sexta-feira, 3 de maio de 2013

POR QUEM OS SINOS DOBRAM



“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

            Lendo o poema de John Donne, imortalizado na obra de Ernest Hemingway, veio a minha mente uma série de pensamentos, que transcrevo e submeto à paciência de meus amigos.
            Como nos fragmentos de Heráclito, agora já não somos, fomos.
            Nossas células são substituídas aos milhares a cada novo minuto; nosso pâncreas e nossa mucosa gástrica praticamente reconstruídas a cada novo dia e, apesar desta permanente e constante transformação, continuamos existindo, mantendo vivos os nossos sonhos e desejos, compartilhando memórias e experiências com aqueles que amamos.
            Estamos presos às pessoas que conhecemos e evoluímos com o planeta, embora muitos acreditem que evoluímos no planeta.
            O cientificismo e o materialismo a partir de Descartes, transformando-se em uma religião dominante, só fez alienar o homem do mundo, retirando dele (do homem) todas as considerações morais e a responsabilidade por suas descobertas.
            Nossos brilhantes cientistas, com suas máquinas e equipamentos de última geração, descobriram que o átomo, em sua maior parte, é composto por espaços vazios, circunscritos pela órbita dos elétrons, a eletrosfera.
            Demócrito de Abdera, muitos séculos antes de Cristo, já havia chegado à mesma conclusão, simplesmente observando as partículas de poeira visíveis em um único raio de Sol que entrava pela porta.
            Todos os prótons, nêutrons e elétrons, estão contidos entre as dimensões da realidade e da potencialidade.
            Em um nível subatômico, não existem objetos sólidos e aquilo que vemos ocupando espaço, é, na realidade, apenas uma probabilidade de estar ocupando aquele espaço.
            Nossa vida, no entanto, é muito maior que isto.
            É composta de probabilidades e de infindáveis conexões com o mundo.
            Ela sente a si mesma.
            A matemática pode explicar o movimento que uma pedra lançada ao ar descreve até atingir as águas serenas do lago em que a atirei.
            Só não consegue explicar porque fiz isso.
            A sabedoria de antigas tribos indígenas da América repousava no fato de tomarem suas decisões pensando em muitas gerações adiante, o que o homem moderno sequer aprendeu.
            Em verdade, o homem  do século XXI sequer consegue pensar na sua própria geração, procurando visualizar os anos próximos que estão por vir.
            A transferência de responsabilidades que se dá em todos os níveis: do povo para os cientistas; dos cientistas para os militares; dos militares para os políticos e estes para os desejos manifestos do povo, consolida esta ideia.
            Sofremos uma crise de percepção.
            Se pensarmos melhor, gastaríamos muito menos com medicina se, simplesmente alterássemos nossos hábitos alimentares; se, ao invés de desmatar para produzir carne vermelha e assim aumentar a incidência de infartos, produzíssemos grãos, etc.
            Enfim, se conseguíssemos olhar em uma árvore não apenas a madeira que se pode extrair dela, seu tronco e suas folhas, mas a sua relação simbiótica com a vida da floresta; com a produção de oxigênio; com o controle da temperatura do ar pela absorção de CO2; pelas frutas que produz e que potencialmente pode produzir; como abrigo de pássaros e morada de inúmeros insetos; sua relação com os fungos e deles com a terra, de onde retira a umidade que eleva aos céus; curvando-se ao vento e rejuvenescendo após cada chuva, evidenciando um aroma agradável e uma sensação de plenitude, estaríamos mais próximos de nos compreender.

            Não pergunte por quem os sinos dobram,
            Eles dobram por ti.
           
Professor Orosco

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