quinta-feira, 26 de março de 2015

QUEM VIVER, VERÁ !



Ao nos aproximarmos, novamente, do 31 de Março, onde alguns saudosistas e outros alienados comemoram a data, tomando uma generosa e genuína dose de 51, achando-a uma "boa ideia", eu, aqui em minha reclusão forçada por uma gastroenterite, estudando um pouco de história e, particularmente, da história dos direitos do homem, lendo Condorcet, um filósofo que escreveu "Reflexões sobre a escravidão dos negros" (1781), que ele achava absurda e não natural, deparei-me com a questão dos impostos que, acredito ser, bem atual.
Segundo seu pensamento liberal, arrecadar impostos para realizar "Obras de Beneficência", aqui entendidas como Bolsa Família, Estádios de Futebol ou Instalações Olímpicas, ferem os direitos do homem.
Ferem estes direitos porque privam aqueles que pagam os impostos da liberdade de disporem de seu dinheiro da melhor forma que lhes aprouver.
Conforme Condorcet, que defendia somente os impostos necessários, como os provenientes do uso da terra e dos recursos naturais, nos princípios de uma "justiça rigorosa", um imposto que tem por objeto apenas a utilidade deveria, para adquirir legitimidade, obter aprovação de "todos" os indivíduos obrigados a pagá-lo.
Isto já ocorreu por aqui, a exemplo da CPMF que seria destinada a saúde, um imposto com o qual todos concordaram,civicamente, em pagar.
O problema é que, no passado, e sempre no passado, o governo foi desonesto e desviou estes recursos para outros fins, como o custeio das "Despesas Mensais do Congresso", construção da ferrovia polo norte / polo sul, irrigação da caatinga via transposição do "velho chico", refinarias na Bolívia, etc.
Agora, diante de um novo pacote, onde seremos todos embrulhados, novamente a transparência é exortada, a tal ponto de ser translúcida, onde nada se pode ver (nem a necessidade, nem a finalidade e, muito menos a causa ou a duração do sacrifício), pergunto-me :
É justo o imposto cobrado para financiar um porto em Cuba, outro no Uruguai, além de outros "projetos secretos" de nossa incipiente política externa, lembrando-se que nossas embaixadas, e não só a da Venezuela, não tinham recursos para comprar papel higiênico?
E pior, alegando-se que estes financiamentos beneficiariam empresas nacionais, as mesmas cujos dirigentes estão presos desde novembro último, lavando-se a jatos de ar, já que falta água?
Turgot e Condorcet, ambos filósofos e fisiocratas, que já pressentiam no final do século XVIII, que o trabalho humano constitui a fonte de qualquer melhora do padrão de vida, um trabalho que nos está sendo negado, como direito, pelas carestia, pelas demissões nas indústrias, pela retração da atividade agrícola (culpando-se São Pedro por isso), ou pela incoerência de um governador que não reconhece, no professor, a ferramenta com a qual se edifica o futuro, apontavam a solução.
Finalmente, para não ser chamado de pessimista, alarmista ou coisa do gênero, gostaria de encerrar este pequeno ensaio salientando que, depois do 31 de Março teremos o 1• de Abril, onde um novo "Milagre Econômico" será prometido, com crescimento do bolo que será, posteriormente, dividido com todos.
Quem viver, verá  

Professor Orosco. 

