quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

SAINDO DO VERMELHO


















Nos momentos de crise, é normal que a maioria das pessoas passe por dificuldades, quer sejam elas de caráter financeiro, emocionais ou mesmo existenciais.

Não fosse assim, não seria crise.

Crises ocorrem sistematicamente de tempos em tempos e, de certa forma, pode-se dizer que fazem parte do processo evolutivo das sociedades, muito embora para nós,  a crise atual, exatamente por ser a atual,  apresenta-se sempre como a pior, independentemente da época a que estejamos nos referindo, dadas a incerteza que temos à nossa frente.

Esta incerteza que nos paralisa e que impede de certa forma nosso raciocínio, impede-nos também de tomar ações que poderiam nos auxiliar a sanar os problemas.

Sentimo-nos indefesos à mercê dos ventos, da maré e das correntes oceânicas.



















O quadro de Theodore Gericault intitulado a “Jangada da Medusa” retrata exatamente esta situação.

Ele retrata o salvamento dos sobreviventes ao naufrágio da fragata “La Meduse”, em 1816, que teria afundado perto da costa do Senegal.

Em Junho de 1816, o navio Medusa içou velas, juntamente com outros três navios, em direção ao porto de Saint-Louis, o qual tinha sido oferecido por Inglaterra à França como prova de boa-fé pela restauração da Monarquia, após a capitulação de Napoleão.

O navio, cujo capitão era Hugues Duroy de Chaumereys, transportava cerca de 400 pessoas, incluindo o novo Governador do Senegal. 

Pretendendo aproveitar o bom tempo, O Medusa ganhou significativa vantagem sobre os outros navios mas, no início de Julho, por alegada incompetência do capitão, encalhou num banco de areia.

As tentativas de largar carga ao mar não resultaram, também porque Chaumereys impediu a tripulação de lançar os canhões ao mar.

Diante do eminente naufrágio, os passageiros mais importantes foram colocados em barcos salva-vidas, suficientes apenas para 250 pessoas.

As restantes foram colocadas numa jangada e lançadas ao mar.

Atada por uma corda a um dos salva-vidas submergiu parcialmente pelo excesso de peso que transportava e, a certa altura, acidentalmente ou não, o cabo soltou-se.

O que se passou a seguir foram cerca de duas semanas de pesadelo num mar tempestuoso, com mortes brutais e até atos de canibalismo.

Cento e cinquenta pessoas andaram à deriva durante dez dias numa jangada.

A tragédia gerou um verdadeiro escândalo internacional, sendo o o capitão obrigado a ter de responder por seus atos diante de um tribunal marcial por seus atos e fazendo os franceses a passarem pelo ridículo perante os ingleses.

Quando a jangada foi encontrada, restavam apenas 15 sobreviventes. 

Foi este o momento escolhido pelo pintor.

Gericault propôs-se contar a tragédia através do relato de dois dos sobreviventes, representados ao pé do mastro, que lhe deram uma descrição precisa da jangada.

As suas preocupações com o realismo, levaram-no ao hospital para observar os sobreviventes e os cadáveres, tendo não só levado para o seu atelier de trabalho um pedaço de cadáver em decomposição, como inclusive decidido passar algum tempo em mar alto.

Em sua obra, podemos encontrar várias representações das emoções e do comportamento humano diante das situações de crise.


















No quadro 1, temos a desolação, a apatia diante dos fatos que nos parecem inevitáveis.

No quadro 2, a representação da morte, da derrota consumada.

No quadro 3, a representação da esperança, apesar da adversidade, onde a perseverança e o otimismo em dias melhores mantém a chama acesa.

No quadro 4, a solidariedade, onde mesmo sofrendo dos mesmos males, o indivíduo ainda encontra energias para auxiliar outro, incentivando-o a continuar e a não desistir.

Embora de forma metafórica, esta obra de arte nos leva a uma série de comparações, levando-nos a refletir sobre a real dimensão e gravidade da crise que enfrentamos.

Seguramente, nada é tão grave.

Jogar fora os canhões significa romper paradigmas, ter uma atitude pró ativa, definir prioridades, planejar ações, definindo metas e implementando ações factíveis, num prazo de tempo previamente definido.

Basicamente os hábitos, em sua maioria de caráter comportamental, que adquirimos ao longo do tempo são os responsáveis pelas dificuldades que se nos apresentam para solucionar os problemas, impedindo-nos de ver claramente as alternativas, os caminhos que podemos trilhar para resolvê-los.

Quando falamos em romper paradigmas devemos ter em mente que todo o conhecimento ou opiniões que temos deste ou daquele assunto deve ser criticado, repensado, posto à prova.

É necessário o reconhecimento de que se o modelo que adotamos para nossa vida, na atualidade, não sobreviver às críticas, é porque não é bom e precisará ser repensado, modificado, atualizado.

Embora apenas amarrado a um pequeno tronco, um elefante de circo não consegue se soltar.

Fisicamente ele poderia, mas mentalmente não pode.

Quando filhote foi amarrado a este tronco e não conseguia fugir, e assim ficou condicionado a ACREDITAR que sua fuga é impossível.

Hoje, adulto, amarrado ao mesmo pequeno tronco, o condicionamento que absorveu o impede de sair do lugar, e nem sequer tenta.

A conduta, o hábito e as atitudes das pessoas se modificam lenta e gradualmente.

Quanto mais cedo começar ...


