara: "Sendo o conhecimento do conhecimento e da alma". * De fato, quando perguntaram a Licofron qual a causa pela qual ciência e alma formam uma unidade, ele respondeu: "Comunhão" . ( DK 83 A 1 )

ARISTOT. Física, 185 b 25 – Os antigos mais próximos de nós se sentiam perturbados diante da possibilidade de que uma mesma coisa resultasse ser uma e múltipla. Por isso, alguns, como Licofron, suprimiram esse “é”; outros modificaram a forma das expressões, dizendo, por exemplo, “homem branqueado” em lugar de “o home é branco”, “caminha”, em lugar de “está caminhando”, a fim de evitar que o uno se fizesse múltiplo e se adicionasse o “é”, como se “uno” e “ser” tivessem um único significado. ( DK 83 A 2 )

ARISTOT. A Política,  1280 b 5 – É claro que a virtude deve ser o primeiro cuidado de um Estado, quando ele quer merecer este título, em lugar de só levar dele o nome. De outro modo, a associação política se transforma em aliança militar dos povos afastados, dela só diferindo pela unidade do lugar, e daí passa a lei a ser uma simples convenção; é como disse o sofista Licofron, uma garantia mútua para todos os direitos, mas não uma garantia capaz de tornar os próprios cidadãos bons e virtuosos. ( DK 83 A 3 )


ARISTOT. fr. 91 Rosas [STOB. flor. IV 29 p. 710]. Isso eu pretendo estabelecer, se a nobreza é apropriada para pessoas de mérito e sentimentos elevados, ou então é totalmente vazia, como o sofista Licofron escreveu. De fato, em contraste com os outros bens, estes são expressos da seguinte forma: De nobreza, invisível é a beleza, sua majestade está toda na palavra, o que significa que aqueles que aspiram a ela têm fama, mas na verdade nada nobre difere dos não-nobres. ( DK 83 A 4 )

ARISTOT. Retórica, 1406 a 6 – Todas essas expressões, por conta de sua composição, pertencem visivelmente à poesia. Eis, portanto, a primeira das causas da frieza em matéria de estilo. {Trata-se de uma das formas nas quais é exibido o mau gosto }. Uma outra é constituída pela utilização de termos dialetais e arcaicos. Por exemplo, Licofron refere-se a Xerxes como um homem de proporções prodigiosas e a Círon como um homem devastador. ( DK 83 A 5 )

ARISTOT. Órganon – Refutações Sofísticas, 174 b 30 – Deve-se também, algumas vezes, atacar pontos distintos do mencionado, excluindo-o, caso não se possa empreender um ataque contra a posição assumida, como fez Licofron ao ser sugerido que ele devia recitar um encômio na lira. - ALEX. Sof. el. 118, 31 [após uma explicação incorreta]. Ou melhor, uma vez que ele foi forçado por alguns a elogiar a lira e ficou sem argumentos, depois de ter elogiado brevemente o instrumento conhecido por todos, ele se referiu ao celeste; na verdade, há no céu uma constelação formada por muitas estrelas e chamada Lira, na qual ele conseguiu encontrar muitos bons argumentos.
                                                                                            ( DK 83 A 6 )



[1] Não confundir com o Pseudo-Licrofron, um poeta trágico grego, nascido em Cálcis, Eubeia, autor do poema Alexandra, que teria vivido no século III a.C., citado por Diógenes Laércio, em Vida dos Filósofos mais Ilustres, II, 133 e 140.
[2] Alexandro de Afrodisia foi o mais célebre dos comentaristas gregos das obras de Aristóteles.
            

domingo, 25 de março de 2018

GÓRGIAS DE LEONTINO


 
                Górgias ( em grego Γοργίας ) foi um retórico e filósofo grego, dito o “Niilista”[1], oriundo de Leontinos, na Sicília, que viveu aproximadamente entre os anos 485 e 380 a.C. que, juntamente com Protágoras de Abdera, formou a primeira geração de sofistas.
Seu niilismo baseava-se em três tópicos: primeiro na não existência do ser, onde existe somente o nada. O ser não é uno, não é múltiplo, nem incriado e nem gerado, por conseguinte o ser é nada; segundo, mesmo que o ser existisse ele não poderia ser conhecido pois se podemos pensar em coisas que não existem é porque existe uma separação entre o que pensamos e o ser, o que impossibilita o seu conhecimento; e terceiro, mesmo que pudéssemos pensar e conhecer o ser nós não poderíamos expressar como ele é porque as palavras não conseguem transmitir com veracidade nada que não seja ela mesma, pois quando comunicamos, comunicamos palavras e não o ser. Com isso, ele pretendia destruir a possibilidade de alcançarmos a verdade absoluta pois, para ele,  nossa razão somente pode iluminar as situações em que os homens vivem mas não tem a capacidade de formular regras absolutas, onde podemos somente analisar a condição em que nos encontramos e expor o que devemos ou não fazer e mesmo o que devemos ou não fazer muda muito dependendo da situação em que nos encontramos. Assim, para ele, uma mesma atividade pode ser boa ou ruim dependendo de quem a pratica e em que situação se encontra. Dessa forma, como não existe uma verdade absoluta e a falsidade está em tudo as palavras assumem uma autonomia quase sem limites pois estão desligadas do ser. As palavras são, portanto, independentes e estão disponíveis para os mais diversos usos. Um dos principais usos é a retórica que utiliza a palavra para sugerir, para fazer crer e para persuadir os cidadãos, especialmente utilizada para a política.
Filho de Carmântidas, tinha dois irmãos - um irmão chamado Heródico e uma irmã que dedicou-lhe uma estátua em Delfos. Como outros sofistas estava continuamente mudando de cidade, praticando e dando demonstrações públicas de suas habilidades em diversas cidades, e nos grandes centros pan-helênicos como Olímpia e Delfos, cobrando por suas apresentações e por aulas.
Já tinha por volta de 60 anos quando, em 427 a.C., foi enviado a Atenas por seus compatriotas na função de embaixador, chefiando um grupo que pediu pela proteção da cidade contra a agressão dos siracusanos. Acabou por se fixar permanentemente lá, provavelmente devido à enorme popularidade do seu estilo de oratória e dos benefícios financeiros que obteve com suas apresentações e aulas de retórica. De acordo com  Aristóteles, entre seus discípulos estava Isócrates e, de acordo com outros, como ouvintes, Polo, Alcidamas, Antístenes, os jovens Crítias e  Alcebíades, e os velhos Péricles e Tucídides.
Górgias foi responsável por inovações retóricas envolvendo a estrutura e a ornamentação, além da introdução da paradoxologia - a ideia do pensamento paradoxal, e da expressão paradoxal - o que fez com que fosse apelidado de 'o pai da sofística’, tendo como característica especial de suas aparições públicas, ouvir questões da plateia sobre todos os assuntos e respondê-las sem qualquer preparo, sendo seu principal legado foi ter levado a retórica desde sua Sicília natal para a Ática, e contribuir com a difusão do dialeto ático como idioma da prosa literária.
As obras de retórica de Górgias ainda em existência, do primeiro grupo:  Encômio de HelenaDefesa de PalamedesSobre a Não-Existência e Epitáfio, textos de tom essencialmente filosófico, foram preservados através de uma obra chamada Technai, um manual de instrução retórica, que consistia de modelos a serem memorizados, e demonstrava diversos princípios da prática retórica. Embora alguns estudiosos tenham alegado que cada uma dessas obra apresenta afirmações contrastantes, os quatro textos podem ser lidos como contribuições inter-relacionadas à arte (technê) e à teoria (então promissora) da retórica. Os textos do segundo grupo testemunham sobretudo a preocupação pela eloquência e dele constam: A Oração Fúnebre, O Discurso Olímpico, O Elogio dos Elisinos e O Elogio de Aquiles. O terceiro grupo de escritos está relacionado com a técnica retórica e compreende A Arte Oratória e O Onosmástico.
Das obras ainda existentes de Górgias, apenas o Encômio e a Defesa encontram-se em sua forma integral. Diversas de suas obras políticas, retóricas e discursos foram referenciadas e citadas por Aristóteles, incluindo um discurso sobre a unidade helênica, uma oração fúnebre pelos atenienses mortos na guerra, e uma citação curta de um Encômio sobre os Eleenses. Além destes discursos, existem também paráfrases de seu tratado Sobre a Natureza ou o Não-Existente. Seus  escritos são tanto retóricos quanto performáticos; onde ele faz um grande esforço para exibir sua habilidade de fortalecer uma posição argumentativa absurda. Consequentemente, cada uma de suas obras defende pontos de vista que eram impopulares, paradoxais e até mesmo absurdos. A natureza performática de seus escritos é exemplificada pela maneira com que ele aborda, jocosamente, cada argumento, com estratagemas estilísticos como a paródia, a figuração artificial e a teatralidade. Seu estilo argumentativo pode ser descrito como poesia sem a métrica (poiêsis sem a métrica). Górgias argumentava que palavras persuasivas tinham uma força (dunamis) equivalente às palavras dos deuses, e o mesmo impacto da força física. No Encômio, Górgias comparou o efeito da fala sobre a alma ao efeito das drogas sobre o corpo: "Assim como diferentes drogas trazem à tona os diferentes humores do corpo - alguns interrompendo uma doença, outros a vida - o mesmo ocorre com as palavras: algumas causam dor, outras alegria, algumas provocam o medo, algumas instilam em seus ouvintes a ousadia, outras tornam a alma muda e enfeitiçada com crenças más”
Ao contrário de outros sofistas (especialmente Protágoras), Górgias não professava ensinar arete ("excelência", ou "virtude"), acreditando não haver uma forma absoluta de arete, mas que o conceito era relativo a cada situação (por exemplo, a virtude num escravo não equivale à virtude num estadista). Sua crença era a de que a retórica, a arte da persuasão, seria a rainha de todas as ciências, na medida em que se mostrava capaz de persuadir qualquer curso de ação. Embora a retórica existisse no currículo de cada um dos sofistas, Górgias atribuiu-lhe maior proeminência do que qualquer um deles.

FILÓSTRATO, Vida dos Sofistas I, 9, 1ss. A Sicília deu ao mundo, em Leontinos, Górgias, a quem se deve atribuir, julgamos nós, a arte dos sofistas, como se fosse o seu pai. Na verdade, se em relação a Ésquilo pensamos' que ele acrescentou muita coisa à tragédia, dotando-a de vestuário, do alto coturno de personagens heroicas, de mensageiros de fora e de dentro, do que se deve representar dentro ou fora de cena, algo de idêntico representará Górgias para os seus colegas de profissão. 2. Ele liderou o movimento dos sofistas pela sua maneira assombrosa de falar, pela sua inspiração e pela interpretação grandiosa de grandiosos assuntos, pelas suas interrupções bruscas e pelas ausências de transição, que tornam o discurso mais agradável e mais incisivo, e ornamentou-o, além disso, com nomes poéticos, para lhe conferir beleza e gravidade. 3. Já foi dito, no início do meu discurso [A 1a], como ele improvisava igualmente com grande facilidade; e se muitos o admiraram quando, já em idade avançada, discursava em Atenas, pela minha parte isso nada me admira, já que ele teve a seu cargo os homens mais ilustres: Crítias  e Alcibíades, quando jovens, e Tucídides e Péricles, já idosos. Também Agatão, o poeta trágico, que a comédia vê como um sábio e de linguagem elegante, gorgianiza muitas vezes nos seus jambos. 4. Notabilizando-se nas Panegírias dos Gregos, ele pronunciou o Discurso Pítico em cima do pedestal onde se erigiu uma estátua de ouro no santuário de Apoio Pítico. Por outro lado, o seu Discurso Olímpico foi uma tomada de posição sobre um assunto da maior importância política. Na verdade, vendo a Grécia dividida entre si, ele tornou-se para ela um conselheiro da concórdia, virando-a contra os Bárbaros e convencendo-a a considerar como troféu da luta armada, não as suas próprias cidades, mas sim o território dos Bárbaros. 5. A Oração Fúnebre, por ele pronunciada em Atenas, foi dedicada aos que caíram no campo de batalha, em cuja honra os Atenienses, mediante uma subscrição pública, organizaram solenes exéquias, e está redigida com uma sabedoria extraordinária. Na verdade, virando os Atenienses contra os Medos e os Persas e desenvolvendo a mesma linha de pensamento do Discurso Olímpico, ele não disse palavra sobre a concórdia entre os Gregos, pois se encontrava perante Atenienses ciosos duma supremacia que não se podia conquistar sem eles tomarem medidas, mas cingiu-se aos elogios sobre os troféus que celebravam a vitória sobre os Persas, fazendo-lhes ver que "as vitórias... cantos, fúnebres". 6. Dizem que Górgias chegou aos cento e oito anos, sem ter o corpo afetado pela velhice, mas gozando até ao fim duma saúde equilibrada, no perfeito domínio das suas faculdades.  ( DK 82 A 1 )

FILÓSTRATO, Vida dos Sofistas I, 1 Górgias de Leontinos foi, na Tessália, o fundador da antiga [sofistica]... Górgias [parece] ter sido o primeiro a falar de improviso. Na verdade, tendo-se apresentado no teatro de Atenas, atreveu-se a dizer "proponde-me assunto”, e foi o primeiro a desempenhar em voz alta esta árdua tarefa, mostrando assim possuir um saber universal, ao permitir-se falar de tudo com oportunidade.  ( DK 82 A 1 a )

