terça-feira, 11 de março de 2014

PARMÊNIDES - SOBRE A NATUREZA


     Valendo-me do fato de ter citado Parmênides em minha última publicação, dada a importância deste personagem que viveu aproximadamente entre 530 e 450 a.C., sinto-me compelido a explicitar um pouco de sua obra, tecendo um breve comentário sobre seu poema, Sobre a Natureza.
     Diante do florescer daquela ciência que os gregos desenvolveram, que nós chamamos filosofia, alguns filósofos marcaram sobremaneira sua passagem pela história.
     Entre os primeiros, que tentaram romper com os mitos, muitas vezes recorrendo a eles, a quase totalidade valia-se de exemplos das coisas materiais conhecidas, percebidas, para explicar seus pontos de vista, suas opiniões.
     Parmênides, em seu poema "Sobre a Natureza" inovou no método, introduzindo o hábito de expor argumentos, valendo-se de metáforas e marcando sua posição, radicalmente contrária à defendida por Heráclito, para quem tudo era transitório ou movimento.
     Parmênides negava o movimento defendendo sua posição, que ficou conhecida por dois princípios lógicos fundamentais: 
     O princípio de identidade, o ser é o ser, e o princípio da não contradição, não ser, não é.
     Em outros termos, se o ser é e pode ser pensado e dito, então o ser é ele mesmo, e será impossível que seu negativo, o nada ou não ser, também seja e possa ser pensado e dito.
     Para eleger o ser como objeto de sua argumentação, Parmênides acabou criando aquilo que conhecemos como ontologia (estudo ou conhecimento do ser).
     Seu poema, descreve de forma metafórica uma experiência de renúncia e de revelação, apresentando como conteúdo principal, aquilo que foi revelado, a via da verdade.
     Contrapondo-se a este caminho, ele explora a via da opinião.
      A distância fundamental entre os dois caminhos está em que, no primeiro, a via da verdade, o homem se deixa conduzir apenas pela razão e é, então, levado à evidência de que "o que é, é, e não podia deixar de ser".
     No segundo caminho, a via da opinião, pelo fato de se atentarem para os fatos empíricos, as informações obtidas pelos sentidos, o homem não chegaria à verdade e à certeza, permanecendo no nível instável das opiniões.
     Neste poema, ele associa o caminho da verdade, da razão, à luz do dia, onde a luz desnuda o mistério.
     O caminho da opinião é simbolizado pela noite, cuja escuridão esconde a realidade e nos induz a imaginar e a mistificar.
     Para compreender a beleza e a profundidade deste poema, atrevo-me a apresentar uma breve transliteração, dos versos iniciais, convidando o leitor a fazer a sua, no restante do poema.

Parmênides - 

     Éguas que me levam, a quanto lhes alcança o ímpeto, cavalgam, quando numes levaram-me a adentrar uma via loquaz, que leva por toda a cidade quem sabe à luz; por ela era levado; pois por ela, mui hábeis éguas me levavam puxando o carro, mas eram  moças que dirigiam o caminho.

     O eixo, porém, nos meões, impelia um toque de flauta incandescente (pois, se ambos os lados, duas rodas giravam comprimindo-os) porquanto as filhas do sol fustigassem a prosseguir e abandonar os domínios da Noite para a luz, arrancando da cabeça, com as mãos, os véus.

     Lá ficam as portas dos caminhos da Noite e do Dia, pórtico e umbral de pedra as mantém de ambos os lados, mas, em grandiosos batentes, moldam-se elas, etéreas, cujas chaves alternantes quem possui é Justiça rigorosa.

     As moças, seduzindo com suaves palavras, persuadiram-na, atenciosamente, a que lhes retirasse rapidamente o ferrolho trancado das portas; estas, então, fizeram com que o imenso vão dos batentes se escancarasse girando os eixos de bronze alternadamente nos cilindros encaixados com cavilhas e ferrolhos; as moças, então, pela via aberta através das portas, mantém o carro e os cavalos em frente.

     E a deusa, com boa vontade, acolheu-me, e em sua mão minha mão direita tomou, desta maneira proferiu a palavra e me saudou:
     Ó jovem acompanhado por aurigas imortais, que, com cavalos, te levam ao alcance de nossa morada, Salve! ...

Em nossas palavras:

     Os anos que acumulo em minha jornada, com o entusiasmo de minha juventude, conduziram-me, depois de um período de encantamento, à maturidade alcançada pela experiência.
     Pelos mais belos anos, no vigor da juventude, a educação me mostrava o caminho do conhecimento.

     Meu aprendizado doía em meus ouvidos, pendendo entre a razão e a opinião, compelido para a luz da razão pelo conhecimento, que me afasta da ignorância, abrindo-me os olhos a novos saberes.

     Aí está a verdade que separa os caminhos do conhecimento e da ignorância , escorada em uma sólida construção; a verdade eterna, trancada atrás de uma porta, da qual a Sapiência é a chave para abrí-la.

     Na busca da verdade se dirige o conhecimento, amparado pela razão, que desnuda o saber.
     E a verdade se mostra, revelando a grande distância do caminho a ser percorrido, repleto de armadilhas e aparências.
     Aí, com a verdade, a educação conduz o aprendizados dos alunos.

     E a sabedoria me recebeu, amparando minha velhice, dizendo-me:
     Benvindo jovem estudante, que me alcançou através dos anos. ...


Professor Orosco
    


     
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