sexta-feira, 21 de julho de 2017

O BOTÃO DO FODA-SE


Já é frase comumente ouvida dentre os brasileiros a expressão "liguei o botão do foda-se", para demonstrar sua insatisfação com o andar da carruagem, numa clara e vã tentativa de evitar encarar o problema de frente.
Mais ou menos como o avestruz que enfia a cabeça no buraco para esconder-se (tal qual as crianças que cobrem os olhos) para inocentemente não serem encontrados, os que o fazem, não só fracassam na sua tentativa de alienar-se dos problemas quanto potencializam seus efeitos.
Dito de outra forma:
Quando dizemos que nada podemos fazer, que estamos de "saco cheio" e que vamos apertar o referido botão, esquecemos que essa frase foi concebida durante o período da "guerra fria" para indicar que, diante da impossibilidade de agir com responsabilidade por seus atos, seria melhor promover a extinção da raça humana, o que era uma forma jocosa de afirmar a loucura daquele período, uma vez que a referida extinção não agradaria ninguém (pelo menos nenhum humano).
No jogo de futebol, analogamente diríamos que, com zaga tão ruim, seria melhor deixar só o goleiro.
Assim, quando esquecemos que o atual presidente do Brasil foi legalmente empossado para o cargo, após o impedimento de sua predecessora, esquecemos que também o foi para tentar evitar um mal maior, que seria a ruptura constitucional e o agravamento da crise econômica que já provocou mais de 14 milhões de desempregados.
Não votei nele, e possivelmente não votaria novamente, mas não vejo ninguém melhor na atualidade para ocupar o cargo.
O que vejo é um bando de "urubus" sobrevoando a carniça, falando bobagens e irresponsavelmente jogando palavras ao vento.
Alguns tentando esconder o fato de que foram diretamente responsáveis pela crise, quer por corrupção, quer por incompetência, malcaratismo ou até mesmo pelos três. Outros, por verem nessa crise, a oportunidade de saírem do seu merecido ostracismo e ganharem notabilidade, foro privilegiado ou a oportunidade de promover novas maracutaias.
Vide-se a Venezuela.
Não devemos nos esquecer que corruptos e corruptores existem em grande número entre os seres humanos e particularmente por aqui.
Não devemos nos esquecer que interesses internacionais fomentam crises econômicas para evitar o fortalecimento de novas nações, chegando até a promover revoluções e guerras entre elas.
As guerras comerciais precedem as militares.
Exemplos disto existem a cântaros.
Enfim, tentando não ser muito prolixo, gostaria de lembrar que, apertando o tal botão, somos nós que vamos expor a "bunda" e pagar, neste primeiro momento, mais R$ 0,40 por litro de gasolina.
Gostaria de lembrar que " O Temer já era ! "
No máximo fica mais um ano, período no qual eu gostaria de saber quais propostas reais esses pseudo candidatos apresentam para tirar o país da crise.
Quais são seus planos para a saúde, para a educação, infraestrutura,  defesa, uma política industrial desenvolvimentista, etc, ao invés de ficarem atirando pedras no defunto.
Saber o que propõem para socorrer estes milhões de desempregados.
Sem demagogias.
Propostas reais e factíveis.
Chega de aventureiros midiáticos.
Não quero apertar o "BOTÃO DO FODA-SE".
Amo demais meus filhos e netos para isso.
Quero um país melhor para eles.

Professor Orosco.


terça-feira, 20 de junho de 2017

O PROBLEMA DOS REFUGIADOS


Como estou meio de "saco cheio" diante de tantas opiniões e antagonismos provocados pela questão dos refugiados, com a adoção de posições xenófobas tanto de esquerda quanto de direita, para mim a solução se mostra evidente:
Pela ordem, poderíamos eliminar (suicidar) todos os muçulmanos da face da terra;
Na sequência, todos os budistas;
Todos os cristãos;
Todos os que professarem qualquer outra religião;
Também todos aqueles que não reconhecem a supremacia de um Deus criador.
Tudo isso de forma democraticamente organizada, sem distinção de sexo, cor ou idade.
Ao final, sobrariam os animais, peixes e os insetos.
Os únicos que não ligam muito pra essa coisa de especismo, de supremacia territorial, de poder, etc.
Antes disso, precisaríamos também nos assegurar da eliminação das baratas e dos escorpiões que tanto influenciaram a estrutura do nosso DNA.
Ou isso, ou criar vergonha na cara e aceitar que todos temos os mesmos direitos de existir, de sonhar e de sermos felizes, reconhecendo no outro, o seu próprio reflexo de ser humano.

Professor Orosco

terça-feira, 9 de maio de 2017

CHEGOU O GRANDE DIA


Neste dez de maio, quando os olhos do Brasil se voltam para a pequena Curitiba, esperando ver renascer ali a esperança por dias melhores, lembro-me de um pequeno e seleto grupo de homens que lutam diariamente para combater, além das próprias paixões, os inimigos da humanidade, como sejam: os hipócritas, que a enganam; os pérfidos, que a defraudam; os fanáticos, que a oprimem; os ambiciosos, que a usurpam e os corruptos e sem princípios, que abusam da confiança do povo.
Homens para os quais a probidade não é apenas uma disposição da alma que nos induz a praticar o bem, mas uma virtude que combate o vício, como o hábito desgraçado que nos arrasta para o mal.
Homens que condenam a exploração do homem, os privilégios e as regalias e que enaltecem o mérito da inteligência e o valor dos serviços demonstrados à Pátria.
Homens para quem o sectarismo político, a ignorância, a superstição e a tirania se mostram incompatíveis com a universalidade do espírito humano.
Homens prontos para sacrificarem-se, como a Pátria sacrifica seus próprios filhos, quando o bem das gerações vindouras assim o exigir.
Homens para os quais a Luz foi dada e para quem estaremos sempre em Pé e a Ordem.

Professor Orosco

sábado, 1 de abril de 2017

O MUNDO DA ARTE DEPENDE DE INSTITUIÇÕES FORMAIS PARA EXISTIR?


