sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

ARQUITAS



            Arquitas ( em grego Ἀρχύτας ) de Tarento, foi um filósofo, cientista, estratego[1], estadista, matemático e astrônomo grego, considerado o mais ilustre dos matemáticos pitagóricos, que viveu aproximadamente entre os anos 428 e 347 a.C.
            Conforme Diógenes Laércio, em sua obra Vida dos Filósofos mais Ilustres, VIII, 79, teria nascido em Tarento filho de Mneságoras ou segundo Aristoxeno, de Estico, sendo também um pitagórico.
         
Arquitas de Tarento, filho de Mneságoras ou, segundo Aristoxeno, de Estico, era demais pitagórico. Foi com uma carta sua que salvou Platão prestes a ser morto por Dionísio. Ele também foi admirado pela multidão, pelas virtudes de todo tipo. Por sete vezes foi eleito estratego, quando ninguém mais ocupava esse cargo há mais de um ano, por lei. Platão também escreveu duas cartas para ele, em resposta àquela que ele escreveu primeiro. ( a carta que segundo soa falsificação composta pelo autor dos escritos de Ocello Lucano)[2]. Existiam quatro pessoas de nome Arquitas: o primeiro, este; o segundo, um músico de Mitilene; terceiro, o autor de um tratado sobre agricultura; quarto, um compositor de epigramas. Alguns dizem que um quinto, arquiteto, do qual lembramos um livro sobre mecânica, que começa assim: “Esta coisa aprendi de Teucro Cartaginense”. (Do músico se narra também esse episódio: criticado porque não poderia fazer sentir a sua voz, ele respondeu: “Fala o meu instrumento, entrando na corrida por mim”). Do pitagórico, Aristoxeno diz que quando era estratego, nunca ganhou, mas, uma vez por causa do ódio de alguns, ele se retirou do comando e, imediatamente seus concidadãos sofreram uma derrota. Por primeiro ele tratou metodicamente a questão mecânica servindo-se do princípio matemático, e por primeiro introduziu o movimento orgânico na construção da figura geométrica, quando aproximou duas medias proporcionais secionando o semicírculo para obter a duplicação do cubo. Em geometria, por primeiro encontrou a construção do cubo, como disse Platão na República (VIII 528 b?) -  (DK 47 A 1)

            Diógenes Laércio, na sequencia desta mesma obra reproduz uma parte das cartas citadas:

Arquitas para Platão -  Saudações ! Fazes bem de significar-me por carta ele haver te libertado de tua enfermidade, cuja qual já me havia anunciado Damisco. Acerca dos comentários pratiquei as diligências, e passei por Lucania e a achei os parentes de Ocello. O que escreveu Da Lei, Do reinar, Da santidade e Da geração do Universo, já o tenho, e te envio algo: os outros escritos que não se acham por agora; irão a ti logo que compareçam. Assim escreveu Arquitas a Platão e este lhe respondeu: Platão pra Arquitas – Trabalhes bem! Os comentários que me vieram de tuas mãos eu os recebi com o maior gosto, e admirei ao extremo o seu autor. Se nos mostra este um varão muito digno de seus ascendentes e maiores, que, segundo dizem, foram mireos, e estes foram daqueles troianos que transmigraram com Laomedonte, homens bons, como nos significam as histórias. Os comentários meus que me pedes em tua carta estão, todavia, imperfeitos; envio-lhes assim como estão. Acerca de sua conservação, ambos pensamos do mesmo modo; e assim não necessitas encarrega-lo.

            Sua existência e obra também é registrada por muitos outros doxógrafos, como podemos ver registrado na Suda[3], onde se pode ler:

Arquitas de Tarento, filho de Estico, ou de Mnesarco, ou de Mnesergete, ou de Mineságoras, filósofo pitagórico. Consta que salvou Platão da morte nas mãos do tirano Dionísio. Foi o comandante da Confederação Itálica, tendo sido eleito com plena potência pelos concidadãos e da Grécia, dos países limítrofes. Porque antes ensinava filosofia, ele tinha alunos ilustres e escreveu muitos livros. (DK 47 A 2)


            Conforme Estrabão, VI, p, 280

Uma vez o Tarantino sob um governo democrático que tinha grande potência... Eles também eram seguidores da filosofia pitagórica, e seguramente Arquitas, o qual e por muito tempo governou a cidade
                                                                                            ( DK 47 A 4 )

            O próprio Platão cita a atuação de Arquitas em seu favor, na sua Carta VII em que deseja boa sorte aos parentes e amigos de Dion.