SUDA: Górgias, filho de Carmântidas de Leontinos, orador, discípulo de Empédocles, mestre de Polo de Agrigento, de Péricles, de Isócrates e de Alcidamante de Eleia, que lhe herdou também a escola. Era irmão do médico Heródico. Porfírio situa-o na octogésima Olimpíada [460-457 a.C.], mas é de pensar que seria mais velho. Foi ele o primeiro a dar ao aspecto retórico da cultura força e razão persuasivas, mediante a utilização de tropos, metáforas, alegorias, hipálages, catacreses, hipérbatos, anadiploses, epanalepsis, apóstrofes e párisos[2] . Por cada aluno cobrava cem minas. Viveu cento e nove anos e deixou muita coisa escrita. ( DK 82 A 2 )
PLATÃO, Górgias 448 b Se, por acaso, Górgias se dedicasse à arte que exerce seu irmão Heródico, que nome se lhe deveria atribuir? ( DK 82 A 2 a )

DIÓGENES LAÉRCIO, VIII, 58, 59 [Empédocles] era não só,  médico mas também um excelente orador. Górgias, pelo menos, foi seu aluno, um homem superdotado em retórica, de que nos deixou  um manual técnico... Sátiro conta que Górgias lhe disse ter estado presente enquanto Empédocles fazia sortilégios. ( DK 82 A 3 )

DIODORO DA SICÍLIA, XII, 53, 1ss. Nesta altura, os habitantes de Leontinos estabelecidos na Sicília, mas originários de Cálcis e da mesma raça que os Atenienses, viram-se envolvidos na guerra desencadeada pelos Siracusanos. Pressionados pela guerra e correndo o risco, dada a superioridade dos Siracusanos, de serem tomados pela força, enviaram embaixadores a Atenas pedindo ao povo que viesse em seu socorro o mais rapidamente possível e lhes livrasse a cidade dos perigos que a ameaçavam. 2. Górgias, o retórico, chefiava a embaixada, sobressaindo em relação aos demais pelo poder do seu discurso. Foi ele também o primeiro que inventou a arte retórica, e ultrapassou de tal modo todos os outros pela sua perfeição sofistica, que recebia dos seus alunos um salário de cem minas. 3. Descendo a Atenas e tendo-se apresentado à Assembleia, ele mesmo falou aos Atenienses sobre a aliança e impressionou, pela novidade do estilo, os Atenienses que eram muito dotados e afeiçoados às letras 4. Ele foi, com efeito, o primeiro a usar de figuras de estilo cheias ide graciosidade que se distinguiam pela habilidade artística, como as antíteses, os isócolos, os párisos, os homeoteleutos e outras do mesmo gênero, que na altura mereceram aprovação pela novidade da construção sintática, mas que hoje parecem representar um esforço supérfluo, surgindo como coisas ridículas de que se abusa repetidamente até à saciedade. 5. Após ter convencido os Atenienses a socorrerem os habitantes de Leontinos e ter sido admirado em Atenas pela sua arte retórica, regressou a Leontinos. [Segundo Timeu, Górgias de Leontinos mostra isso em inúmeras ocasiões, tornando o seu estilo oratório muito pesado e empolado, e utilizando algumas expressões "que não estão longe de certos ditirambos"^ e dos seus discípulos do círculo de Licínio e Polo. A linguagem poética e figurada impressionou os oradores atenienses quando, como diz Timeu: ‘Górgias, ao conduzir as negociações à frente da sua embaixada, em Atenas, se destacou, deixando estupefatos os ouvintes com o discurso que fez ao povo, como também é verdade que, de certo modo, antigamente tal linguagem era sempre admirada’. ( DK 82 A 4 )

XENOFONTE, Anábase II 6, 16 ss. Próxeno, o Beócio[3], desejou desde jovem tornar-se um homem capaz de realizar grandes feitos e, movido por esse desejo, ofereceu dinheiro a Górgias, o Leontino. ( DK 82 A 5 )

ARISTÓFANES, Aves 1694 :  Há em Fanes, / junto da clepsidra, / um povo industrioso, / o dos englotogastros[4],/ que com as línguas ceifam / semeiam e vindimam / e também colhem os figos./ São também uma raça de bárbaros / os Górgias e os Filipes,/  e é devido a esses Filipes englotogastros / que em toda a Ática se corta a língua. - ARISTÓFANES, Vespas 420: Por Héracles, eles têm ferrão. Não os vês, senhor? /- Os que num pleito deitaram a perder Filipe, aluno de Górgias ( DK 82 A 5 a)

PLUTARCO, Vidas dos dez oradores 832 F [Antifonte de Ramnunte] nasceu precisamente na época das Guerras Pérsicas [480 a.C.] e de Górgias, o sofista, sendo um pouco mais novo do que este. ( DK 82 A 6 )

PAUSÂNIAS, VI 17, 7 ss. E também se pode ver [a estátua de] Górgias de Leontinos. Diz Eumolpo, o terceiro descendente de Deícrates, que casou com a irmã de Górgias, tê-la consagrado em Olímpia. 8. Este Górgias tinha por pai Carmântidas. Consta que foi o primeiro a ressuscitar o tão negligenciado exercício da retórica que estava praticamente esquecida pela humanidade. Dizem que Górgias ganhou fama devido aos discursos proferidos na Panegíria[5] de Olímpia e também aquando da embaixada a Atenas juntamente com Tísias... 9. Mas Górgias conseguiu granjear entre os Atenienses uma consideração superior à daquele, e Jasão, que naquela época era o tirano da Tessália [+ 380 / 370], colocou Górgias à frente de Polícrates, cuja posição não era das últimas na escola de Atenas. Dizem que viveu até aos cento e cinco anos.  - X 18, 7  - Há [em Delfos] uma estátua de ouro que foi uma oferta votiva do próprio Górgias de Leontinos. -  CÍCERO, Do orador III 32, 129 - Este [Górgias] foi objeto de tanta consideração na Grécia que, em Delfos inteira, apenas a ele erigiram uma estátua, e esta não era dourada, mas de ouro. PLÍNIO, História A/a/ura/ XXXIII 83  - Górgias de Leontinos foi o primeiro homem a ter erigida em sua honra uma estátua de ouro maciço no templo de Delfos na 70ª Olimpíada, tal era o lucro proveniente do ensino da arte oratória. ( DK 82 A 7 )

EPIGRAMAS GREGOS 875a §534 Kaibel - Górgias de Leontinos, filho de Carmântidas. a) Deícrates casou com a irmã de Górgias e desta lhe nasceu Hipócrates. De Hipócrates, Eumolpo, que também lhe consagrou uma estátua, por dois motivos: por educação e por afeto. b). Jamais algum mortal encontrou arte mais bela para exercitar o espírito nas lutas da virtude do que Górgias; e a sua estátua está nos vales de Apoio, não como exemplo de riqueza, mas como expressão de piedade. ( DK 82 A 8 )

PLATÃO, Apologia de Sócrates 19E [Sócrates]: - Com efeito, parece-me belo que seja possível alguém ensinar os homens tal como Górgias de Leontinos, Pródico de Ceos e Hípias de Elis. ( DK 82 A 8 a )

ELIANO, Varia Historia XII 32 Circula por aí que Hípias e Górgias usavam vestes de púrpura. ( DK 82 A 9 )

APOLODORO Hist. 244F 33 -  [Górgias] viveu nove anos para além dos cem. PORFÍRIO, Sententiae II 272, 26. - OLIMPIODORO, Comentário ao Górgias de Platão §112' -  Em segundo lugar, diremos que eram da mesma época; [na verdade], Sócrates nasceu no terceiro ano da 77ª Olimpíada (470/69), e Empédocles, o pitagórico, o mestre de Górgias, mantinha relações amigáveis com; ele. É também dado como certo que Górgias escreveu um tratado Sobre a Natureza, a que não falta elegância, na 84ª Olimpíada [444-1], Deste modo, ele era mais velho do que Sócrates vinte e oito anos, ou pouco mais. Platão, no Teeteto [183E], diz isso de outro modo: "Sendo eu jovem, encontrei-me justamente com Parménides, então muito mais velho, e deparei com um homem dotado de grande profundidade". Este Parménides foi mestre de Empédocles, o mestre de Górgias. E Górgias era mais velho; com efeito, segundo o que é narrado, ele faleceu contando cento e nove anos; logo, foram contemporâneos. ( DK 82 A 10 )

ATENEU XII 548 C/D Górgias de Leontinos, como refere o próprio Clearco no livro VIII das Vidas , II 308 , graças a uma vida moderada chegou perto dos oitenta anos na posse de quase todas as suas faculdades mentais. E quando alguém lhe perguntava qual era o regime usado para viver tão equilibradamente, senhor das suas faculdades após todo aquele tempo, respondia: "nada jamais fiz tendo em vista a outra coisa". Demétrio de Bizâncio, no livro IV Da Poesia, relata que, tendo alguém perguntado a Górgias de Leontinos qual a causa de ter vivido para além dos cem anos, ele respondeu "nada jamais ter feito com vista [a outra coisa” ( DK 82 A 11 )

CÍCERO Catão 5.2 Górgias de Leontinos, o mestre deste [Isócrates], completou cento e sete anos e nunca abandonou os estudos e a atividade. Quando lhe foi perguntado porque queria viver tanto tempo, disse: "não tenho motivo para acusar a minha velhice". ( DK 82 A 12 )

PLÍNIO, História Natural VII 156 É indubitável que Górgias da Sicília viveu cento e oito anos. [LUCIANO] Macróbios 23 De entre os retóricos, Górgias, que alguns apelidam de sofista, contou cento e oito anos; tendo-se abstido de comer, faleceu. Conta-se que, quando lhe perguntaram a causa de uma idade tão avançada e do bom estado de todas as suas faculdades, ele retorquiu que isso se devia a nunca ter aderido aos prazeres dos outros. ( DK 82 A 13 )

QUINTILIANO III, 1, 8 ss. Os mais antigos escritores destas artes oratórias foram Córax e Tísias da Sicília, a quem sucedeu um homem da mesma ilha, Górgias de Leontinos, discípulo de Empédocles, segundo a tradição. Beneficiado pela sua longevidade [com efeito, viveu cento e nove anos], ele celebrizou-se juntamente com muitos outros e, por esse motivo, foi rival dos que acima mencionei e. até sobreviveu a Sócrates. ( DK 82 A 14 )

ELIANO, Varia Historia II - 35 Górgias de Leontinos, encontrando-se já no termo da sua vida e bastante idoso, atacado por uma doença funesta, ficou imobilizado, entrando pouco a pouco, docemente, no sono. Quando um dos familiares se abeirou para o observar e lhe perguntou como se achava, Górgias respondeu: "o sono já começou a arranjar-me lugar junto à sua irmã" ( DK 82 A 15 )

ATENEU XI 505 D - Do mesmo modo também se diz que, após ter lido o diálogo seu homônimo, Górgias disse aos seus amigos: "que bem que Platão sabe satirizar!". ( DK 82 A 15 a )

QUINTILIANO, Instituição Oratória III 1, 13 - A estes muitos se sucederam, mas o mais ilustre dos ouvintes de Górgias foi Isócrates. Ainda que os autores não concordem sobre quem foi o seu mestre, nós, todavia, damos crédito a Aristóteles. ( DK 82 A 16 )

PLUTARCO, Vidas dos dez oradores §838 D [Túmulo de Isócrates, segundo Heliodoro, o Periégeta] Havia também junto dele uma lápide fúnebre representando poetas e os mestres dele, entre os quais Górgias, que olhava para uma esfera astrológica, na presença do próprio Isócrates. ( DK 82 A 17 )

ISÓCRATES – Discursos – Livro I – Forenses XV, 155 ss. De quantos nos lembramos, foi Górgias, o Leontino o que granjeou maiores riquezas. Residiu na Tessália, quando os seus habitantes eram os mais ricos dos Gregos, e viveu aí a maior parte do tempo, dedicando-se a esta atividade lucrativa. (156) Não fixou residência em nenhuma cidade, não fez despesas públicas, nem tampouco foi obrigado a pagar contribuições; além disso, não se casou nem teve filhos, pelo contrário, ficou isento desta obrigação tão contínua e dispendiosa. No entanto, tendo tido, mais do que os outros, a possibilidade de juntar dinheiro, apenas deixou mil estáteres.[6] ( DK 82 A 18 )

PLATÃO, Mênon 70 a-b -  Ó Menon, até aqui os tessálios eram apreciados e admirados entre os Gregos pela arte da equitação e pela sua riqueza. Agora, porém, parece-me que o são devido à sabedoria, sobretudo os de Larissa, concidadãos do teu companheiro Aristipo. O responsável disto é o vosso Górgias. De fato, chegado à vossa cidade, captou, como amante da sabedoria, os mais ilustres dos Alévadas[7], entre os quais se encontra o teu amante Aristipo e outros tessálios. Naturalmente, este costume habituou-vos a responder sem medo e com perícia se alguém vos perguntar algo, como é apanágio dos que sabem. Ele mesmo, Górgias, punha-se ao dispor dos Gregos que desejassem perguntar-lhe qualquer coisa, e a ninguém deixava sem resposta. - ARISTÓTELES, Política III 2.1275b 26 [Determinação do direito de cidadania] De fato, Górgias de Leontinos, talvez por não conseguir dar uma resposta ou então ironizando, disse que, do mesmo modo que os malhos são feitos por fabricantes de malhos, também os cidadãos de Larissa são feitos pelos cidadãos larisseanos. A coisa é muito simples: todos os que tomavam parte no governo do modo que explicamos eram cidadãos. Porém, a condição de ser filho de um cidadão ou de uma cidadã não poderia ser imposta aos primeiros habitantes ou fundadores da cidade. ( DK 82 A 19 )