              A questão colocada para o presente trabalho, sobre a ‘dependência ou não do mundo da arte de instituições formais para existir’, nos remete à necessidade, antes de tomar por verdadeira a afirmação de Donald Clarence Judd (1928/1994), um pintor e artista plástico minimalista norte-americano, para quem “se alguém chama de arte, é arte”, de explicitar alguns dos conceitos desenvolvidos ao longo do curso, tais como “o que arte? ”; “o que é obra de arte? ”; “o que chamamos mundo da arte? ” e quais os critérios dos quais nos valemos para aceitar uma instituição como sendo suficientemente capaz e credenciada para reconhecer, classificar, opinar sobre e valorar uma obra de arte?
            Neste sentido, precisamos reconhecer que o conceito de arte, entendido até bem pouco tempo, pela filosofia, como uma produção menor, capaz apenas de imitar, retratar e representar o mundo, valorando critérios estéticos, cujos primórdios remontam ao período neolítico (arte rupestre), passando pela Grécia Antiga, pelo medievo, pelo renascimento e pela modernidade, somente no século XX ganhou o direito de ser e ter uma significação autônoma, dentro de um sistema de linguagem próprio, que lhe é particular. Assim, a definição clássica dos critérios “necessário” e “suficiente” aplicada para definir o conceito do que é arte foi de certa forma colocada à margem e a preocupação maior passou a ser focada na mensagem transmitida pela obra dentro de um determinado contexto social.
            Desta forma, podemos dizer que atualmente, uma obra de arte pode ser definida como sendo uma criação humana com objeto simbólico, belo ou de representação de um conceito determinado, a exemplo das esculturas, pinturas, poemas, filmes, músicas ou artefatos decorativos, diferenciando-se de um objeto comum, aquele que possui apenas uma função prática e útil na sociedade. Seu valor depende primeiramente de sua função na sociedade, segundo o homem que a apreende, o que nos remete à definição de que “A compreensão de uma obra de arte só é possível quando esta puder ser entendida por um apreciador com sensibilidade artística e estética” (KOELLREUTTER, 1999)[1]. Um valor cujo conceito não pode ser definido rigorosamente, pertencendo à gama daqueles conceitos abrangentes como ser, existência ou realidade, que não comportam uma definição propriamente dita, mas que exprimem uma relação dinâmica entre um objeto e o homem, e entre este e a sociedade, como a altura, duração, timbre e intensidade de uma música, por exemplo.
            Um conceito que, Joseph Kosuth, um influente artista conceitual americano, desenvolve em seu artigo A arte depois da filosofia, de 1969, ao colocar claramente a distinção entre estética e arte, afirmando que a arte, “é a análoga a uma proposição analítica,(quando sua validade depende unicamente das definições dos símbolos que ela contém)  e que a existência da arte, como uma tautologia é o que permite à arte permanecer indiferente com relação às conjecturas filosóficas” ao passo que, a “a estética lida com opiniões sobre a percepção do mundo em geral”, tendo o sentido de promover uma reflexão sobre a arte. Para ele, os objetos apresentados no contexto da arte, como quaisquer outros existentes no mundo, são passíveis de considerações estéticas, motivo pelo qual tal consideração, “sua existência em um contexto de arte” é irrelevante para o juízo estético. Kosuth, neste artigo, referencia a obra de Marcel Duchamp, expoente do movimento dadaísta, aquele que marca a falta de um sentido formal da linguagem, valorizando mais a concepção do que a aparência, classificando-o, em suas palavras, como o marco inicial da arte moderna e da arte “Conceitual”.
            Na mesma linha, Clement Greenberg (1909/1994) outro influente crítico de arte estadunidense, ligado ao Modernismo, elaborou um artigo sobre a pintura modernista (1960) onde descreve sucintamente o processo de libertação da pintura das amarras clássicas, que privilegiavam a forma, ainda que continuassem a reproduzir a representação de objetos reconhecíveis, valorizando os elementos particulares constituintes da própria pintura, como a planaridade da tela. Ou seja, a arte tendo mais a ver com o meio do qual ela se utiliza do que com aquilo que retrata. Em suas palavras: “Por ser a planaridade a única condição que a pintura não partilhava com nenhuma outra arte, a pintura modernista se voltou para a planaridade e para mais nada”, Greenberg, inclusive citando esta inovação proposta pelas obras de Manet, um ícone do impressionismo que valorizava os pontos que os objetos adquirem ao refletir a luz num determinado momento, reitera que, neste processo de libertação da filosofia, cada arte precisa determinar, por suas próprias operações e obras, aquilo que lhe é particular. A seu ver o que, se de um lado lhe restringe a área de competências, de outro, consolida sua posse dessa área.
            Ao citar estas duas abordagens distintas, ambas elaboradas por pessoas de ‘reconhecido saber’ no assunto, esperamos haver mostrado que elas, por si mesmas, já evidenciam a necessidade de algum conhecimento técnico para o processo de valoração de uma obra de arte, ou daquilo que podemos considerar arte, por parte do observador, ainda que se faça essa valoração de forma empírica e subjetiva. Um conhecimento teórico que, conforme descrito por Morris Weitz (1916/1981) um norte-americano profundo conhecedor dos assuntos ligados à natureza da arte, tenta em vão defini-la. Em sua abordagem, Weitz denuncia que, para que se possa definir o que é arte, precisamos, antes, conhecer suas propriedades “necessárias” e “suficientes” e isso se mostra uma tarefa muito difícil, principalmente quando o fazemos influenciados por critérios estéticos. Para ele, “a teoria estética está errada em princípio ao pensar que uma teoria correta é possível uma vez que adultera radicalmente a lógica do conceito de arte”. É falsa a sua principal contenda de que a arte é susceptível de uma definição real...” Em seu trabalho, ele coloca que a arte, como a lógica do conceito mostra, não tem nenhum conjunto de propriedades necessárias e suficientes, pelo que não pode ser definida sob a forma clássica, motivo pelo qual se recomenda a rejeição da teoria estética, muito embora faça a ressalva acerca de sua contribuição para a compreensão das artes.
            Assim, na análise das teorias estéticas, ele refuta a tese formalista que tenta defini-la através da relação entre os elementos plásticos, rejeitando tudo aquilo que não possui tal forma. Igualmente refuta os conceitos emocionalistas para os quais a propriedade definidora não é a forma significante, mas a expressão das emoções. Refuta também os intuicionistas que defendem a arte como um estádio do conhecimento em que os humanos encaminham suas imagens e suas emoções para uma um processo de tomada de consciência, de caráter não conceptual. E dizer, mesmo reconhecendo em todas estas teorias estéticas alguma propriedade válida, ele mostra o equívoco de tomá-las por necessárias e suficientes, tomando-se um conceito que é aberto por fechado e esquecendo-se de que todas elas apresentam uma característica valorativa.
            Na tentativa de trazer alguma luz a este universo de possibilidades, Arthur Danto, (1924/2013), um filosofo e critico de arte americano, elaborou uma teoria em que afirma a necessidade de conhecer as teorias artísticas, já que o artístico é definido por teorias, para que se possa reconhecer uma obra de arte. E dizer, para ele “ver algo como arte requer algo que o olho não pode repudiar, uma atmosfera de teoria artística, um conhecimento da história da arte: um mundo da arte”. Danto, em suas colocações sobre as caixas de Brillo, por exemplo, faz referências a objetos similares que, dependendo do contexto em que são observados, podem ser ou não classificados como obras de arte, independentemente de suas diferenças constitutivas (papelão ou compensado), evidenciando a definição contextual de arte é algo que vai além do objeto em si. Que uma obra de arte é classificada como tal, em consequência de uma teoria que a recebe desta forma no mundo da arte.
            Completando o pensamento de Danto, George Dickie, um filósofo norte-americano especialista em estética e filosofia da arte, postula uma definição clássica para identificar uma obra de arte, atribuindo-lhe a condição de possuir uma propriedade necessária e suficiente ser “um artefato ao qual alguma sociedade ou algum subgrupo de uma sociedade atribuiu o estatuto de candidato à apreciação”, desde que o faça no mundo da arte e de forma relacional.
            Desta forma, respondendo à questão inicial formulada para este trabalho, neste momento particular e contemporâneo da arte, onde tudo é possível ser apresentado como arte, concordamos que o reconhecimento daquilo que podemos chamar de obra de arte, como um artefato pertencente ao mundo da arte, precisa ser chancelado por instituições formais, reconhecidas como detentoras do conhecimento acerca das teorias artísticas, inclusive em seu aspecto histórico.

[1] Koellreutter, H.J. Sobre o valor e o desvalor da obra de arte. Scielo Estud. avançados. vol.13 nº.37 São Paulo Sept./Dec. 1999

Professor Orosco

domingo, 12 de março de 2017

A PRIMEIRA DIRETRIZ





Segundo o Site Oficial da Frota Estelar, “É proibido a todas as naves e membros da Frota Estelar interferir com o desenvolvimento normal de uma cultura ou sociedade. Essa diretiva é mais importante do que a proteção das naves ou membros da Frota Estelar. Perdas são toleradas, caso sejam necessárias para a observação dessa diretiva.” 

Esta é Premissa principal da Frota Estelar, na qual todo e qualquer oficial da Frota está proibido de descumprir, mesmo ao custo de sua nave ou mesmo de suas vidas. O descumprimento dessa norma só é admitido para corrigir uma violação maior dessa diretriz.

Se fizermos uma breve retrospectiva acerca do surgimento da Frota Estelar (2161), veremos que o Capitão Archer, no comando da NX-01 Enterprise (2151), que validou o motor de dobra 5 e com isso permitiu o início da exploração espacial pelos terráqueos, já alertava para a necessidade de um conjunto de normas que assegurassem a todos que os humanos não iriam “brincar de deuses” quando se deparassem com civilizações tecnicamente mais atrasadas (Capítulo 13 da 1ª Temporada – Caro Doutor), como era o medo manifesto dos vulcanos, que se valiam disso para atrasar o início das jornadas estelares pelos humanos, como ocorreu após o incidente da perda de um comunicador (Capítulo 8 – 2ª temporada – O Comunicador)

Se lembrarmos, os vulcanos só estabeleceram o contato com os terráqueos (Primeiro Contato), quando Zefram Cochrane demonstrou que nós havíamos alcançado a capacidade de dobra e que já havíamos dominado a tecnologia necessária para iniciar a exploração espacial. Lembremo-nos também que, depois do encontro com os Klingons (2218), que levou a quase um século de hostilidades, a federação percebeu que precisava de regras claras para o primeiro contato com outras espécies e que a pura admissão da tecnologia de dobra era insuficiente para tal.
  
Em linhas gerais, a Primeira Diretriz afirma que, “Considerando que o direito de cada espécie consciente de viver de acordo com a sua evolução cultural normal é sagrado, nenhum membro da Frota Estelar pode interferir com o desenvolvimento normal e saudável da vida e da cultura de uma espécie alienígena. Essa interferência inclui a introdução de conhecimentos, força ou tecnologia superiores num mundo cuja sociedade é ainda incapaz de lidar com essas vantagens sabiamente. Os membros da Frota Estelar não podem violar esta Primeira Diretriz, mesmo para salvar as suas vidas e/ou a sua nave, a não ser que eles estejam a corrigir uma anterior violação ou contaminação desta diretriz. Esta diretriz tem precedência sobre todas as outras considerações, e carrega consigo a maior obrigação moral”.

Nesta mesma linha, conforme a 4ª Diretriz, também é proibido aos membros da Frota Estelar, ao realizar um contato com uma espécie alienígena, informar sobre a existência de outras espécies ou mundos conhecidos, assim como, a 10ª Diretriz estabelece que qualquer oficial da Frota que, por prova testemunhal ou prova verificável, tenha descumprido a Primeira Diretriz, o mesmo deverá ser afastado de suas funções e colocado na prisão. O mesmo se dá com qualquer representante da Federação Unida dos Planetas (23ª Diretriz). O próprio auxílio médico (16ª Diretriz) fica condicionado à observação da Primeira Diretriz. A exceção da aplicação de medidas disciplinares se dará apenas aos tripulantes que o façam sob ordens de seus oficiais superiores, os quais assumirão a responsabilidade total por seus comandados (26ª Diretriz) e, finalmente, de acordo com a 31ª Diretriz, “As condições e especificações da Primeira Diretriz devem ser aplicadas a todas as formas de vida consciente descobertas, quer sejam de origem natural ou artificial”.