VII p. 338 : - O primeiro período de minha estadia na Sicília se desenvolveu, tal como já expliquei, antes de expor meus conselhos aos parentes e amigos de Dion. Na continuação, eu tentei convencer Dionísio da forma que pude para que me deixasse ir, e ambos nos pusemos de acordo para quando se restabelecesse a paz, porque, então, havia guerra na Sicília. Dionísio assegurou que nos mandaria chamar, a Dion e a mim, uma vez que houvesse reforçado seu governo, de modo mais seguro para ele...[...] Quando se restabeleceu a paz, mandou me chamar, mas disse a Dion que esperasse mais um ano, enquanto me pediu que corresse toda a costa. [...] De minha parte, eu sabia que com frequência os jovens passam por situações parecidas a respeito da filosofia, apesar do que pensei que era mais seguro deixar de lado prontamente a Dion e a Dionísio, e ambos se ofenderam comigo quando lhes respondi que já estava velho e que nada do que havia feito coincidia com nossos acordos. Ao que parece, foi a continuação disso que Arquitas chegou a Dionísio (já que, antes de ir-me, eu havia estabelecido relações de amizade e hospitalidade entre Arquitas, os tarentinos e Dionísio)... Eu penso que eles tentaram discutir estas ideias com Dionísio convencidos de que ele já havia aprendido de mim todas as minhas ideias filosóficas. (DK 47 A 5)

            Arquitas também escreveu algumas obras perdidas e cunhou o termo média harmônica, que viria a ser muito importante na geometria e na teoria dos números posteriormente. Sua teoria das proporções é tratada no livro VIII de Os Elementos de Euclides, onde se encontra a construção de duas médias proporcionais, equivalentes à extração da raiz cúbica. De acordo com Diógenes Laércio, esta demonstração, que utiliza linhas geradas pelo movimento das figuras para construir os dois proporcionais entre as magnitudes, foi a primeira em que a geometria foi estudada com conceitos da mecânica. A curva de Arquitas, que ele usou na sua solução do problema da duplicação do cubo, é assim chamada por causa dele.

Caso números, em uma quantidade qualquer, estejam em proporção continuada, e os extremos deles sejam primos entre si, são os menores dos que têm a mesma razão com eles. (EUCLIDES, 2009, p 299)

            O que é corroborado por Proclus, em seu Comentários sobre o livro dos Elementos de Euclides, quando cita:

II 66,14 : - Naquele tempo (de Platão) viveu Laomedonte de Taso, Arquitas de Tarento e Teeteto de Atenas; para trabalhar seus teoremas que cresceram em número e foram ordenados com maior rigor científico.
                                                                                             ( DK 47 A 6 )

            A curva de Arquitas é criada por colocar um semicírculo (com diâmetro d) no diâmetro de um dos dois círculos de um cilindro (que também tem diâmetro d) tal que o plano do semicírculo esteja em ângulo reto com o plano do círculo e, depois, rodando o semicírculo numa das suas extremidades no plano do diâmetro do cilindro. Esta rotação irá cortar uma porção do cilindro formando a curva de Arquitas.


Jamblico, em sua obra Vida Pitagórica, também o cita em várias passagens:
         
VP 104 : - Com efeito, os que saíram desta escola, em especial os mais antigos, que passaram muito tempo com ele eram jovens quando recebiam os ensinamentos de Pitágoras, já velho, a saber, Filolau, Eurito, Carandas, Zaleuco, Brisão, Arquitas o velho, Aristeu, Lísis... VP 127: - Se citam aqui também as histórias de Fintias, Damon, Platão, Arquitas, Clinias e Proro... VP 160 :- Mas o que é incompreensível por natureza tampouco é possível conceber conhecimento algum.[...] Arquitas disse: “Por suposto, refletindo bem sobre os universais também se está em condições de ver bem a realidade dos particulares”.  As coisas existentes não são únicas, nem singulares nem simples, senão que ao momento se mostram variadas e multiformes; e são inteligíveis e incorpóreas, com a denominação de seres, e corpóreas e perceptíveis, que certamente se relacionam, pela sua participação, com a existência real. VP 197:-  Também se diz dos pitagóricos que nenhum deles, em estado de cólera, castigou a um criado nem repreendeu a um homem livre, senão que cada um aguardava a recuperação de sua mente (a repreender o denominavam corrigir). Em efeito, esperavam em meio ao silencio e à tranquilidade. Espíntaro contou muitas vezes que Arquitas de Tarento que, depois de certo tempo, regressou à sua casa, depois de haver participado na campanha que empreendeu sua cidade contra os mesápios e, quando viu que o capataz e os outros serviçais não realizavam bem as tarefas agrícolas, senão que se encontravam em total negligência, segurou sua cólera e recolheu tal irritação, na medida em que era possível, dizendo aos criados, segundo parece: “Boa sorte tendes de que eu tenha me irritado com vocês, porque se isto não houvesse acontecido, jamais teriam ficado impunes de haver cometido tamanha falta”. ( DK 47 A 7 ) VP 250: - (sobre o atentado empreendido contra os pitagóricos por Cilon) – Os dois que se salvaram eram ambos de Tarento; Arquipo se retirou dali e Lísis, detestando a indiferença, foi para a Grécia ...[...] O resto dos pitagóricos abandonou a Itália, exceto Arquitas de Tarento. VP 266: - No caso dos demais, quando ficaram muito velhos, não tinham outro objetivo senão liberar-se do corpo como se fosse uma atadura... [...] Deles, se esforçaram para escrever, na zona Heráclea, Clinias e Filolau e, em Metaponto, Teórides e Eurito, e Arquitas em Tarento.
            Athenágoras também o cita em várias passagens de sua obra, onde destacamos:

                                      XX 519 b : Atenodoro [4] no livro Sério e coisas sérias diz que Arquitas de Tarento, que era um homem  de estado  e um filósofo, tinha muitos criados, com os quais congraçava e  se divertia na mesa, admitindo-os no simpósio.
( DK 47 A 8 )

XII 545 a : - O músico Aristoxeno na sua Vida de Arquitas nos conta que da parte de Dionísio o jovem embaixadores chegaram à cidade de Tarento, entre os quais estava Poliarco, apelidado de Gaudente, um homem dedicado aos prazeres sensuais, não apenas em ações, mas também em discursos. Ele, como uma pessoa conhecida como Arquitas e não totalmente estranho à  filosofia, o encontrou nos recintos sagrados e começou a andar com ele e seus amigos ouvindo seus discursos. [...] Escute, ótimo jovem, o antigo discurso de Arquitas de Tarento, grande homem e ilustre,  discursos que foi relatado para mim quando eu era jovem... ( DK 47 A 9 )
           
            Aristóteles também o cita em duas obras distintas, A Política e na Retórica:

Política, 1340 b 26 : Além disso, é preciso que as crianças tenham uma ocupação, e é justo considerar como sendo uma bela invenção de Arquitas a matraca que se dá aos meninos a fim de que, enquanto dela se sirvam , nada quebrem em casa; as crianças não podem ficar um só instante em repouso. A matraca é, pois, um brinquedo que convém aos pequerruchos, mas a instrução é o brinquedo daqueles que são mais idosos. Deve-se, pois, ensinar a música aos jovens, o obriga-los a cultivá-la eles próprios. (DK 47 A 10)

Retórica L III, 11 1412 a 12 : - Assim Arquitas dizia que um árbitro e um altar são o mesmo, porque tanto um, quanto o outro, servem de refúgio às vítimas da injustiça.  (DK 47 A 12)

            Dos fragmentos classificados por Diels-Krans, acerca de Arquitas de Tarento, podemos ler na obra de Gerd a. Bornhein, Os filósofos pré-socráticos[5], a seguinte tradução:
Da sua obra Na Aritmética, sobre as Harmônicas : - Excelentes conhecimentos parece-me terem adquirido os matemáticos, não sendo estranho que pensem corretamente sobre as propriedades das coisas particulares. Pois tendo adquirido belos conhecimentos sobre a natureza do todo, naturalmente podiam atingir uma bela visão também das coisas particulares. Por isto transmitiram-nos também claros conhecimentos sobre a velocidade das estrelas, seu despontar e seu crepúsculo, sobre Geometria, números (Aritmética), sobre a doutrina das esferas e não menos sobre a Música. Com efeito, estas ciências parecem irmanadas. Pois ocupam-se das duas formas primeiras e irmanadas dos seres (número e grandeza). Começaram meditando sobre a impossibilidade do som, quando não corresponder a um choque entre corpos. Um choque, contudo, afirmavam eles, só surgirá quando (os corpos) em movimento se encontrarem vindos de lados opostos, e se baterem. Aqueles (corpos), portanto, que se movem em direções opostas e se chocam (produzindo o ruído) ao encontrar-se; aqueles (corpos), contudo, que se movem em uma mesma direção, mas com velocidades diversas, produzem o ruído quando, alcançados pelos que vêm atrás, são feridos. Muitos destes (ruídos) não poderiam ser percebidos por nossa natureza, quer devido ao choque demasiado .fraco, quer devido ao grande afastamento de nós, e alguns devido à sua' força extraordinária. Pois os ruídos muito fortes não poderiam penetrar em nosso ouvido, como também nos vasilhames de boca estreita nada se consegue derramar, quando se quer derramar muito. Os (ruídos) que conseguem penetrar em nossos sentidos, parecem-nos agudos quando o choque vem a nós rápida e fortemente, e graves, quando lenta e fracamente. Pois se tomarmos uma vara e a movermos lenta e fracamente, produzir-se-á, com a batida, um som grave, mas se a movermos rápida e fortemente, um som agudo. Não só por este exemplo, mas também por outros, podemos sabê-lo: se, quando falamos ou cantamos, quisermos fazer soar algo de maneira alta e aguda, nós o conseguiremos com o emprego de uma respiração forte, (mas se quisermos falar de maneira silenciosa ou grave, devemos empregar uma respiração fraca). Isto pode ser exemplificado também com os projéteis. Os arremetidos com força, voam longe, e os sem força, perto. Pois aos arremetidos com força, cede o ar mais, aos com menos, ao contrário, menos. E o mesmo pode ser dito dos tons: um tom produzido com respiração forte, soará com força e de modo agudo, mas se a respiração for fraca, soará de modo fraco e grave. Podemos ver também neste exemplo mais convincente, que o mesmo homem pode fazer-se ouvir, com voz alta, a grandes distâncias, mas com voz baixa, nem mesmo na proximidade. "Isto também com as flautas; se se precipita o ar expelido pela boca nos orifícios que estão perto da boca, produz de si, em consequência da forte pressão, um som agudo, mas se (fizer pressão) sobre os afastados, um som mais grave. Disto conclui-se claramente que o movimento rápido produz um som agudo e o lento um grave. Mas também nos "rombos", movidas, nas cerimônias dos mistérios, se dá o mesmo: movidos lentamente, produzem um som grave, e, profundamente, um som agudo. Também a flauta rústica nos dá, quando se fecha a extremidade inferior e se sopra, um som grave; se, ao contrário, se soprar na sua metade ou em qualquer outro lugar, produzirá um som agudo. Pois o mesmo ar precipita-se lentamente através de um espaço longo, impetuosamente em um curto.
(Continua falando sobre a proporcionalidade do movimento das vozes e encerra a sua exposição com as seguintes palavras:) tornou-se claro para nós, através de muitos (exemplos) que os sons agudos movimentam-se mais rapidamente e os graves mais lentamente.
(DK 47 B 1)
Conforme Porfírio, também muitos outros pensamentos antigos pensam, assim como Dionísio de Alicarnasso e Arquitas no livro Na Música ... Arquitas falando sobre a média proporcional escreve assim: Há três proporções na Música: a aritmética, a geométrica, e, em terceiro lugar, a contraposta, assim chamada harmonia. A aritmética, quando três termos manifestam analogicamente a seguinte diferença: o segundo supera tanto o primeiro, quanto o terceiro supera o segundo. E nesta analogia vê-se que a relação dos termos maiores é menor, e a dos menores é maior. A geométrica: quando o primeiro termo está para o segundo, assim como o segundo está para o terceiro. As maiores guardam a mesma relação que as menores. A contraposta, assim chamada proporção harmônica, quando (os termos) se comportam da seguinte maneira: quanto, da própria grandeza, o primeiro termo supera o segundo, tanto o médio supera o terceiro. Nesta analogia a relação dos termos maiores é maior, a dos menores, menor. ( DK 47 B 2 )