PLATÃO. Górgias 447c -  A minha intenção é perguntar-lhe qual é a virtude própria da sua arte, e que arte é essa que professa e ensina. O resto da demonstração poderá ficar, como tu dizes, para outro dia. - O melhor será fazer-lhe a pergunta a ele próprio, Sócrates, porque esse era precisamente um aspecto da sua atuação de há pouco: convidava os presentes a interrogarem-no sobre o que quisessem, que a ninguém deixaria sem resposta. 449c [fala de Górgias] Esta é, afinal, uma das coisas de que me orgulho, a de que ninguém é capaz de dizer o mesmo que eu em menos palavras. - É exatamente aquilo de que eu preciso, Górgias. Faz-me agora uma demonstração de brevidade, deixando para outra altura a abundância. ( DK 82 A 20 )

PLATÃO, Mênon 95c - É nisto que eu admiro sobretudo Górgias, ó Sócrates: tu nunca o terás ouvido prometer tal coisa [ou seja: ser mestre de virtude]; pelo contrário, ele ri-se dos outros sempre que os ouve prometer tais coisas. Em seu entender, o que é preciso é torná-los hábeis a fala. ( DK 82 A 21 )

PLATÃO, Górgias 456 b - Várias vezes acompanhei o meu irmão e outros médicos a casa de doentes que não queriam tomar um remédio ou submeter-se ao tratamento do ferro ou do fogo. Ora, quando o médico se mostrava incapaz de persuadir o doente, fazia-o eu, sem mais recursos do que a retórica. ( DK 82 A 22 )

ARISTÓTELES, Retórica III, 3 1406 b 14 - 0 que Górgias disse a uma andorinha quando esta, voando sobre a sua cabeça, deixou cair um pedaço de excremento, é do melhor estilo trágico que há. Disse ele: "O Filomela, isto é uma vergonha". Com efeito, para uma ave não seria vergonhoso, se fosse ela a fazê-lo; vergonhoso seria para uma donzela. O reparo resultou de ele ter aludido ao que ela fora, e não ao que era. ( DK 82 A 23 )

FILÓSTRATO, Vida dos Sofistas I proémio, p. 4,4 - Górgias, para troçar de Pródico por este, nos seus discursos, falar de coisas sem interesse e já repetidas, lançou-se a falar de improviso. Entretanto, não escapou, por certo, à inveja. Havia, na verdade, em Atenas um certo Querefonte[8]. Este Querefonte, para escarnecer do esforço de Górgias, pergunta-lhe: "Por que razão, ó Górgias, as favas sopram sobre o estômago e não sobre o fogo?". Nada perturbado pela questão, ele responde; "Isso é algo que deixo para investigares, mas há outra coisa que eu há muito sei: para pessoas como tu a terra produz férulas"( DK 82 A 24 )

PLATÃO, Fedro - .267 a -  CICERO, Brutus, XII, 47 - Os lugares comuns; Górgias fez isso mesmo ao escrever o elogio e a condenação de cada assunto proposto, pois ele julgava ser da competência específica do orador a capacidade de enaltecer uma causa, louvando-a e, seguidamente, de a destruir, atribuindo-lhe defeitos. ( DK 82 A 25 )

PLATÃO, Filebo, 58a Ouvi muitas vezes Górgias dizer que a arte de persuadir se distingue muito das restantes. Na verdade, ela poderá submeter tudo aos seus desejos, não pela força, mas mediante uma livre adesão. CÍCERO, De inuentione, 5, 2 - Górgias de Leontinos, um dos oradores mais antigos, entendia ser capaz de falar perfeitamente sobre qualquer assunto. ( DK 82 A 26 )

PLATÃO. Górgias, 450b -  [fala Górgias] É que todas as outras artes se ocupam praticamente apenas de operações manuais e coisas do mesmo gênero, ao passo que a retórica não tem nada a ver com esses aspectos, pelo contrário, toda a sua ação e eficácia se realizam através da palavra. É por isso que afirmo que a retórica é a arte dos discursos e fico convencido de que digo bem. OLIMPIODORO, op. cit. §131 - Os especialistas em questões estilísticas apresentam estas duas palavras, "cheirúrgêma" e "kyrôsis"^ como não devendo ser ditas. E, na verdade, elas não se dizem. O que afirmamos, pois, é que, quando Górgias fala, apresenta termos regionais que lhe são característicos. Na verdade, ele era de Leontinos. ( DK 82 A 27 )

PLATÁO, Górgias 453 a -  Se te compreendi bem, afirmas que [a retórica] é obreira de persuasão e que tal é o objetivo e a essência de toda a sua atividade. – 455 a Podemos portanto dizer que a retórica é obreira de persuasão que gera a crença, não o saber, sobre o justo e o injusto. ( DK 82 A 28 )

ARISTÓTELES, Retórica III 1. 1404 a 24 - Como parecia que os poetas, dizendo coisas banais, conseguiam, devido ao estilo, atingir a glória, o estilo primitivo era poético como o de Górgias. E mesmo agora a maioria das pessoas sem instrução ainda pensa que esses é que dizem as coisas mais belas. SIRIANO, Comentário a Hermógenes 111, 20 Raber[9]  Górgias transpôs a expressão poética para os discursos políticos, não considerando que o retórico fosse igual aos cidadãos privados. Já Lísias procedeu ao contrário, etc. ( DK 82 A 29 )
CÍCERO, Do Orador, 12, 39 - Estas [ antítese e páriso ] foram primeiro usadas por Trasímaco de Calcedónia e Górgias de Leontinos, depois por Teodoro de Bizâncio e muitos outros, que Sócrates, no Fedro, denomina "logodédalos" ( DK 82 A 30 )

CÍCERO, Do Orador, 49., 165 Sabemos que, na busca da harmonias, Górgias foi o primeiro. ( DK 82 A 31 )

CÍCERO Do Orador, 52, 175 (Ritmo) Trasímaco foi o primeiro a descobri-lo e em todos os seus escritos sobressai um uso excessivo do ritmo. Na verdade... Górgias foi o primeiro a descobrir o páriso, a rima e também a antítese, as quais, pela sua natureza, ainda que se não faça de propósito, acabam geralmente em esquemas rítmicos, mas o seu uso foi aplicado com falta de moderação... 176 Górgias é mais insaciável neste estilo e abusa em demasia destas virtuosidades [como ele mesmo as denomina]; Isócrates, apesar de na sua juventude ter escutado, na Tessália, Górgias, já em idade avançada, utilizou-as com mais moderação. DIONÍSIO DE HALICARNASSO, Iseu 19 - Pensando que ninguém foi melhor do que Isócrates na organização poética do discurso nem no modo elevado e pomposo de falar, omiti espontaneamente aqueles que eu pensava serem inferiores na construção dessas figuras, pois via Górgias de Leontinos afastando-se do uso tradicional e tornando-se frequentemente pueril. ( DK 82 A 32 )

ATENEU V 220 D - O diálogo O Político [de Antístenes] inclui um ataque a todos os demagogos de Atenas; já o Arquelau ê dirigido contra o retórico Górgias. ( DK 82 A 33 ) 

CLEMENTE DE ALEXANDRIA, Strommateis VI 26 - Górgias de Leontinos plagiou Meleságoro; o mesmo fizeram historiadores como Eudemo de Naxos e Bion do Proconeso3. ( DK 82 A 34 ) 

FILÓSTRATO, cartas, 73ª -  Os admiradores de Górgias eram distintos e numerosos. Em primeiro lugar, os Gregos oriundos da Tessália, para quem o ato de fazer um discurso recebia a designação de gorgianizar; depois, toda a nação grega, perante quem, em Olímpia, ele discursou contra os Bárbaros na base do templo. Diz-se que Aspásia de Mileto apurou a linguagem de Péricles segundo o modelo de Górgias; de Crítias e Tucídides não se ignora que adquiriram dele uma certa grandiosidade e elevação, que cada um assimilou à sua maneira: um na fluência discursiva, o outro no vigor da palavra. E Esquino, o discípulo de Sócrates, por quem tu recentemente te interessaste (a carta dirige-se a uma certa Júlia), embora reprimindo notoriamente os diálogos, não receou gorgianizar no seu discurso sobre Targélia. Na verdade, ele exprime-se mais ou menos deste modo: "Targélia de Mileto, tendo chegado à Tessália, tornou- -se amante de Antíoco da Tessália, que reinava sobre todos os Tessálios". As suas interrupções bruscas, as ausências de transição dos discursos de Górgias são frequentes em muitos lados, sobretudo no círculo dos poetas épicos. ( DK 82 A 35 )

Fragmentos sobre o Tratado Do Não-Ser Ou Da Natureza:
O Tratado do Não-Ser organiza-se em três teses: nada existe; mesmo se o ser existisse, então seria incognoscível; e se fosse cognoscível, então este conhecimento do ser seria incomunicável a outrem.   Para Górgias as coisas não são mais do que não são. Ainda que o ser existisse, não podia ser nem gerado, nem não gerado. Mas, mesmo se um tal ser existisse, as coisas seriam incognoscíveis, pelo menos para nós. As coisas que vemos e ouvimos existem porque são representadas. Ora, pode representar-se o que não existe. Portanto, a representação do ser não nos proporciona o ser e o conhecimento é impossível .Contudo, tomamos conhecimento pela percepção e comunicamo-lo pela linguagem. Mas a linguagem não transmite a experiência pela qual o real se nos dá. Este é incomunicável, porque as coisas não são discursos.
Apesar do seu carácter vincadamente irônico, esta paráfrase das reflexões de Górgias feitas por Sexto ilustra bem até onde se poderia estender o domínio de interesse dos Sofistas. Neste caso, estamos em presença de um tratado ontológico-gnosiológico em torno das categorias filosóficas da unidade e da multiplicidade. Poderíamos afirmar que Górgias ultrapassa as teorias dos seus antecessores, incluindo a do seu mestre Empédocles, equiparando o não-ser à natureza. Parece-nos porém que o seu verdadeiro propósito se situará mais no âmbito retórico. Ele terá aceitado pegar habilmente numa questão, cuja abordagem polêmica aquecia os debates filosóficos, para, como retórico, adiantar uma conclusão paradoxal a partir duma ‘ratiocinatio subtil’, (raciocínio subtítulo) rápida e aparentemente repleta de lógica. Górgias estrutura a sua argumentação, do princípio ao fim, num punhado de tópicos donde faz brotar a rede dos seus pensamentos. São eles os da evidência, o do absurdo, repetidas vezes invocado, o do princípio de contradição, o da necessidade, o da facilidade da prova e o da impossibilidade. Porém, independentemente de qual tenha sido a verdadeira intenção de Górgias, o certo é que este discurso se integra perfeitamente dentro da mundividência sofistica, defensora dum cepticismo ontológico e do consequente relativismo de valores. Esta posição filosófica, que desprovia tragicamente a existência humana de fundamentos sólidos, acabava por dar toda a força a um tipo de retórica defensora do discurso hábil cujos suportes verdadeiros e exclusivos eram o sentido da oportunidade  e a força da opinião. Górgias reparte a sua argumentação por três fases, artisticamente encadeadas na proposição e, desenvolvidas logo depois: 1) nada existe; e ainda que exista não se poderá conhecer;  3) e, se se puder conhecer, não será possível dar-lhe expressão

ISÓCRATES, Discursos, Livro I, 3 Elogios - Elogio de Helena X ,3 - Como é que realmente alguém poderia ultrapassar Górgias, que ousou afirmar que nenhum ser existe, ou então Zenão, que tentou provar que as mesmas coisas são possíveis e, em sentido inverso, impossíveis, ou a Melisso que, sendo infinito o número de coisas que existem, tentou descobrir provas de que tudo isso é uma só coisa?:  - Forenses 15, 268 ... as ideias dos antigos Sofistas, um dos quais afirmava que existe a multidão infindável dos seres..., enquanto Parménides e Melisso sustentavam que existia um só ser, e Górgias que absolutamente nenhum'. ( DK 82 B 1 )

OLIMPIODORO, Comentário ao Górgias de Platão, §112 - Não há dúvida que Górgias escreveu o tratado Sobre a Natureza, uma obra nada deselegante, na 84ª Olimpíada  ( DK 82 B 2 )