Sob a ótica da história terrestre, temos aqui mesmo, incontáveis exemplos de civilizações que desapareceram, foram assimiladas ou foram completamente destruídas, quando tiveram contato com uma civilização tecnologicamente mais avançada, principalmente em termos militares.

Tivemos, por exemplo, a civilização Azteca, praticamente extinta no ano de 1521, quando o espanhol Hernando Cortez, pensando nas riquezas que podia conseguir, exterminou o povo de Montezuma, no México. Resquícios desta civilização sobreviveram até nossos dias, graças a algumas tribos, como as de Teotihuacan que enterraram toda uma cidade, inclusive suas pirâmides, nas cercanias da atual Cidade do México.

A destruição do Império Inca, pelo conquistador Francisco Pizarro, no século XVI, preocupado apenas com o ouro do Peru, da qual os resquícios ainda podem ser vistos em Machu Picchu, (Vale Sagrado). Na verdade, o Império Inca, rico em conhecimentos agrícolas e astronômicos,  cobria, além do Peru, regiões que hoje constituem o Equador, uma parte da Bolívia e do Chile.

Na Ásia menor, os Babilônios, assimilados pelos gregos que por sua vez foram assimilados pelos macedônios que se renderam aos romanos, assim como os egípcios, etc.

Melhor sorte tiveram os chineses que, graças à hostilidade demonstrada aos europeus pela dinastia Manchu, que havia sucedido à dinastia Ming, por volta do ano de 1644, conseguiram estabelecer uma linha de defesa de sua cultura e de seus valores, pelo menos até o final do século XIX, quando os interesses coloniais ingleses, norte-americanos, franceses, belgas e alemães, executaram uma série de conflitos armados que lhes renderam a ocupação militar e a exploração da população local até praticamente a metade do século XX, quando foram expulsos pela revolução comunista liderada por Mao Tse Tung.

Os japoneses, também conseguiram se manter protegidos até o final da Segunda Grande Guerra, permanecendo isolados do mundo ocidental, quando a vitória estadunidense impôs ao povo derrotado, novos valores culturais.
  
De qualquer forma, olhando para o tema da Primeira Diretriz, sob a ótica da filosofia, recorro primeiramente ao romance "O Despertar dos Deuses" de Isaac Asimov onde ele explora simultaneamente a unidade potencial de todas as raças e a possibilidade de conflito inerente a todas as situações de primeiro contato, quando, mesmo se os membros de raças diferentes compreenderem uns aos outros, suas percepções distintas podem colocar em perigo ambos os mundos e mesmo a estrutura dos respectivos universos. Lendo Asimov, percebemos que esta lacuna entre indivíduos e suas respectivas sociedades é a preocupação central da Primeira Diretriz.

As sociedades se organizam segundo várias formas de “contratos sociais”, onde são estabelecidos os valores que devem reger seu desenvolvimento, como língua, religião, respeito aos direitos humanos, individuais ou coletivos, direitos políticos, etc. Cada sociedade estabelece seus padrões e, para coexistir pacificamente umas com as outras, estabelece regras de respeito mútuo. Antigamente, tudo era resolvido pela guerra, hoje, pelo comércio. A guerra era anterior ao comércio, e ambas alternativas são nada mais do que meios diferentes para atingir o mesmo fim: o de se possuir o que se deseja; a guerra como fruto do impulso e o comércio como fruto do cálculo.

No campo dos valores morais, apenas para exemplificar a dificuldade entre culturas, ainda que da mesma espécie, no caso a nossa, a espécie humana, recorro ao famoso embate entre o ativista político Benjamin Constant (1767/1830) e Immanuel Kant (1724/1804) sobre o estabelecimento de princípios, particularmente sobre a “obrigação de dizer a verdade”.

Kant afirmava que, para que uma sociedade se estabeleça, a relação entre os homens deve partir de princípios previamente estabelecidos que, aceitos por todos, se tornam o alicerce da construção social. Dentre estes princípios, o de dizer a verdade, sempre, de forma incondicional e em qualquer circunstância, é a única garantia que se pode oferecer para o estabelecimento de coesão social, pois se houver dúvida quando à palavra dita ou empenhada, a confiança inexiste e o contrato entre as partes não se estabelece.

Kant era radical nesta afirmação, valendo-se do exemplo de que mesmo se um assassino lhe perguntasse sobre o paradeiro de sua próxima vítima, escondida em sua casa, você moralmente estaria obrigado a dizer-lhe a verdade, cabendo a culpa do assassinato única e exclusivamente ao criminoso pelo ato praticado.
Constant, por sua vez, mesmo reconhecendo a necessidade da obediência aos princípios, estabeleceu princípios de segunda ordem, intermediários, que facilitariam a aplicação dos primeiros. Desta sorte, para que uma pessoa fosse merecedora de ouvir a verdade, ela precisaria, antes, oferecer provas de suas intenções, ou seja, ela precisaria demonstrar que em seus atos não estavam embutidas ações que poderiam causar danos a outros. Para ele, não causar propositalmente danos a outras pessoas é um outro princípio para o estabelecimento de um contrato social, tão importante quanto dizer a verdade.
Kant considerava essa possibilidade absurda, pois remetia a um subjetivismo, o de que cada um poderia decidir sobre se o outro estaria ou não sendo verdadeiro em suas propostas, o que deixaria uma dúvida considerável sobre a minha decisão de “dizer ou não a verdade”, o que faria toda a construção do tecido social ruir.

Em outro exemplo, poderíamos dizer que em praticamente todas as religiões, os textos sagrados remetem ao princípio de não matar, e como sabemos, é em nome da religião que os homens se matam a milênios.

Isto, apenas entre elementos da mesma espécie, que diremos em relação a outras.

Até hoje, embora o movimento em defesa dos animais esteja ganhando adeptos na maioria do mundo civilizado, a matança de animais para a alimentação humana, ou mesmo para a confecção de roupas e adereços, continua difundida e aceita por todo o planeta. Mesmo aqueles animais que já ganharam o status de pessoas, de pessoas não humanas, como os golfinhos e algumas espécies de primatas, continuam sendo assassinados nos nossos dias, inclusive com requintes de crueldade, como no caso dos bezerros, das galinhas poedeiras, dos porcos em confinamento, etc., com a indiferença de cada um de nós que consome estes produtos. Aceitamos que os matem e nem nos importamos com isso. Pior, dizemos que é assim porque sempre foi assim e, então, tudo bem, afinal, não fomos nós que os matamos (só pagamos para alguém fazê-lo em nosso nome).

Sem a Primeira diretriz, entendida em sua forma de verdade apodítica, que não pode ser questionada ou descumprida, o que nos impediria de tratar uma espécie alienígena da mesma forma, como gado a caminho do matadouro, como escravos para trabalhar até o limite de suas forças, sempre com a justificativa de que estaríamos alimentando humanos ou enriquecendo humanos.

Vale o revés, e como a filosofia trata de levantar perguntas mais do que respostas, como nos sentiríamos se, como ainda somos uma raça ignorante que ainda não alcançou, de fato, a tecnologia da dobra espacial, fossemos tratados assim por uma raça alienígena mais desenvolvida.

Tipo Independence Day.

Neste critério, já terminando, filosoficamente falando e apesar de todas as implicações decorrentes de nossos atos, rendo-me a Kant e à primeira diretriz, da maneira exata como está formulada pela Federação dos Planetas Unidos, como regra de conduta para toda a Frota Estelar. No entanto, reconheço que o “fator humano”, decisivo nestes casos, dependerá sempre daquele que ocupa a cadeira do Capitão.

Vida próspera e longa a todos vocês.