Professor Orosco


O DÉCIMO BILHÃO - Parte 10 de 10

O DÉCIMO BILHÃO

Respeitar o passado enquanto se constrói o futuro é questionar este modelo simplista, até como forma de auto preservação, uma vez que “aqueles que não tem o poder para promover a escolha de quem viverá e quem será sacrificado em nome do coletivo, estarão sempre entre os que serão sacrificados”.

É compreeender que as novas tecnologias devem ser incorporadas ao cotidiano das pessoas, de forma propositiva e construtiva, auxiliando na aproximação dos povos  e das nações.

É compreender o fenômeno das redes sociais, que derrubam fronteiras e paradigmas, questionando modelos e imputando novos comportamentos aos governantes.

É compreender que chegaremos aos 10 bilhões de habitantes nos próximos anos e entender que a forma como o ser humano ocupará o planeta dependerá única e exclusivamente das atitudes e das ações que cada um de nós tomar agora para preservá-lo.

É compreender que o  investimento na educação e na busca do conhecimento, são a única forma de sair da indigencia, do subdesenvolvimento e da marginalização, rumo à construção de  uma sociedade mais justa e perfeita, preparada para este novo milênio.

É compreender que somente  com a erradicação total do analfabetismo (até do funcional), promovendo uma educação continuada, permanente e com uma reciclagem de conhecimentos durante toda a vida, garantindo-se o ensino básico em uma escola pública para todos, gratuíta e de qualidade,é a missão maior, a tarefa comum, à qual todos nós precisamos nos dedicar.


“  - Uma revolução se faz com livros e não com armas!
   - Hoje é um belo dia para começar uma revolução ! ”


                                                                       Professor Orosco

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O DÉCIMO BILHÃO - Parte 09 de 10

O NONO BILHÃO

Respeitando o passado, aprendendo com a história, com os acertos e com os erros, podemos pensar, planejar e construir um futuro capaz de atender a estas demandas.

Aprender com o passado é poder reconhecer no exemplo de Martinho Luthero que a educação e a disseminação da informação, sem censura ou manipulação, é um poderoso agente de transformação social.

Que esta informação só se torna produtiva se estiver associada à cronologia dos fatos e relacionada no seu contexto espaço-temporal.

Que sua aceitação somente ocorrerá se o agente transmissor dessa informação tiver a credibilidade necessária, sendo aceito pela sua imparcialidade frente aos fatos.

Que o conteúdo da mensagem política (aqui definida como a ciência que tem por objetivo buscar a felicidade humana) embutida, mesmo que de forma subliminar, seja pró ativa num processo de construção de uma sociedade mais livre, mais fraterna e mais igualitária.

Que seja, em última análise, entendida como uma crítica construtiva ao modelo hegemônico burguês, libertária e inovadora, de modo que não possa ser combatida e recusada prontamente, ganhando corpo e consistência à medida que se reproduz.

Uma notícia com características de transformação seria, por exemplo, a divulgação de que o petróleo não é, ou pelo menos não deveria ser, considerado um combustível fóssil e finito.

Segundo o conceito da abiogênese, o petróleo ainda que possua características orgânicas, é um produto que está contido em um tipo de rocha (reservatório), no interior do planeta, migrando para a superfície por causa do calor no centro da Terra, até encontrar uma camada de rochas impermeáveis que o retém e sob as quais cria um bolsão.

Esta teoria se sustenta no fato do tamanho das atuais reservas mundiais conhecidas que, se acrescidas de tudo o que já foi extraído, tornaria praticamente impossível a idéia do soterramento (de uma única vez) de material orgânico em quantidade suficiente para gerá-las.

Precisamos lembrar que um valor próximo a 70% de todo o material orgânico (vivo) é água, portanto não aproveitável para a formação do petróleo.

Esta constatação derruba a ideia, ao menos para os próximos séculos, de sua falta,  tornando clara a estratégia utilizada pela burguesia, que a divulga, como uma política para provocar a  elevação de seus preços e aumentar seus lucros.

Em outro exemplo, a falta de água potável, que seguramente será utilizada para justificar novos conflitos armados entre as nações, decorre muito mais de políticas e de interesses econômicos do que pela sua real veracidade.

Basta lembrar que o nosso planeta Terra, bem poderia ser chamado de “Planeta Água”, indicando que a dessalinização de água a partir dos mares para a manutenção da vida em solo seco, é uma alternativa lógica e sustentável.

Se parte dos gastos projetados para a indústria de armamentos, por exemplo, fosse utilizada para a produção de água potável, este problema no curto e no médio prazo seria consideravelmente reduzido e amenizado.

Aruba, uma pequena ilha do Caribe, deixou de ser ocupada e colonizada pelos espanhóis, pela inexistência de água potável na ilha.

Os holandeses, construindo ali uma usina para potabilizar água a partir do mar, tornaram-na um oásis de prosperidade e beleza.

Faça-se o registro de que este empreendimento, além da água potável, produz energia elétrica e usa o lixo produzido na ilha como combustível (ao menos parcialmente), ganhando características de preservação ambiental e sendo considerado ecologicamente sustentável.

O próprio conceito de “ecologicamente sustentável” precisa sofrer um processo de crítica permanente onde o fator humano seja considerado.

A preservação do meio ambiente, associada ao eco-desenvolvimento, à reciclagem ou reutilização dos insumos básicos demandados pela humanidade e tendo a recuperação ambiental como meta permanente, deve ser contextualizada dentro de uma política de ocupação e uso dos recursos naturais que tenha o homem como foco central.

