sábado, 20 de janeiro de 2018

DIÓGENES DE APOLÔNIA



           
Diógenes de Apolônia [1] (em grego Διογένης ὁ Ἀπολλωνιάτης) foi um filósofo naturalista ( DK 64 A 2 ) grego de Apolônia, uma cidade fundada pelos milésimos na região do Ponto Euxino [2], na Trácia, atual noroeste da Turquia, considerado o último pré-socrático que viveu aproximadamente entre os anos 499 e 428 a.C.
            Filho de Apolotemis, um banqueiro mal sucedido foi, discípulo de Anaxímenes, conforme afirma Antístenes em virtude do seu princípio material e, segundo Diógenes Laércio em sua obra Vida dos Filósofos mais ilustres, IX, 57, contemporâneo de Anaxágoras de Clazômenas, do qual assimilou parte do conceito de Nous, sua filosofia marca um retorno ao modo de pensar jônio, ao assumir como princípio primordial “o ar” - um ar infinito e inteligente - e, a partir dele, tentar explicar os demais fenômenos.

Diógenes, filho de Apolotemis, nativo de Apolônia, foi um sábio físico, e muito eloquente. Antístenes disse que foi discípulo de Anaxímenes, e viveu no tempo de Anaxágoras. Demétrio de Falero, na apologia por Sócrates, disse que Diógenes que por pouco não correu perigo em Atenas por causa da inveja. Suas opiniões são as seguintes: Que por princípio o elemento é o ar; que existem infinitos mundos; que o vazio é ilimitado; que o ar denso e raro é quem produz os mundos; que do que não é, nada se faz, nem se destrói no que não é; que a terra é cilíndrica e situada no centro, e que recebeu sua estabilidade e consistência da circunferência concentrada pelo calor, e a solidez e densidade a recebeu do frio. ( DK 64 A 1) O princípio de seu livro é: Quem começa o tratado de alguma ciência, creio que deve estabelecer um princípio certo e nada ambíguo, e usar de palavras sensíveis e sérias.  (DK 64 B 1 )

            Ao defender o monismo, a unidade da realidade como um todo, uma vez que, para ele, se o mundo tivesse origens em diversos elementos que sejam diferentes entre si eles não poderiam se misturar e atuar uns sobre os outros, as coisas devem se originar através da transformação de um mesmo elemento, o ar. Um ar inteligente que administra e governa tudo, assemelhando-se ao Intelecto de Anaxágoras, pois está em todas as partes, utiliza-se de todas as coisas e está dentro de tudo.
            Para ele, como não existe nada que não tome parte desse ar inteligente, do qual existem muitas formas, mais quente ou mais frio, mais seco ou mais úmido, mais parado ou mais em movimento, podendo se modificar infinitamente através do prazeres e das cores, a própria alma de todos os animais é feita dele. Um ar mais quente que está fora do corpo e mais frio do que aquele que está perto do Sol.
            Uma alma que é um ar pensante que se manifesta enquanto respiramos e vivemos e que quando sai de nós, no último suspiro, nos abandona e morremos.
            Mesmo de linhagem dórica, sabe-se que escreveu ao menos quatro livros no dialeto jônico: Contra os Sofistas, uma Meteorologia, um livro chamado Da natureza do homem e outro chamado Sobre a ciência natural, o único do qual nos chegaram alguns fragmentos. É provável que também tenha escrito um tratado sobre medicina.
            Segundo Aristóteles, História dos animais, 511 b – 513 a, Diógenes de Apolônia escreveu uma precisa anatomia das veias de onde, se torna possível especular se teria sido também um médico, inclusive porque Teofrasto, em outro momento, também menciona seus procedimentos para o diagnóstico de enfermidades através da análise da língua e da cor do paciente.