Professor Orosco. 



sábado, 7 de janeiro de 2017

INVESTIGANDO OS GREGOS

  
A música de qualidade mais inferior produz entre os povos bárbaros sensações incomparavelmente mais fortes do que as provocadas pela mais doce das melodias entre os povos civilizados. Quanto mais os gregos quiseram aperfeiçoar a música, mais viram suas maravilhas enfraquecerem. Isso ocorreu precisamente porque eles desejaram aperfeiçoar a música. Isto é, a estavam julgando. Tudo o que seus selvagens ancestrais haviam feito tinha sido escutá-la. (M. de Pauw [1], Recherches sur les Grecs, 1768)

Este argumento defendido por Pauw, a quase 250 anos atrás, é ainda tido por muitos como verdadeiro, principalmente quando não compreendemos o significado das atuais preferencias musicais de boa parte de nossa juventude.
Se realizarmos um estudo antropológico destas novas tribos urbanas, a partir de seus gostos musicais, poderíamos evidenciar, por exemplo, alguns preconceitos de nossa parte para com elas, quando não percebemos o fato de que a harmonia melódica que defendemos é simplesmente um processo de racionalização (matematização) construída ao longo dos tempos, inspirada em boa parte na observação que fizemos das coisas da natureza, responsável por todo o nosso processo civilizatório.
O jovem, como o bárbaro das civilizações antigas, tendo uma imaginação dominante, é capaz de justificar para si a violência e o desejo de conquista territorial ou de poder, como força motriz do desenvolvimento humano, elementos que Nietzsche explorou muito bem ao definir sua “vontade de potência”. Já os mais velhos, conscientes de sua finitude, veem seus interesses serem pautados por coisas mais próximas a eles, preferindo valorar a razão, a paz e o comércio ao uso da força que já não possuem.
Assim, refutando uma análise simplista do pensamento de Pauw, entendemos que o entusiasmo e o conhecimento, de forma complementar e não antagônica, fazem parte do processo de desenvolvimento humano, tanto individual quanto coletivamente. Ambos são igualmente importantes ou potencialmente perigosos para a continuidade e desenvolvimento da nossa espécie.
A música, ou a forma como ela nos toca, simplesmente espelha isso.

Professor Orosco



[1] Cornélius Franciscus de Pauw, ou Cornelis de Pauw (1739-1799) foi um holandês filósofo, geógrafo, especialista em estudos etnonógicos e diplomata na corte de Frederico, o Grande, da Prússia, Familar às ideias do iluminismo, foi considerado o maior especialista sobre as Américas, mesmo nunca tendo visitado o continente. Também escreveu sobre as origens dos povos antigos, rejeitando a ideia popular de que a China havia sido, originalmente, uma colônia do Egito Antigo.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

ANO NOVO, ATITUDE NOVA


No ano que passou tivemos momentos bons e ruins, como ocorreu em todos os outros anos. Perdemos pessoas queridas e vimos chegar outras que roubaram nossos corações. Ganhamos dinheiro e gastamos tudo. Nossa saúde nos permitiu a qualidade de vida suficiente para chegar até aqui. Tudo poderia ter sido melhor, mas, também, poderia ter sido pior.
Assim, como não adianta chorar pelo leite derramado, renovemos a esperança por dias melhores, mas façamos a nossa parte para que realmente o sejam. Simples e pequenos gestos, nada complicado, podem ser suficientes. Como diz meu querido irmão João:

- Se chegar ao final do dia e eu contabilizar ter ouvido, pelo menos dez vezes, a palavra obrigado, saberei que fiz por merecer a graça de tê-lo vivido. Caso contrário, preciso me esforçar um pouquinho mais para ser uma pessoa melhor, para fazer um mundo melhor.

Como o pequeno pássaro que jogava a água transportada em seu bico sobre o incêndio da floresta, basta fazer a nossa parte.

FELIZ 2017.


Professor Orosco

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

DAS CAUSAS PROVÁVEIS PARA A BURRICE HUMANA


Os burros que me perdoem, mas a analogia se faz necessária para tentar explicar o comportamento humano, principalmente nos últimos anos e, particularmente no Brasil, quando copiamos sua teimosia em não querer aprender com nossos erros. Note-se que me referi à vontade manifesta de não querer aprender, e não à impossibilidade de fazê-lo. O burro ou a mula (a fêmea da espécie) empaca durante a viagem, simplesmente porque não tem vontade de continuar e não porque não sabe ou não consegue aprender o caminho. Popular e jocosamente, desde os tempos do escritor e poeta grego Esopo (cerca de 600 anos a.C.) já atribuímos aos homens características destes animais, quando, por exemplo, dizemos que o macho humano, com seu jeito bruto de ser, trabalha e age como um burro de carga, e a fêmea humana, inconstante e volúvel, sabe ser teimosa como uma mula.
De qualquer forma, não nos prendendo demasiadamente à alegoria, pretendemos demonstrar que a pouca capacidade de compreensão e o baixo tirocínio evidenciado pela esmagadora maioria da população (a burrice congênita), principalmente entre os mais jovens, está, também, associada a fenômenos fisiológicos, causados em boa parte por seus hábitos alimentares e pelos elevados índices de poluição.
Explicando melhor:
Segundo o Dr. Otto Henrich Warburg (1883/1970), bioquímico e fisiologista alemão, ganhador do Prêmio Nobel em 1931 por sua tese sobre “A causa primária e a prevenção do câncer”, onde evidenciou a natureza e a ação da enzima respiratória e dos processos de oxidação em células vivas, ‘a falta de oxigênio e a acidez são as duas faces da mesma moeda: quando você tem uma, você tem a outra”. Ou seja, segundo o Dr. Warburg, a acidez expulsa o oxigênio das células, tornando o ambiente oxidante e acelerando o processo de morte celular. No mesmo trabalho ele também defende a tese de que já que as substâncias ácidas repelem o oxigênio, por oposição, as substâncias alcalinas atraem o oxigênio.
Desta forma, podemos deduzir que, uma vez finalizado o processo de digestão, os alimentos de acordo com a qualidade de proteína, hidrato de carbono, gordura, minerais e vitaminas que fornecem, gerarão uma condição de acidez ou de alcalinidade no organismo, corroborando a afirmação do filósofo alemão Ludwig Feuerbach (1804/1872), ‘o homem é aquilo que ele come’. E dizer, com o conhecimento deste processo metabólico, percebemos que para as células funcionarem de forma correta e adequada, seu pH deve ser ligeiramente alcalino[1].
Isso significa, na prática, que todo o processo cognitivo precisa se dar em um ambiente levemente alcalino, onde a qualidade do sangue que alimenta o cérebro (quantidade de oxigênio transportado) tem importância fundamental. Sangue mais ácido, menos oxigênio, implicando em processo sináptico comprometido.
Assim, por exemplo, quando ingerimos um simples refrigerante estamos transformando nosso organismo, tornando-o ácido[2] e, segundo o Dr. Lair Ribeiro, médico, cardiologista e nutrólogo brasileiro, ao ingerir um simples copo de refrigerante (pH médio 2,5)[3] precisaríamos ingerir pouco mais de outros 30 copos de água apenas para neutralizar seus malefícios.
Da mesma forma, a poluição gerada nas cidades, principalmente pela queima de combustíveis fósseis como, por exemplo, carvão mineral e derivados de petróleo, que lança grandes quantidades de monóxido de carbono e dióxido de carbono (gás carbônico, CO2) na atmosfera, aliada à água chuva, produz a chamada chuva ácida, responsável pela morte das plantas, animais (morte celular) e pela corrosão de automóveis ou construções.
A constatação da existência deste ambiente ácido provocado pela chuva nas grandes cidades, pelo que já foi exposto, ajuda-nos a compreender, por exemplo, o comportamento anormalmente errático (burrice) de boa parte dos motoristas que se veem presos num trânsito, normalmente congestionado que, diante disso, torna-se ainda mais caótico, exponencializando o problema. É como se a inteligência dos motoristas se solubilizasse na chuva, um fenômeno que pode ser comprovado facilmente a cada nova tempestade, comprometendo o sistema de tamponamento do organismo[4].
Finalmente, concluímos que os jovens (mas não só eles), normalmente como pessoas mais expostas aos efeitos de uma alimentação irregular e das intempéries climáticas (já que não gostam de proteção adicional), acabam, sofrendo mais dos efeitos nocivos dessa acidez no organismo, o que nos ajuda a compreender as dificuldades adicionais que demonstram, em suas atividades diárias para, por exemplo,  “calcular um simples troco para as compras do mercado” ou “compreender corretamente um pedido verbalizado que lhe é feito num processo de compra qualquer”.

Professor Orosco


[1] Sabemos que o pH do sangue humano normal oscila entre 7,35 e 7,45.  pH sanguíneo abaixo de 7,0 (ácido) induz o individuo ao coma e, acima de 7,7 (alcalino), pode desencadear crises epiléticas.
[2] O corpo humano é uma grande máquina que precisa produzir energia para funcionar, ou seja, precisa consumir elétrons para funcionar. A nível celular, quando consumimos elétrons sobram os prótons. O próton mais simples é o H+. No pH se mede a quantidade de prótons (íons H+). Quanto mais prótons temos, menor é o pH e mais ácido é o meio. Quando nosso corpo gasta energia, nós consumimos elétrons, temos excesso de prótons e o nosso organismo acidifica. Nós precisamos eliminar este excesso de ácido que é prejudicial à saúde. Isto é feito através da urina, quando eliminamos ácido úrico, através da respiração, quando eliminamos ácido carbônico na forma de CO2, através do estômago quando eliminamos ácido clorídrico e através da transpiração. Os refrigerantes têm o ácido carbônico produzido por meio da diluição do gás carbônico em água como um componente fundamental (CO2 + H2O => H2CO3),
[3] Considerando-se que o pH médio do nosso sangue deve estar entre 7,35 e 7,45, o pH 2,5 de um refrigerante é extremamente ruim, já que a diferença de seu potencial hidrogeniônico é aproximadamente 100 mil vezes. (de pH 2,5 para 3,5 fator 10, para 4,5 fator 100, para 5,5 fator 1.000, para 6,5 fator 10.000 e para pH 7,5, 100.000)
[4] As soluções tampão têm a função de impedir que haja variações de pH na corrente sanguínea.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O PAPEL DO ESTADO DIANTE DA CRISE DO DESEMPREGO

