domingo, 27 de julho de 2014

Reflexões


Por mais que se deseje, só podemos entrar até o meio da floresta.

O sistema burguês de produção denunciado por Marx, onde o Capital e o mercado determinam a prioridade e o valor das coisas, tendo fragmentado o trabalho, fragmentou também o conhecimento, tornando o homem um ser alienado e compulsivamente desejante, afastado da realidade de que é preciso “antes plantar para depois colher”.
A urgência da posse e do consumo, associados à liberdade conquistada, tornam as pessoas descompromissadas e egocêntricas, provocando a deturpação dos valores morais e promovendo o caos em que nos vemos mergulhados como sociedade.
A liberdade é desejável e boa, mas só é boa se for para todos e, para que assim seja, não pode ser incondicionada.
Precisa ter os limites estabelecidos para que se possa viver em sociedade, onde o direito de um termina reconhecendo o direito do outro.

Professor Orosco.

sábado, 26 de julho de 2014

HABEMUS PAPAM


Quando vemos o Papa Francisco comendo batatas, num bandeijão, junto com os funcionários do Vaticano, muitos podem achar esta sua simplicidade como um ato demagógico, outros uma pura tolice, outros, ainda, motivo de adoração.
Na verdade, a mensagem que ele transmite, remonta a Aristóteles, a Porfírio, qual seja:

"Na escala dos gêneros, o Simples é aquele que tem maior extensão.
O complexo, é aquele que precisa de muita explicação.
Deus é o Ser mais simples de todos os seres.
O homem, ser, infinitamente menor, mais particular, é muito mais complexo."

Quando olha o mundo do seu ponto de vista, vê no sentido contrário, entendendo-se como o primeiro e o mais importante, o que, do "seu ponto de vista", não está errado.
Porém, na verdade, como ser criado, foi feito com a sobra do barro, tornando-se o mais incompleto e desejante ser da criação divina, cuja humildade é a mais importante e talvez a última virtude que precisa ou deseja.

Professor Orosco.


terça-feira, 22 de julho de 2014

PONTO DE VISTA


Na tentativa de melhorar sua defesa, afastando o perigo de morte violenta, os homens tendem a aceitar que o poder real seja delegado ao Estado, que promoveria, por coerção, a defesa de todos contra todos.
Da mesma forma, alianças ou pactos de defesa mútua e de não agressão que são estabelecidos entre nações, melhoram a sensação de segurança, apresentando maior poder de resistência contra um hipotético agressor.
Segundo Thomas Hobbes (Leviatã, Cap. XVI) os contratos e os pactos devem ser obedecidos e cumpridos sempre, pois caso não o sejam, perdem sua força e credibilidade, levando todos ao estado de natureza, da guerra de todos contra todos.
Maquiavel, por sua vez (O Príncipe, Cap.XVIII), afirma que os contratos, preferivelmente, devem ser honrados e, com isso, aceita uma situação em que poderiam não sê-lo.
Exemplificando:
No caso de uma invasão/agressão de uma nação amiga por potência estrangeira, que pode ser rechaçada pela somatória das forças amiga e própria, o contrato, o pacto, deve ser honrado na sua totalidade.
Cumprir a palavra empenhada, seguramente possibilitará ganhos e assegurará a mantença da paz firmada pela aliança.
No entanto, se a potência estrangeira e invasora tiver força militar e recursos que superem a capacidade de resistência combinada da nação agredida e de seu aliado, ainda que somadas, cabe uma reflexão por parte do Príncipe sobre cumprir ou não a palavra empenhada.
Se o amigo ficar ofendido pelo não cumprimento, os danos provocados por ele serão menores do que a ofensa da potência invasora, que, nos tomando igualmente por inimigos, atacará nossa nação.
Como a obrigação maior do Príncipe está em salvaguardar os interesses de seu povo, a “aliança com o inimigo do meu amigo”, neste caso pode chegar a ser benéfica se, ao final da contenda, parte dos espólios da guerra seja revertido em nosso favor.
A reflexão que se pede, assim, é tentar ponderar qual das duas situações se mostra melhor.
Marchar com meu aliado, de mãos dadas, ao cadafalso ou trair sua confiança e resguardar o interesse maior do próprio povo.
Lembremo-nos ainda, antes de tomar a decisão, de que não se conhecem os motivos que originaram a agressão.
Podem ter sido por cobiça ou por resposta a outra agressão.