Não se pode cobrar do homem que passa fome uma consciência ecológica e de preservação ambiental, sendo necessário, antes de tudo, assegurar seu sustento, à partir do qual ele pode ganhar condições para assimilar estes conhecimentos.

Como exemplo desta condição anômala, ambígua, de desenvolvimento e de preservação, podemos citar a prática do consumo de carne.

O ser humano, como todos sabem, é um animal essencialmente frutivaro.

Sua arcada dentária e seu aparelho digestivo são próprios para processar frutas.

Estudando Karl Marx em sua obra “O papel do trabalho na transformação do macaco no homem”, vemos que a  própria conformação da mão humana indica sua função de “pegar” e constatamos que somente o homem e o macaco conseguem pegar o alimento para levá-lo à boca, quando os outros animais levam a boca até o alimento.

Entendemos que o  próprio conceito de nos alimentarmos com cereais já é um modernismo evolutivo (os grãos precisam de cocção para serem digeridos) reforçando a ideia das frutas e das hortaliças.

Nesta ótica, reduzir gradativamente a área destinada à pecuária, utilizando-a para ampliar a produção e oferta de frutas e de grãos, além de baratear o processo de produção de alimentos permitiria um expressivo aumento na quantidade final disponibilizada para o consumo, reduzindo a relação de consumo de água potável por quilo de alimento produzido, reduzindo a emissão de gás metano a partir da redução da quantidade de excrementos, etc.

E dizer, a correta aplicação dos conceitos estudados nas disciplinas que abordam conceitos de ecologia dizem muito mais à mudanças de paradigmas do que à necessidade de uma ruptura institucional.

Isto significa acreditar e trabalhar para que através do respeito aos direitos mais elementares do homem; da aceitação de um sistema pluralista de governo onde exista a transparência, alternância e respeito; onde se garanta o pleno acesso às informações; se  possa construir a cidadania e a partir dela promover as mobilizações que venham proporcionar as transformações pacíficas da sociedade.

Onde a democracia, representativa através do processo eleitoral, seja a garantia maior de um poder público eficiente e profissionalizado que, combinado com mecanismos participativos, plebiscitários ou de referendum, sobretudo a nível local, valendo-se de redes sociais e de outras formas de organização da sociedade civil, venham a atender os verdadeiros anseios e demandas da população.

Democracia porque, conforme Mássimo D´Alemo, no livro “IL Mondo Nuovo – Riflessione per IL Partido Democrático (2009), “a ausência de regras, de controles, de transparência e de legalidade nasce sobretudo da assimetria entre o crescimento de um capitalismo global e a ausencia de instituições com capacidade de regular seu desenvolvimento e equilibrar seu peso e seu poder”.

Ainda, concordando com o pensamento de Mássimo D´Alemo, presidente da Fondazione Italianieuropei e ministro do exterior do governo de coalização que venceu as eleições legislativas da Itália em 2006, “para que exista uma justiça social capaz de garantir as condições mínimas de sobrevivência com dignidade para todas as pessoas, é necessária a atuação do poder público como regulador do mercado, protegendo os mais fracos e necessitados, como forma de reequilibrar a distribuição de riquezas e garantir o acesso à terra, promovendo a distribuição de renda através de mecanismos tributários e do investimento público”.

O crescimento selvagem dos últimos anos gerou crescente desigualdade não só entre países ricos e países pobres; não só entre continentes vencedores, como a Ásia, e continentes marginalizados pela globalização econômica, como a África, mas também dentro dos próprios países ricos.

Os Estados Unidos e a Itália estão entre os países nos quais o crescimento da desigualdade social foi maior nos últimos 15 anos, sendo esta desigualdade, além de injusta um fator de impedimento do crescimento econômico e de destruição da coesão do tecido social.

Estima-se que mais de 40 milhões de norte americanos vivam abaixo ou no limite da linha de pobreza, motivo pelo qual, o Presidente Democrata Barack Obama que sucedeu o republicano George Bush se empenhou em promover uma reforma no sistema de saúde, garantindo-lhes acesso aos serviços públicos mais elementares.

Esta reforma, acusada falsamente pelos setores mais conservadores e retrogados de ser socialista (nela o governo pagaria uma parte das despesas com atendimento médico básico a quem não pudesse pagar os hospitais e clinicas que continuariam a ser privados, como um tipo de seguro saúde), tem provocado uma enorme queda de popularidade do governo democrata, fazendo renascer entre os americanos grupos de extrema direita, como foi a “Ku Klux Klan” e agora o “Tea Party” que se utilizam das velhas práticas nazistas da Alemanha hitlerista, atentados criminosos, censura e preconceito para impor sua vontade.

Por sua vez, a negação desta pobreza, generalizada, que ocorre inclusive nos países ricos, quer pela omissão, quer pela manipulação das informações pode, em última instância, ser considerado como um ataque real à liberdade.

A liberdade que, na filosofia, é designada de uma maneira negativa como sendo a ausência de submissão e de servidão, isto é, qualificando a independência do ser humano, também é designada de uma maneira positiva como sendo a autonomia e a espontaneidade de um sujeito racional, isto é, qualificando e constituindo a condição dos comportamentos humanos voluntários.