sexta-feira, 13 de março de 2015

SÓ O AMOR CONSTRÓI


Realizando uma leitura rápida da obra de Fustel de Coulanges, A Cidade Antiga, não pude deixar de perceber nela um precioso trabalho antropológico, que tenta esclarecer a origem e o desenvolvimento humano.
Segundo o autor, quando os homens ainda não haviam galgado o status de “homo sapiens”, vivendo em um estado animalesco, desenvolveram uma “religião doméstica” que começou a organizar sua vida em comunidade.
Como consequência provável de um gesto isolado de “amor” por um outro membro da espécie, do qual era próximo, um homem, de maneira isolada, enterrou, pela primeira vez, um cadáver, evitando que ele fosse devorado pelos outros animais.
Ao fazê-lo, criou um túmulo sobre o qual, periodicamente voltava para lamentar a perda.
Diferentemente dos outros animais, o homem aprendeu a produzir uma marca para identificar os locais de seu interesse.
Cães, por exemplo, enterram ossos, mas não registram (marcam) o local em que o fizeram e, por isso, passam a vida procurando-os, cavando buracos por toda a parte.
Com a prática de periodicamente voltar ao local do túmulo para venerar a memória do ente querido, acabou por estabelecer residência próxima e fixou-se de forma sedentária.
Com o passar de gerações, este comportamento se institucionalizou, também para os demais membros da espécie, onde, no grupo, filhos enterravam os pais, em um túmulo “particular” que passou a receber os membros da família e que, dado o amor fraternal existente entre eles, quando vivos, criou uma espécie de devoção pelos ancestrais.
Neste processo, divinatório, edificou ao lado da sepultura, uma lareira que simbolizava a proteção contra os predadores e que representava a presença viva dos entes partidos.
A manutenção da chama acesa, passou a ser uma prioridade entre os membros do pequeno bando (cada bando possuía seu túmulo e sua lareira), já que simbolizava, além da proteção, a manutenção da presença entre os vivos, daqueles que haviam falecido.
Esta tarefa, de manter acesa a chama, acabou sendo delegada aos filhos e às mulheres que, sob a coordenação do macho dominante, acabou dando origem à família e ao “Lar”.
Desta prática, percebe-se por registros arqueológicos, que também era comum, dentre os grupos hominídeos enterrar, junto aos corpos sepultados, objetos que se acreditava serem necessários a esta nova fase de sua existência.
Também existem registros arqueológicos de que, junto aos sepulcros, eram colocados alimentos, o que, pode ter sido o momento precursor, pelo homem, do manuseio de sementes e do surgimento, ainda que rudimentar, da agricultura.
Como a relação de homenagem e culto aos mortos, que eles entendiam como presentes, estando apenas enterrados, era realizada de forma diferente em cada pequeno bando, a sua realização passou a ser privada, protegida por muros (possivelmente tanto a sepultura quanto a lareira eram construídos dentro de cavernas), garantindo-se a sua singularidade.
Assim, estabelecendo-se a “propriedade privada” ao redor do túmulo e da lareira, protegida dos olhares e da participação nos cultos de veneração, por parte de outros elementos, construíram-se as demais dependências da “casa”.
As filhas, que não podiam herdar, deixavam a casa paterna e abandonavam a religião doméstica dos pais, passando a obedecer aos dogmas da religião doméstica do marido.
Como este conhecimento era sagrado, o divórcio, por si, estava fora de cogitação.
Com o crescimento do número de elementos no bando, o espaço passou a ser um problema e a solução encontrada foi, mesmo preservando a religião doméstica, individualizada por grupo e família, de aceitar-se a realização de cerimônias comuns, com pontos congruentes, criando-se os cemitérios, onde cada grupo tinha seu túmulo e podia realizar seu culto.
Surgiram, assim, as fratrias, na língua grega, cúrias, na língua latina, que também cresceram e deram origem às tribos e mais tarde às cidades, chegando às nações que conhecemos em nossos dias.
A religião doméstica, a genealogia do sangue nas famílias, a soberania patriarcal com o macho transmitindo o nome aos descendentes, a manutenção dos túmulos e, de certa forma, o culto aos nossos ancestrais, ainda presentes na maioria dos ajuntamentos humanos, ainda que em maior ou menor grau, demonstra a possibilidade de que o caminho descrito por Fustel de Coulanges retrate, ainda que resumidamente, o desenvolvimento de nossa espécie, que teria começado por um ato de amor.