Conforme Estobeu, do livro Na ciência de Arquitas: Deve-se chegar ao conhecimento daquilo que se ignora aprendendo de um outro ou por pesquisa própria. O aprender se faz com um outro ou por meios estranhos; a investigação se faz por si mesmo ou com meios próprios. Encontrar sem pesquisa é difícil e raro; quando se pesquisa, contudo, torna-se acessível e fácil; e aquele que nada entende da investigação nada pode encontrar. Quando se conseguiu encontrar a razão, esta aumenta a concórdia fazendo cessar a rebelião. Já não há lugar Dara a competição, pois reina a igualdade. Por seu intermédio podemos reconciliar-nos com nossas obrigações. Devido a ela, recebem os pobres dos poderosos e os ricos dão aos necessitados, pois ambos confiam em possuir mais tarde com igualdade. Regra e obstáculo dos injustos, faz desistir os que sabem raciocinar, antes de cometerem injustiça, convencendo-os de que não podem permanecer ocultos quando voltarem ao mesmo lugar; aos que não compreendem, revela-lhes a sua injustiça, impedindo-os de cometê-la. (DK 47 B 3)

Ainda conforme Estobeu, do discurso de Arquitas: E a Aritmética tem, parece, predominância sobre as outras ciências como também sobre a Geometria, por poder demonstrar mais claramente o que quer. (Pois a Geometria prova, onde as outras ciências permanecem em dificuldade). E quando a Geometria falha, a Aritmética apresenta demonstrações, como também a exposição das formas, se é que existe uma ciência das formas. ( DK 47 B 4)



[1] Chefe do exército
[2] Ocello Lucano (séc. V a.C.) foi um filósofo grego da escola pitagórica, nascido na Lucania, citado pôr Diógenes Laércio no âmbito de uma carta espúria de Arquitas para Platão.
[3] Suda é uma compilação de obras e personagens classificados de forma inovadora, por ordem alfabética, descoberta no século X em Constantinopla que, apesar de conter imprecisões ou erros, contém informações inestimáveis, já que seus autores tiveram acesso a numerosas fontes, agora perdidas.
[4] Atenodoro de Tarso ou Atenodoro Cananita (em grego: Αθηνόδωρος, ca. 74 a.C. – 7) foi um filósofo estoico que, na ansiedade de preservar as doutrinas de sua seita em sua pureza original, costumava suprimir, das obras dos escritores estoicos, as partes que lhe pareciam errôneas ou inconsistentes
[5] BORNHEIN, Gerd A. Os filósofos pré-socráticos. 3 ed. São Paulo: Cultrix, 1998