Professor Orosco.

A PÊRA DE KANT


Ao abrir a geladeira de sua casa, um pai que desejava comer uma fruta, percebe que no refrigerador só havia uma pêra.
Ele pega a fruta, divide-a em quatro partes e as oferece à esposa e aos três filhos, para que estes se deleitem comendo a fruta.
Ao fazer isso, abre mão de seu desejo, de sua vontade, para saciar um apetite maior, que é o amor à sua família.
Faz isso, mesmo que naquele momento os rebentos não desejassem comer a pêra, incentivando-os a alimentar-se comendo uma fruta sadia.
Em seu estado de natureza, poderia comer a fruta pois, afinal, este é seu direito natural, mas não o faz porque não seria seu direito moral.
Poderia dividir a fruta em cinco partes, mas não o faz porque seu amor é maior que a fome.
Esta é a casa de Kant.
Somos aquilo que nossa intenção determina.
Assim, podemos concluir que não é ilegal, não ajudar os menos favorecidos, como a criança abandonada, a pessoa com deficiência ou o velho desamparado, só é imoral.

Professor Orosco.

terça-feira, 8 de julho de 2014

FIGO OU MAÇÃ ?

PROBLEMA FILOSÓFICO:

Para alcançar o conhecimento, devemos comer FIGO OU MAÇÃ?

“E o Senhor Deus fez brotar da terra toda a árvore agradável à vista e boa para comida, e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal” (Gn 2,9)

Em representações mais clássicas, Adão e Eva comeram do fruto da árvore da ciência e do conhecimento, do bem e do mal e, ao fazê-lo, perceberam-se nus.
Embora nas escrituras não esteja especificada o tipo de árvore da qual experimentaram o fruto, especula-se que esta tenha sido uma macieira, e o fruto uma maçã.
A ideia da maçã remonta a um trocadilho da língua latina, onde a palavra malum significa tanto mal quanto maçã (a frase real para o bem e o mal é “boni et mali).
Outros especulam que a árvore tenha sido uma figueira, e o fruto um figo, porque depois que Adão e Eva comeram o fruto, cobriram sua vergonha com uma folha de figueira.
De qualquer forma, estudando ambas possibilidades, descobrimos que, o fruto da macieira, a maçã, rica em fibras é grande aliada contra os altos níveis de colesterol e suas fibras também contribuem para a regularidade intestinal, nivelando a quantidade de água presente nas fezes.
Também é uma fruta rica em fitonutrientes, incluindo flavonoides e fenóis, atuando os primeiros como antioxidantes que, além da contribuição contra as doenças coronárias, atenua a degradação óssea.
Sua casca, rica em fenóis, é útil na prevenção de várias doenças crônicas e auxilia na proteção da pela contra os raios ultravioleta do Sol.
Não é sem fundamento que Steve Jobs, símbolo da tecnologia moderna, a escolheu como símbolo  para representar sua empresa ligada à propagação da informação e conhecimento.
Já o figo, que possui boa quantidade de açúcar, magnésio, potássio, cálcio, ferro e fibras, é especialmente recomendado para doenças do fígado, da vesícula biliar e casos de esgotamento físico, auxiliando, também, na redução do colesterol, controle do diabetes e hipertensão.
Em verdade, é importante frisar que, cientificamente falando,  o figo não é uma fruta, mas uma espécie de receptáculo de frutas denominado “sícone”, em forma de pêra, que suporta as flores masculinas e femininas que darão origem aos pequenos frutos, denominados “aquênios”, aos quais vulgarmente chamamos sementes, rico em polifenóis, ácido clorogênico, carotenos, taninos e flavonoides.
Existem, nas escrituras, inúmeras passagens em que se registra o apreço de Jesus pelo figo como alimento.
Portanto, face o exposto e, diante da falta de maiores informações, a prudência e a boa saúde recomendam o consumo salutar e frequente de ambos, de forma moderada e alternada.