Diante dos recentes protestos que vimos ser estabelecidos de forma programada ou não,  por todo o país, quase todos, em defesa dos direitos trabalhistas conquistados após muita luta e mobilização sindical, seria interessante realizarmos uma breve reflexão sobre o papel do Estado na mantença dos empregos e destes direitos.
Ė fato conhecido que, diante das constantes inovações tecnológicas, a mão de obra requisitada pelas indústrias, pela agricultura e até mesmo pelo comércio, principalmente o digital, tem sido sistematicamente substituída e reduzida pelo emprego de sistemas mais eficientes.
Essa busca generalizada por ganhos de produtividade, implementada por todas as organizações, privadas ou públicas, se de um lado provoca a redução da mão de obra, de outro lado torna os produtos e serviços mais baratos e acessíveis a um número maior de pessoas.
Os mais jovens podem não saber, mas houve um tempo em que as famílias sonhavam com a possibilidade de comprar uma geladeira, uma televisão, produtos que eram considerados inacessíveis para a maioria delas.
 Comprar a casa própria era, então, tarefa que demandava algumas gerações.
Carro, era coisa de gente rica, e os relógios passavam de pais para filhos.
Tudo isso mudou e, graças à inovação tecnológica, hoje em dia, quase todos podem ter um telefone celular, comprar um camisa ou conseguir estudar em uma escola pública.
O desafio, então, nestes “tempos modernos”, ė conseguir gerar emprego e renda para uma população mundial que, nos últimos 200 anos, cresceu 700% e que, ainda deverá dobrar nos próximos 100 anos.
A alternativa de promover guerras para reduzir a população jovem, embora não descartada, não é uma solução que poderíamos dizer inteligente, mesmo que alguns idiotas ainda pensem nela como solução.
Resta-nos o setor de serviços.
Mais médicos, mais advogados (nem tantos), mais dentistas, farmacêuticos, cabeleireiros, pizzaiolos, balconistas, intérpretes, corretores de imóveis ou consultores para investimentos nas bolsas de valores, trabalhadores em pet-shops ou mesmo cuidadores, são alternativas para minimizar esse problema, que, de forma privada e quase individual, tem sido adotadas.
No entanto, mesmo elas, não fogem às regras do mercado, onde a redução de custos e os ganhos de produtividade, continuam a pressionar a  atividade laboral.
Ou seja, mostram-se como solução paliativa  e de curto prazo  (uma ou duas gerações no máximo), quando o problema novamente será evidenciado.
A solução, então, precisa ser encontrada em atividades que não sejam reguladas pelo mercado, ou seja, por atividades laborais em que a qualidade dos serviços seja mais significativa que os custos envolvidos nelas e pelas quais a população aceite pagar.
Normalmente, atividades geridas pelo Estado.
Professores trabalhando com menos alunos por sala de aula, e não ao contrário.
Escolas em período integral.
Mais bombeiros e mais policiais.
Mais hospitais públicos e mais agentes de saúde.
Forças armadas melhor aparelhadas e preparadas.
Ou seja, o Estado oferecendo serviços de qualidade e em quantidade suficiente para promover o bem estar de todos.
Não de forma paternalista, clientelista, cartorial, corrupta ou ideológica, mas com planejamento e objetivos claros e transparentes.
Um Estado mínimo para evitar o desperdício de recursos e máximo para assegurar a defesa dos interesses da população e, particularmente das classes menos favorecidas.
Um Estado, como grande empregador e prestador de serviços pelos quais a população aceite pagar sem sentir-se roubada, como infelizmente ocorre hoje em dia.

Professor Orosco


sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A REFORMA DA PREVIDÊNCIA E A HABITUAL PRÁTICA DO CRIME DE USURA PELO GOVERNO.


Conforme o dicionário, sob a prespectiva etimológica, a palavra usura provém de duas palavras latinas: "usus" e "rei" com o sentido de cobrança pelo uso das coisas. Partindo-se de um conceito mais moderno, a usura, em síntese, é entendida como a cobrança de remuneração abusiva, por exemplo, pelo uso do capital quando da cobrança de um empréstimo pecuniário (ou seja, em dinheiro), são cobrados juros excessivamente altos, o que lesa o devedor. Considerada uma prática repudiada socialmente e tipificada como conduta criminosa por diversos ordenamentos jurídicos, inclusive o brasileiro, pode ser estendida inclusive a tributações indevidas, quando evidenciadas como tal. Em outras palavras, a cobrança indevida ou exagerada de impostos, taxas ou tributos por parte do governo, pode e deve ser considerada como usura. 

O governo, responsável que é pela defesa interna e pela segurança externa do Estado, tem o direito de solicitar que os indivíduos sacrifiquem parte de suas posses para custear os gastos que a consecução desses deveres requer. Os governados, por sua vez, têm o direito de demandar do governo que a soma de todos os impostos não exceda o que é necessário para o objetivo pretendido. Essa condição só pode ser atingida por meio de arranjos políticos que imponham limites às demandas e, por via de consequência, à prodigalidade e à ganância dos governantes. 
(CONSTANT, 2007, p 351)[1]
  
Neste contexto, a cobrança, por exemplo, da contribuição previdenciária sobre o trabalhador em primeiro nível e sobre o empregador em segundo nível, aplicada a todos aqueles que se aposentaram e que continuam a trabalhar, seja pelo motivo de fazê-lo para melhorar seus rendimentos ou pelo simples motivo de querer evitar o ócio, configura-se numa espécie de confisco de parte de seu salário e no crime de usura. O trabalhador que continua a trabalhar após a sua aposentadoria não recebe nenhum benefício adicional por essa taxação, uma vez que todos os direitos e benefícios que poderia receber já terão sido conquistados no momento em que se aposentou e, nem mesmo a atualização dos valores recebidos pelo aumento no período de contribuição lhe é permitido.
Por outro lado, para poder refutar a alegação citada no texto de Benjamin Constant, onde as despesas com a segurança do Estado justificam a cobrança de impostos, podemos também nos valer do pensamento de Henry Thoreau, um renomado ativista estadunidense, precursor da “Desobediência Civil”, que se tornou famoso pela sua luta contra os impostos cobrados por seu governo para financiar a guerra e a escravidão, que dizia: “Qualquer idiota pode fazer uma regra e qualquer idiota a seguirá” e perguntava aos seus pares: “Já que leis injustas existem: devemos contentar-nos em obedecer-lhes até triunfarmos ou transgredi-las desde logo?”
Ou seja, no momento particular em que, nos bastidores do governo se discute uma profunda reforma no modelo de previdência social vigente, um modelo que nada tinha de previdente, já que tolerou que o funcionalismo público tivesse regras diferenciadas; que outorgou benefícios questionáveis a militares; que tolerou “Fundos de Pensão” custeados na maior parte por recursos de empresas estatais, que teoricamente são de todos e não apenas dos beneficiados; que permitiu à classe dirigente (dos três poderes) definir seus próprios salários e benefícios, pagos de forma compulsória com nossos impostos, seria prudente que todos se mobilizassem para acompanhar e questionar suas ações.
Assim, diante da possibilidade que que sejamos obrigados a pagar a contribuição previdenciária, mesmo já gozando do “descanso eterno”, quando veremos nossos dependentes sendo alijados de seus direitos de pensão pelos quais pagamos quando vivos e, antes de aceitar que tal legislação seja outorgada, via decreto, pelo rei do momento ou promulgada por um Congresso que não nos representa, devemos exigir que tal obrigação seja referendada pelo conjunto de nossa sociedade.

Professor Orosco


[1] CONSTANT, Benjamin. Princípios de Política Aplicáveis a Todos os Governos. Rio de Janeiro: TopBooks, 2007

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

NUVENS ESCURAS E SOMBRIAS NO CÉU


O ano de 2016 está chegando ao fim e, ao que parece, não deixará saudades no quesito governabilidade. O despudor com que a coisa pública foi tratada nos últimos anos criaram uma das maiores crises econômicas que nossa jovem nação já viveu e que ainda não mostrou sinais de arrefecimento. Pior, ao olharmos o ano de 2017, já tão próximo, somos obrigados a constatar que ele também já está comprometido.
Neste final de ano, das pouco mais de 6 mil prefeituras brasileiras, acredito que algo como 5 mil delas, terão sérios problemas para realizar o pagamento do 13º Salário do funcionalismo público, agravados pelas dificuldades dos governos estaduais que, também terão seus problemas.
Alguns jornais já estão noticiando que muitas delas estão sofrendo cortes no fornecimento de energia elétrica, outras com interrupção de serviços essenciais, como saúde, por falta de pagamentos a fornecedores, e outras, com problemas na coleta de lixo, combustível para viaturas policiais, ambulâncias, etc.
Um verdadeiro caos, que vai se agravar com a chegada de novos prefeitos, muitos deles sendo boicotados desde já por aqueles que perderam as eleições, desejosos de “ver o circo pegar fogo”, até como maneira de forçar os novos gestores a tomar ações duras contra a população enquanto estarão impossibilitados de contratar auditorias independentes para avaliar os contratos já firmados e checar os desmandos feitos pelas atuais administrações.
As crises previstas na saúde, na educação, na segurança pública, nos serviços básicos de limpeza, iluminação, fornecimento de água e transportes, aliadas a um número sem precedentes de pessoas desempregadas, formarão, já no início do ano, uma pressão que será muito difícil suportar, principalmente pelas camadas mais vulneráveis de população.
Essa é a herança que os governos populistas e demagógicos da última década nos deixaram, nuvens escuras e sombrias no céu, e que agora querem esconder, jogando a culpa nos novos gestores, como forma de fugir da sua culpa.
Oxalá não consigam mais enganar tanta gente, como fizeram no passado.