Segundo René Descartes (1596/1650), “quanto mais uma alternativa pareça verdadeira, mais facilmente se escolhe esta alternativa”, pensamento que pode ser associado a Chateaubriand e reconhecendo que “pessoas que não buscam objetivamente informações têm mais dificuldades para identificar as inúmeras alternativas que existem, pois alternativas são frutos destas informações”.

Portanto, para que se possa assegurar a liberdade dos indivíduos torna-se necessário estabelecer, antes de tudo, as garantias de que as informações transmitidas sejam verdadeiras, o que nos leva a um paradoxo quando tentamos determinar de quem ou através de qual mecanismo este preceito pode ser observado.

Censura ou transparência ?

Talvez isto possa ser respondido pelo campo da Ética.
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René Descartes (La Have en Touraine, 31 de Março de 1596 - Estocolmo, 11 de Fevereiro de 1650)  foi um filósofo, físico e matemático francês.  Notabilizou-se sobretudo por seu trabalho revolucionário na filosofia e na ciência , mas também obteve reconhecimento matemático por sugerir a fusão da álgebra com a geometria - fato que gerou a geometria analítica e o sistema de coordenadas que hoje leva o seu nome. Descartes, por vezes chamado de "o fundador da filosofia moderna" e o "pai da matemática moderna", é considerado um dos pensadores mais importantes e influentes da História do Pensamento Ocidental. Muitos especialistas afirmam que a partir de Descartes inaugurou-se o racionalismo da Idade Moderna. 
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Em ética a liberdade costuma ser considerada um pressuposto para a responsabilidade do agente, para o desenvolvimento de seu ambiente, de suas estruturas para conseguir, no final, satisfação para o meio.

Para Emanuel Kant (Könisberg, 22 de abril de 1724  —  12 de fevereiro de 1804), um filósofo prussiano considerado como o último grande filósofo dos princípios da era moderna, em sua obra - A crítica da razão pura -, “ser livre é ser autônomo”, citando o fato da razão ser a consciência do indivíduo sobre as leis morais vigentes.

Kant explica que “ter consciência das leis morais vigentes” não ocorre apenas  por via de intuição ou conhecimento, dependendo da intuição intelectual (ambas as formas) para que se possa ver a liberdade como positiva, respeitando sua vontade e garantindo que o livre arbítrio seja utilizado de forma pura, não sendo dependente da lei.

Portanto, a pessoa dotada de liberdade pode fazer uso desta com maior clareza, se seu conhecimento e sua consciência sobre a sua própria liberdade existir.

Para Baruch Spinoza ou Bento de Espinoza (1632/1677), filho de família judaica portuguesa, nascido nos Países Baixos, considerado entre os grandes racionalistas do século XVII e fundador do criticismo bíblico moderno, ser livre é ter a capacidade para agir, com intervenção da vontade.

Para Gottifried Leibniz (Leipzig, 1 de julho de 1646, Hanover 14 de Novembro de 1716), filósofo, cientista, matemático, diplomata e bibliotecário alemão, a quem se atribui a criação do termo função, que usou para descrever quantidade relacionada a uma curva, e que dividiu com Isaac Newton o crédito pelo desenvolvimento do cálculo moderno, particularmente do desenvolvimento da Integral e a Regra do Produto, “o agir humano é livre a despeito do principio da causalidade que rege os objetos do mundo material”.

Para Carlos Bernardo Gonzáles Pecotche (Buenos Aires, 11 de agosto de 1901 – 4 de abril de 1963), escritor, educador, conferencista e pensador humanista, fundador da logosofia, “ a liberdade é prerrogativa natural do ser humano, já que nasce livre, embora não se de conta até o momento em que sua consciência o faz experimentar a necessidade de exercê-la”.

Para Marx, não há liberdade sem o mundo material no qual os indivíduos a manifestam na prática, junto de outras pessoas, e dizer, se os indivíduos são privados de suas próprias condições materiais de existência, não há liberdade, ou melhor, existe uma liberdade parcial, que pode ser econômica (de comprar e vender mercadorias); ser de expressão ou política, pressupondo sempre a separação dos homens em relação às suas necessidades materiais de existência.

Talvez, como uma tentativa de resumir estas várias correntes de pensamento, considerando que o homem desde o seu nascimento goza de liberdade apenas parcial (cordão umbilical) e é influenciado pelo meio em que vive; lutando desesperadamente para conquistar seu espaço e para fazer valer sua vontade; sendo sempre dependente do bando ou tribo a que pertence para continuar existindo; na verdade precisa negociar durante toda a sua existência os limites para o exercício desta liberdade (código de conduta) preservando seus direitos (inalienáveis) restritos a si, como o poder pensar (livre arbítrio); poder viver e dispor do próprio corpo; poder defender-se; poder produzir e expressar-se (inclusive criação artística); poder locomover-se e poder constituir família (bandos menores).

Esta dependência do homem livre em relação ao meio em que habita, acaba por fortalecer o conceito de que o exercício da liberdade e até mesmo sua percepção, se dá primeiramente em nível local, e dizer, para que a liberdade seja de fato experimentada, deve-se primeiramente garanti-la na sua comuna, seu burgo ou município.

Se considerarmos que entre 80% e 85% da população mundial vive em cidades, a proposta do municipalismo ganha contextos globais, onde a ideia de existir um governo baseado na administração municipal, com a descentralização da administração pública em favor dos municípios, pode assegurar a real participação popular nos atos e decisões do Estado.