Diógenes de Apolônia  dá esta outra versão: «No homem, os vasos sanguíneos têm a disposição seguinte: há dois que são muito grandes. Esses estendem-se através do abdômen, ao longo da espinha dorsal, um à direita e outro à esquerda, até às pernas do lado respectivo e, para cima, em direção à cabeça, ao longo das clavículas passando pela garganta. Desses dois partem outros que se ramificam por todo o corpo, do da direita para o lado direito, do da esquerda para o esquerdo. Destes, os dois maiores seguem para o coração pela região da espinha dorsal; outros, um pouco mais acima, atravessam o peito sob a axila e dirigem-se para cada uma das mãos, do lado respectivo. Um chama-se esplênico, o outro, hepático. Cada um divide-se, no extremo, em dois ramos, de que um segue para o polegar e o outro para a palma. Daí partem ramificações numerosas e finas para o resto da mão e para os outros dedos. Outros vasos mais delgados partem dos anteriores, do lado direito para o fígado, do esquerdo para o baço e para os rins. Os que se dirigem para as pernas separam-se no ponto em que elas se unem e percorrem toda a coxa. O maior atravessa a parte de trás da coxa e torna-se mais saliente; o outro fica dentro da coxa e é um pouco menos espesso. Depois atravessam o joelho e seguem para a perna e para o pé. Como acontece com os vasos que vão para as mãos, estes atingem também a planta do pé e daí ramificam-se pelos dedos. Dos vasos grandes partem para o ventre e para o pulmão inúmeros vasos, que são finos.  Os que se estendem até à cabeça através da garganta parecem grandes a nível do pescoço. De cada um deles partem, no ponto em que terminam, para a cabeça inúmeras ramificações, umas da direita para a esquerda, outras da esquerda para a direita. Cada um destes conjuntos termina perto da orelha. Há um outro vaso no pescoço que, junto da grande veia, se divide em dois, um pouco mais pequeno do que aquela, onde vem ter a maior parte dos vasos da própria cabeça. Estas duas veias prolongam-se pelo interior da garganta, e de cada uma delas saem outros vasos que se encaminham, por baixo da omoplata, até à mão. Há também, ao longo da veia esplênica e da hepática, outros vasos um tanto mais pequenos, que se costumam lancetar quando há uma dor à flor da pele. Mas se a dor se manifesta no abdômen, a incisão faz-se na própria veia hepática e na esplênica. Destas duas últimas partem outras que se estendem sob as mamas. Há outras ainda que, a partir destas, avançam através da espinal medula até aos testículos, e que são delgadas. Outras ramificam-se por baixo da pele e através da carne até aos rins, e vão terminar, no homem, nos testículos, na mulher, no útero. Os vasos provenientes do ventre, primeiro, são largos, depois, tornam-se mais finos, até trocarem de lugar, os da direita para a esquerda, e vice-versa. Dá-se-lhes o nome de veias seminais. O sangue mais espesso forma-se sob a carne; mas à medida que se derrama nas zonas mencionadas, torna-se delgado, quente e espumoso.» ( DK 64 B 6 )

            Aristóteles também se refere a ele em outras obras

ARISTOT. Meteor., 355 a 21. O mesmo absurdo capita para estes, e para aqueles que dizem que, no início, a terra também estava molhada e que a parte do cosmos em torno da terra aquecida pelo sol se tornou ar, que o céu estava todo aumentado e que isso O ar produz ventos e causa conversões do próprio céu. ( DK 64 A 9 )

ARISTOT. De anima, 405 a 21.  – Diógenes, bem como alguns outros, disse que a alma é ar, julgando ser o composto das menores partículas e princípio de tudo, e que por isso a alma tanto conhece como se move: por ser o primeiro princípio a partir de que tudo o mais existe, por um lado, a alma conhece; por ser composta das menores partículas, por outro lado, a alma é capaz de se mover.  ( DK 64 A 20 )

ARISTOT. Da respiração., 471 a 3. De acordo com Diógenes, quando [o peixe] manda a água através das brânquias, através do vazio que eles têm na boca, eles extraem ar da água que rodeia a boca como se houvesse ar na água. - 471 b 12.  - E por que eles morrem no ar e eles são vistos para saltar como se estivessem sufocados, se é verdade que eles respiram? Com certeza eles não por falta de comida. Mas a causa que Diógenes traz é realmente inconsistente. Ele diz que, quando estão no ar, eles conseguem demais, mas quando estão na água, eles desenham uma quantidade certa: para isso eles morrem. ( DK 64 A 31 )

                        Ainda, segundo Diógenes Laércio, em sua obra Vida dos Filósofos mais Ilustres, V , 42 , segundo anotações de Simplício em seus Comentários sobre a Física de Aristóteles, de onde nos chegaram a maioria de seus fragmentos, ele alega que Teofrasto acusava Diógenes de Apolônia de, apenas, reproduzir os pensamentos de Anaxímenes, de Anaxágoras e de Leucipo:

Diógenes de Apolônia, que foi talvez o último daqueles que lidaram com tais problemas, escreveu a maior parte de suas obras, coletando-os de Anaxágoras e começando de Leucipo. Ele também diz que a natureza de tudo é ar, infinito e eterno, e que, por isso, como resultado da condensação ou da raridade ou mutação de qualidade, outras coisas são produzidas nas suas formas. Isto é o que Teofrasto expressa sobre Diógenes e seu livro intitulado "Na Natureza" que me chegou às mãos diz claramente que o ar é o que todo o resto produz. Mas Nicolau afirma que ele colocou como um elemento algo intermediário entre o fogo e o ar. Eles acreditavam que o ar para ser facilmente impressionável e alterável se adaptaria bem às mudanças e, portanto, não pensava em definir como princípio a terra que dificilmente se move e dificilmente muda. Desta forma, portanto, distinguimos aqueles que tornam o princípio (DK 64 A 5)

TEOFR.. De sens. 39 ss.- 39 - Diógenes, como o viver e o pensar, assim também as sensações retornam ao ar. Parece, portanto, que ele os explica por meio do meio (porque não seria possível que as coisas agissem ou sofressem se não viessem de um único princípio). Assim, a sensação olfativa pelo ar que envolve o cérebro: esse ar é compacto e proporcional ao cheiro: o cérebro é macio, suas veias muito finas e onde o ar não é compatível [com os cheiros] mistura-se com eles, porque se houvesse uma disposição proporcional à mistura, é claro que teria percepção. (40) A sensação auditiva, quando o ar nos ouvidos se moveu do externo, penetra no cérebro. A sensação visual, quando as imagens aparecem na pupila e esta mistura com o ar interno produz a sensação. E aqui está o sinal: se ocorrer uma inflamação das veias, [a pupila] já não se mistura com o ar interno e não vê mais, apesar da presença da imagem. A sensação de sabor através da língua, porque é macia é macia. Quanto ao toque, ele não definiu nada como ele é gerado ou para quais órgãos pertence. Em vez disso, depois disso, tenta dizer por que acontece que certas sensações são mais exatas e quem as possui. (41) A olfação, diz ele, é muito aguda naqueles que têm muito pouco ar na cabeça porque então a mistura é muito rápida, especialmente se o cheiro é arrastado através de um duto pequeno e estreito - porque julga mais rapidamente: por esse motivo Alguns animais são dotados de um sentido de cheiro mais sutil do que os homens. No entanto, quando o cheiro é compatível com o ar de uma maneira conveniente para a mistura, o homem tem sensações muito vivas. Eles ouvem da maneira mais aguda aqueles que têm veias finas, como para o sentido do cheiro, assim também para a audiência, eles têm um conduto curto, delgado e direito e também a orelha direita e grande, porque o ar que está nos ouvidos coloca movimento move o ar interno. Se, por outro lado, os tubos são muito grandes, quando o ar é movido, um ruído sai e o som é inarticulado porque não choca com o ar parado. (42) Eles veem da maneira mais aguda aqueles que têm ar e veias finas, como para as outras sensações, e aqueles que têm o olho mais brilhante. A cor oposta é o melhor de tudo: portanto, aqueles que têm olhos negros veem coisas brilhantes de dia e de preferência aqueles que as têm na cor oposta à noite. E um sinal de que para ter as sensações é o ar interior, uma pequena parte de Deus, é que muitas vezes, quando temos a mente para com outro, não vemos nem ouvimos. (43) O prazer e a dor surgem desta maneira: quando um monte de ar junta-se ao sangue e é conveniente para sua natureza e penetrando em todo o corpo, ilumina-se, é um prazer: quando é contrário à natureza do sangue e não se mistura então, condensando o sangue e tornando-se mais fraco e mais comprimido, tem dor. Igualmente por audácia, saúde e seus opostos. Muito apto a julgar o prazer é a língua, porque é a parte mais macia e mais suave e todas as veias se elevam para ele: portanto, você pode ver muitos sinais de doenças e denunciar as cores dos vários animais, porque quantos e quais são? todos eles aparecem para você. Então, portanto, para isso, a sensação é produzida. (44) O pensamento, como dissemos, ocorre através do ar puro e seco: de fato, a umidade dificulta a mente: é por isso que durante o sono ou em estados de embriaguez ou saciedade, alguém pensa menos. É uma prova de que a umidade tira a mente nisso, que os outros animais são inferiores aos homens na inteligência: de fato, respiram o ar que vem da terra e tem um alimento mais úmido. As aves respiram um ar tão puro, mas têm uma natureza semelhante à dos peixes, porque são carnes duras e o ar não pode penetrar pelo corpo inteiro, mas para no abdômen: portanto, eles rapidamente digerem alimentos, mas eles não têm inteligência . A boca e a língua também contribuem em parte para a comida, porque os animais não podem estar juntos. As plantas são igualmente desprovidas de pensamento porque não têm cavidades e não podem receber o ar. (45) Por esta mesma razão, mesmo as crianças não são sensíveis: na verdade, elas têm muita umidade, de modo que o ar não pode penetrar todo o corpo, mas é bloqueado ao redor do peito: é por isso que eles são indolentes e sem sentido. E então eles estão com raiva e completamente instáveis ​​e muito móveis porque muita onda é movida por peitos pequenos. E esta também é a razão do esquecimento: como o ar não pode passar por todo o corpo, ele não pode coletar. E aqui está o sinal: aqueles que tentam lembrar sentem a dificuldade no baú: quando ele lembrou que o ar se espalha e ele é libertado do tormento.  ( DK 64 A 19 )
  