domingo, 10 de dezembro de 2017

ÉSQUILO


            Ésquilo (em grego Αἰσχύλος) foi um dramaturgo da Grécia Antiga, classificado por Diels-Kranz entre os naturalistas pré-socráticos, nascido em Eleusis, na Ática ocidental (cerca de 18 km a Noroeste de Atenas), que viveu aproximadamente entre os anos 525 e 455 a.C. Foi reconhecido como o pai da tragédia já que, segundo Aristóteles, teria aumentado o número de personagens em suas peças para permitir o conflito entre eles[1]. De sua obra, apenas pouco mais de setenta peças chegaram à modernidade e delas, a Prometeu Acorrentado, uma das mais famosas, tem autoria questionada.
            Filho de Eufórion, era membro da antiga nobreza Ática e foi fortemente influenciado pelas Guerras Persas, na qual lutou junto com seu irmão Cinergiro na Batalha de Maratona[2], defendo Atenas contra o exército persa de Dario I, da qual saiu vitorioso, embora seu irmão tenha perecido na luta. Mais tarde, por volta de 480 a.C., lutou novamente contra os Persas, desta feita contra Xerxes I, na Batalha de Salaminge e na Batalha de Plateia, em 479 a.C.
            De sua obra Os Persas, a mais antiga a ter sobrevivido até os nossos dias, juntamente com Sete contra Tebas, As Suplicantes, a trilogia das tragédias de Agamenon, conhecida como A Oresteia, As Coéforas e as Eumênides, além de Prometeu Acorrentado são as únicas peças que chegaram intactas até os nossos dias.
            De sua peça, As Danaides, apenas o fragmento 44, 1-5,  é descrito como alusivo à Teogonia de Hesíodo, em que sua cosmologia se torna presente;

O céu sagrado anseia por penetrar na terra, e o desejo impele a terra a concluir esta união. A chuva toma do céu, seu companheiro de leito, e fecunda a terra que produz para os mortais os pascigos rebanhos e os recursos de Deméter.
            Segundo Estrabão, em sua obra Geografia, I, 2, 27 e 35, na peça Prometeu Acorrentado, Ésquilo alude à crença popular de que a “chuva é o sêmen de Urano, pelo qual Gaia é fertilizada”.

27 – Dados Procedentes de Ésquilo e Eurípedes: - Sagrada oleada de púrpuro solo / do Mar Eritreu / e, a orelhas do Oceano, lagoa que reflete relâmpagos ... 35 – Interpretações Discrepantes : - Os que se imaginam infernizados[3] como um povo com características próprias de etíopes, ou bem de cefenes (denominação antiga dada aos persas segundo Heródoto) e inclusive, terceira possibilidade, de pigmeus e muitas outras coisas pelo estilo, são os que menos confiança poderiam inspirar, além de sua escassa credibilidade, também porque apresentam uma confusa mescla de formas de expressões míticas e históricas.  E similares a estes são também os que descrevem aos sidônios no Mar da Pérsia ou em algum outro lugar do Oceano.[4] [...] Mas a Hésíodo não se poderia acusar de ignorância, quando fala de hermicinas, macrocéfalos e pigmeus, pois tampouco se poderia acusar o próprio Homero quando fala em tom mítico destes povos, dos quais fazem parte os citados pigmeus, ..., nem a Ésquilo quando fala de cinocéfalos, de esternoftalmos (olhos no peito) ou monómatos (ciclopes de um só olho), dado sobretudo porque ... não reconhecemos que estão compondo matéria mítica.
           
            Na peça Os Persas, , cujos personagens são O coro de anciãos persas, a Rainha Viúva de Dario, o Mensageiro, a Sombra de Dario e Xerxes, o rei da Pérsia, Ésquilo, em aproximadamente 1080 versos, retrata suas próprias experiências na guerra, particularmente na Batalha de Salamina, aludindo a derrota dos oponentes ao orgulho de seu rei.
            Na peça Sete Contra Tebas, cujos personagens são Eteocles, o Explorador, o Mensageiro, Antigona, Ismene e o Coro de jovens tebanas, Ésquilo, também em cerca de 1080 versos,  aborda um tema contrastante para a época, o do destino e interferência dos deuses nos assuntos humanos, além de um tema que seria marcante no resto de sua obra, o da “polis” como desenvolvimento vital da civilização humana.
            Na peça As Suplicantes, cujos personagens são O Coro de Danaides, Danaus, o Rei de Argos e Herald, dos  filhos do Egito, Ésquilo, em 1080 versos, continuou com a mesma ênfase na polis, prestando uma homenagem às correntes democráticas que se afiguravam em Atenas, antes da fundação do governo democrático.
            Na peça Oresteia, a única trilogia completa de algum dramaturgo grego descoberta, composta por Agamenon, cujos personagens são O vigia, O Coro composto por anciãos argivos, O Mensageiro, Clitemnestra, Heraldo, Agamenon, Cassandra e Egisto, em aproximadamente 1680 versos, Ésquilo retrata um drama familiar vivido por Agamenon, que retrata a morte do pai, o desejo de vingança de Clitemnestra pela morte da filha Efigênia, sacrificada por Agamenon. Na segunda parte, As Coéforas, cujos personagens são Orestes, Pilades, o Coro composto de prisioneiras troianas, Electra, o Porteiro, Clitemnestra, Nodriza de Orestes, Egisto e um Escravo, Ésquilo, em aproximadamente 1075 versos, continua com a história, abrindo com o relato de Clitemnestra de um presságio no qual ela dava à luz uma serpente, ordenando a sua filha Electra que faça libações no túmulo de Agamenon, com o auxílio das coéforas, na esperança de expiar sua culpa. Na terceira e última parte da trilogia, As Eumênides, cujos personagens são, A serpente, Orestes, Apolo, A Sombra de Clitemnestra, o Coro de Eumênides, Atenea, o Cortejo, e outros personagens sem fala, Ésquilo aborda a questão do sentimento de culpa de Orestes, exaltando especificamente a importância da razão no desenvolvimento das leis.