Aureliano Tavares Bastos (1839/1875),  político alagoano e patrono oficial dos municípios brasileiros, em sua obra “A Província” já propugnava pela descentralização administrativa e política do Império e pelo rompimento com o modelo monárquico, unitarista e centralizador, vigente à época no Brasil.

A crítica que tecia era sobretudo de ordem política e administrativa e era centrada na noção de autonomia.

Nela, os estados desempenhariam apenas o papel de “intermediário escrupuloso entre a União soberana e os municípios autônomos, com a finalidade precípua de adaptar as normas gerais emanadas daquela às peculiaridades locais destes” (Juarez Távora – 1942).

Nessa concepção, o município – matriz básica da sociedade política – está orgânica e simbioticamente entrelaçado com o poder central, emergindo, nessa perspectiva, como uma esfera comunitária que acomoda apenas a coletividade das famílias e seus valores ainda não distorcidos pelas instâncias que representarão.

Este municipalismo, libertário, baseia-se em instituições (assembleias) de índole vicinal que, praticando a democracia direta, se federariam a uma confederação de municípios ou comunas livres, sendo uma alternativa ao estado.

Nesta ótica, para o municipalismo o importante não é somente a esfera do poder econômico, mas sim o da convivência, na qual se vê ou se pretende fazer vir a ser, o motor propulsor de mudanças, capaz de, através da prática da democracia direta, propor uma via de organização social, de baixo para cima, que se faça suficientemente forte para derrocar o poder municipal burguês e exigir uma re-apropriação do município por parte da sociedade.

Antepondo-se à trindade que encarna o poder dominante (Estado, Capital e Igreja), a democracia participativa no âmbito do município elegeria seus representantes nas câmaras municipais que, à sua vez elegeriam os representantes de consenso para as Assembleias Legislativas e estes, com igual transparência, os representantes para a Câmara Federal, dando ao parlamento características de real representatividade popular.

Apesar dos membros da trindade anteriormente citada terem vidas paralelas, juntos eles compartilham da mesma semiótica indicadora de seu impulso original, a tomada e a mantença do poder, onde o dinheiro, princípio ativo do Capital; a representação, estrutura de Estado e a fé, razão de ser da Igreja, são ícones da mesma superstição e desejo, representados escandalosamente na cédula do dólar americano, que traz impresso em seu verso: In God We Trust (em Deus nós confiamos) entendendo-se "con - fiança", como  aval ou como permissão.

Na conjuntura da reunificação da economia com a teologia, a concepção  municipalista se reconhece como a mais alta expressão da ordem, democracia de proximidade e autodeterminação individual, libertadora dos novos tempos, requerendo contudo, uma cidadania responsável que, na prática helênica, deve ser acompanhada de uma educação ética e tolerante, respeitando a vocação religiosa de cada um; a pluralidade de caminhos na busca da transcendência através de práticas espirituais e de meditação; promovendo assim, uma transformação interior das pessoas para a melhoria do planeta.

Conforme princípios preconizados pela Doutrina Espírita para explicar as contingências ligadas à vida humana, conhecidos na literatura espírita com “Lei da Causalidade” ou “Lei de causa e efeito”, todo ato da vida moral do homem corresponde a uma ação semelhante dirigida a ele, criando-se assim, algo similar ao “cosmos ininterrupto de retribuição ética”, a que alude Max Weber (1864/1920) em sua obra Economia e Sociedade.

A lei de causa e efeito, afirmada como sendo uma “Lei” em filosofia, é um pseudo argumento usado por criacionistas, especialmente os biblicistas tentando derrubar a evolução dos seres vivos como fato e as afirmações da teoria da evolução, alegando que “nenhum efeito é quantitativamente maior e/ou qualitativamente superior à causa”.

Os criacionistas afirmam sobre sua aplicabilidade e amplo reconhecimento em diversas ciências como a Física, a Química e até a Matemática, sendo também encontrada em Biologia, Filosofia e Sociologia.

Por sua vez, como que para antepor-se a estas premissas, estas ações podem ser refutadas a partir da própria ciência, onde na Física demonstra-se que não existe tal princípio, pois um único nêutron pode desencadear uma fissão num núcleo atômico, como o urânio (que contém mais de um nêutron) causando sua fissão nuclear.

Na Química, onde uma simples faísca pode deflagar uma enorme quantidade de pólvora.

Em Matemática, tal afirmação não possui sentido, pois matemática  é  um  sistema  de  linguagem  lógica  sobre axiomas, portanto, não trata de coisas que sejam causadas ou sejam efeito de outras, assim como a Filosofia, em si, também não trata de fenômenos naturais, físicos.
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Maximillian Weber – Max Weber (Erfurt, 21 de Abril de 1864 —  Munique, 14 de Junho de 1920 )foi um intelectual alemão, jurista, economista e considerado um dos fundadores da Sociologia.
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Em Biologia, o exemplo seria direta e banalmente simples, pois um grupo pequeno e suficiente de bactérias patogênicas pode levar à morte um organismo complexo como o homem, ou mesmo, uma população inteira de indivíduos.

Na Sociologia, basta lembrarmos que um pequeno grupo de indivíduos, munido de discurso convincente e popular, pode conduzir uma população inteira à revolta ou revolução.