SIMPLIC. Comentários sobre a Física de Aristóteles, 151, 31 - A minha maneira de ver, para tudo resumir, é que todas as coisas são diferenciações de uma mesma coisa e são a mesma coisa. E isto é evidente. Porque se as coisas que são agora neste mundo — terra, água, ar e fogo e as outras coisas que se manifestam neste mundo — se alguma destas coisas fosse diferente de qualquer outra, diferente em sua natureza própria, e se não permanecesse a mesma coisa em suas muitas mudanças e diferenciações, então não poderiam as coisas, de nenhuma maneira, misturar-se umas às outras, nem fazer bem ou mal umas às outras, nem a planta poderia brotar da terra, nem um animal ou qualquer outra coisa vir a existência, se todas as coisas não à espinha dorsal, uma à direita, outra à esquerda, ambas para fossem compostas de modo a serem as mesmas. Todas as coisasas respectivas coxas, e, para cima, à cabeça junto às clavículas nascem, através de diferenciações, de uma mesma coisa, ora em através do pescoço. Destas estendem-se veias através de todo o uma forma, ora em outra, retornando sempre à mesma coisa. ( DK 64 B 2 ) - 152, 13 Pois as coisas não poderiam estar divididas como estão, sem a inteligência, guardando as medidas de todas as coisas, do inverno e do verão, do dia e da noite, das chuvas, dos ventos e do bom tempo. E aquele que se der ao esforço de refletir, concluirá que todo o resto está disposto da melhor maneira possível ( DK 64 B 3 ) -, 152, 18 - Além destas, ainda as seguintes importantes provas. Os  homens e os outros seres animados vivem da respiração do ar. E isto é para eles alma e inteligência, como será claramente mostrado neste escrito; porque, se lhes for retirado, morrem e sua inteligência se apaga. ( DK 64 B 4 ) -  152, 22 - E a mim parece que possui inteligência aquilo que os As que atravessam as coxas, dividem-se na articulação e os homens chamam de ar, e que todas as coisas são governadas por ele, e que tem poder sobre todas elas. Pois é este precisamente que eu tomo por Deus, que atinge tudo, dispõe de tudo e está em tudo. E nada há que dele não participe. Contudo, uma coisa não participa dele da mesma maneira como uma outra, pois há  muitas diferenciações do próprio ar assim como da inteligência. E está submisso a muitas diferenciações, ora mais quente, ora mais frio, mais seco ou mais úmido, mais tranquilo ou em movimento mais rápido, e muitas outras diferenciações há nele e um número infinito de cores e sabores. E também a alta de todos os seres vivos é a mesma coisa: ar mais quente do que nos é exterior, no qual nos encontramos, mas muito mais frio do que o do Sol. Este calor não é o mesmo em nenhum dos seres vivos, como também não o é entre os homens: é diverso, mas são muito, somente o necessário para que permaneçam semelhantes. E não é possível tornarem-se as coisas diferenciadas semelhantes a outra, sem tornar-se o mesmo. Por ser, pois, a diferenciação multiforme, são também os seres multiformes e muitos, não sendo semelhantes nem em sua forma, nem em seu modo de vida, nem em sua inteligência, devido à multidão de diferenciações. Contudo, todos vivem, veem e ouvem através do mesmo, e desta fonte também lhes advém sua inteligência.  ( DK 64 B 5 ) - 153, 17 [depois de "o que os homens dizem que o ar é o princípio". É estranho que, ao dizer que as coisas são produzidas por aquela para a transformação, as defina todavia  eternas: e precisamente este é um corpo eterno e imortal, enquanto algumas coisas nascem, outras são menos. ( DK 65 B 7 )
            Sobre Diógenes de Apolônia, Diels-Kranz ainda registram comentários de Plutarco, de Écio, de Filodemos, de Apolônio de Rodes, Clemente de Alexandria, Censorino, Aristófanes e Galeno que, em suas obras e contextos, reproduzem os conceitos já abordados.