Professor Orosco

terça-feira, 29 de novembro de 2016

VIVEMOS EM UM MUNDO REPLETO DE IDIOTAS


            Segundo os dicionários, a palavra idiota tem sua origem no termo grego antigo ἴδιώτης (idhiótis), utilizada para descrever "um cidadão privado, individual", derivada do termo ἴδιος (ídhios), "privado", aplicada depreciativamente, na antiga Atenas, para se referir a pessoa que se apartasse da vida pública.
            Ou seja, para os gregos, idiota era aquele indivíduo individualista que, como um ser desejante, só pensava em si e que se recusava a perceber que fazia parte de uma comunidade da qual se servia e à qual também deveria servir.
            Um ser desejante que, nas palavras de Sören Kierkegaard (1813/1855), um filósofo e teólogo dinamarquês, considerado o pai do existencialismo, ao alcançar o objeto do seu desejo, aquilo que motivou o seu movimento e que norteou seus passos até então, percebe a inutilidade da coisa em si e passa a desejar outra, mais distante ainda, sem se dar conta de que somente alcançará o conhecimento, a coisa que o separa dos animais não racionais, quando aprender a valorar o caminho percorrido, mais que o objetivo momentaneamente alcançado. Quando, falando em termos nietzschianos, aprender a valorar a vida vivida mais do que a vida idealizada.
           
Nada do que é finito, de fato, nem mesmo o mundo inteiro pode satisfazer o espírito humano, que sente a necessidade do eterno. [...] Tua luta, por isso, se exprime ainda mais profundamente quando tu, ..., desejas ser o mais tolo dos homens e de ser contudo admirado e adorado pelos contemporâneos como o mais sábio de todos, pois isso seria um verdadeiro sarcasmo sobre toda a existência. [...] Por isso, não aspiras a nada, não desejas nada, a única coisa que poderias desejar é uma varinha mágica que pudesse te dar tudo, e depois a usarias para limpar o cachimbo.
    (KIERKEGAARD, Estágios sobre o caminho da vida. E. Estético).
           
            Este parece ser sem dúvida alguma, o retrato mais fiel de nossa sociedade contemporânea, onde os homens massa, idiotizados por uma ideologia consumista que gerou, segundo Ortega y Gasset, o conceito de nações massa, tornaram-se virtualmente ligados uns aos outros e todos desconectados da vida real, como se fossem habitantes do hiperurânio[1], colocando a forma, acima do existente.

            Uma sociedade em que os homens aceitaram que se lhes impusessem midiaticamente o seu “modus vivendi”, como se fosse única alternativa, esquecendo-se de que, como denunciado por Marx em seu Materialismo Histórico, que somos todos reféns de uma superestrutura que detém os meios de produção material e que também detém os meios de produção intelectual.
            Uma sociedade em que o resultado de uma vida é medido pela régua dos interesses atuais, momentâneos, desconsiderando os obstáculos superados pelos que nos antecederam, quando construíram as pontes que nos trouxeram até aqui.
            Uma sociedade em que a maioria dos homens abriu mão de sua dignidade.

Todas as criaturas que se encontram tanto no mundo sensível como no mundo suprassensível foram criadas como realidades ontologicamente determinadas. O homem, ao contrário, foi posto no confim dos dois mundos, com uma natureza estruturada de modo tal que ele próprio deve determinar, plasmando-a segundo a forma de vida moralmente pré-escolhida. A grandeza do homem está portanto em ter sido criado por Deus como artífice de si próprio, como autoconstrutor segundo suas escolhas morais.
(PICO della MIRANDOLA. Discurso sobre a dignidade do homem)
           
            A maioria sim, mas, felizmente, nem todos,...

Professor Orosco
           




[1] Termo usado por Platão no Fedro para representar o mundo das ideias, das causas de natureza não física, das realidades inteligíveis, do Eidos.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

NOLI ME TANGERE


Não toques em mim... (Joāo XX:17)

Como fui provocado acerca de uma posição um pouco mais liberal que tomei quando me posicionei sobre a necessidade de um certo comedimento nas recentes atitudes tomadas por  nosso judiciário, particularmente na imposição de penas a pessoas que não foram ainda julgadas ou condenadas, mesmo aceitando que existam reais evidências de sua culpa, tomo a liberdade de compartilhar com os amigos, uma breve reflexão sobre o assunto:
A experiência tem demonstrado que os objetos que podemos possuir não despertam um interesse tão intenso quanto aqueles que estão além de nosso alcance, ou seja, nosso desejo ė diretamente proporcional aos obstáculos que se apresentam para alcançá-los.
- O fruto proibido (inalcançável) se mostra sempre mais doce!
E dizer, esta força motriz, desejante, que Nietzsche chamava de “vontade de potência”, que move o mundo, que ocupa e substitui a figura do próprio sujeito, amplia-se de forma exponencial segundo a distância do objeto desejado, ao ponto de exaurir, em dado  momento, o próprio sujeito, que se anula e padece por isso.
Tomemos o exemplo daquele homem que parte à procura de um tesouro, o qual acredita estar escondido sob uma pedra. Ele ergue um grande número de pedras, uma após outra, e não encontra nada. Cansa-se dessa vã operação mas não quer renunciar a ela, pois o tesouro é por demais valioso. O homem vai então se por em busca de uma pedra pesada demais para ser levantada, depositando ali suas esperanças, quando então vai desperdiçar as forças que lhe restam. (GIRARD, Mentira Romântica e Verdade Romanesca. Ė Realizações, 2009).
Este indivíduo, o assim denominado “masoquista”, mostra-se um homem em perpétua decepção, levado a desejar o próprio fracasso, no qual espera encontrar uma divindade autêntica, um mediador (fonte inspiradora do desejo), causa de sua escravidão.
Se essa consequência (seu fracasso) demorar demais, ele mesmo vai procurar acelerar o processo de sua degradação, pois o masoquista precipita o curso de seu destino e concentra num só momento as fases separadas do processo.
Sua escravidão e dominação pelo mediador (aquele de quem se copia o desejo) justifica para si, a hostilidade com que ė tratado por ele, já que se sente inferior a ele, motivo pelo qual,  a escolha do mediador, como a da pedra mais pesada, se dá não pelas qualidades que possui, mas pelo obstáculo que se lhe opõe, pelo desprezo com que o trata.
A busca do mediador deixou de ser imediata e passa a se dar em função do obstáculo, quando, então, o masoquista vai se distanciar daqueles que lhe tem afeição e carinho, passando a procurar aqueles que o desprezam.
A vã tentativa de agradar ou de se mostrar amigo útil e leal para quem o despreza, para quem ignora a sua existência ou que a percebe apenas como para servi-lo, ė um exemplo clássico desse comportamento masoquista.
Assim, após ter realizado toda essa digressão, podemos dizer que a mantença de um governo democrático, que realmente nos represente e que trabalhe para defender os princípios e valores nos quais acreditamos, não pode ser alcançada se tivermos uma postura servil e masoquista.
Benjamin Constant, em seus “Princípios de política aplicáveis a todos os governos”, já alertava, em 1810, que mesmo um governo que se declara democrático pode suprimir a liberdade e os direitos daqueles que lhe confiaram suas esperanças, citando as milhares de cabeças separadas de seus corpos pela Revolução Francesa, para quem a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade, foram argumentos válidos somente para os sobreviventes, pois, para quem morreu, não havia liberdade, igualdade e muito menos fraternidade.
Ou seja, Constant alertava que a soberania popular é uma falácia, já que quem governa, o faz nem sempre pelo interesse coletivo, como apregoava Rousseau, mas segundo seus legítimos interesses particulares, motivo pelo qual seus poderes nunca podem ser demasiadamente abrangentes ou absolutos.
Dessa forma, concluindo minha argumentação, digo que os  nossos direitos individuais, aqueles dos quais não abrimos mão, precisam ser defendidos com toda a energia de que dispomos, ainda que contra o governo ou contra uma maioria inflamada ou masoquista.