Professor Orosco


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sábado, 5 de julho de 2014

MOÇÕES


Denomina-se moção à ação ou consequência de mover ou mover-se; aquilo que denota movimento.
Existem nos animais dois tipos de moções que lhes são peculiares. 
As chamadas vitais que começam no momento em que um ser é gerado e o acompanham durante toda a sua existência, como: circulação do sangue, pulsação, respiração, digestão, excreção, etc., que não necessitam da imaginação.
O outro tipo são as moções animais, também chamadas voluntárias, que são: andar, falar, mover um de nossos membros da forma como foi imaginado por nossa mente.
Essas sensações são moções dos órgãos e das partes internas do corpo provocadas pelas coisas que vemos, ouvimos, etc.
Esses tênues começos da moção, dentro do corpo humano, antes que surjam a marcha, a fala, a luta ou outras ações visíveis são chamados de esforços.
Este esforço, quando se dirige a algo que o causa, é denominado apetite ou desejo.
Quando o esforço se traduz em afastamento de algo, é denominado aversão.
Então, podemos dizer que apetite e aversão são moções de aproximação e afastamento.
Os seres humanos desejam aquilo que amam, e odeiam coisas pelas quais tem aversão.
As coisas que não desejamos nem odiamos são chamadas depreciadas, e dizer, a depreciação nada mais é do que uma imobilidade ou contumácia do coração, que resiste à ação de certas coisas.
O que denominamos bom é, quase sempre, objeto de algum apetite, enquanto mau é objeto de ódio ou aversão.
O apetite, unido à ideia de alcançar, chama-se esperança.
A mesma paixão, sem essa idéia, é desespero.
A aversão, ligada à ideia de poder ser ferido pelo objeto, chama-se temor.
Quando alguém tem a esperança de poder evitar esse ferimento pela resistência, a aversão toma o nome de coragem.
A coragem repentina é chamada cólera.
A esperança constante, confiança em nós mesmos.
O desespero constante, desconfiança de nós mesmos.
A ira, diante de grande dano feito a outrem, quando concluímos que foi feito injustamente, recebe o nome de indignação.
O desejo de bem ao próximo chama-se benevolência, boa vontade, caridade.
O desejo de riquezas, cobiça.
O desejo de posição ou proeminência chama-se ambição.
O desejo que dificilmente conduz às metas e é obtido de coisas que opõem alguns obstáculos para serem alcançadas é denominado pusilanimidade.
O desprezo por ajudas ou obstáculos insignificantes, magnanimidade.
A magnanimidade em perigo de morte ou ferimento, coragem, firmeza.
A magnanimidade no uso das riquezas, liberalidade.
A pusilanimidade em relação às riquezas denomina-se tacanhice, miséria e parcimônia, segundo seja aceitável ou não.
O amor pelo próximo, em sociedade, amabilidade.
O amor às pessoas, por mera complacência, é lascívia natural.
O mesmo gênero de amor, mediante maquinação insistente, por imaginação do prazer obtido no passado, é luxúria.
Amor particular por alguém, com desejo de ser reciprocamente amado, é paixão amorosa.
O mesmo, porém cercado de dúvidas de que haja reciprocidade, é ciúmes.
O desejo de fazer mal a outrem, obrigando-o a lamentar algum fato ocorrido, é afã de vingança.
O desejo de saber por que e como, curiosidade.
O temor invisível, imaginado pela mente ou baseado em relatos publicamente permitidos, chama-se religião; quando são proibidos, superstição.
O temor, sem apreensão do como ou do porquê, terror, pânico.
A alegria pela compreensão de uma novidade se chama admiração.
A alegria gerada pela imaginação da própria força e capacidade do homem é a exultação da mente que se denomina glorificação; quando se baseia na experiência de ações passadas, chama-se confiança; quando porém, se fundamenta na bajulação de outrem ou no próprio conceito para usufruir dos deleites das consequências, toma o nome de vanglória.
O pesar ocasionado pela opinião de ausência de poder é chamado desalento da mente.
O entusiasmo repentino é a paixão que proporciona as caretas a que chamamos riso.
Ao contrário, o desalento repentino é a paixão que causa o pranto.
O pesar causado pela descoberta de falha de capacidade chama-se vergonha, que é revelada pelo rubor.
O desprezo pela boa reputação chama-se impudicícia.
O pesar causado pela calamidade sucedida a outrem denomina-se piedade.
Associado à ideia de que também nos possa ocorrer, compaixão ou solidariedade.
O desprezo ou indiferença pela desgraça alheia denomina-se crueldade.
O pesar suscitado pelo êxito de um competidor por riquezas, honra e outros bens, quando unido ao propósito de fortalecer nossas próprias aptidões, chama-se emulação.
Se estiver associado ao propósito de suplantar ou criar obstáculos a um competidor, recebe o nome de inveja.
Quando na mente humana se registram de forma alternada apetites e aversões, esperanças e temores, relativos a uma mesma coisa, de forma que, algumas vezes é despertado o nosso apetite e, outras vezes, a aversão, a soma desses desejos, aversões, esperanças e temores, que continuam até que a coisa seja feita ou considerada impossível, é aquilo que chamamos deliberação.
Na deliberação, o apetite ou aversão imediatamente mais próximo da ação ou omissão corresponde ao que chamamos vontade. O ato, não a faculdade, de querer.
Essas formas de linguagem são expressões ou significados voluntários de nossas paixões, cujos melhores signos se encontram nas feições, nos movimentos do corpo, nas ações e nos fins, ou propósitos, que, aliás, sabemos que o homem possui.