[1] Não confundir com Diógenes de Sínope, um filósofo cínico que viveu aproximadamente entre os anos de 413 e 323 a.C.)
[2] Nome greco-latino do Mar Negro

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

IDEO



            Ideo (em grego 'Ιδαῖος) foi um filósofo grego da era pré-socrática, nascido em Imera, uma antiga cidade grega na costa setentrional da Sicília, Itália, catalogado na obra de Diels-Krans[1] apenas com o número 63. É citado por Sexto Empírico, em apenas um única passagem de sua obra Contra os Dogmáticos, IX, 360,  ao lado de Anaxímenes , Diógenes de Apolônia e Arquelao, como defensor da tese de que o início de todas as coisas era o ar.

SEXTO, (Adv.Math., IX, 360) – Sobre o Corpo (início de tudo) – Tales de Mileto disse que é água e, Anaximandro, seu discípulo, o infinito; Anaxímenes, Ideo de Imera, Diógenes de Apolônia e Arquelao de Atenas, professor de Sócrates, e também, segundo alguns, Heráclito, disseram que é o ar. ( DK 63 )

            Com base neste fragmento, Sexto Empírico coloca Aristóteles que, em suas objeções contra os naturalistas,  fala várias vezes de fisiologistas antigos que colocaram como princípio universal uma substância intermediária entre a água e o ar, ou entre a água e o fogo, ao que parece, estaria se referindo, também, a Ideo de Imera.

ARISTOT. Metaf. 988 a 23 – Alguns, com efeito, falam do princípio como matéria, quer o entendam como único quer como múltiplo, quer o afirmem como corpóreo quer como incorpóreo. Platão, por exemplo, põe como princípio material o grande e o pequeno, enquanto os itálicos põem o ilimitado, e Empédocles afirma o fogo, a terra, a água e o ar, e Anaxágoras a infinidade das homeomerias. Todos esses pensadores entreviram esse tipo de causa. E também os que afirmaram como princípio o ar o a água ou o fogo ou um elemento mais denso do que o fogo e mais sutil do que o ar: com efeito, há quem afirme que assim é o elemento primitivo.

Sobre o Céu,   5 - Pluralidade dos Elementos -  304 b 3 – Posto que forçosamente os elementos tem de ser limitados, resta por investigar se serão vários ou um só. Pois alguns supõem que há um só, e deste, uns dizem que é a água, outros, o ar , outros o fogo, outros mais sutil que a água porém mais denso que o ar, que ao ser infinito envolve - dizem – a totalidade dos céus. Assim, pois, todos os que estabelecem que este único é a água, ou o ar [Ideo?] ou um mais sutil que a água, porém mais denso que o ar, e que estipulam que as demais coisas se geram a partir deste por rarefação e condensação, não se dão conta de que criam algo diferente e anterior ao elemento: com efeito, a geração a partir dos elementos é, segundo dizem, uma composição, e a que desemboca nos elementos, uma dissociação, de modo que necessariamente tem de ser anterior aquele que conste de partes mais sutis.

ARIST. Física,  187 a - Alguns nos tem transmitido ambos argumentos: a) o que afirma que todas as coisas são uma, porque só significa uma coisa, com a qual supõe que o não ser é, e b) o argumento da dicotomia, que supõe magnitudes indivisíveis. Mas evidentemente não é verdade que, se só significa uma coisa e não é possível ao mesmo tempo a contradição, então o não ser não é. Porque nada impede que haja o não ser absoluto, senão um certo não ser. Por outra parte, é absurdo dizer que Tudo é um porque não pode haver nada fora do Ser mesmo. Pois, que se deve entender por Ser mesmo senão ? Pois sim, isto é assim, nada impede que as coisas sejam múltiplas. É evidente, então, que o ser não pode ser um neste sentido.