Outro importante pensador da modernidade, René Girard, aproveitando-se de parte deste pensamento, desenvolveu uma teoria, “teoria mimética”, onde apresenta suas conclusões sobre o pensamento religioso, como fomentador do desenvolvimento humano.
A teoria mimética, como o próprio nome indica, refere-se ao movimento provocado pelo desejo do desejo, característico de várias espécies, inclusive a humana.
Nesta condição, para explicar melhor, um elemento qualquer, digamos sujeito A, deseja alguma coisa.
Ao perceber que o sujeito A deseja esta coisa, outro elemento, um sujeito B, que sequer a havia percebido, volta sua atenção para o mesmo objeto e passa, também a deseja-lo.
A percebendo que B também deseja o objeto, aumenta seu interesse por ele.
B percebendo o aumento do desejo de A, também aumenta o seu desejo.
Este movimento cresce exponencialmente e, fatalmente, acaba em conflito.
A lutará contra B pela posse do objeto e esta luta crescerá a tal ponto que o próprio objeto deixa de ser importante, passando a vitória (eliminação do oponente) a ser o novo objeto da disputa.
Como este efeito é contagioso, um terceiro elemento, sujeito C, percebendo o conflito entre A e B, toma partido e se envolve na disputa.
C poder sequer ter conhecimento do objeto inicial e, mesmo assim, se envolve na contenda.
Como desejo e violência são miméticos, atraem para o conflito todos os elementos do grupo.
Em pouco tempo, de A a Z, todos lutam, uns contra os outros, numa “guerra de todos contra todos” (HOBBES, Leviatã), sem que os motivos originais da disputa estejam presentes ou sejam percebidos.
Neste momento, de guerra total, onde todos se acusam, alguém, aleatoriamente, é identificado como o causador da guerra.
Girard alerta para o fato de que este alguém pode ser qualquer um, de A a Z.
Pelo mesmo processo de mimese, todos os elementos do grupo se voltam contra ele, que passa a ser visto como o causador da guerra e que, precisa ser eliminado para que a paz retorno ao meio.
Encontra-se o bode expiatório.
Uma vez sacrificado este sujeito X, a paz retorna e o grupo cria, a partir do incidente, um mito, onde este “Mecanismo Vitimário” é incorporado ao grupo e passa a ser reproduzido de forma ritualística como forma de manter a lembrança do conflito e assegurar a paz.
Cria-se uma cultura e uma referência social.
Rene Girard é incisivo ao colocar que este mecanismo vitimário, a luta que se originou pelo desejo de um único indivíduo e acabou colocando todo o grupo em uma competição mortal, ocorre aleatória e consistentemente.
A religião, então, acaba por institucionalizar-se na reprodução destes ritos, que preservam o mito e a lembrança de que o sacrifício deve ser feito para evitar o mal maior.
Com o tempo, este sacrifício deixa de ser realizado entre os membros do grupo, sendo substituído por estrangeiros ou mesmo animais.
Também, com o passar do tempo, boa parte dos participantes do processo ritualístico perde o conhecimento do mito ou do sacrifício original e, mimeticamente, reproduz a cerimônia, sem a consciência das causas primeiras.
Segundo René Girard, este processo é frequente e irreversível ao longo do desenvolvimento de nossa espécie, existindo inúmeras situações históricas que corroboram sua explicação.
Ocorre que, embora aceitando este processo animalesco que continua presente no homo sapiens, recorremos ao mesmo preceito religioso para, utilizando o exemplo do bode expiatório, da vítima sacrificada pelo bem da coletividade, demonstrar que este processo não é irreversível e que pode ser evitado.
Falo do “Amor do Cristo”.
Um amor que não é carnal, mas que defende, pelo amor ao próximo, de abdicar do seu desejo de posse, reconhecendo o direito do outro ao objeto de sua vontade, o que quebraria este círculo vicioso, já no seu nascimento.
Um amor como o do pai ou mãe que, abrindo a geladeira para pegar uma fruta, ao perceber que só existe uma, deixa-a para o filho, ainda que este não tenha manifestado o desejo de comê-la.
Sem ser ingênuo ou demagógico, gostaria de colocar que, neste momento de crise, não precisamos elencar um bode expiatório, para acabar com a guerra, já que, todos somos inocentes e culpados e que ele poderia ser qualquer um, inclusive nós mesmos.
Como na canção da saudosa dupla Dom e Ravel, “Só o amor constrói”, precisamos plantar flores para florir nosso país e construir a verdadeira paz.
Professor Orosco