SEXTO EMPIRICO. Contra os Matemáticos \/II 65 e ss. : Górgias de Leontinos contava-se entre os que prescreveram o critério da ordem, mas não partiu do mesmo pressuposto que os seguidores de Protágoras. Com efeito, no seu tratado Sobre O Não-Ser ou Sobre a Natureza defende sucessivamente três pontos capitais: em primeiro lugar, que nada existe; em segundo, que ainda que exista é incompreensível ao homem e, em terceiro, que mesmo sendo compreensível é, todavia, impossível de se comunicar e explicar a outrem. §66 - Que nada existe, ele explica deste modo: se, na verdade, algo existe, ou existe o ser ou o não-ser. Ora, nem o ser existe, tal como será demonstrado, nem o não-ser, o que também se explicará, nem tampouco o ser e o não-ser, como será igualmente analisado; logo, nada existe. §67 E evidente que o não-ser não existe; se, com efeito, o não-ser existe, existirá e não existirá a um tempo; pois, se o apreendermos enquanto não-ser, não existirá, porém como não-ser voltará a existir. E completamente absurdo que algo exista e não exista ao mesmo tempo; logo, o não-ser não existe e, por outro lado, se o não-ser existe, o ser não existirá; com efeito, estas coisas são contrárias umas às outras, e se ao não-ser coube em sorte a existência, ao ser caberá em sorte a não existência. Mas, sem dúvida, o ser não existe; logo, nem o não-ser existirá. §68 E também o ser não existe. Se realmente o ser existe, por certo é eterno ou gerado, ou então simultaneamente eterno e gerado; mas não é eterno nem gerado, nem tampouco ambas as coisas, como demonstraremos; logo, o ser não existe. Na verdade, se o ser é eterno - com efeito, deve-se começar por aqui - não tem qualquer começo. §69 Pois tudo aquilo que é gerado tem um princípio, mas o eterno, apresentado como não gerado, não teve princípio. Não tendo princípio, é infinito. Se é infinito, não existe em lugar nenhum. Mas se existe em algum lugar, esse lugar onde ele existe é diferente de si mesmo, e deste modo já não será infinito o ser contido nalgum lugar; na verdade, o que contém é maior do que aquilo que é contido, mas nada é maior do que aquilo que é infinito, de modo que o infinito não existe em lugar nenhum. §70  E também não está contido em si mesmo. Na verdade, o que contém e o que é contido serão a mesma coisa, e o ser dará origem a dois: espaço e matéria - espaço o que contém; matéria o que é contido. Mas isto é absurdo. Deste modo, o ser não está em si mesmo. Assim, se o ser é eterno, é infinito, e se é infinito não está em nenhum espaço, mas se realmente não está em nenhum espaço, não existe. Portanto, se o ser é eterno não tem um começo. §71 E também o ser não pode ser gerado. Se efetivamente foi gerado, é porque foi gerado a partir do ser ou do não-ser. Mas não foi gerado a partir do ser; pois se é ser, não foi gerado por já existir; nem o foi a partir do não-ser, pois o não-ser nada pode gerar, pois aquele que gera algo deverá, forçosamente, partilhar da sua existência. Logo, o ser não foi gerado, §72 E do mesmo modo, não pode ser as duas coisas simultaneamente: eterno e gerado. Com efeito, estas coisas anulam-se uma à outra, e se o ser é eterno não foi gerado e se foi gerado não é eterno. Deste modo, se o ser não é eterno nem gerado, nem as duas coisas a um tempo, o ser não pode existir. §73 E por outro lado, se existe, ou é uno ou múltiplo; todavia, não é uno nem é múltiplo, como passaremos a provar: logo, o ser não existe. Se, com efeito, é uno, ou é quantidade ou é continuidade ou é grandeza ou é corpo. Mas se for alguma destas coisas não é uno, pois apresentado como quantidade será dividido e como continuidade será repartido. Igualmente concebido como grandeza não será indivisível. E se é corpo terá obrigatoriamente três qualidades: comprimento, largura e profundidade. Mas é absurdo dizer que o ser não é nenhuma destas coisas: logo, o ser não é uno. §74 E também não é múltiplo. Se não é realmente uno não é múltiplo. De fato, a multiplicidade é uma combinação de unidades, e uma vez destruída a unidade, suprime-se a multiplicidade. Ora, com base nisto, é evidente que nem o ser existe nem o não-ser existe. §75 É fácil provar que nenhum dos dois, ser e não-ser, existe. Se acaso o não-ser existe e o ser existe, o não-ser será idêntico ao ser relativamente à existência; por isso, nenhum deles existe. Que o não-ser não existe, já estamos de acordo; por outro lado, ficou claro que o próprio ser tem natureza idêntica ao não-ser: e portanto, também o ser não existirá. §76 Mas se o ser é idêntico ao não-ser, não podem existir, ambos, pois se ambos existissem não seriam idênticos, e se porventura são idênticos não existem ambos. Com tudo isto, conclui-se que nada existe. Pois se, na verdade, não existe o ser nem o não-ser e nem ambos coexistem, para além disto nada é pensável, nada existe. §77 Ainda que algo pudesse existir, não seria reconhecível nem concebível pelos homens, eis o que, em seguida, se deverá demonstrar. Se, como diz Górgias, tudo o que pensamos não existe como ser, o ser não é pensado. Isto tem a sua lógica, pois tal como aconteceu às coisas pensadas serem brancas, também poderia ter acontecido às coisas brancas serem pensadas; do mesmo modo, se às coisas pensadas aconteceu não existirem, necessariamente acontecerá aos seres não serem pensados. §78 Daí a seguinte consequência como algo de sensato, também a salvaguardar: "Se aquilo que pensamos não existe como ser, o ser não é pensado". Mas certamente aquilo que pensamos - voltemos, pois, atrás - não existe como ser, o que será provado: logo, o ser não é pensado. E é evidente que as coisas pensadas não existem como seres. §79 Se, de facto, as coisas pensadas existem como seres, tudo o que se pensa existe, independentemente da forma como for pensado, o que é  inverossímil. Nem é por alguém imaginar um homem a voar ou carros de cavalos a correr rapidamente sobre o mar, que logo um homem voa ou carros de cavalos correm rapidamente sobre o mar. Assim, as coisas pensadas não existem como seres. §80 Além disso, se aquilo que pensamos existe como ser, as coisas que não existem não podem ser pensadas. Por conseguinte, a coisas contrárias advém o contrário e o ser é o contrário do não-ser. E assim, pelo menos, se ao ser aconteceu ser pensado, ao não-ser acontecerá não ser pensado. Mas isto é absurdo. Também Cila, Quimera e muitas outras coisas não existentes são pensadas. Portanto, o ser não é pensado. §81 Tal como aquilo que se vê se diz visível por ser visto, o que se ouve torna-se audível por ser ouvido, e não rejeitamos as coisas visíveis : por não as ouvirmos, nem repudiamos as audíveis por não serem vistas - pois cada uma dessas coisas deverá ser percebida pelo sentido que lhe é próprio e não por outro - do mesmo modo, aquilo que pensamos, ainda que não seja percebido pela vista nem escutado pelo ouvido, existirá porque é apreendido pelo seu próprio critério. §82 Assim, se alguém pensa que carros de cavalos correm rapidamente sobre o mar, embora os não veja, deverá acreditar que existem carros de cavalos correndo rapidamente sobre o mar. Porém, isto é absurdo. Logo, o ser não é pensado nem tampouco apreendido. §83 e ainda que se pudesse apreender, não seria transmissível a outrem. Se é verdade que há seres visíveis e audíveis e, na generalidade, perceptíveis aos sentidos - seres esses situados no exterior - e destes, os visíveis são apreendidos pela vista, enquanto os audíveis o são pelo ouvido, e não de outro modo, como podem então eles ser comunicados a outrem. §84 Na verdade, é com a palavra que identificamos algo, mas a palavra não é nem aquilo que está à vista nem o ser: logo, aos que nos rodeiam, não comunicamos o ser mas sim a palavra, que é diferente das coisas visíveis. Tal como o que é visível não se pode tornar audível e vice-versa, também o ser, porque subsiste exteriormente, nunca se pode transformar na nossa palavra. §85 E, não sendo palavra, não se poderá comunicar a outrem. A palavra, diz ele, forma-se a partir do reflexo exterior dos objetos em nós, ou seja, dos objetos sensíveis. Na verdade, a partir do encontro do sabor, origina-se em nós a palavra produzida de acordo com a qualidade daquele, e também a partir da impressão da cor nasce a palavra conforme a essa cor. E se é assim, a palavra não é expressão do objeto exterior, mas é o objeto exterior que se torna revelador da palavra. §86 E também não é possível dizer que, tal como os objetos visíveis e audíveis têm existência própria, do mesmo modo a palavra, de forma que a partir do mesmo objeto real e existente se poderiam comunicar os objetos reais e existentes. Na verdade, disse ele, ainda que a palavra tenha existência própria, ela é, todavia, diferente dos demais objetos com existência própria, e os corpos visíveis diferenciam-se consideravelmente das palavras; na verdade, o objeto visível é apreendido por um órgão, enquanto a palavra o é por outro. Logo, a palavra não indica a maioria dos objetos reais, tal como nenhum deles revela a natureza dos outros. §87 Ora, tendo sido estas as aporias encontradas em Górgias, desaparece, com base nelas, todo o critério de verdade; de facto, nem existindo o ser, nem sendo possível conhecê-lo, nem sendo ele passível de ser dado a conhecer a outrem, não poderá existir nenhum critério. ( DK 83 B 3 )

 PLATÃO, Mênon 76 a ss. [Mênon e Sócrates] - Ó Sócrates, o que dizes sobre a cor? - És impetuoso, ó Mênon, ao obrigares um homem idoso a responder a tais questões, quando nem tu, fazendo por recordar, queres explicar aquilo que Górgias uma vez disse ser a virtude... 76 c - Queres então que te responda segundo Górgias, para melhor poderes acompanhar? - Sem dúvida! Porque não havia de querer? - Não dizíeis vós [Mênon e Górgias], tal como Empédocles, que certas emanações se desprendem dos seres? - Exato. - E que existem poros para onde e através dos quais as emanações são conduzidas? - Absolutamente. - E que umas emanações se adaptam a certos poros, enquanto outras são mais estreitas ou mais largas? - E isso. - E não há uma coisa a que chamas vista? - Certamente. - Assim sendo, "escuta bem o que te digo" como dizia Píndaro; a coloração é uma emanação de coisas proporcional e perceptível à vista. - Parece-me, ó Sócrates, que formulaste magistralmente a tua resposta. - Talvez por ter respondido da forma a que estás habituado; e ao mesmo tempo penso que tu imaginas, a partir desta resposta, que poderás explicar a voz, o odor, e muitas outras coisas parecidas. - Perfeitamente. - Pois a resposta é trágica?, ó Mênon. ( DK 82 B 4 )

TEOFRASTO, Do fogo 73, 20 - Eis porque, mediante a reflexão a partir das superfícies polidas, tipo espelho, eles inflamam a luz do sol (eles misturam-na com matéria combustível), mas já não inflamam a luz do fogo: a explicação reside na subtileza das partículas e no fato de o contínuo se tornar sobretudo reflexo, o que, no outro caso, se torna impossível, devido à sua diferente natureza. Assim, a primeira, incidindo com a sua densidade e acuidade na matéria combustível, consegue queimá-la; a outra, porém, não possuindo nenhuma destas qualidades, não o consegue. Assim, acende- -se uma chama a partir do vidro, do bronze e da prata se estes tiverem sido trabalhados de uma certa maneira e não, como diz Górgias e alguns outros pensam, a partir do encaminhamento do fogo pelos porosa. ( DK 82 B 5 )

Fragmentos Sobre a Oração Fúnebre:

Esta Oração fúnebre, segundo um costume ático que remonta à batalha de Platéias[10], situa-se no âmbito dos discursos epifíticos em homenagem aos que morreram na guerra. O autor tardio que o transcreve apresenta-o essencialmente como o tipo de discurso de aparato característico de Górgias, em que está patente um estilo de retórica floreado e onde abundam as tradicionais "figuras gorgiânicas", diversas vezes reputadas de mau gosto por Aristóteles na Retórica. Para a maioria dos estudiosos se trata de um discurso realmente proferido quando da paz de Nícias (421 a.C.), ou então durante a segunda parte da guerra de Corinto (392 a.C.).