SIMPLIC. Comentários sobre a física de Aristóteles,149, 5. - Todos admitem este princípio corporal único, mas alguns o identificam com um dos três elementos: Tales e Hipon com água, Anaxímenes e Diógenes com ar, Heráclito e Hipaso com fogo (ninguém acreditava na hipótese de identificá-lo apenas com a terra, devido à sua limitada possibilidade de mudança); mas outros assumiram que era outra coisa em relação aos três elementos, mais densos que o fogo e mais finos do que o ar, ou como Aristóteles diz em outro lugar, mais denso que o ar e mais fino que a água. Alexandro acredita que aquele que supôs como princípio uma natureza corporal diferente dos elementos é Anaximandro, enquanto Porfírio, com base em que Aristóteles se opõe àqueles que introduziram indefinidamente um substrato material para aqueles que falaram ou de um dos três elementos ou de outra coisa intermediária entre fogo e ar, ele diz que Anaximandro falou indefinidamente sobre o substrato material, uma vez que ele não define especificamente o indefinido, seja fogo, água ou ar. Quanto ao elemento intermediário, Porfírio, assim como Nicolau Damasceno, atribuem-no a Diógenes de Apolônia .  

         

[1] I Presocratici: Prima Traduzione Integrale Com Testi Originali a Fronte Delle Testimonianze e Dei Frammenti Nella Raccolta di Hermann Diels e Walter Kranz, a Cura di Giovanni Reale. Itália, Milano: Edizione Bompiani, Il Pensiero Occidentale, 2008.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

CLIDEMOS


           
            Clidemos ( em grego Κλείδημος) de Atenas, foi um filosofo pré-socrático, historiador e escritor ateniense do final do século V e início do século IV a.C., associado por Diels-Kranz aos discípulos de Anaxágoras e autor da obra Átthis, uma recopilação de lendas e tradições da Ática, da qual só restou o título, citado por Ateneu, Plutarco, Aristóteles e por seu seguidor Teofrasto:
           
PLUT. Moral - Os Atenienses mais ilustres. 345 e – Xenofontes, certamente, foi história ele mesmo. Escreveu sobre seu generalato e sobre seus êxitos e disse que Temistógenes era siracusano, havia feito um compêndio sobre isto para ganhar credibilidade ao referir-se sobre si mesmo como a uma terceira pessoa e favorecer a outro com a fama dos escritos. Todos os demais historiadores, homens como Clidemo, Diilos, Filocoro e Filarco foram em relação às façanhas de outros como atores em relação aos dramas.

ARISTOT. meteoro. B 9. 370 a 10. Há alguns, como Clidemos, que afirmam que o relâmpago não é algo real, mas apenas uma aparência e, ao fazer uma comparação, afirmam que é um fenômeno semelhante a esse quando alguém ataca com uma vara a água do mar: de noite parece que emite relâmpagos; da mesma forma, em uma nuvem, o relâmpago não é senão a aparência do brilho quando a umidade é impactada.
                                                                                              ( DK 62 A 1 )

TEOFR. de sens. 38 [Dox. 510; entre Anaxágoras e Diógenes]. Clidemos foi o único a dizer coisas apropriadas sobre a visão: ele argumentou que temos sensações através dos olhos porque são transparentes; através das orelhas, porque o ar que as atinge se move; através das narinas, porque inalam o ar, que é misturado precisamente com os cheiros; Finalmente, através da língua, sentimos os sabores, o calor e o frio, porque é poroso. Com o que resta do corpo além desses órgãos, não percebemos nenhuma sensação, e eles são propriedade do calor, dos molhados e dos opostos. Somente os ouvidos, então, não julgam nada por si mesmos, mas simplesmente transmitem ao intelecto, mesmo que não faça do intelecto o princípio de todas as coisas, como Anaxágoras.    DK 62 A 2 )


TEOFR. hist. planta. III 1, 4 [após 59 a 117; 64 A 32]. Clidemos afirmou, em vez disso, que as plantas resultam dos mesmos princípios dos quais são os animais: quanto mais eles são lodosos e frios, mais difícil é que os animais nasçam ( DK 62 A 3 )

TEOFR. de caus. planta. I 10, 3. As plantas frias brotam no verão e as quentes no inverno, de modo que cada natureza corresponde a cada estação: esta é a opinião de Clidemos ( DK 62 A 4 )

TEOFR.. de caus. planta. III 23, 1-2. Alguns exortam para semear antes da estação das Plêiades ... outros quando caem no horizonte, entre os quais Clidemos: na verdade, há uma grande abundância de água a partir de uma semana depois desse pôr-do-sol ... (2) A semeadura feita em vez disso no Durante o solstício de inverno, Clidemos diz que não tem certeza: a terra, que é molhada e pesada, torna-se vaporosa e se assemelha à lã mal tecida; nem é possível desenhar e descarregar o vapor até que ele tenha sido suficientemente aquecido. ( DK 62 A 5 )