Professor Orosco

sábado, 19 de novembro de 2016

SOBRE A VAQUEJADA E A MORTE DO SERTANEJO


Lendo o artigo de Aldo Rabelo publicado no jornal “O Estado de São Paulo” neste sábado, 19 de novembro, um dia que deveria ser consagrado à nossa bandeira, sequer mencionada, sinto-me obrigado, por força do hábito, a refutar veementemente seus argumentos, ou melhor, o entendimento que nosso deputado dá à figura do boi e do cavalo, como baluartes da identidade nordestina.
Concordando, em princípio, com a ideia de que estes animais tiveram importante participação no processo de ocupação e desenvolvimento de nosso território, entendo, na contramão daquilo que ele apregoa, que a valorização destes ícones deve ser feita, valorizando-se seu trabalho e não perpetuando sua exploração e martírio, como propõem os defensores da vaquejada.
Seria, como manter em atividade, a título histórico, a prática do açoite aos escravos, dos prisioneiros e dos índios.
Seria, como defendem alguns intelectuais, promover a atividade criminosa do cangaço, da pilheria e do assassinato, ao status de movimento folclórico regional, que precisa ser conservado e não classificado como página hedionda de nossa história.
No meu entender, a morte daquele sertanejo, entendida como a daquele sujeito que era obrigado a uma vida retirante, sem passado e sem futuro, substituída agora pela figura de um agricultor cujos filhos podem estudar, um cidadão que aos poucos aprende a votar e a reclamar seus direitos, é motivo de alegria e não de saudosismo.
Como defensor dos direitos dos animais, entendo que a melhor homenagem que se pode fazer à nossa gente e à sua história, é a promoção destes parceiros, ao status de seres livres e merecedores de nossas desculpas e eterna gratidão.
O Bumba meu Boi, como festa carnavalesca, é exemplo do que digo.
O jegue, um símbolo como o chapéu de couro, da identidade nordestina, companheiro de infindáveis jornadas e ouvidor de um sem fim de lamentos murmurados na solidão da caatinga, que, com anuência da senadora Katia Abreu, já foi reduzido a produto de exportação, utilizado para alimentar chineses que comeram seus próprios rouxinóis, não teve tanta sorte.
Que aos menos as vaquejadas, sendo proibidas, não continuem tão cruéis.

Professor Orosco








sexta-feira, 11 de novembro de 2016

GASTON BACHELAR E A FORMAÇÃO DO ESPÍRITO CIENTÍFICO


Resumo: O presente trabalho destina-se a apresentar, baseado em um método de abordagem qualitativa, fundamentado no estudo de caráter hermenêutico, que se pode depreender particularmente, a partir da leitura do livro A Formação do Espírito Científico, uma síntese do pensamento de Gaston Bachelard, um filósofo e poeta francês, focado principalmente nas questões referentes à filosofia da ciência. Mostrar, a partir da análise do conjunto de sua obra, do potencial metodológico implícito na sua epistemologia e filosofia das ciências, a noção da “construção do objeto científico”, a noção da “construção da alma ou do espírito científico”.

Palavras Chave: Fenômenos, Ciência da Realidade, Pensamento Abstrato, Espírito Científico



Abstract: The present work aims to present, based on a method of qualitative approach, based on the study of hermeneutical character, which can be inferred particularly, from the reading of the book The Formation of the Scientific Spirit, a synthesis of the thought of Gaston Bachelard, a French philosopher and poet, focused mainly on questions concerning the philosophy of science. To show, from the analysis of the whole of his work, the implicit methodological potential in his epistemology and philosophy of sciences, the notion of "construction of the scientific object", the notion of "construction of the soul or the scientific spirit."

Keywords: Phenomena, Reality Science, Abstract Thinking, Scientific Spirit



1 – INTRODUÇÃO

            O presente trabalho destina-se a apresentar, baseado em um método de abordagem qualitativa, fundamentado no estudo de caráter hermenêutico, que se pode depreender particularmente, a partir da leitura do livro “A Formação do Espírito Científico”, obra publicada no ano de 1938, uma síntese do pensamento de Gaston Bachelard, um filósofo e poeta francês (1884/1962) focado principalmente nas questões referentes à filosofia da ciência.
Mostrar, a partir da análise do conjunto de sua obra, do potencial metodológico implícito na sua epistemologia e filosofia das ciências, a noção da “construção do objeto científico”, a noção da “construção da alma ou do espírito científico”, entendidas como uma crítica a algumas perspectivas epistemológicas adotadas até então.
Mostrar que com os principais conceitos desenvolvidos por ele na sua epistemologia – ruptura, vigilância, obstáculo, problemática e recorrência epistemológica -, ele procurou dar a esta ciência nascente, uma filosofia compatível com a revolução científica promovida no início do século XX, particularmente a partir da Teoria da Relatividade, formulada por Albert Einstein.  
E dizer, mostrar que, partindo deste objetivo, Bachelard formula suas principais proposições para a filosofia das ciências, a partir da historicidade da epistemologia e da relatividade do objeto, rompendo com as ciências anteriores em termos epistemológicos e tecendo críticas à postura empirista que adotavam, uma vez que, para ele, o seu objeto encontra-se em relação e não pode mais ser considerado absoluto, afirmando que o novo espírito científico encontra-se em descontinuidade, em ruptura com o senso comum, tido por ele como repleto de preconceitos, baseados em boa medida nos limites do empirismo.

2 – SOBRE A OBRA DE GASTON BACHELARD
           
            Historicamente, vê-se que Bachelard viveu numa época de amadurecimento da ciência, que podemos inferir por Revolução Científica do Século XX, onde pode presenciar a discussão sobre o surgimento e as implicações da física relativista, com a consequente quebra do empirismo, uma vez que o objeto de estudo dependia agora do referencial e, assim, não podia mais ser considerado absoluto, como ele mesmo descreve ao “rotular de modo grosseiro as diferentes etapas históricas do pensamento científico”:

O primeiro período, que representa o estado pré-científico, compreenderia tanto a Antiguidade clássica quanto os séculos de renascimento e de novas buscas, como os séculos XVI, XVII e até XVIII. O segundo período, que representa o estado científico, em preparação no fim do século XVIII, se estenderia por todo o século XIX e início do século XX. Em terceiro lugar, consideraríamos o ano de 1905 como o início da era do novo espírito científico, momento em que a Relatividade de Einstein deforma conceitos primordiais que eram tidos como fixados para sempre.
                                                          (BACHELARD, 1996, p 9)
           
            Sua obra pode ser dividida, ainda que de forma didática, em duas fases: a obra diurna (epistemologia e história das ciências) e a obra noturna, que remete ao estudo no âmbito da imaginação poética, dos devaneios e dos sonhos.
            Dentre as obras diurnas se destacam:  “O novo espírito científico”, de 1934; “A formação do espírito científico”, de 1938 (objeto central de nosso estudo); “A filosofia do não”, de 1940; “O racionalismo aplicado”, de 1949 e “O Materialismo racional”, de 1952. Dentre as obras noturnas destacam-se “A psicanálise do fogo”, de 1938; “A água dos sonhos”, de 1942; “O ar e os sonhos”, de 1943; “A terra e os devaneios da vontade”, de 1948; “A poética do espaço”, de 1957.
Bachelard expôs um racionalismo dialético, um diálogo entre a razão e a experiência, partindo do ponto de vista de que a descoberta racional é um processo pelo qual o conhecimento novo é assimilado a um sistema que muda apenas na medida em que cresce, rejeitando o conceito cartesiano de que as verdades científicas são partes imutáveis que se somam para alcançar uma “verdade total”, da mesma forma que refutava o empirismo de Bacon, pautado em seus ídolos.[1]

3 – CRÍTICAS ÀS FILOSOFIAS VIGENTES E A CONSTRUÇÃO DO ESPÍRITO CIENTÍFICO

            No embate que Bachelard travou contra as filosofias do imobilismo, que defendiam, entre outras coisas, que existe uma continuidade entre senso comum e ciência, ele apontava para a descontinuidade entre o conhecimento científico e o conhecimento comum, onde o primeiro se constrói através da negação da experiência primeira, entendida como a primeira observação, a experiência colocada antes e acima da crítica.
            Para ele, a superação do empirismo se dá através do racionalismo, onde a postura epistemológica do novo cientista proclama-se no primado da realização sobre a realidade, ou seja, o cientista aproxima-se do objeto não mais por métodos baseados nos sentidos, na experiência comum, mas pela teoria, mediada pela razão.

A ciência da realidade já não se contenta com o como fenomenológico; ela procura o porquê matemático. (Ibidem, p 8)
           
            Para Bachelard, no pensamento pré-científico, não se procura a variação, mas a variedade, o que leva o espírito de um objeto para o outro, sem método, onde o espírito procura apenas ampliar conceitos e a variação liga-se a um fenômeno particular. Por sua vez, no estado científico do pensamento, a ciência, como um todo, interessa a todos os homens cultos e a ideia dominante é a de que um gabinete de história ou um laboratório, montados como se fossem uma biblioteca, aos poucos, estabeleçam, quase que automaticamente, as ligações entre os achados individuais.
            Finalmente, na terceira etapa histórica do pensamento científico, o espírito científico passaria necessariamente pelos estados concreto, em que o espírito se entretém com as primeiras imagens do fenômeno e se apoia numa literatura filosófica que exalta a natureza; pelo estado concreto-abstrato, em que o espírito acrescenta à experiência física esquemas geométricos e se apoia numa filosofia da simplicidade e no estado abstrato, em que o espírito adota informações voluntariamente subtraídas à intuição no espaço real, desligadas da experiência imediata.
            Bachelard coloca ainda que, o espírito científico proíbe que se forme opiniões sobre questões que não compreendemos, sobre questões que não sabemos formular com clareza, evidenciando a necessidade de que é preciso saber formular com clareza os problemas.