Aqui, Respeito e Temor, seu irmão, noite e dia igualmente, manterão meus cidadãos longe do crime, enquanto conservarem inalteradas as leis. [...] Não mancheis a pureza das leis com a impureza de estratagemas [...] Guardai bem e com reverencia vossa forma de governo. Nem anarquia nem despotismo, eis a regra que aconselho a cidade a observar com respeito.

            Ésquilo, quinhentos anos de nossa era, já atentava para o fato de que os sofistas, com o dom da oratória, trabalhavam para distanciar a lei da justiça, esta última compreendida como uma propriedade que confere valor, onde a moralidade é abnegada e não de interesse próprio.



[1] Antes dele, os personagens interagiam apenas com o coro
[2] Durante a Primeira Guerra Médica, por volta de 490 a.C., em uma planície próxima a Atenas
[3] Não encontramos palavra melhor para traduzir o termo “erembo” utilizado por Estrabão.
[4] Segundo Estrabão, ( XVII 3,2) é necessário observar que estes sidônios não seriam certamente os da atual Síria, mas uma colônia fundada pelos do Mediterrâneo e, segundo Heródoto, Fenícios, cuja toponímia remete a púrpura (vermelho sangue) que procederiam do Mar Eritreo, de onde chegaram à Siria.

OPSIMO


            Opsimo ( em grego Όψιμος) de Régio, foi um filósofo pré-socrático sobre o qual praticamente não existem registros, salvo o menção de sua existência na obra de Jamblico, Vida Pitagórica, 267, (DK 46 C 5) que o coloca como nascido em Régio, na região da Calábria, Itália, e uma passagem da obra Legado em Favor dos Cristãos, de Athenágoras, um apologista cristão que viveu no século II de nossa era, aparentemente em Atenas, em que é citado seu pensamento acerca de Deus e dos números:

E também Filolau, dizendo que Deus, como que de uma casa de guarda, abraça todas as coisas, demonstra que ele é um e superior à matéria. Lísis então e Opsimo, um definindo Deus como um número inefável, o outro como o excedente do máximo de números no que está mais próximo dele. E se o número máximo, de acordo com os pitagóricos, é o dez, que é o conjunto que contém todas as progressões aritméticas e harmônicas, e se perto disso são os nove, Deus é a mônada, ou seja, um por causa de um o número máximo que excede o mais próximo dele, o que é imediatamente posterior ao tamanho. (DK 46 C 4 )




sábado, 9 de dezembro de 2017

LÍSIS


            Lísis ( em grego Λνσίς) de Tarento[1], foi um filósofo pré-socrático grego, discípulo de Eurito, que viveu entre os séculos IV e III a.C., professor de Filolau que, à exemplo de Arquipo, conseguiu fugir ao massacre impetrado por Cilon, um jovem varão de Crotona, muito rico e cruel que havia sido recusado em sua tentativa de ingressar na escola de Pitágoras, e seus seguidores,  contra os pitagóricos em Crotona, no final dos anos 400 a.C.  e após isso mudou-se para Tebas onde foi professor de Epaminondas, o general que construiu a breve, mas brilhante hegemonia de Tebas, quando da vitória sobre os Espartanos em 379 a.C., conforme registra Jamblico em sua obra Vida Pitagórica, 248 até 250:
VP 248: Quando isso ocorreu, o próprio Cilon e seus amigos promoveram um levante contra Pitágoras e seus discípulos, e a animosidade pessoal de Cilon e seus partidários se revelou tão violente e incontrolável... Em consequência, Pitágoras por este motivo de mudou para Metaponto... Os chamados ciloneos conduziram sua revolta contra os pitagóricos e deram vazão a toda a sua hostilidade. [...] E, finalmente, a tal grau chegaram a conspirar contra aqueles homens, que quando estes estavam reunidos na casa de Milão, em Crotona, para tratar de assuntos políticos, atearam fogo à casa e os queimaram, à exceção de dois, Arquipo e Lísis. Estes, como eram mais jovens e muito vigorosos, de alguma forma lograram conseguir escapar. VP 250: Os dois que se salvaram eram ambos de Tarento; Arquipo se retirou dali e regressou a Tarento e Lísis, detestando a indiferença das cidades, foi para a Grécia estabelecendo-se na região de Acaia, no Peloponeso e posteriormente em Tebas, onde conheceu e educou Epaminondas, que o chamava de pai. (DK 46 A 1)