Na filosofia budista, a chamada lei de causa e efeito parte do pressuposto que tudo que é vivo no universo está sujeito a tal lei. Uma ação, uma palavra ou um pensamento, é uma forma de criar uma causa. O efeito corresponde à causa praticada, boa ou má. Assim, uma pessoa que leva sofrimento a outra, terá uma vida vazia e infeliz.

Uma das maiores figuras desta corrente de pensamento Mohandas Karamchand Gandhi (1869/1948) mais conhecido como Mahatma Gandhi (do Sânscrito Mahatma, A Grande Alma) foi o idealizador e maior defensor no Satyagraha (princípio da não agressão) como um meio de  protesto e de condução da revolução.

O princípio do satyagraha, frequentemente traduzido como “caminho da verdade” ou “busca da verdade” também inspirou gerações de ativistas democráticos e anti racistas, incluindo Martin Luther King, Nelson Mandela e recentemente Aung San Suu Kyi, em Miamar (antiga Birmânia).

Este conceito de não violência refere-se portanto a uma série de conceitos sobre moralidade, poder e conflitos que rejeitam completamente o uso da violência nos esforços para conquistar objetivos sociais e políticos.

Geralmente usado como sinônimo para pacifismo, a partir da metade do século XX (pós Gandhi) o termo “não violência” passou a ser aplicado também para designar conflitos sociais que não utilizavam o uso da violência.

O pacifismo, ou não violência, entende que o fim é um resultado do meio, num ciclo de causas e efeitos que se correlacionam e se estendem numa espiral evolutiva.

Desta forma, a paz não pode ser obtida através de métodos violentos repressivos, colocando-se como um exemplo prático de atitudes e ações que venham a contribuir para o pacifismo, o desarmamento planetário, iniciado de forma local.

Contra esta corrente de pensamento levantam-se poderosos grupos econômicos, fabricantes de armas, particularmente nos Estados Unidos, que pregam o direito à autodefesa para justificar a proliferação e disseminação de armas, muitas delas entregues à população civil dos países subdesenvolvidos (até para crianças) com o aval do governo americano que apóia através da CIA, grupos anti revolucionários por todo o planeta, como nos exemplos citados anteriormente, na América Central, no Caribe, no Oriente Médio, na Ásia ou na África.

Outra base de sustentação do ideal pacifista, o multiculturalismo, igualmente combatido pelas forças mais retrogradas, muito conservadoras e beligerantes da velha burguesia e de sua aliança religiosa, está calcada no respeito à diversidade étnica e social, contra todas as formas de preconceito e discriminação racial, cultural, religiosa, etária ou de orientação sexual.

A estabilidade política, econômica e social de qualquer sociedade reside exatamente na capacidade que tenha de atender prontamente às demandas de sua população, de característica heterogênea, em maior ou menor grau, mas de cuja diversidade se consegue extrair o elixir cultural  necessário para o seu desenvolvimento.

A filosofia de Jean Jacques Rousseau (1712/1778), uma das figuras marcantes do iluminismo francês e precursor do romantismo, está inserida na perspectiva dita contratualista de filósofos britânicos dos séculos XVII e XVIII, conforme seu famoso “Discurso Sobre a Origem e Fundamentos da Desigualdade Entre Homens”, onde abordava de forma inovadora para a época a questão da origem desta desigualdade ser ou não ser autorizada pelo direito natural do homem.

Com o mesmo discernimento, a idéia do internacionalismo pode ser trazida à luz do dia para que possa ser corretamente compreendida e entendida, colocando-se como uma necessidade da humanidade, que deve se desenvolver na forma de uma sociedade planetária, fraterna e que combata o chauvinismo, o etnocentrismo, a xenofobia, o integrismo religioso, o racismo e o neofascismo, em escala planetária, assim como as agressões ambientais de efeito global.

A ideia da preservação ambiental, pela sua própria concepção, é internacionalista pois nos é impossível limpar somente a metade de um rio fronteiriço ou controlar os ventos que emanam da nação vizinha.

À medida que estas questões ambientais cruzam as fronteiras, provocam a negociação entre as nações e derrubam antagonismos regionais, criam possibilidades de entendimento em outras questões, mais específicas.

Respeitar e compreender o passado, pensando e agindo para a construção do futuro nos leva à reflexão acerca de outro paradigma da sociedade moderna, que trata da cidadania feminina.

As civilizações mais antigas, consolidadas pela história  sempre promoveram a paridade entre os sexos, com algumas mulheres imortalizadas (exemplo de Cleópatra e Nefertiti), inclusive aceitando a predominância feminina nas relações de comando (Mama-san do sudeste asiático).

Esta predominância se dava pela observação do poder maternal exercido pela mulher nas fases de amamentação, educação, libertação e formação moral dos homens.

E estrutura de governo de muitas nações, baseadas na estrutura matriarcal (a mulher como chefe ou liderança maior da família ou do Estado), embora tenha sobrevivido ao longo da história humana e ainda exista em alguns países como Inglaterra (real) e Suécia (compartilhada), ambas monarquias constitucionalistas, apenas como exemplo, foi deliberadamente combatida pelo modelo patriarcal que, contando com o auxilio da Igreja, colocou a mulher numa posição inferior (física e moral) onde por força da religião se chegou a justificar sua mutilação ou até mesmo o direito do homem dispor sobre a vida da mulher, trazendo para os dias atuais, em boa parte do mundo, esta barbárie contra a figura feminina.

Até mesmo no simbolo da religião judaica, a Estrela de Davi, a mulher esta representada de forma submissa, recebendo o homem que a fecunda, abraça e protege.