ATHANASIUS Alexandr, XIV, 180, 9  - Raber -  O terceiro tipo de retórica que, por entre alguma chacota, provocou a pateada dos adolescentes e deu origem a uma despudorada adulação, num estilo próprio e com entimemas falseados, praticaram-no os alunos de Górgias e Trasímaco, utilizando frequentemente o páriso e ignorando o uso adequado desta figura; no conteúdo e na forma de expressão (praticaram-no) muitos outros, e naturalmente também o próprio Górgias, que é o mais digerível de todos. Este, segundo o próprio relato contido no seu Elogio fúnebre, não se motivando- para dizer "falcões", disse "túmulos vivos". No domínio do pensamento, ele queda-se abaixo do que seria desejável, como atesta também Isócrates ao dizer assim: "Como é que realmente alguém poderia..." etc. [LONGINO] Do Sublime 3,2. Por isso, também Górgias, o Leontino, se cobre de ridículo ao registar "Xerxes, o Zeus dos Persas" e "os abutres túmulos vivos". ( DK 82 B 5 a )

FILÓSTRATO, Vida dos Sofistas I 9,51s As vitórias contra os bárbaros reclamam hinos, as que são contra os Gregos cantos fúnebres. ( DK 82 B 5 b )

PLANUDES A Hermógenes V 548 - Dionísio-o-Velho, no segundo livro dos Caracteres, falando sobre Górgias diz o seguinte: "de fato, não encontrei discursos judiciais dele, mas apenas discursos políticos e alguns tratados com discursos-modelo, na sua maior parte discursos demonstrativos. Eis um exemplo da forma dos seus discursos (ele elogia os atenienses que se notabilizaram nas guerras): “Que qualidade faltava a estes homens de entre as qualidades que os homens devem possuir? E que possuíam eles do que não se deve possuir? Pudesse eu dizer o que quero, pudesse eu querer o que deve ser dito, furtando-me à vingança divina, ou fugindo da inveja humana. Estes adquiriram não apenas a virtude divina, mas também a humana mortalidade, julgando muito preferível a suave moderação à justiça arrogante, a correção do raciocínio ao rigor das leis, considerando ser esta a lei mais divina e universal: falar e calar, fazer e deixar fazer o que se deve no momento devido. E exercitaram sobretudo duas coisas que se devem exercitar: a razão e a força; com uma decidindo, com a outra realizando; ocupando-se, por um lado, dos injustamente infelizes, castigando, por outro, os injustamente felizes; desprendidos do que surge como vantagem, apaixonados pelo que é digno; capazes de eliminar com a sensatez da razão a insensatez da força; prepotentes com os prepotentes, coerentes com os coerentes, ousados com os ousados, terríveis com os terríveis. Como testemunho disto, eles ergueram os troféus dos seus inimigos como oferendas a Zeus, como ofertas votivas de si mesmos; não eram inexperientes nem do inato ímpeto guerreiro, nem dos amores legítimos, nem da contenda armada, nem do amor das belas coisas, próprio da paz; respeitosos para com os deuses na justiça, conscienciosos nas atenções para com os pais, justos na equidade para com os concidadãos, irrepreensíveis na fidelidade aos amigos. Por conseguinte, quando morreram, a saudade não morreu com eles, mas vive, imortal, nos corpos não imortais dos que já não vivem1'. ( DK 82 B 6 )

Fragmentos sobre O Olímpico

Um outro exemplo de discurso de aparato é o Olímpico, pronunciado em Olímpia, muito provavelmente em 408 a.C.. Apesar de muito breves, estes fragmentos testemunham uma das temáticas que mais escola viria a fazer no âmbito dos panegíricos: a Concórdia entre os Gregos. Górgias propõe a paz entre todos os Gregos para que, unidos, melhor possam combater o inimigo comum, os Bárbaros.

ARISTÓTELES, Retórica III 14. 1414b 29 Os proémios dos discursos epidíticos são proferidos ou a partir de um louvor ou de um vitupério, tal como fez Górgias no seu Discurso Olímpico: "Ó Gregos, vós sois dignos de ser admirados por muitos povos". Na verdade, louvou os que organizaram as Panegírias. ( DK 82 B 7 )

 CLEMENTE DE ALEXANDRIA , Strommateis I 51 -  E a nossa luta, segundo Górgias de Leontinos, necessita de duas virtudes: de audácia e de sabedoria; audácia para suportar o perigo, sabedoria para conhecer a estratégia sensata. Pois a palavra, tal como a proclamação dos arautos nos Jogos Olímpicos, chama quem quer vir, mas só coroa quem tiver capacidade. ( DK 82 B 8 ) 

PLUTARCO, Preceitos conjugais 43p. 144B C Estando o retórico Górgias em Olímpia a discursar aos Gregos sobre a concórdia, disse Melântio: este dá-nos conselhos sobre a concórdia, quando não conseguiu persuadir-se nem a si próprio, nem à mulher nem à criada a viverem em concórdia, sendo apenas três. Na verdade, ao que parece, Górgias tinha uma certa afeição pela criada e a mulher sentia ciúmes. ( DK 82 B 8 a )

Fragmentos Sobre o Elogio aos Habitantes de Elis:

ARISTÓTELES, Retórica III 14, 1416a  [É] deste tipo o Elogio aos habitantes de Elis, da autoria de Górgias; na verdade, sem qualquer prelúdio ou introdução, ele começa abruptamente com "Élis, cidade ditosa1'. ( DK 82 B 10 )

Sobre o Elogio De Helena

Este  Elogio de Helena é um precioso testemunho, elaborado pelo próprio Górgias, da sua concepção do discurso. Este sofista ficaria célebre, como refere Cícero no Orator (§§164-167), pelo uso acentuado de determinadas figuras, chamadas gorgiânicas, como  a antítese e o homeoteleuto. Estas impregnavam o discurso de ritmo e musicalidade, de tal forma que não era apenas a armação lógica das ideias, mas também, e simultaneamente, o ritmo e a musicalidade, que determinavam a força persuasiva do discurso. Assim, aquilo a que chamamos persuasão incluía igualmente algo habitualmente designado por sedução. Não terá sido, pois, por mero acaso que Górgias resolveu "divertir-se" escolhendo a sedutora Helena para objeto deste encomio. Ele propõe-se ilibá-la contra o parecer da tradição, que a apontava como culpada da guerra de Tróia por ter abandonado o marido, seduzida pelas palavras de Paris, também ele seduzido por ela, um discurso vivo de beleza harmônica irresistível. Como seria habitual em todos os seus discursos, também este reflete uma sólida estruturação que permite distinguir uma parte preambular (§§1-5) onde se anuncia a propósito (§2), se faz a apresentação da elogiada (§§3-4) e se justifica a inutilidade da narração (§5). A argumentação propriamente dita inicia-se no §6 com a enumeração dos motivos do procedimento de Helena, seguidamente desenvolvidos: a força dos deuses Destino e Necessidade (§§6-7), a força sedutora do Discurso, (§§8-14) e o fascínio de Eros (§§15-19). Estes motivos serão, no final da argumentação (§20^, recapitulados na ordem inversa. No §21 Górgias enuncia os objetivos alcançados com este seu discurso, entre os quais o do divertimento. Desta forma, o Elogio de Helena poderá considerar-se pioneiro de outros do mesmo gênero que, alicerçados em assuntos ligeiros, eram pretexto para cada um exercitar a sua habilidade. Segundo Guthrie[11], tanto O Elogio de Helena como a Defesa de Palamedes seriam exemplos de exercícios retóricos sobre temas da mitologia, visando mostrar como, com suficiente habilidade e cinismo, se podiam defender causas que, à partida, poucas hipóteses teriam de sucesso. A afirmação final de Górgias no Elogio de Helena parece confirmar isto mesmo. De notar que Isócrates, seu discípulo, também escreveu um Elogio de Helena[12]

GÓRGIAS, Elogio de Helena – 1. O ordenamento duma cidade está na coragem dos seus cidadãos, ou de um corpo na sua beleza, o de uma alma na sua sabedoria, o de uma ação na sua excelência e o de um discurso na sua verdade. O contrário será o caos. Em relação, pois, a um homem e a uma mulher, a um discurso e a uma ação, a uma cidade e a um negócio de estado, convém elogiar o que for elogiável e censurar o que for indigno. É que existe igualmente erro e ignorância em censurar o louvável e em louvar o censurável. - 2. Compete também ao mesmo homem dizer o que é justo que se diga e refutar os detratores de Helena, uma mulher a respeito de quem são uníssonos e unânimes quer o crédito que lhe concedem os poetas que escutamos, quer a fama do seu nome, que transporta consigo a lembrança de acontecimentos funestos. O que eu pretendo, ao dar uma lógica ao discurso, é libertar da culpa quem sofre de tão má reputação, desmascarar os que pela calúnia enganam e, mostrando a verdade, fazer cessar a ignorância. - 3. Não deixa de ser evidente, e para não pouca gente, que a mulher de que se ocupa este discurso é, pela sua natureza e pela sua genealogia, o que de melhor existe entre os homens e as mulheres. Na verdade, todos sabem ter sido Leda sua mãe e seu pai um deus, ainda que se referisse um mortal: Tíndaro, este, e Zeus, aquele; um, porque o era, foi considerado como tal; o outro, porque afirmava sê-lo, foi tratado com desprezo; um foi o mais poderoso dos homens; o outro, o senhor do universo. - 4. Senhora de tal origem, ela foi possuidora duma beleza divina. E o que recebeu não o escondeu, mas usou-o. Em muitos despertou inúmeras paixões. Só com o seu corpo, atraiu a si os corpos de muitos homens que aspiravam intensamente a altos feitos. Destes, uns possuíam grandes somas de dinheiro, outros os pergaminhos duma ancestral genealogia, outros o vigor característico da valentia, outros, ainda, a força da sabedoria adquirida. E todos chegavam movidos pelo amor sequioso de vitória ou pela sede invencível de glória. - 5. Porquê e de que forma alguém saciou o seu desejo raptando Helena, disso não falarei. O dar-se informações a quem já está informado traz credibilidade mas não proporciona prazer. Por isso, omitindo agora do discurso esse tempo passado, iniciarei de imediato o discurso e apresentarei os motivos pelos quais o embarque de Helena para Tróia surgia como natural. - 6. Foi certamente pelos desígnios do Destino, pelas resoluções dos deuses e pelos decretos da Necessidade, que ela fez o que fez, quer tenha sido levada à força, convencida pelos discursos, ou arrebatada pelo Amor. Ora se foi pelo primeiro motivo, é o responsável quem deve ser chamado à responsabilidade. Na verdade, não é possível à previdência humana impedir um desejo divino. É da natureza das coisas não ser o mais forte detido pelo mais fraco, mas sim o mais fraco ser comandado e conduzido pelo mais forte. O mais forte comanda e o mais fraco vai atrás. A divindade é mais poderosa que o homem, tanto na força como na sabedoria e em tudo o mais. Se se trata, pois, de virar a acusação contra o Destino e a divindade, liberte-se então Helena da infâmia.  - 7. Se, porém, ela foi arrebatada pela força, tendo sido não apenas ilegalmente forçada mas também injustamente ultrajada, é evidente que procedeu injustamente quem a raptou e ultrajou, enquanto ela teve a infelicidade de ser raptada e ultrajada. Logo, é o bárbaro que lançou mãos a esta bárbara empresa que merece ser responsabilizado pelo discurso, pela lei e pela ação. Pelo discurso, deverá ser declarado culpado; pela lei, deverá ser votado ao ostracismo^; pela ação, deverá sofrer um castigo. Quanto à que foi violentada, exilada da pátria e privada dos amigos, porque não há  de ser mais razoável apiedarmo-nos dela em vez de a difamarmos? Na verdade, ele fez coisas revoltantes, enquanto ela as suportou; é justo, então, que dela tenhamos compaixão e dele horror. - 8. Mas se foi o Discurso que a convenceu e lhe enganou a mente, também não será difícil defendê-la disso e libertá-la da acusação, como passo a fazer. O Discurso é um senhor soberano que, com um corpo diminuto e quase imperceptível leva a cabo ações divinas. Na verdade, ele tanto pode deter o medo como afastar a dor, provocar a alegria e intensificar a compaixão. Que isto é mesmo assim, vou o demonstrar. - 9. É necessário, porém, que eu o demonstre também à opinião dos ouvintes. Eu concebo e designo igualmente toda a poesia como um discurso com ritmo. Um temor reverencial, uma comovida compaixão e uma saudade nostálgica insinua-se nos que a ouvem. Por intermédio das palavras, o espírito deixa-se afetar por um sentimento especial, relacionado com sucessos e insucessos de pessoas e acontecimentos que nos são alheios. Mas, adiante! Passemos deste a um outro argumento. - 10. Na verdade, os discursos harmoniosos, inspirados pelos deuses, provocam uma sensação de bem-estar, dissipando a tristeza. A força da palavra mágica, convivendo com a opinião do espírito, fascina-o, convence-o e transforma-o por encantamento. Descobriram-se dois processos de encantamento e magia, que são os erros do espírito e os enganos da opinião. - 11. Quantos convenceram e convencem outros tantos a propósito de outras tantas coisas, forjando um falso discurso. Na verdade, se todos, a respeito de tudo, conservassem tanto a memória do passado como a noção do presente e a previsão do futuro, o discurso não seria igualmente idêntico para aqueles, que neste momento não conseguem facilmente recordar o passado, refletir o presente e prever o futuros?. De sorte que, para a generalidade dos assuntos, a generalidade das pessoas assume a opinião como conselheira^. Mas a opinião, sendo incerta e inconstante, lança os que dela se servem em incertas e inconstantes situações. - 12. Que motivo nos impede, pois, de pensar que também Helena se terá deixado seduzir do mesmo modo pelos discursos, não de sua livre vontade, mas como se fosse arrastada por uma força poderosíssima? De fato, no que respeita à situação de persuasão, esta não é de modo algum apenas parecida com a necessidade, mas possui a mesma força. É que o discurso persuasor da mente, persuade-a, força-a tanto a, acreditar no que foi dito como a consentir no que é feito. Portanto, é quem persuade que é culpado de prática de violência, ao passo que a que foi persuadida, porque constrangida pelo discurso, é, sem razão, objeto de má reputação. - 13. Que a Persuasão, saída do discurso, também manipula a mente a seu bel-prazer, há que compreendê-lo antes de mais por aqueles discursos dos astrônomos que, destruindo uma opinião com outra opinião por eles criada, fazem com que as coisas incríveis e nada evidentes surjam como verosímeis aos olhos da opinião. Depois temos os inevitáveis debates, em que um só discurso, quando redigido com arte, encanta e convence toda uma multidão, mesmo sem respeitar a verdade; em terceiro lugar, as discussões filosóficas, em que a rapidez do pensamento se mostra capaz de tornar facilmente alterável a credibilidade da opinião. - 14. Relação idêntica possuem a força do Discurso em ordem à disposição do espírito e a prescrição dos medicamentos para a saúde do corpo. Na verdade, assim como certos medicamentos expulsam do corpo certos humores, suprimindo uns a doença e outros a vida, do mesmo modo, de entre os discursos, uns há que inquietam, outros que encantam, outros que atemorizam, outros que incutem coragem no auditório, outros ainda que, mediante uma funesta persuasão, envenenam e enfeitiçam o espirite. -15. E que fique dito: se ela se deixou convencer pelo discurso, não agiu contra a lei; pelo contrário, teve pouca sorte. Passo entretanto a expor a quarta causa com um quarto argumento. Se foi realmente o amor que causou tudo isto, não será difícil eximi-la da responsabilidade pela falta, que dizem ter cometido. De fato, as coisas que nós vemos possuem uma natureza, não a que nós queremos, mas a que foi atribuída a cada um. Pois bem! Através da visão, a mente é afetada igualmente no seu comportamento habitual. -16. Na verdade, sempre que a vista contempla formações bélicas e o seu bélico uniforme, juntamente com o seu bélico armamento de bronze e de ferro, tanto de defesa como de ataque, logo ela se perturba perturbando a mente, a ponto de muitas vezes, aterrorizadas, as pessoas fugirem do perigo potencial como se ele fosse real. Com efeito, a forma habitual de viver, garantida pela lei, é destruída pelo pânico provocado pela visão que, entrando no espírito, provoca o desprezo quer daquilo que é considerado nobre pela lei, quer daquilo que de vantajoso é trazido pela vitória. - 17. Há quem, tendo visto coisas terríveis, perca também nesse preciso instante a presença de espírito face à situação que se lhe apresenta. É assim que o medo bloqueia e destrói a lucidez. Muitos caem em sofrimentos vãos, em doenças terríveis e em loucuras incuráveis: de tal modo a vista grava no espírito as imagens dos acontecimentos presenciados. E muita coisa pavorosa fica omitida, mas o que é omitido é idêntico ao que é referido. - 18. Por outro lado, os pintores quando, a partir de muitas cores e corpos, acabam por modelar, com perfeição, um corpo e uma figura, deleitam aí a vista: a produção de estátuas de homens e a criação de imagens de deuses proporcionam aos olhos uma contemplação agradável. Nestas condições é natural que a vista se aflija em relação a umas e se apaixone em relação a outras. Por outro lado, múltiplos objetos provocam em muita gente paixão e desejo em relação a muitas obras e corpos. - 19. Portanto, se o olhar de Helena sentiu afeição pelo corpo de Alexandre e transmitiu à mente o combate de Eros, que há nisso de estranho? Se ele é um deus, dotado da força divina dos deuses, como poderia o mais fraco rejeitá-lo e afastá-lo de si? Se se trata duma doença humana e dum erro de ignorância da mente, não há que condenar isso como uma falta, mas julgá-lo como um infortúnio: na verdade, aconteceu da forma que aconteceu, devido aos enredos da fortuna e não aos conselhos da inteligência, devido aos constrangimentos do desejo e não aos preparativos da arte. - 20. Que necessidade haverá, pois, de considerar justa a condenação de Helena que, se fez o que fez por se ter apaixonado, por ter sido persuadida pelo discurso, arrastada pela violência ou forçada pela deusa da Necessidade, fica completamente ilibada da acusação? - 21. Com este discurso afastei a ignomínia que pesava sobre uma mulher e permaneci fiel ao objetivo que fixei no início do discurso; tentei destruir a injustiça duma censura e a ignorância duma opinião; quis fazer deste discurso um elogio para Helena e um divertimento para mim.  ( DK 82 B 11 )