            Porfírio, em sua obra Vida de Pitágoras, corrobora esta afirmação, em um fragmento considerado dubio por Diels-Kranz:

Sobre ele, Pitágoras, não havia nenhuma escrita. Aqueles que conseguiram escapar, Lísis e Arquipo, e aqueles que estavam em outros países mantiveram alguns vislumbres de sua filosofia, obscura e difícil de compreender.(DK 46 C 2)[2]
            Diógenes Laércio também o cita em sua obra Vida dos Filósofos mais Ilustres, VIII, 7, atribuindo-lhe a autoria de livros que eram creditados a Pitágoras, como segue:

Se atribuem a Pitágoras três livros escritos, que são: Instituições, Política, Física; mas o que se conhece como de Pitágoras é de Lísis Tarantino, o qual, depois de fugir a Tebas, foi professor de Epaminondas.
                                                                                               (DK 46 C 3)

            A ele também são atribuídos os Versos Áureos de Pitágoras, cuja tradução para -o português, realizada por Irene Pastana Batista, transcrevemos abaixo:

Preparação: Deves dar sacrifício perfeito aos Deuses Imortais[3], e dizer, manter tua fé, venerar aos grandes heróis e estar em harmonia com o mundo que te rodeia. Purificação: Respeita a tua mãe e teu pai e também a teus próximos. Escolhe para ti um amigo verdadeiramente sábio, escuta seus conselhos e segue seu exemplo. Não te inimizes com aquele amigo por razões insignificantes. Lembra-te da lei de causa e efeito em tua vida. Está dada a ti a possibilidade de superar tuas paixões! Assim que doma em ti mesmo, com um grande esforço de vontade, a avareza, a preguiça, as paixões sexuais e a raiva irracional! Sendo que estejas só ou com pessoas, tem medo de fazer algo de mal. Guarda tua honra! Sê sempre justo em tuas palavras e atos, seguindo nestes as exigências da razão e da lei. Não te esqueças que o destino inevitável leva a todas as pessoas a morte. Lembra-te que os bens terrenos são dados facilmente as pessoas y são tomados facilmente também. E quanto aos infortúnios, que vem para as pessoas segundo seus destinos, deves suportá-los com paciência dócil. Contudo, esforça-te para aliviar a dor dentro do possível. E lembra que os Deuses Imortais não dão às pessoas provas que sejam superiores as suas forças. As pessoas tem muitas possibilidades a sua escolha. Entre estas, há muitas boas e muitas más. Por isso há de examiná-las atentamente com o intuito de escolher para si um caminho digno. Se o erro entre as pessoas prevalece sobre a verdade, o sábio se afasta e espera até que a verdade reine novamente. Escuta com atenção o que vou dizer e guarda-o na memória: Que não te perturbem os atos e pensamentos de outras pessoas! Que não te induzam as palavras e os atos prejudiciais! Escuta os conselhos dos demais e reflete tu mesmo incansavelmente! Pois somente um tolo age sem pensar antes! Faz somente aquilo que não te traga aflição depois e que não te cause arrependimento! Não ouses começar um trabalho que não saiba como fazer, sem que o tenha aprendido primeiro. Somente então terás êxito! Não deves extenuar teu corpo! Pelo contrário, trata de lhe dar comida e bebida e exercícios com moderação para que se fortaleza sem saber dos excessos nem da preguiça! Mantém, dentro do possível, ordem em tua vida! Expulsa o luxo de tudo! Pois este provoca a inveja nos demais. Tem medo de ser avarento! Tem medo também de desperdiçar os bens como os mal cuidados os fazem! Faz somente aquilo que não te arruíne nem agora nem no futuro! Por tanto, premedita cada um de teus passos e atos. Perfeição : Que não chegue o sono a teus olhos cansados antes que te lembres três vezes todos teus atos realizados durante o dia. Como um juiz imparcial, analisa-os perguntando-se: “O que tenho feito de bom? O que não cumpri do que deveria ter cumprido?”. Assim revisa, um por um, todos os atos que realizaste no percurso do dia. Censura-te severamente por todas as coisas más que tenhas feito e alegra-te pelos atos de bondade, assim como pelos êxitos! Utiliza esta recomendação, reflete sobre esta e trata de segui-la sempre! Pois Meus conselhos te aproximarão da Perfeição! E que seja o Fiador desta verdade Aquele Que pôs em nós o penhor da Essência Divina e da suprema virtude! Antes de pôr mãos à obra, dirige-te primeiro aos Deuses com um pedido sincero para que com Sua ajuda possas terminar a obra! Quando te fortaleças em este caminho, saberás tudo sobre os Deuses Imortais, sobre as pessoas, sobre a diferença que existe entre elas e sobre Aquele Que as contém dentro de Si Mesmo sendo seu Fundamento. Também saberás que o universo inteiro é um Todo Único e que no Eterno não há substância morta. Depois de conhecer isto, já não te equivocarás mais, porque tudo te será revelado! Saberás também que as pessoas mesmo provocam suas desgraças devido a sua ignorância e que escolhem livremente seus destinos! Ai delas! Em sua louca cegueira não veem que a felicidade desejada está em sua própria profundidade!  Há muito poucos entre nós que podem com seus próprios esforços livrar-se das aflições, pois as pessoas são cegas para entender a lei da formação de seus destinos! Como rodas, elas descem de montanhas levando a carga do dano que fizeram e de brigas passadas, carga que rege invisivelmente seus destinos até a morte. Ao invés de buscar uma briga, as pessoas devem, quando possível, evitá-la cedendo sem debate. Ó, Zeus onipotente, será que somente Tu podes liberar o gênero humano das aflições lhes mostrando a escuridão da ignorância que cega seus olhos? A pesar de tudo, não há que perder a esperança de que as pessoas se salvem desta escuridão, pois cada um tem a Raiz Divina e a natureza está disposta a revelar-lhe os mistérios da existência! Se tu também penetras nisto, se cumprirá o que estou predizendo! Assim que sana a alma! Isto te revelará o Caminho até a Libertação! E abstém-te de comer carne! Isto vai contra tua natureza e irá travar tua purificação! Então, se queres libertar-te das correntes terrenas, segue esta compreensão superior dada a ti! Que esta governe teu destino! E depois de transformar completamente a alma, poderás chegar a ser um Deus Imortal Que esmaga a morte com Seu pé!