Professor Orosco.

Extraído de: Hobbes, Thomas. Leviatã. Trad. Rosina D'Angina. 2. Ed. São Paulo: Martin Claret, 2012, pg 47 - 57.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

TRAIÇÃO


Cristo foi traído.
César foi traído.
Durante a história do homem a traição sempre esteve presente, sendo uma ação, uma atitude, inerente do comportamento humano.
Assim, desde Abel, traído por Caim, ou José por seus irmãos, se examinarmos com afinco a história da humanidade, encontraremos inúmeros exemplos, num amplo espectro de gênero e grau.
Dalila traiu Sansão; Nero traiu sua mãe, traiu aquela que o gerou e o conduziu ao trono; Hitler traiu o povo alemão, assim como foi traído por seus generais.
Por desejo, por cobiça, por inveja, por temor ou qualquer outro motivo, as causas são tão variadas quanto os seus efeitos e danos provocados.
No entanto, faz-me mister observar que as sequelas provocadas por ela, independentemente de sua extensão, ficam de tal forma gravadas e alcançam tal profundidade na alma e na memória, que mesmo "perdoadas" ou "toleradas e aceitas", jamais serão esquecidas.
Como um vaso de cristal que se quebra e não pode ser colado, a confiança nunca mais será, plenamente, restabelecida e a muralha levantada entre as partes, mesmo que tenha várias janelas, será sempre dolorosamente intransponível.
O paradoxo é que, mesmo aquele que trai, espera não ser traído.
Todos os homens rendem homenagens à verdade e à lealdade, tidas e aceitas como virtudes dos homens de honra, mas, da mesma forma que não obedeceram ao código draconiano de leis, "quase" todos, igualmente, se permitem desobedecer à regra que pregam, vez ou outra.
Thomas Hobbes, embora não a tenha citado textualmente, seguramente a classificaria como um dos "direitos naturais do homem", considerando-a uma atitude tão natural como aquelas que visam a própria preservação.
De qualquer forma este tema ocupará, ainda por muito tempo, a atenção e o interesse de muitos filósofos, que buscam compreender a essência humana.
Da moral kantiana à loucura de Nietzsche, o consenso sobre o tema ainda está no campo da utopia.

Professor Orosco