Para o espírito científico, todo conhecimento é resposta a uma pergunta. Se não há pergunta, não pode haver conhecimento científico. (Ibidem, p 18)

            Neste momento, a noção de obstáculo epistemológico ganha, para Bachelard, fundamental importância para o desenvolvimento de conhecimento no âmbito das pesquisas onde, o pesquisador, ao olhar seu objeto de estudo, pode incorrer no perigo de se deixar levar pelo que lhe é visível, dando-lhe um status de verdade, que ele pode não ter. Para ele é na superação destes obstáculos que reside o sucesso de uma pesquisa científica e a primeira advertência que faz é a necessidade de que os cientistas tenham consciência de que se eles não forem neutralizados, todo o processo de pesquisa ficará comprometido. Dos fundamentos ao resultado.
            Este primeiro obstáculo, que ele define por realidade, está intimamente ligado às críticas que ele faz ao empirismo. Bachelard dá especial importância a este obstáculo porque, para ele, diante do real, é praticamente impossível anular, de uma só vez, todos os conhecimentos habituais. Diante do real, aquilo que acreditamos saber ofusca aquilo que deveríamos saber. Ao designar objetos segundo sua utilidade, deixamos de conhecê-los; temos somente uma opinião sobre eles e o espírito científico proíbe que tenhamos uma opinião sobre questões que não compreendemos, uma constatação à qual o próprio Sócrates já havia chegado.
           
O conhecimento do real é luz que sempre projeta algumas sombras. Nunca é imediato e pleno. As revelações do real são recorrentes. O real nunca é “o que se poderia achar ”, mas sempre o que se deveria ter pensado. O pensamento empírico torna-se claro depois, quando o conjunto de argumentos fica estabelecido. [...] No fundo, o ato de conhecer dá-se contra um conhecimento anterior, destruindo conhecimentos mal estabelecidos, superando o que, no próprio espírito, é obstáculo à espiritualização. (Ibidem, p 17)
            O segundo obstáculo epistemológico, o senso comum, semelhante ao primeiro, relaciona-se especificamente coma dificuldade com a qual se depara o cientista que precisa separar o seu conhecimento comum, suas opiniões, seus preconceitos, as avaliações relacionadas à sua posição social ou econômica, do conhecimento teórico, científico, que deve estar comprometido com a busca da verdade, baseada em leis gerais, em conceitos e não em preconceitos.
            Neste contexto, poderíamos associar o trabalho de Thomas Kuhn (1922/1996), um físico e filósofo da ciência, que abordou a questão dos paradigmas, como modelos de práxis efetiva, reconhecidos como válidos e que dão origem a tradições de pesquisa científica, como um dos obstáculos descritos por Bachelard, formadores de preconceitos nos quais o cientista fica preso até que uma ruptura deste paradigma (revolução científica) o liberte.

Hábitos intelectuais que foram úteis e sadios podem, com o tempo, entravar a pesquisa. (Ibidem, p 19)

            Bachelard fala também sobre o obstáculo do conhecimento geral ao conhecimento científico, uma vez que ele suspende a experiência e suprime a abstração científica verdadeiramente sadia. Neste ponto, ele realiza uma forte crítica ao sistema educacional que informa aos estudantes, de forma quase dogmática, conceitos aos quais eles deveriam chegar de forma crítica.
            Fala também do obstáculo verbal, quando o uso inadequado de um termo qualquer, um substantivo que pode ser adjetivado, é utilizado sem o devido cuidado de ser corretamente contextualizado, provocando uma distorção da imagem real do objeto estudado.

Uma ciência que aceita as imagens é, mais que qualquer outra, vítima das metáforas. Por isso, o espírito científico deve lutar sempre contra as imagens, contra as analogias, contra as metáforas. (Ibidem, p.48)

            Bachelard alerta ainda para o fato de que, normalmente, os homens tendem a ceder àquilo que ele chamou de instinto conservativo, em detrimento do instinto formativo e que mesmo o cientista mais dedicado, com o tempo acaba fatalmente cedendo a conceitos anteriormente aceitos, quando então o instinto conservativo faz cessar o seu crescimento espiritual.
            Aqui, neste ponto, Bachelard detalha a diferença conceitual sobre o espistemólogo e o historiador da ciência.  Para ele, o historiador da ciência deve tomar as ideias como se fossem fatos e o espistemólogo deve tomar os fatos como se fossem ideias, inserindo-as num sistema de pensamento. Em suas palavras

Um fato mal interpretado por uma época permanece, para o historiador, um fato. Para o espistemólogo, é um obstáculo, um contra pensamento. É sobretudo ao aprofundar a noção de obstáculo epistemológico que se confere pleno valor espiritual à história do pensamento científico. (Ibidem, p 22)
           
           
4 - CONCLUSÃO

            Diante do que foi exposto, concluímos que a epistemologia bachelardiana ainda está presente e atuante no meio científico, onde apresenta contribuições significativas, rompendo com o imobilismo metodológico vigente antes dele, ao inaugurar a filosofia do inexato, onde o conhecimento constitui-se por meio de aproximações contínuas, viabilizadas pelo conhecimento teórico e pela aplicação técnica.
            Neste contexto, o objeto não é mais dado, mas construído denotando uma supremacia do conhecimento abstrato e científico sobre aquilo que ele chamou de conhecimento primeiro e intuitivo, aquele que é imediato, não discursivo.
            Ou seja, Bachelard apresenta seu espectro epistemológico, afirmando que a ciência oscila dentro de um espectro pré-definido; destacando o pluralismo das ciências; apontando que a filosofia da ciência é, por natureza, aberta; apontando para a existência de obstáculos epistemológicos, onde o primeiro a ser superado é a experiência primeira, a destruição das opiniões; afirmando que o espírito científico deve formar-se reformando-se e não aceitando nada como definitivo e que tudo aquilo que sabemos, nosso conhecimento científico, é sempre fruto de uma desilusão com aquilo que julgávamos saber frente aquilo que deveríamos saber.
                       

5 – REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS


- BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico Trad. Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996

- BACON, Francis. Novum Organum. Trad. José Aluysio Reis de Andrade. São Paulo: Nova Cultural, 1988 – Coleção os Pensadores

- CAVAILLÈS, Jean. Obras Completas de Filosofia das Ciências. Trad. Abner Chiquieri. Rio de Janeiro: Forense, 2012

- GREGO, John. SOSA, Ernest. Compêndio de Epistemologia. Trad. Alessandra Siedschlag Fernandes. São Paulo: Edições Loyola, 2012



[1] A principal diferença entre Bacon e Descartes está na posição que eles assumem em relação aos sentidos e ao intelecto na aquisição de conhecimento. Enquanto que, para Descartes, os sentidos possuem uma natureza enganadora e o intelecto é limitado, para Bacon o problema não está na natureza dos sentidos nem na limitação do intelecto, mas em seus usos indevidos. O método proposto por Bacon consiste basicamente na indução verdadeira e na demonstração experimental, entendendo-se por indução verdadeira um tipo de raciocínio composto por premissas cuja fonte de observação é empírica, regular e sistemática, das quais se realiza um salto inferencial para se alcançar uma proposição geral. Uma vez extraída uma conclusão de cunho generalizante, que deve ser demonstrada experimentalmente, obtém-se o que Bacon denominou de axioma científico. Para Bacon, os sentidos e o intelecto não podem agir sem auxilio metodológico, e isso se deve à presença na mente humana de ídolos, noções falsas que habitam a mente humana e obstruem o acesso à verdade. Para ele, existem quatro tipos de ídolos: 1) os Ídolos da Tribo, que dizem respeito à natureza humana, cuja ordem é inferior à ordem da natureza e, por isso, todas as percepções dos sentidos e da mente ao fazerem analogia com a própria natureza humana e não com a ordem natural criam distorções entre o que é percebido e o que é da ordem da natureza. 2) Ídolos da Caverna, que versam sobre o homem enquanto indivíduo. Dado que o homem é singular e possui, em virtude de sua formação, diferentes impressões sobre os fatos, o homem inclina-se a buscar o conhecimento em seus próprios mundos e não no universal. 3) Ídolos do Foro, que dizem respeito à associação recíproca entre os homens através do discurso, onde as palavras comportam uma multiplicidade de sentidos. 4) Ídolos do Teatro, que se encontram associados às antigas doutrinas filosóficas que, por não utilizarem os auxílios metodológicos, figuram mundos fictícios.