Das ruínas da ontologia, Górgias deduziu um pensamento não ontológico ou anti-metafísico, onde reabilitava as aparências e afirmava a identidade entre o real e a manifestação.Se a aparência é modificável, o ser também o será. Isto nada tem de escandaloso já que, a realidade é contraditória e o princípio de identidade origina apenas uma ontologia que se contradiz a si própria. De fato, Górgias tinha uma concepção trágica da realidade. Ele tinha o sentimento profundo de que a linguagem não evoca senão a aparência, mas que esta aparência é legítima.

Sobre a  Defesa De Palamedes:

De novo, Górgias parte do mito para, habilmente, arquitetar um discurso que se ajuste aos seus objetivos didáticos. Segundo a lenda, a vingança de Ulisses sobre Palamedes ficou a dever-se ao zelo deste pela participação na guerra de Tróia. Para se eximir dessa obrigação, Ulisses fingira-se possuído de loucura, mas um dia em que, atrelando à mesma charrua um burro e um boi, se preparava para semear sal, Palamedes colocou-lhe à frente o pequeno Telémaco, obrigando o pai a parar para não trucidar o filho. Desmascarado deste modo, Ulisses nunca mais lhe perdoou e, mais tarde, em plena guerra de Tróia, teceu um hábil estratagema para o acusar de traição à pátria em troca de riquezas oferecidas pelos Troianos. A morte de Palamedes tornou-se o paradigma da morte injusta por excelência, fruto de intrigas de invejosos contra quem tem mais valor. Por outro lado, o perfil lendário deste malogrado herói, apresentado como um hábil orador, cioso da sua liberdade de espírito e confiante no progresso inovador, favorecia que se projetasse nele o ideal do sofista. O presente discurso constitui a autodefesa de Palamedes contra a infâmia urdida por Ulisses, e configura simultaneamente e com grande verossimilhança o ambiente do tribunal composto de ilustres juízes ("a fina-flor dos Gregos"), os companheiros de armas seus amigos e, sobretudo, o temível Ulisses, seguro da eficácia dos seus estratagemas e da irresistibilidade da sua argumentação. Enquanto discurso-modelo do que deve ser uma defesa em tribunal, convém atentar na sua estrutura. Nos §§1-4 temos o exordium[13] onde, de forma antitética, o acusado captará a benevolência dos presentes ao declarar encontrar-se do lado da natureza ultrajada, da justiça ofendida e da fragilidade da defesa face à injustiça da lei, à irracionalidade da força e à perfídia duma acusação infundada. Seguem-se, nos §§5-6, a propósito ("...ele não diz a verdade") e a partitivo, está contida na figura lógica e dilemática dum quiasmo que conjuga antiteticamente os verbos ''querer" e "poder". A demonstração, que também poderíamos aqui designar de prova lógica, decorre em duas fases. Na primeira ( §§6-12), Palamedes argumenta contra a viabilidade material do crime ("Nem que o quisesse eu teria possibilidades"), enquanto na segunda (§§13-21) o faz contra a viabilidade psicológica ("...nem, tendo possibilidades, eu quereria empreender tais ações"). Trata-se, num caso, de destruir as hipóteses, logicamente encadeadas, das diversas fases de consumação dum crime do gênero; no outro, de enumerar e invalidar, sucessivamente, os motivos que aliciariam para tal crime (o poder, o dinheiro, as honras sociais, a estabilidade de vida, etc.) que só o prejudicaria. Os §§22-32 constituirão a prova ética, na medida em que são postos à consideração do auditório dois caracteres bem diferentes: um, o do acusador Ulisses (§§22-27), que não conhece bem a matéria da acusação (§§22-23) que inventa (§24), que se contradiz e mente (§§25-26) e é criminoso (§27), concitará no auditório e nos juízes a malquerença; o outro, o do inocente Palamedes (§§27-32) que, face à gravidade da situação, se vê constrangido a falar elogiosamente de si próprio, da sua vida irrepreensível, entregue ao estudo e tão benéfica para a humanidade, não deixará de provocar simpatia nesses mesmos sectores do tribunal. Finalmente (§§33-37), a prova patética, o apelo final e dramático dirigido aos juízes, a aposta e a confiança no seu sentido de responsabilidade face ao que está em jogo, constituem o que, correntemente, se designa de peroração[14]. Para além duma forte estruturação que, à base de ideias antitéticas, percorre todo o discurso e lhe transmite coesão (o que se compreende, no cenário judicial duma defesa face a uma acusação), convirá também aludir a uma série de lugares comuns cuja utilização frequente marca, mesmo linguisticamente, o discurso, traduzindo um tipo concreto de argumentação. Tais lugares comuns, bastantes recorrentes, são os da evidência, da necessidade, da possibilidade ou impossibilidade, da utilidade, da verossimilhança , do útil ou inútil e do vergonhoso. De realçar também a vivacidade do discurso, ilustrada em certas fases da argumentação lógica pela sucessão rápida de frases curtas, onde cada hipótese aventada é de imediato invalidada por uma interrogação que demonstra o carácter absurdo daquela. Igualmente no domínio estilístico este discurso reflete a marca do seu autor. Uma análise, ainda que não exaustiva, não deixaria de realçar a intencionalidade de Górgias em dotar o texto de ritmo e harmonia, numa administração primorosa de figuras como o isocólon, a antítese, o homeoteleutos, o páriso, entre outras. Quem domine o grego clássico facilmente  poderá nota-lo pela leitura, ao acaso, de apenas um breve trecho do discurso.