TEOFR. de caus. planta. V 9, 10. Por causa da abundância [de água] a videira é coberta de folhas ... quanto às mesmas razões, acontece que a figueira está cansada de sarna, a oliveira do impetigo e a videira perde as folhas, como Clidemos também diz: uma vez que o fruto é insignificante quando não está maduro e facilmente cai da planta. ( DK 62 A 6 )

         
             

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

METRODORO


Metrodoro (Μητρόδωρος)[1] de Lâmpsaco, uma cidade na costa Leste do Helesponto (um estreito no noroeste da Turquia ligando o mar Egeu ao mar de Mármara),  foi um filósofo pré-socrático grego, discípulo de Anaxágoras, que viveu no século V a.C. que escreveu e comentou sobre Homero, afirmando que suas histórias deveriam ser interpretadas de modos alegóricos de representações dos poderes físicos (da natureza ) e dos fenômenos.
É mencionado no diálogo de Platão  Ion, 530 d

Ion – O que dizes, Sócrates, é verdadeiro. E no que me diz respeito, é a parte de minha arte que exige maior empenho. E creio ser, de todos, o que mais admiravelmente fala de Homero. Nem Metrodoro de Lâmpsaco, nem Estesimbroto de Tasos, nem Gláucon, nem qualquer daqueles que já existiram souberam proferir tão belos pensamentos sobre Homero quanto eu. ( DK 61 A 1 )


Também é citado por Diógenes Laércio, em sua obra Vida dos Filósofos mais Ilustres, II, 11, quando este fala de Anaxágoras:

Segundo nos disse Favorino em sua História parece que foi o primeiro que disse que Homero compôs seu poema para recomendar a virtude e a justiça; opinião que amplificou muito Metrodoro de Lampsaceno, amigo seu, o qual disfrutou bastante de Homero no estudo da Natureza. Anaxágoras foi o primeiro que nos deixou um escrito sobre a Natureza.  
            ( DK 61 A 2 )


[1] Existiram vários personagens históricos com o nome de Metrodoro. Não confundir com Metrodoro de Cós, um escritor pitagórico do séc. V a.C.; Metrodoro de Quíos, um filósofo da escola de Demócrito de Abdera, que viveu no séc. IV a.C.; Metrodoro de Lâmpsaco (o jovem), um filósofo epicurista; Metrodoro de Atenas (meados do séc. II a.C.), filósofo e pintor; Metrodoro de Estratoniceia (final do séc. II a.C.), filósofo inicialmente epicurista e mais tarde seguidor de Carnéades, um filósofo cético nascido em Cirene; Metrodoro de Escépsis ( cerca de 145 a 70 a.C.), escritor, orador e político; Metrodoro (séc. VI d.C.), um gramático e matemático que recolheu os epigramas matemáticos na Antologia grega; Metrodoro (séc. IV a.C.), médico que se casou com Pítias, a filha de Aristóteles; Metrodoro, general a serviço de Filipe da Macedônia durante a Guerra de Creta ou Metrodoro, início do séc. II d.C., aluno do médico Sabino

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

ARQUELAO




            Arquelao[1] (em grego Άρχέλαος) foi um filósofo grego que, segundo Diógenes Laércio, em sua obra Vida dos filósofos mais Ilustres, , II, 16, era oriundo de Atenas ou de Mileto e viveu no século V a.C..  Filho de Apolodoro ou, segundo referem alguns, de Mídon, foi discípulo de Anaxágoras e, possivelmente, professor de Sócrates e Eurípides. A ele se associa, junto com Anaxágoras, a transferência da filosofia física da Jônia para Atenas onde, além da filosofia da natureza, preocupava-se com a moral, filosofando sobre leis, bondade e justiça.
                                   
