sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A CULPA É DA GEOGRAFIA


Quem primeiro chamou os egípcios de egípcios, foram os gregos, assim como chamaram os iraquianos de persas.
Quem chamou os gregos de gregos, foram os romanos, pois eles mesmos se tratavam por helenos.
A história da humanidade está tão repleta de eufemismos e rotulações preconceituosas sobre os povos que, além de um caráter xenofóbico (chamavam-se de bárbaros todos aqueles que não falavam grego), a quase totalidade das denominações tribais se dá de forma puramente histórico geográfica, influenciada por fatores, no mínimo, curiosos.
Assim, os normandos são os descendentes dos vikings que invadiram a França e tomaram a Normandia; os franceses são descendentes dos francos; os russos são descendentes dos povos nômades da Escandinávia conhecidos por Rus, etc.
Ocorre que, bem mais do que a simples rotulação dada aos povos, a grande diferença entre eles pode ser explicada pela geografia, disciplina que praticamente foi retirada do contexto escolar ou mantida de forma desconectada de seus aspectos histórico sociais.
Segundo Montesquieu (1689/1755) em seu “Espírito das Leis” e Rousseau (1712/1778), de quem foi contemporâneo, em seu “Discurso Sobre a Origem da Desigualdade”, ambos grandes filósofos iluministas, para a compreensão das diversas sociedades humanas, é preciso, antes, compreender “o espírito do povo”, ou seja, suas leis, sua cultura, o desenvolvimento de sua história, sua religião, o tamanho de seu Estado (território) e suas implicações geográficas, principalmente aquelas ligadas ao clima.
A Europa, que ganhou status de continente, na verdade fazia parte da Eurásia, que foi dividida, não pelo mar, mas pelos fatores anteriormente citados.
Seu desenvolvimento foi acelerado pelas características climáticas e pela regularidade das chuvas, frequentes, moderadas e constantes durante todo o ano, decorrentes da grande massa de água quente que conhecemos por Corrente do Golfo, que nasce em mares tropicais ao largo da costa africana, desloca-se para o oeste até o Caribe e retorna novamente pelo Atlântico numa direção nordeste.
Associa-se a isto o fato de que a Europa tem invernos suficientemente frios para impedir a propagação de agentes patogênicos e pragas, que beneficiam as atividades agrícolas e pastoris, contribuindo, também, para uma menor incidência de doenças.
O desenvolvimento das práticas de higiene, particularmente do banho e da assepsia das mãos antes de comer após a invenção do sabonete (1791), que pouco a pouco foram incorporadas à cultura local, praticamente eliminaram, no último século, as doenças epidêmicas, como tifo e cólera, bem como reduziram o estado beligerante das pessoas, fenômeno diretamente proporcional à quantidade de banhos praticados, principalmente a partir da segunda metade do século passado, e dizer, depois da segunda grande guerra.
Este suprimento confiável e uniforme de água propiciou um padrão de organização social e política diferente do predominante nas civilizações ribeirinhas onde o poder, o controle dos alimentos cabia inevitavelmente aos que detinham o domínio do curso das águas.
Embora a Europa conheça mais de um clima, apresentando uma precipitação pluvial mais abundante e uniforme ao longo do Atlântico e maior amplitude térmica à medida que avança continente adentro, ou, apesar, das temperaturas moderadas e chuva mais esparsa e irregular nas costas mediterrâneas, ainda apresenta boa condição de pastagem e cultivo de oliveiras e vinhas, em substituição aos cereais.
No Brasil, um país de dimensões continentais, ao exemplo do restante do mundo, a influência do clima, associado à geografia (altitude, longitude e latitude), ajuda-nos a compreender a diversidade de tipos humanos, de sociedades (culturas) que dão uma característica heterogênea à nossa gente, praticamente única em todo o planeta.
De maneira geral, o clima influencia no “espírito do povo”, apresentando, por exemplo, melhores condições de desenvolvimento da sociedade à medida que se apresenta frio e úmido, como no sul, quando comparados ao calor extremo e umidade elevada da selva equatorial ou ao calor extremo e umidade baixa da caatinga.
Nos climas quentes, a generosidade da natureza é maior que nos climas frios.
Consequentemente, o senso de comunidade, de trabalho em grupo, é mais acentuado nas regiões frias que o verificado nas quentes, onde o individualismo é mais marcante.
Face a isto, o amor à liberdade política dos habitantes é maior nas regiões frias que nas quentes, que, por sua vez, usam mais os sentidos e menos a reflexão.
Os habitantes das regiões mais quentes destacam-se em atividades culturais (artesanato, pintura, música, literatura) ao passo que os habitantes das regiões mais frias destacam-se em filosofia e ciências e atividades laborais que envolvem esforço repetitivo.
É explicável, pelo clima, o maior desenvolvimento econômico, da indústria e da agricultura, na região sudeste que no nordeste, principalmente quando ela está associada às características hidrográficas e ao tipo de solo.
Apenas para exemplificar, a temperatura média no ano de 1980 em São Paulo era de 22ºC e a umidade relativa do ar era de 70%, ao passo que na caatinga, a temperatura quase sempre é superior aos 30ºC e a umidade relativa do ar é inferior a 20%.
Pelo melhor desenvolvimento econômico, as condições de vida e a renda per capta, das regiões mais ao sul, acabam sendo privilegiadas quando comparadas ao norte e ao nordeste, inclusive em termos de saúde, de educação, explicando, em parte, o fluxo migratório que ocorreu no século passado.
Diante das melhores condições de vida, da melhora educacional média da população, da melhor compreensão da vida em sociedade, do “amor à liberdade política” e diante do maior desenvolvimento daquilo que chamamos cidadania, compreende-se a maior corrupção no Brasil, comparado à Europa e nele das populações de regiões de clima quente em relação às mais frias.
Os primeiros, mais individualistas, aceitam melhor, toleram mais, a grande corrupção governamental, quando recebem pequenas regalias (outra forma de corrupção), como outrora as Cestas Básicas ou agora o Bolsa Família, um excelente programa de distribuição de renda, infelizmente desconectado, e frise-se isto, de medidas complementares para a promoção da emancipação que lhes daria a autonomia no médio prazo.
Embora a tecnologia venha, aos poucos, amenizando este efeito, ele é um fato, e, ainda, por um bom tempo, mostrará, percentualmente, seus efeitos nos processos eleitorais que teremos pela frente.