            Jamblico também se refere a Lísis em várias outras passagens de seu livro Vida Pitagórica, evidenciando a importância que dava a este filósofo pitagórico (VP 104) como, por exemplo, na passagem em que ele critica Hiparco (VP 75), logo após a rejeição de Cilon, por falar sobre assuntos da escola (pitagórica) com estranhos, o que era terminantemente proibido pelo mestre de ambos, ou ainda a elevada postura moral com que se dedicava ao cumprimento da palavra ou empenhada ou pactos firmados (VP 185).


VP 75: Pelo qual também Lísis, replicando a um tal Hiparco que fazia partícipes de suas lições aos que não haviam sido iniciados e se haviam somado sem aprendizagem científica e educação, disse: “Contam ademais que tu filosofas em público com quem te encontra, o que precisamente desaprova Pitágoras, como tu, Hiparco, aprendeste, com esforço, mas não o cuidaste, querido amigo, ao desfrutar do luxo de vida siciliano, ao que não tinhas a necessidade de rebaixar-te. Se tens mudado de ideia, me alegrarei, mas se não, estás morto. Em tal caso, disse, e lei divina confiar à memória os preceitos sagrados e humanos e não fazer partícipes dos benefícios da sabedoria aos que nem sequer em sonhos tem purificada sua alma. Pois não é lícito oferecer aos que se vai encontrando o que se tem conseguido com esforço, ao custo de grandes sacrifícios, nem proporcionar os mistérios das deusas de Eleusis (Deméter e sua filha Perséfone) a profanos: os que levam a cabo estas ações são igualmente injustos e ímpios. VP 104: Com efeito, os que saíram desta escola, em especial os mais antigos, que passaram muito tempo com ele e eram jovens quando recebiam os ensinamentos de Pitágoras, já um ancião, a saber: Filolau, Eurito, Carondas, Zaleuco, Brião, Arquitas, o velho, Aristeu, Lísis, Empédocles...e todos seus contemporâneos, uma multidão de varões famosos e extraordinários... VP 185: Com respeito aos pactos e manter a fidelidade deles, Pitágoras preparava tão bem aos seus discípulos, que dizem que em uma ocasião Lísis, depois de haver efetuado um ato piedoso no templo de Hera, se encontrou quando saía com Eurifamo, um amigo seu de Siracusa que entrava pelos próprios do templo da deusa. Eurifamo lhe pediu que o esperasse até que saísse, depois de haver venerado à deusa, e Lísis se sentou em um assento de pedra que se levantava ali. Mas quando Eurifamo já havia concluído sua adoração à deusa, se encimou de um determinado pensamento de uma reflexão mais profunda e saiu por outra porta, esquecendo-se dele. E Lísis ficou ali como estava, sem mover-se, o resto do dia, a noite e inclusive a maior parte do dia seguinte. E haveria passado muito mais tempo ali, se Eurifamo, que se encontrava precisamente ao dia seguinte no lugar habitual de reunião, não houvesse ouvido que seus amigos andavam procurando Lísis, lembrasse do acordado. Se foi e trouxe o amigo, que ainda o aguardava no assento, de acordo com o combinado, expondo-lhe o motivo de seu esquecimento, para que fosse uma prova contundente de sua firmeza nos acordos.




[1] Não confundir com Lísis (ou Lísias) de Atenas, citado nos diálogos de Platão.
[2] Diels-Kranz não utilizam letras para indicar estes fragmentos, conforme instrução dada no início de seu livro catálogo, no entanto, separaram-nos com a indicação de escritos dúbios, motivo pelo qual nós adicionamos a letra C, sem defini-los como imitação ou falsos, mas para facilitar o entendimento do leitor.
[3] Pitágoras fala aqui dos Espíritos Santos.