DIOG. -  II 16-17. (16) Arquelao de Atenas ou Mileto, filho de Apolodoro, segundo alguns em vez de Mídon, discípulo de Anaxágoras, mestre de Sócrates. Ele foi o primeiro a transportar a filosofia da natureza para Atenas da Jônia e foi chamado de naturalista, porque com ele a filosofia naturalista chegou ao fim, como Sócrates introduziu a filosofia ética. Mas parece que ele também lidou com a ética - e, na verdade, ele filosofou sobre as leis, sobre o belo e o direito: então assumiu que Sócrates era o inventor porque, retirou-o dele, ele o desenvolveu. Ele disse que duas são as causas do tornar-se, do calor e do frio, que os seres vivos são gerados pelo lodo e que o direito e o mal não existem por natureza, mas por lei.  Esta é a sua teoria: ele diz que a água liquefeita pelo calor, na medida em que coleta do elemento inflamado, produz a terra: na medida em que se espalha ao redor, ela gera o ar. Assim, a terra é dominada pelo ar, o ar, por sua vez, pelo fogo que gira em torno dele. Ele diz que os seres animados são gerados a partir da Terra quando é quente e produz um limo semelhante ao leite como alimento: assim também produziu os homens. Primeiro, ele disse que a voz é produzida pela percussão do ar, que o mar se acumula nas cavidades que atravessam a terra, que a maior das estrelas é o sol e que o todo é infinito. Há três outros Arquelao:  o corógrafo que ilustrou as regiões percorridas por Alexander, outro que compôs um livro sobre as propriedades da natureza, um terceiro orador que escreveu a arte [retórica].  ( DK 60 A 1 )

            De sua obra praticamente não sobreviveram fragmentos, e suas doutrinas, que afirmavam o princípio do movimento pela separação do quente e do frio, a partir do qual ele procurou explicar a formação da Terra e a criação dos animais e dos homens, puderam ser extraídas a partir de Diógenes Laércio, Pseudo-Plutarco, Hipólito de Roma e Simplício.

SIMPLIC. Comentários sobre a Física de Aristóteles, 27, 23 [ do Teofrastro, Fis,] – Arquelau de Atenas, de quem se diz mestre de Sócrates e discípulo de Anaxágoras, referente ao nascimento do mundo (na cosmogonia) e, em outros assuntos, tenta introduzir algo de original, e de seu, enquanto conserva os primeiros princípios de Anaxágoras. Ambos sustentam que os primeiros princípios são em número infinito e diferentes em espécie, e postulam as homeomerias como princípios ( DK 60 A 5 )

HIPOL., Refutação de Todas as Heresias, I, 9, 1 – Arquelau era, por nascimento, filho de Apolodoro. Ele acreditava numa mistura material como a de Anaxágoras, e os seus primeiros princípios foram os mesmos; mas sustentava que desde o princípio havia uma certa mistura imanente no Intelecto. A origem do movimento foi a mútua separação do quente e do frio, o primeiro dos quais se move e o segundo fica parado. Quando a água está liquefeita corre para o centro, e lá arde e se transforma em ar e terra, destes, o primeiro é levado para cima, ao passo que a terra ocupa uma posição em baixo. Assim, por estas razões, a terra nasceu, e permanece imóvel no centro, sem constituir uma fração insignificante de todo o universo. produzido pela conflagração e da sua combustão original surge a substância dos corpos celestes. Destes, o Sol é o maior, a Lua o segundo, e dos restantes alguns são mais pequenos, outros maiores. Diz ele que os céus estão inclinados, sendo por isso que o Sol deu luz à Terra, fez o ar transparente e a Terra seca. Pois, originariamente, esta era um pântano, muito alta nos bordos e côncava no meio. Ele apresenta como prova da concavidade da Terra o fato de o Sol não nascer nem se pôr ao mesmo tempo para todos os homens, como inevitavelmente aconteceria, se fosse plana. Sobre os animais, ele sustenta que, quando a Terra estava originariamente a aquecer na região mais baixa, onde o quente e o frio estavam misturados, começaram a aparecer muitos animais, incluindo os homens, todos com a mesma espécie de vida e todos extraindo o seu sustento do limo. Estes viviam pouco tempo; mas mais tarde, começaram a nascer uns dos outros. Os homens distinguiram-se dos animais, e criaram líderes, leis, ofícios, cidades e tudo o mais. Ele diz que o Intelecto é, de modo igual, inato em todos os seres vivos, sem distinção; pois cada um dos animais, tal como o homem, usa o Intelecto, alguns com lentidão, outros com mais velocidade. ( DK 60 A 4 )

PLUTARCO, De prim. Frig 21 p 954 f – Assim, não só no que diz respeito ao lugar onde [a Terra] ainda está em seu lugar, mas também imutável na essência – e os antigos lhe disseram como Estia, como aquela que “permanece na casa dos deuses”. ( DK 60 B 1 )


[1] Não confundir com Arquelao, filho de Perdicas e governante da Macedônia (Platão, Górgias 470 d) que governou de 413 a 399 a.C.