GÓRGIAS - Defesa De Palamedes – 1.Tanto a defesa como a acusação não estabelecem um decreto sobre a morte. Com efeito, a Natureza, no dia em que surgiu, condenou à morte, com um voto claro, todos os mortais. Corre-se também o risco do desprezo e da estima social, caso eu tenha de morrer segundo a justiça, ou de forma violenta, coberto dos maiores ultrajes e da culpa mais infamante. - 2. Quanto a estas duas questões, vós tendes todo o poder sobre uma, enquanto eu o tenho sobre a outra; do meu lado, tenho a justiça; vós tendes a força: se quiserdes, facilmente me podereis mandar matar; vós sois poderosos naquilo em que me não foi dado possuir poder algum. - 3. Pois bem! Se o acusador Ulisses me acusasse visando a salvação da Grécia, ou porque sabia perfeitamente que eu entregara a Grécia aos bárbaros, ou porque presumia que, de qualquer forma, as coisas assim se passavam, nesse caso, ele seria o melhor dos homens. E como não, se ele salvava a pátria, os filhos, a Grécia inteira, punindo, além disso, o culpado? Mas se foi por inveja, por desonestidade e perfídia que ele urdiu a presente acusação, do mesmo modo que, por aquelas razões, seria considerado um excelente homem, por estas mesmas será considerado um péssimo homem. - 4. Ao falar destes assuntos, por onde hei de começar? Que dizer em primeiro lugar? Em que ponto da minha defesa me deverei eu deter? É que uma acusação não demonstrada provoca um espanto evidente e, por causa desse espanto, o discurso fica forçosamente bloqueado se eu nada descobrir a partir da própria verdade e da presente situação de constrangimento, perante mestres mais perigosos do que inventivos. - 5. Que o meu acusador me acusa sem a certeza absoluta, disso tenho eu a absoluta certeza. Na verdade, sei com toda a certeza nada ter feito do me acusam, nem percebo como poderia alguém ver o que não aconteceu. Se ele intentou a acusação supondo que as coisas se passariam assim, de dois modos vos demonstrarei que ele não fala verdade. Com efeito, nem que o quisesse eu teria possibilidade, nem, tendo possibilidade, eu quereria empreender tais ações. - 6. Irei abordar, em primeiro lugar, esta hipótese, a de que eu não tenho possibilidades de o fazer. De facto, era preciso que, antes de mais, a traição tivesse um início qualquer, início esse que poderia ser uma conversa. É que antes de ações a empreender, é necessário que haja conversações prévias. Mas como seriam possíveis conversações sem quaisquer encontros? E de que forma teria sido possível um encontro sem ele se ter dirigido até mim ou eu ter ido até junto dele? Tampouco uma mensagem em tabuinhas teria chegado sem um portador. - 7. Mas suponhamos isto: que foi possível uma conversa. Nesse caso, pois, ter-nos-emos, com certeza, encontrado, eu com ele e ele comigo. De que modo? Quem encontra quem? Um Grego encontra-se com um bárbaro. Mas como? Escutando ou falando? A sós? Mas cada um de nós ignora a língua do outro. Com um intérprete, então? Nesse caso, um terceiro teria testemunhado coisas que convinha manterem-se ocultas. - 8. Mas seja: também isto aconteceu (embora não tenha acontecido). Seria necessário, então, que eles dessem e recebessem garantias mútuas. Qual teria sido, pois, a garantia? Um juramento? Mas quem iria acreditar num traidor como eu? Reféns? Quais? Eu teria entregue, por exemplo, o meu irmão, pois não tenho outro, e o bárbaro um dos filhos. A ser assim, na verdade, tratar-se-ia duma caução da maior confiança, tanto dele em relação a mim, como de mim em relação a ele. Mas tais coisas teriam sido notórias para todos vós.-  9. Dirá alguém que baseamos a caução em objetos de valor, ele dando e eu recebendo. Poucos objetos, então? Mas não é normal receber poucos objetos em troca de grandes serviços. Muitos? Como se teria então efetuado o transporte? De que modo uma só pessoa os levaria? Ou tê-los-ão levado muitas pessoas? Mas se fossem muitos a levá-los, muitas seriam as testemunhas da conjura, ao passo que sendo um só não seria muito o que se transportava. - 10. E o transporte, efetuou-se de dia ou de noite? Mas, sendo as sentinelas numerosas e próximas entre si, não seria possível passar por elas sem ser notado. Terá sido então de dia? Mas a claridade dificulta tais coisas. Seja. Terei eu saído para receber os tais objetos ou ter-nos-á ele trazido, vindo ao meu encontro? Ambas as coisas são, na verdade, impraticáveis. E após os ter recebido, como é que os terei ocultado, tanto dos que se encontravam no interior como dos que estavam fora? Onde os terei colocado? Como os terei guardado? Se me servisse deles, far-me-ia notado; mas não me servindo, que utilidade retiraria deles? - 11. Porventura terá acontecido o que de facto não aconteceu: ter-nos-emos encontrado, teremos conversado, teremos chegado a um acordo, terei recebido dele objetos preciosos, ter-me-ei dissimulado após os ter recebido, e escondi-os. Teria sido necessário, sem dúvida, realizar aquelas coisas por causa das quais aconteceram estas. Pois bem! Isto é ainda mais impraticável do que o que foi referido. Na verdade, ao agir, fá-lo-ia só ou na companhia dos outros? Mas a ação a realizar não era própria duma pessoa apenas. Terá sido então na companhia de outros? Quais? É evidente que com alguns dos que me acompanham. Homens livres ou escravos? Eu ando habitualmente convosco, que sois livres. Algum de vós sabe, então, de alguma coisa? Que fale. Por outro lado, no que respeita aos escravos, de que forma não seria inverossímil? Na verdade, eles acusam-nos deliberadamente para obterem a liberdade, ou mediante o constrangimento, se torturados. - 12. E de que forma a ação terá sido levada a cabo? É óbvio que seria necessário fazer entrar inimigos mais poderosos do que vós, o que é impossível. Como é que eu os teria introduzido? Pelas portas? Mas não estava em meu poder abri-las ou fechá-las; pelo contrário, os chefes é que são senhores delas. Por sobre as muralhas, então, servindo-me duma escada de corda? Mas, nesse caso, não teria sido logo descoberto, já que elas estão reforçadas de sentinelas a toda a volta? Abrindo então uma brecha através da muralha? Mas nesse caso todos se teriam apercebido, pois a vida militar decorre ao ar livre, em acampamentos, onde todos observam todos e por todos são observados. Seria assim inteiramente impossível para mim fazer o que quer que fosse, onde quer que fosse. - 13. Examinai em comum também isto. Por que razão me conviria querer efetuar tais coisas se, de todos, era eu quem tinha mais poderes? Na verdade, ninguém deseja correr os maiores riscos, gratuitamente, nem ser considerado o maior celerado na maior baixeza. Mas por que razão (Eu insisto de novo nisto)? Para exercer o poder de forma absoluta? Sobre vós ou sobre os bárbaros? Sobre vós seria impossível, pois sois tantos e tão valorosos, e possuis tudo o que de melhor existe: as virtudes dos vossos antepassados, a quantidade das riquezas, os altos feitos, a nobreza de sentimentos, o governo das cidades. - 14. Sobre os bárbaros, então? Quem iria permitir isso? Com que poder eu, um grego, sozinho, conduziria bárbaros em grande número? Pela persuasão ou pela força? Certamente, nem eles consentiriam ser persuadidos nem eu conseguiria obrigá-los. Mas talvez eles se dispusessem a entregar-se de bom grado se recebessem uma recompensa em dinheiro pela sua traição? Mas seria mesmo uma grande loucura tanto acreditar em tais coisas como admiti-las. Na verdade, quem é que trocaria a realeza pela escravidão? Ou o melhor pelo pior? - 15. Dirá alguém que me lancei a tais atos sequioso de dinheiro e de riquezas. Mas eu já juntei riquezas suficientes, de nada mais preciso. Na verdade, as riquezas fazem falta aos que muito gastam, não aos que resistem aos apetites da sua natureza, mas aos que deles são escravos e que procuram, mediante o dinheiro e o esplendor da sua generosidade, comprar os altos cargos. Nada disso se encontra em mim. Posso apresentar a minha vida passada como um testemunho fiel de que estou a dizer a verdade. Deste meu testemunho vós sois testemunhas: viveis habitualmente comigo, por isso o sabeis. - 16. Nem mesmo, por causa de honras, um homem moderadamente sensato se lançaria em tais coisas. Com efeito, é da virtude e não do vício que derivam as honras; como poderia ser estimado um homem que traíra a Grécia? Além disso, nem se dava o caso de eu me encontrar carente de estima social. Na verdade, eu era respeitado entre os mais respeitáveis pelas minhas notáveis qualidades, e entre vós por causa da minha sabedoria. – 17. E, certamente, nem por causa duma situação de estabilidade alguém iria fazer tais coisas. Na verdade, o traidor é odioso a todos: à lei, à justiça, aos deuses, à grande maioria dos homens. Ele viola a lei, anula a justiça, corrompe as multidões, ultraja os deuses. Por outro lado, uma tal vida, rodeada dos maiores riscos, não lhe traria estabilidade,  - 18. Seria então por eu pretender auxiliar os amigos ou prejudicar os inimigos? É que mesmo com estas intenções se poderia ter cometido uma injustiça: tudo me teria acontecido ao contrário, acabando por prejudicar os amigos e auxiliar os inimigos. Ora este procedimento, por um lado, nada lograria de bom; por outro, ninguém pratica o mal por desejar sofrer maus tratos. - 19. Resta ver se eu terei agido para fugir a algum receio, sofrimento ou perigo, mas ninguém poderá dizer se eu tenho alguma coisa a ver com isso. Na verdade, toda a gente age, geralmente, em função deste duplo objetivo: ou visando algum lucro, ou fugindo a algum sofrimento. Fora disto, todo o mal que é feito é obra de loucos. Não é difícil ver que, agindo deste modo, eu me prejudicaria; com efeito, traindo a Grécia, traía-me a mim próprio, traía os meus filhos, os amigos, o bom nome dos antepassados, a religião dos meus pais, os seus túmulos, a pátria, o mais importante da Grécia, Aquilo que para todos está acima de tudo teria sido por mim confiado a mãos injustas. - 20. Considerai ainda o seguinte: como não se me tornaria a vida impossível de viver após ter praticado tais ações? Para onde seria forçado a fugir? Para a Grécia? Para ser punido pelos meus crimes? Mas quem, de entre os que tinham sido prejudicados, me acolheria? Permaneceria então entre os bárbaros? Prescindindo de tudo o que de melhor existe, despojado da mais excelente reputação, mergulhado numa aviltante infâmia, tendo repudiado os penosos trabalhos penosamente empreendidos no decurso da minha vida por causa da virtude? E tudo isto por culpa minha, que é o que de mais humilhante existe para um homem, ser infeliz por culpa própria. - 21. Nem mesmo entre os bárbaros eu teria crédito. Como confiariam em mim aqueles que sabiam que eu praticara a mais desleal das ações, ao entregar os amigos aos inimigos? A vida tomar-se-ia impossível para quem já não era digno de confiança. Na verdade, qualquer pessoa que tivesse perdido os seus bens, que tivesse sido afastada do poder ou fugido da pátria, poderia recuperar tudo isso; mas quem tivesse perdido a confiança dos outros, não mais a ganharia. Pelo que acaba de ser exposto fica, pois, demonstrado que, quanto a trair a Grécia, nem que o quisesse eu teria possibilidades, nem tendo possibilidades eu o quereria. - 22. Depois disto, porém, quero dialogar com o meu acusador. Sendo quem és, acusas-me deste modo baseado, afinal, em quê? Vale a pena, na verdade, examinar com cuidado o modo como falas, sendo quem és, como se um indigno falasse a outro indigno. Acusas-me com perfeito conhecimento de causa ou baseado em conjecturas? Se é com perfeito conhecimento de causa, estarás informado por teres presenciado, por teres participado ou porque quem participou te informou. Se foi por teres presenciado, indica a estes o modo, o lugar, o tempo, quando, onde e como o presenciaste. Mas se foi por teres participado, então estás sujeito às mesmas acusações. Se, porém, o soubeste por um participante, seja ele quem for, que venha, que se mostre e apresente o seu testemunho. Será assim mais digna de credibilidade a acusação que foi testemunhada. Mas até agora nenhum de nós apresentou qualquer testemunha. - 23. Dirás talvez que representa o mesmo o fato de nem tu apresentares testemunhas de coisas acontecidas, segundo dizes, nem eu de coisas não acontecidas. Mas não representa o mesmo. Com efeito, o que não aconteceu de modo algum pôde ser testemunhado, enquanto em relação ao que terá acontecido não só não é impossível, mas até fácil, não só fácil como. até forçoso. Porém, tu não foste capaz de encontrar sequer testemunhas, verdadeiras ou falsas, ao passo que eu não tenho qualquer possibilidade de encontrar testemunhas. - 24. Que tu não conheces bem aquilo de que me acusas, torna-se assim evidente. Resta então dizer que, não sabendo, inventas. Então tu, ó mais audacioso dos homens, baseando-te na opinião, que é a coisa menos digna de fé, e desconhecendo a verdade, ousas condenar um homem à morte? Como sabes que ele praticou tal ação? Com certeza que é dado a todos formar uma opinião a respeito de tudo, e nisso tu em nada és mais sábio do que os outros. Nem é nos que julgam que sabem que convém depositar confiança, mas nos que sabem; nem há que dar mais crédito à opinião do que à verdade, antes pelo contrário, há que dar mais crédito à verdade do que à opinião. - 25. Pelos argumentos aduzidos, acusaste-me de duas coisas bem opostas, de sabedoria e de loucura, que não podem ser possuídas pelo mesmo homem. Na verdade, quando reconheces que eu sou engenhoso, habilidoso e inventivo, acusas-me de sabedoria; por outro lado, quando afirmas que eu traí a Grécia, acusas-me de loucura. Loucura é, de fato, lançar-se a empreendimentos impossíveis, inúteis, vergonhosos, com os quais ficarão os amigos prejudicados, os inimigos beneficiados e a vida do próprio condenada à desonra e à insegurança. E contudo, de que forma há de ser forçoso acreditar num homem que, no mesmo discurso sobre a mesma pessoa, afirma a respeito dela duas coisas tão opostas? - 26. Eu gostaria que me informasses se consideras os sábios como homens irrefletidos ou sensatos. Se os consideras irrefletidos, a opinião é inédita, mas não verdadeira; se os julgas sensatos, certamente que não é consentâneo com as pessoas de bom senso cometer os maiores erros e, perante o bem, optar pelo mal. Ora se eu sou sábio, não errei; mas se errei, então não sou sábio. Logo, em ambos os casos, serias mentiroso. - 27. Não quero acusar-te de muitos e graves crimes, quer antigos quer recentes, por ti cometidos, embora o pudesse fazer; o que eu quero, de facto, é destruir a acusação que me é dirigida, não com o teu mau procedimento, mas com a minha boa conduta. Em relação a ti, pois, era isto. - 28. Em relação a vós, juízes, quero falar-vos de mim, do que ó odioso embora verdadeiro, do que não seria admissível a quem não fosse acusado, mas que convém a quem é acusado. Vou dar-vos, então, conta do que foi a minha vida passada e da sua razão de ser. Peço-vos, pois, que ao recordar-vos algo dos meus ilustres feitos, ninguém inveje o que for dito, antes considere inevitável que quem se vê acusado de coisas terríveis e falsas fale também um pouco das coisas verdadeiras e belas perante vós, que as conheceis, o que me é muito agradável. - 29. A primeira coisa e também a segunda e a mais importante é que a minha vida passada, do princípio ao fim, é, na sua totalidade, irrepreensível e isenta de toda a acusação. Ninguém, na verdade, poderá referir a meu respeito qualquer acusação verdadeira de maldade para convosco. Com efeito, nem mesmo o acusador apresentou qualquer prova do que disse. Assim, o seu discurso equivale a um ultraje sem qualquer fundamento.    - 30. Poderia afirmar, e afirmando-o não mentiria nem seria refutado, que não só sou irrepreensível mas também um grande benfeitor vosso, dos Gregos e de toda a humanidade, não apenas dos contemporâneos como também dos vindouros. Quem é que tornou a vida cheia de recursos, de penosa que era, e ordenada a partir da desordem, ao inventar as táticas militares, coisa importantíssima para os sucessos militares, as leis escritas que velam pela justiça, os caracteres escritos como um auxiliar da memória, as medidas e os pesos conciliando relações comerciais fáceis, o número como sentinela das riquezas, os sinais luminosos como mensageiros poderosíssimos e muito rápidos, o jogo dos dados, como forma de passar sem tédio o tempo de lazer? Por que razão vos recordei então tudo isto? - 31. Por um lado, para deixar bem claro em que coisas eu ocupo o meu espírito; por outro, para fornecer uma prova de que me mantenho afastado das ações más e vergonhosas. Na verdade, não seria possível que quem se dedica àquelas coisas se dedicasse igualmente a estas. Julgo assim que, se eu próprio em nada vos prejudico, em nada também deverei ser por vós prejudicado. - 32. Nem sequer mereço, por causa dos meus hábitos diferentes de vida, ser molestado, nem pelos mais novos nem pelos mais velhos. Para os mais velhos não sou incomodativo e para os mais novos não sou inútil; não invejo quem possui a felicidade e compadeço-me dos infelizes. Também não olho com desprezo a indigência, nem aprecio mais a riqueza do que a virtude; pelo contrário, aprecio mais a virtude do que a riqueza. Não sou inútil nas assembleias nem inativo nos combates, cumprindo o que foi determinado e obedecendo aos chefes. Mas não é do meu feitio elogiar-me a mim próprio; as circunstâncias presentes é que forçaram a defender-se de toda a maneira quem também assim era acusado. - 33. Resta-me dirigir-vos uma palavra a vosso respeito, dita a qual porei termo à minha defesa ai. Sem dúvida que a lamentação, as preces, as súplicas dos amigos são coisas úteis quando o processo decorre perante a multidão. Mas para vós, que sois a fina-flor dos Gregos e que de tal reputação gozais, não é mediante as ajudas dos amigos, nem pelos pedidos, nem pelas lamentações que é preciso convencer-vos, mas mediante o que for inequivocamente justo; pela minha parte, é preciso que eu afaste a acusação mostrando-vos a verdade e não enganando-vos. - 34. É-vos necessário não prestar mais atenção às alegações do que aos fatos, nem preferir as acusações às refutações, nem pensar que o tempo breve é um juiz mais sábio do que o tempo longo, nem considerar mais digna de credibilidade a calúnia do que os dados da experiência. De fato, os homens bons têm, em relação a tudo, uma grande precaução em não errar, mais ainda nas coisas irreparáveis do que nas reparáveis. Se estas se podem evitar para os que as previram, aquelas tornam-se irremediáveis mesmo para os que se arrependeram. É disso que se trata quando homens condenam homens à morte. É precisamente esta a situação que agora se vos depara. - 35. Pois bem! Se, mediante os discursos fosse possível tornar pura e límpida, aos olhos dos ouvintes, a verdade dos factos, seria fácil a sentença logo após o que foi dito. Mas, como assim não é, velai pela minha vida, gastai mais tempo, mas decidi com a verdade. Correis, de fato, um grande risco: trata-se de afastar ou ficar com a fama de homens injustos. Para as pessoas de bem, é preferível a morte a uma fama aviltante. Enquanto a primeira é o fim natural da vida, a outra é a sua doença. - 36. Se me condenásseis injustamente à morte, isso tornar-se-ia evidente para muita gente. Na verdade, não sendo eu um desconhecido, antes pelo contrário, sendo bem conhecido de todos os Gregos, a vossa maldade seria igualmente conhecida. Todos vos acusariam de serdes vós a cometer uma injustiça flagrante, e não o acusador. Na verdade, é em vós que  reside o poder de julgar. E não haveria erro mais grave do que este. Com efeito, não só cometeríeis um erro em relação a mim e aos meus pais decidindo contra a justiça, mas ficaríeis ainda com a consciência de terdes praticado contra vós mesmos um ato indigno, ímpio, ilegal e injusto, ao condenardes à morte um homem, vosso companheiro de armas, que vos foi útil, um benfeitor da Grécia, um grego, ó Gregos, sem terdes demonstrado a existência inequívoca de qualquer injustiça ou a credibilidade da acusação. - 37. Da minha parte tenho dito e fico-me por aqui. É de regra, perante juízes de qualidade inferior, evocar brevemente o que foi longamente referido. Mas em relação a Gregos que são os primeiros de entre os primeiros da Grécia, não vale a pena nem sequer pretender que eles não prestam atenção nem estão recordados do que foi dito.  ( DK 82 B 11 a )