A questão masculino / feminino deve ser entendida de forma democrática, avançando no sentido de se conceber uma profunda interação entre os dois polos nos diversos setores da sociedade, visando uma real adequação às necessidades circunstanciais.

Homem e mulher devem buscar, como integrantes do sistema social, mudanças e transformações internas que venham a se traduzir numa prática de caráter fundamentalmente cooperativo, almejando um maior poder (igualdade), maior participação e maior afirmação da mulher, dos valores e sensibilidade feminina, além do combate de todas as formas de discriminação machista ou sexista, buscando alcançar uma comunidade mais harmônica e pacífica.

Muitas mulheres, submetidas à pressão do exercício do poder e do governo, sofrendo as mais duras provações que o ser humano pode suportar, provaram sua capacidade gerencial nos momentos de crise.

A história da humanidade está repleta destas guerreiras que, a exemplo de Joana D´Arc, souberam conquistar seu espaço num mundo dominado por homens, dentre as quais citamos apenas para exemplificar: Golda Meir (1898/1978) fundadora do Estado de Israel; Indira Priyadarshimi Gandhi (1917/1984) a primeira mulher a ocupar o cargo de chefe de governo indiano; Margaret Thatcher (nascida em 1925) primeira ministra britânica; Angela Merkel (nascida no ano de 1954) chanceler da Alemanha; Michelle Bachelet (nascida em 1951) eleita presidenta do Chile em 2006; Luiza Erundina (nascida em 1934) a primeira mulher a ocupar a chefia da prefeitura da cidade de São Paulo; Marina Silva (nascida em 1958) que disputou a presidencia do Brasil, alcançando mais de 20 milhões de votos e Dilma Rousseff (nascida em 1947) a primeira mulher eleita presidenta do Brasil.

Estes exemplos, apenas no campo da política, mostram a capacidade feminina na gestão e no comando de nações das mais variadas correntes políticas e religiosas, trazendo a força para a coluna da beleza e tendo a sabedoria para promover a igualdade.

Thomas Robert Malthus (1766/1834), um economista, estatístico e demógrafo britânico, filho de um rico proprietário de terras que desenvolveu uma teoria observando o crescimento populacional e publicou em 1798 uma série de artigos com idéias onde alertava sobre a importância do promover o controle da natalidade para evitar a falta de recursos alimentícios para a população, como forma de evitar a fome.

Malthus defendia como medida para retardar este crescimento populacional a prática da castidade antes do casamento, ter somente o número de filhos que se pudesse sustentar e a rejeição moral de retardar o casamento.

Warrem Thompson (demógrafo estadunidense) em seu modelo de Transição Demográfica (1929) já previa uma mortalidade superior à natalidade provocada pelo alto custo para se criar um filho, principalmente nos países desenvolvidos.

Ambos os trabalhos, pautados em profundos estudos matemáticos, demonstram a necessidade de promover algum tipo de controle sobre o crescimento populacional, servindo de justificativa para a promoção de novas guerras, da proliferação da pobreza, da fome e para a manutenção do atual estado de coisas pela burguesia.


Professor Orosco

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

O DÉCIMO BILHÃO - Parte 08 de 10

O OITAVO BILHÃO

Finalmente foi concluído o Projeto Genoma, do sequenciamento genético humano.

As pesquisas com células tronco ganharam enorme impulso dado seu potencial econômico.

Foram descobertos os planetas-anão Éris e Sedna que, com a nova classificação dada a Plutão e ao asteroide Ceres, passaram a formar um segundo grupo no Sistema Solar, que voltou a ter apenas 8 planetas.

Descobriu-se o planeta Gliese 581, o primeiro planeta possivelmente habitável fora do Sistema Solar.

A comunicação humana através das redes sociais atinge praticamente todo o planeta, auxiliada por uma tecnologia de “Banda Larga” capaz de transmitir dados, sons e imagens a velocidades inimagináveis, etc.

Por sua vez, como que para justificar o paradoxo de nossa existência, iniciamos este novo milênio repetindo as mesmas tolices que caracterizaram a presença humana no planeta Terra, onde a intolerância religiosa, o preconceito e a xenofobia estão tão presentes  hoje quanto estavam no período inicial da revolução industrial.

Caiu o muro de Berlim, mas em seu lugar ergueram-se outros:
Um deles, entre os Estados Unidos da América e seu parceiro do NAFTA (o primo pobre) o México está em plena construção; outro no Oriente Médio onde Israel, apesar dos protestos, ergue um muro para isolar os palestinos na Cisjordânia, já planejando construir outro na fronteira com o Egito; entre a fronteira da Turquia com  a Grécia, na região conhecida por Trácia, outro muro está sendo construído.

Na Arábia Saudita com seus inúmeros paredões na fronteira com o Iêmem; na Índia nas fronteiras com o Paquistão, com Bangladesh e com Miamar (antiga Birmânia) ou na China onde se ergueu uma nova muralha na fronteira com a Coréia do Norte que por sua vez ergueu outro na fronteira com a Coréia do Sul demonstrando que a humanidade nada aprendeu com os paredões do Gueto de Varsóvia ou com o simbolo maior da Guerra Fria, o Muro de Berlim que separava e dividia  em duas a Alemanha.