Professor Orosco


terça-feira, 21 de outubro de 2014

AONDE AMARRO O MEU CAVALO?


            Refletindo um pouco sobre os recentes acontecimentos mundiais, de caráter eleitoral ou não, que são insistentemente apresentados e reapresentados por uma mídia ávida de novas notícias, começo por elaborar, em uma linha de raciocínio frankfurtiana, um pequeno ensaio sobre os caminhos de nossa sociedade contemporânea.
            Acompanhando a crítica de Habermas sobre a sociologia, entendemos que esta disciplina se coloca no campo conservador, dado os próprios métodos que desenvolveu para se solidificar como ciência.
            A linha positivista de Comte, a exemplo do racionalismo cartesiano, só promoveu, de fato, uma redução do elemento humano, reduzindo-o, pelo método, a um emaranhado de normas e procedimentos.
            Esta liberdade negativa, que proíbe os excessos, pode até ser entendida como boa no momento em que permite o livre exercício de todas as alternativas restantes e que, se utilizada para o bem, permitem o desenvolvimento da sociedade como um todo.
            Em contrapartida, como consequência e para prevenir as distorções, por ser negativa, exige, cada vez mais, novas regulamentações, novas leis e novas regras de convivência, e dizer, esta liberdade negativa, atuando como mola reguladora das pressões sociais, como repressora dos abusos, acaba por institucionalizar a burocracia e a normatização da vida em si.
No exemplo do maior temor de Lênin, quando desenvolveu os caminhos para sua revolução bolchevique, a burocracia institucionalizou-se e, com ela, as amarras do livre pensamento foram reforçadas a tal ponto que, a livre iniciativa, o desejo de saber o que existe do outro lado da montanha, mola propulsora da humanidade, ficou submersa em pilhas e pilhas de normas, leis e decretos.
Na prática, ela acabou invertendo a sua própria lógica, passando do “eu posso fazer tudo aquilo que a lei não proíbe” para “só posso fazer aquilo que está na lei”.
Com isso, a sociedade, tornando-se inevitavelmente refém do Estado, fica condenada à estagnação ou até pior, ao retrocesso, já que nem todas as pessoas cumprem a lei.
As observações desapaixonadas dos fenômenos sociais ou das novas descobertas científicas, que poderiam indicar mudanças de rumo para a humanidade, ficam prisioneiras das leis existentes, enclausuradas no fundo “da caverna”, relegadas a meras sombras ou impressões distorcidas da realidade.
Um exemplo prático destas atitudes, em nível mundial, pode ser observado na recente epidemia pelo vírus Ebola que assola a África e atemoriza o mundo.
A primeira vez que este vírus surgiu foi em 1976, em surtos simultâneos em Nzara, no Sudão, e em Yambuku, na República Democrática do Congo (antigo Zaire) em uma região situada próximo do Rio Ebola, que deu nome à doença.
À época descobriu-se que morcegos frutívoros eram os hospedeiros naturais deste vírus, cuja  taxa de fatalidade varia entre 25 e 90%, entre infectados, dependendo da cepa.
A burocracia e as prioridades econômicas de uma geopolítica de um mundo regulado pelas leis de mercado, fizeram com que as medidas de contenção e prevenção fossem relegadas a um segundo plano.
Em outro exemplo, o surgimento do Estado Islâmico, que hoje toma boa parte do noticiário internacional, chocando o mundo com cabeças separadas do corpo, se olharmos para o passado recente, já se mostrava como possibilidade, apresentando-se como resposta real a uma política expansionista americana, mais interessada no petróleo que na verdadeira melhoria da qualidade de vida daquele povo.
A burocracia cegou-nos ao ponto de não visualizarmos que a democracia ocidental que insistimos em exportar, pode não ser o regime que aquela parte do mundo deseja ou que está disposta a adotar.
Novamente relembro o mito da caverna de Platão.
Em um exemplo local, a crise de abastecimento hídrico que nos afeta, apresenta-se também, como consequência de uma burocracia que engessou a máquina estatal, que alterou prioridades e que solapou os investimentos sabidamente necessários para evitá-la.
Todos os que se dispuseram a “pensar”, enxergaram o abismo que se aproximava.
Porém, como comodamente só podemos fazer aquilo que está na lei, não cabia a ninguém, ou melhor, não era prudente , adiantar-se e investir para solucionar um problema que quase ninguém parecia perceber.
As prioridades eram outras: eleições, metrô, saúde, educação, habitações populares, corredores de ônibus e ciclovias, para não falar em outras.
Em suma, repetindo a proposta de Habermas em sua “Teoria da Modernidade”, se não conseguirmos, enquanto sociedade, nos libertar deste racionalismo burro que impede que se veja além do caminho previamente demarcado, que nos liberte dos grilhões impostos pelo mercado, que nos proteja do gládio de uma máquina estatal burocratizada, não teremos local seguro para amarrar nosso cavalo.

Professor Orosco.