Sobre a ARTE RETÓRICA

A única obra teórica de Górgias, da qual sobreviveram alguns fragmentos, seria um manual de instrução retórica onde, além de prescrever conselhos para a prática da oratória, apresentaria discursos modelares para exercícios dos seus discípulos, entre os quais o famoso Elogio de Helena e a Defesa de Palamedes. Como sofista, Górgias tinha, evidentemente, particular interesse no estudo da retórica. Defendia o poder persuasivo da palavra em todos os domínios da atividade humana. Uma das suas teorias mais interessantes é a da oportunidade, o sentido da ocasião. Com efeito, o orador deve saber o momento oportuno para se dirigir ao auditório e qual o tipo de persuasão adequado a cada momento.

ARISTÓTELES Retórica III 18. 1419b 3 É necessário, disse Górgias, desfazer a seriedade dos adversários mediante o gracejo, e o gracejo mediante a seriedade, eis um preceito correto. ( DK 82 B 12 )

DIONÍSIO DE HALICARNASSO Da composição das palavras 12p. 84 Até hoje nenhum retórico ou filósofo estudou a fundo a arte da oportunidade, nem mesmo Górgias de Leontinos, o primeiro que se dedicou a escrever sobre este assunto, escreveu algo digno de menção. ( DK 82 B 13 )

ARISTÓTELES Refutações sofísticas 183b 36 -  Realmente, o tipo de ensino dos que se faziam remunerar pelos discursos erísticos era semelhante à ocupação de Górgias; na verdade, uns davam a decorar discursos retóricos, outros discursos interrogativos, pois uns e outros pensavam que era nestes dois gêneros que os discursos de todos geralmente vinham incidir. Por isso, o ensino ministrado aos que com eles aprendiam era rápido mas não técnico. De fato, presumiam estar a ensinar não transmitindo a arte mas produtos da arte; como se alguém, ao declarar ir transmitir um conhecimento sobre como não sofrer dos pés, não ensinasse em seguida o ofício de sapateiro ou onde se poderia procurar tais conhecimentos, mas oferecesse um grande número de sandálias de todo o gênero. PLATÃO, Fedro 261b (Fedro - Sócrates) - ...mas que é sobretudo nos processos judiciais que se fala e escreve com arte; que sucede o mesmo na assembleia popular. Sobre o mais não ouvi dizer nada. - Mas então não ouviste falar das artes de retórica de Nestor e de Ulisses, que ambos compuseram nos momentos de lazer em Ílion? E da de Palamedes nunca ouviste falar? - Por Zeus, nem mesmo a de Nestor conheço, a não ser que tu consideres Górgias uma espécie de Nestor ou tomes Trasímaco e um Teodoro por Ulisses. ( DK 82 B 14 )

Fragmentos de discursos não identificados

ARISTÓTELES, Retórica III 3. 1405b 34 – A frieza em matéria de estilo vincula-se a quatro causas. A primeira destas consiste na utilização de palavras compostas. É assim que Licofron atribui ao céu o epiteto daquele das múltiplas faces, à terra o daquela dos cimos altaneiros, a uma praia o daquela de estreita passagem; Górgias declarava de um lisonjeador que ele mendigava com arte e expressava-se nesses termos quanto aos que haviam violado seus juramentos e quanto aos que haviam respeitado a santidade dos juramentos.  ( DK 82 B 15 )

ARISTÓTELES, Retórica III 3. 1406b 4 A quarta causa de frieza de estilo reside no uso de metáforas, como quando Górgias diz "assuntos pálidos (tremendo de medo) e anêmicos" ou "tu semeaste vergonhosamente e colheste miseravelmente. Na verdade, é demasiado poético.  ( DK 82 B 16 )

ARISTÓTELES, Retórica III 17. 1418 a 32 É necessário variar os discursos epidíticos ( gênero demonstrativo ) com um episódio elogioso, como faz Isócrates, que insere sempre algum. E é isto precisamente o que Górgias dizia, que a palavra não o abandona: pois se fala de Aquiles, faz o elogio de Peleu, em seguida Eaco, depois Zeus. Age analogamente ao discursar sobre a coragem, declarando que produz este ou aquele resultado, ao que se assemelha – o que dá sempre no mesmo.   ( DK 82 B 17 )

ARISTÓTELES, Política I 13. 1260a 27 - Falam muito melhor os que enumeram as virtudes, como Górgias, do que aqueles que as definem desse modo. ( DK 82 B 18 )

PLATÃO Mênon 71 e - [Mênon fala da virtude, referindo-se a Górgias] - Em primeiro lugar, se queres a virtude dum homem, é fácil dizer que é esta a virtude própria de um homem: ter capacidade para conduzir os assuntos da cidade e, ao fazê-lo, beneficiar os amigos e prejudicar os inimigos e igualmente tomar precauções para não sofrer nada disto. Se queres a virtude de uma mulher, não é difícil responder: deve governar bem a casa, salvaguardando o patrimônio e sendo submissa ao homem. E existe também uma outra virtude, própria da criança, seja ela do sexo feminino ou masculino, e ainda outra própria do idoso e, se quiseres, uma própria de um homem livre e outra própria de um escravo. E há muitas outras virtudes, de tal forma que não existe dificuldade em dizer o que é a virtude. Pois, consoante a cada profissão e idade, existe uma virtude para cada uma das nossas ações, e o mesmo penso eu do vício, ó Sócrates. ( DK 82 B 19 )

PLUTARCO, Vida de Címon C 10 - Górgias de Leontinos diz que Címon alcançava as riquezas para as usar e que as usava para se sentir honrado. ( DK 82 B 20 )

PLUTARCO, O adulador e o amigo 23p. 64c - O amigo, ao contrário do que defendia Górgias, não pedirá que um amigo lhe preste serviços justos, pois ele mesmo o ajudará em muitas coisas, mesmo nas injustas. ( DK 82 B 21 )

PLUTARCO, Das virtudes das mulheres p. 242e Górgias afigurasse-nos mais hábil quando prescreve que não é a beleza, mas a reputação da mulher, que pode ser familiar a muita gente ( DK 82 B 22 )

PLUTARCO, A glória dos Atenienses 5p. 348c - A tragédia floresceu e tornou-se célebre por ser um recital e um espetáculo admirados pela humanidade e por ter fornecido aos mitos e às paixões poder de ilusão. Tal como diz Górgias, aquele que iludiu é mais justo do que o que não iludiu, e aquele que é iludido é mais sábio do que o que não é iludido. Com efeito, quem iludiu é mais justo porque fez o que prometeu; quem é iludido é mais sábio, pois quem se deixa impressionar facilmente pelo prazer das palavras não é insensível. ( DK 82 B 23 )

PLUTARCO, Questões conviviais VII 10, 2p. 715 E -  Górgias disse que uma das tragédias de Ésquilo - Os sete contra Tebas - está cheia de Ares. Cf. ARISTÓFANES, As rãs 1021. ( DK 82 B 24 )

PROCLO, Vida de Homero p.26, 14 - Helânico, Damastes e Ferecides-' fazem recuar a estirpe de Homero até Orfeu... Górgias de Leontinos, até ao próprio Museu. ( DK 82 B 25 )

PROCLO Comentário acerca de 'Os trabalhos e os dias' de Hesíodo 758 De fato, não é absolutamente verdadeiro o que dizia Górgias. Ele dizia que ''a existência invisível não coincide com a aparência, e que a aparência sem valor não coincide com a existência". ( DK 82 B 26 )


            Não posso encerrar este capítulo, sem mencionar o brilhante trabalho de tradução e a qualidade dos comentários de Manuel Barbosa e de Inês de Ornelas e Castro, na edição de Górgias, Testemunhos e Fragmentos, Portugal, Lisboa:  Edições Colibri, 1993 em condição de domínio público, do qual me apropriei de vários parágrafos ao elaborar esta aula, que foi complementada pela bibliografia das obras já citadas.

Professor Orosco




[1] Górgias para fundamentar sua filosofia tomava por base o niilismo, a descrença por razão principal, onde nada existe de absoluto, onde não existem verdades morais e nem hierarquia de valores. A verdade não existe, qualquer saber é impossível e tudo é falso porque é ilusório. 
[2] Para a definição de tropos e figuras de estilo,
[3] Próxeno, o Beócio (séc. V a. C.). Aluno de Górgias
[4] Ventríloquos
[5] Festa pública
[6] Estáter era uma moeda antiga, feita de ouro ou prata, usada em diversas regiões da Grécia
[7] Uma das mais poderosas famílias da Tessália, a, estabelecida em Larissa desde o início do séc. VI até ao fim do séc. IV
[8] Querefonte foi o amigo de Sócrates que perguntou ao oráculo de Delfos se existia alguém mais sábio que ele, ao que a pitonisa respondeu que não.
[9] DIONÍSIO DE HALICARNASSO. de imit. 8 §31, 13,
[10] Batalha na planície Plateias , na arenosa região da Beócia, foi o último combate das Guerras Médicas no sul da Grécia ( 479 a.C. ) travada entre uma aliança de cidades Estado gregas que incluía EspartaAtenasCorinto e Megara, de um lado, e, de outro, o Império Aquemênida.
[11] W. K. C. GUTHRIE, Les Sophistes, trad. J.-P. COTTEREAU, Paris, Payot, 1976
[12] ISOCRATES. Discursos. Livro I, 3 – Elogios – X – Elogios a Helena
[13]  Exórdio, começo ou introdução especialmente para um discurso ou composição
[14] Na retórica, se considera que o ato expositivo de um discurso perante um auditório se divide pelo menos em quatro partes: Exórdio ou apresentação. Narração ou exposição, Argumentação e Peroração ( conclusão com finalidade conotativa que tem a finalidade de influir, aconselhar e chamar a atenção do receptor ou audiência