De outro lado, dada a ocupação irracional do planeta, sem as devidas salvaguardas, e pelo consumo desnecessário de seus recursos naturais, acabamos por potencializar as fatalidades quando ocorrem fenômenos atmosféricos, climáticos ou tectônicos, tornando a frágil manutenção dos eco-sistemas ainda mais frágil para a preservação da vida.

As camadas mais simples da sociedade, em qualquer parte do mundo, continuam a ser manipuladas pela mídia e pelos interesses da burguesia, sofrendo o processo hegemônico cultural que lhes é imposto pelas classes dominantes.

Apesar de conectados via Internet, as pessoas estão cada vez mais isoladas e solitárias, afastando de si o principio natural de defesa,  a formação de bandos como forma de reivindicar seus direitos, de promover seu sustento ou exigir mudanças.

Continuam a sensibilizar-se pelo naufrágio do Titanic, que em 1912 provocou a morte de 1.523 pessoas, retratado em uma bela história de amor no cinema, mas ignoram a tragédia provocada pelo tsunami na Indonésia que em 2008 provocou a morte de quase 300 mil pessoas.

Acompanham durante vários dias seguidos, emocionados, na frente dos televisores, ouvindo rádio, lendo nas manchetes dos principais periódicos, nas revistas e na própria Internet, notícias sobre o resgate de 33 mineiros presos em uma mina de cobre no Chile em 2010, esquecendo-se quase totalmente do terremoto no Haiti, também em 2010, que vitimou quase 220 mil pessoas e deixou milhões de desabrigados.

Colaboram financeiramente em campanhas televisivas ou radiofônicas em prol de causas nobres, locais, quase sempre sem a transparência ou a comprovação do real emprego dos recursos, mas ignoram o extermínio na África, pela AIDS, pela guerra, pela fome e principalmente pela indiferença.

Recusam-se a cobrar dos seus representantes a recuperação, por exemplo, do acervo científico da República da Georgia (ex - União Soviética) sobre as alternativas viáveis e economicamente melhores para o controle de infecções, em substituição aos antibióticos, manipulados conforme o interesse da indústria farmacêutica internacional, um dos exemplos mais presentes da burguesia e do capitalismo selvagem.

A própria administração dos pequenos ajuntamentos, bandos, associações de classe ou sindicatos de trabalhadores, seguindo uma política imposta pelos blocos econômicos dominantes, hegemônicos, imputa à sociedade um modelo segregacionista, fomentando ao invés de classes sociais, castas, como forma de manutenção das conquistas e dos privilégios alcançados.

Assim, apenas para exemplificar, uma casta composta por médicos, estudantes de livros e compêndios de anatomia, específicos, auto denomina-se a única representante legal para tratar doenças, requerendo punição severa contra todos os que questionarem seus métodos, inclusive guardando para si, dentro do mais arcaico espirito corporativista, o direito de avaliar procedimentos e decisões que podem afetar a vida e a saúde de outros, como o da aposentadoria por doença, etc.

Neste conceito, até as velhas senhoras dos longínquos campos férteis da literatura, nossas avós, poderiam ser acusadas e queimadas na fogueira da modernidade, pela prática irregular da medicina ao sugerirem o uso de determinado chá para cólicas das crianças ou pela “benzedeira do quebrante”.

Da mesma forma, um engenheiro, até mesmo o recém formado, tendo o amparo legal para ser o único “ser” capacitado a assinar uma planta de uma pequena edificação popular, vale-se disto para garantir trabalho e renda, quando poderia, por exemplo, apresentar-se à sociedade como um consultor, especialista em edificações, detentor de conhecimentos sobre materiais, sistemas elétricos e hidráulicos, sistemas de ventilação, de proteção térmica e acústica, além de outros, capaz de otimizar qualquer obra, reduzindo custos, garantindo prazos e assegurando uma boa qualidade construtiva, colocando-se como fiel  defensor dos interesses do  cliente.

Um advogado, decorando um livro de leis, auto intitula-se “doutor” e único “ser” capacitado para promover e redigir uma ação de caráter civil, perante um determinado foro, agindo como intérprete da população leiga perante um juiz, que da mesma forma se auto atribui o direito de julgar, mandar prender ou mandar soltar, sem que para isto tenha recebido uma autorização da sociedade civil (o processo de acensão profissional dentro do poder judiciário é restrito aos procedimentos internos do próprio poder judiciário, sem nenhum controle da sociedade civil que o sustenta), igualando-se ao clero romano e às igrejas na sua forma estrutural.

Exemplos de igual espirito corporativista podem ser encontrados junto dos professores, jornalistas, policiais, contadores, corretores de seguro, artesãos (artistas) ou funcionários públicos, além de outros que, defendendo aguerridamente uma causa própria, esquecem-se que estão todos presos à mesma corrente, imposta pelo bloco hegemônico que os controla, educa e oprime.


E dizer, no início deste novo milênio, as coisas estão como sempre estiveram, com o agravante de que, nos últimos 200 anos, multiplicamos nossa presença no planeta por 7 (sete), com a previsão de somar mais um bilhão de pessoas aos já existentes, nos próximos 15 anos e atingindo o número de 10 bilhões de habitantes nos próximos 50 ou 60 anos, que precisarão ser alimentados, “beber água potável”, vestir-se, educar-se, ter acesso à saúde e a bens de consumo, tornando o desafio de encontrar caminhos e alternativas uma tarefa hercúlea para todos os que pensam no futuro de filhos e netos.

Professor Orosco