Referências Bibliográficas:
COULANGES, Fustel de. A Cidade Antiga. Trad. Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Martin Claret, 2009
SIRIGONI, Ivanir. A Teoria Mimética. São Paulo: UNIFAI

terça-feira, 10 de março de 2015

CUIDADO PARA NÃO SER ENGANADO OUTRA VEZ

Pensei bastante antes de me manifestar sobre o momento atual, mas, mesmo correndo o risco de não ser compreendido, sinto ser meu dever de cidadão, colocar aos amigos a minha opinião.
Durante o processo eleitoral que se encerrou em novembro do ano passado, a maior parte da população brasileira, desatenta, acabou enganada por uma proposta desconectada da realidade, que visava apenas o sucesso no pleito.
Data vênia , se a proposta fosse verdadeira certamente não lograria êxito, uma vez que a população, desatenta, votaria naquilo que desejava ouvir e não naquilo que se mostrasse necessário ao país.
Como sempre, ela prefere a "lei do menor esforço".
"Se alguém se propõe a resolver meus problemas, sem custos e ainda me propiciando algum lucro, voto nele, não importando qual seja a sua proposta."
Como consequência, compramos gato por lebre.
O problema é que não reconhecemos nosso equívoco e, novamente, procuramos outro "Salvador" que resolva os nossos problemas, sem custos e que ainda nos ofereça algum lucro.
Falar em Impeachment, quebrando as regras do jogo, sem um motivo real que comprove a improbidade no exercício do cargo, é incorrer novamente no engano.
Se forem comprovadas as faltas, o impeachment será legal, mas só e somente se forem comprovadas as faltas.
Haver dito o que todos queriam ouvir, não se mostra, por ora, motivo suficiente.
As medidas e econômicas tomadas para o ajuste da economia, embora duras e negadas anteriormente no período eleitoral são necessárias e, qualquer que fosse o eleito, precisariam ser adotadas.
Os que votaram contra, sabiam disto e não se deixaram enganar.
Mas, embora certos, foram democraticamente derrotados por aqueles que não queriam saber.
Agora não tem jeito.
Precisamos aguardar uma nova oportunidade, legalmente agendada para 2018, para procurar acertar.
Devemos, por ora, manter a pressão para que a Polícia Federal e Justiça façam seu trabalho investigativo, e logrem alcançar as provas reais dos crimes.
Tentar mudar as regras do jogo, a exemplo de 1964, seria pular do caldeirão para cair diretamente no fogo.
É o preço a pagar pela nossa alienação.


Professor Orosco.

quinta-feira, 5 de março de 2015

PLANO B


O processo de degradação ambiental, ao qual o homem submeteu nosso planeta, exaurindo seus recursos e retirando-lhe a capacidade regeneradora, que ganha status de era geológica, antropoceno, na opinião de grandes e renomados cientistas, condenou o futuro e as próximas gerações a uma vida de privações.
Uma condenação em que a própria existência será questionada.
Segundo estes mesmos cientistas, este processo já se tornou irreversível, graças à atual ação procrastinatória dos governos para enfrentar o problema.
No entanto, e existe sempre um "no entanto", podemos, com base neste mesmo desenvolvimento tecnológico, propor uma alternativa, quiçá a mais absurda quê poderíamos pensar.
Acelerar ainda mais o processo desenvolvimentista e conseguir, por meio dele, promover o êxodo de nossa espécie para uma nova Gaia.
Seriamos, mais ou menos, como os lagartos que tentavam conquistar nosso planeta no filme "Independence Day".
Um plano B que seria ocupar um planeta B.

Professor Orosco.