domingo, 3 de fevereiro de 2013

TELEOLOGIA COMUNISTA DO SÉCULO XXI.



Uma das maiores críticas apresentadas pela proposta comunista ao modelo capitalista ao longo da história é a de que, neste último modelo, a alienação do homem, provocada pelo trabalho, acaba fazendo com que o objeto deste trabalho, alienado, sirva a outro homem.
Se pensarmos bem, realmente o trabalho segmentado, fracionado, seriado, seja ele na agricultura, na pecuária, na indústria, em seus vários segmentos, no comércio, nos serviços, inclusive no setor financeiro, retira do homem a ideia do todo e, com isso, torna seu trabalho alienado, descompromissado e fatigante.
O trabalho deixa de servir ao homem que passa a servir o trabalho para outro homem.
Este fato, inconteste, não pode ser ignorado nas relações sociais onde o “dono das moedas”, como destinatário dos produtos produzidos pelo trabalho alienado de outros homens, de forma descompromissada, exige que a “mais valia” remunere seu capital, distanciando cada vez mais o homem que produz o objeto, do objeto de seu trabalho.
No entanto, em defesa ao menos parcial do modelo, precisamos tecer algumas considerações:
A primeira delas, a de que, no momento atual, a distribuição humana pelo planeta, com mais da metade, quase três quartos, da população vivendo em cidades, retira-nos a possibilidade de que o homem viva em contato direto com a “terra virgem” e que dela retire o seu sustento.
A própria forma das cidades não permite que se tenha mais, no quintal de cada casa, um pomar, uma pequena horta, um milharal ou uma criação de galinhas.
A produção de alimentos precisa, portanto, ser realizada em locais distantes, com produtividade tal que o excedente da produção possa ser enviado para alimentar as cidades.
Como o produto do trabalho alienado no campo pertence ao “dono das moedas”, o próprio objeto deste trabalho, no caso o alimento que foi colhido, está distante do homem que o produziu, já que este, como mercadoria, transforma-se em moeda.
Por outro lado, com o desenvolvimento da tecnologia, o homem não consegue mais viver em “estado de natureza”, necessitando consumir uma enormidade de produtos que pouco tem a haver com suas necessidades primárias.
Não conseguimos mais viver nus como algumas tribos indígenas, muito embora os biquines estejam cada dia menores e, paradoxalmente, mais caros.
Não conseguimos mais sobreviver sem livros, sem televisores, sem carros, sem computadores, sem tomógrafos ou sem a internet.
Nossa sociedade, consumista de sabonetes e antibióticos, obriga a que cada vez mais novos produtos e novos serviços sejam disponibilizados, em larga escala, para uma população globalizada.
Esta necessidade criativa, dada a limitação geográfica de insumos, inclusive da oferta de energia e de outras considerações analisadas sob a ótica de uma geografia econômica, pela complexidade dos produtos, acaba obrigando que seu processo produtivo seja, em grande parte, segmentado, fracionado e seriado.
Antigamente, podia-se ir diretamente a uma goiabeira e colher a fruta que se ia comer.
Hoje, para comer esta mesma goiaba, precisamos de um abridor de latas.
Aquela marmelada que compramos no mercado trás consigo o trabalho alienado de um número inimaginável de homens que ofereceram sua força e sua energia vital na colheita dos frutos, na mineração do ferro que vira gusa, que vira aço, que vira flandres, que vira lata, que acondiciona o doce, que foi processado, pesado e rotulado.
Medido, tributado e transportado, chega ao local onde o adquirimos.
A alienação é tal que, se pedirmos a uma criança que desenhe uma vaca leiteira, não devemos nos assustar se ela nos apresentar a figura de uma caixinha.
Se pedirmos para desenhar uma goiabeira, ela pode nos surpreender, com sua inocência piagetiana, com a figura de uma gôndola.
A complexidade dos produtos essenciais à vida de hoje, com seus micro e nanocomponentes, tão distantes da cabaça que se utilizava para buscar e armazenar a água que se retirava do riacho, transforma o projeto comunista, como apregoado por Marx, antes considerado uma utopia, agora em uma aporia.
Com as crises naturais do capitalismo, quase sempre provocadas pela ganância, o marxismo volta à cena acadêmica neste início de século XXI.
No entanto, para uma análise contemporânea de suas propostas, torna-se necessário levar em consideração, para o sucesso de uma estratégia revolucionária, comprometida com o resgate do homem, tentar equacionar  estas questões que sucintamente levantamos.

Professor Orosco
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