sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

LEUCIPO


           
            Leucipo (em grego antigo Λεύκιππος ) foi um filósofo grego que viveu na primeira metade do século V a.C.,  provavelmente nascido em Mileto, na Ásia Menor, entre os anos 490 e 460 a.C. mudando-se em seguida para Abdera, onde desenvolveu, segundo Aristóteles, o atomismo mecanicista, uma teoria segundo a qual a realidade está formada tanto por partículas infinitas, indivisíveis, de forma variada e sempre em movimento, quanto pelo vazio. Uma teoria que defendia a ideia de que uma matéria pode ser dividida até uma pequena partícula chamada átomo ( prefixo “a” como negação do “tomo” = porção de um todo; aquilo que não pode ser particionado, dividido), e que todos os objetos do mundo seriam constituídos por essas pequenas partículas indivisíveis.
           Discípulo de Zenão de Eleia e de Melisso de Samos, parece ter sido contemporâneo de Anaxágoras de Clazômenas e de Sócrates, e sabe-se que foi mestre de Demócrito, também de Abdera, o filósofo grego que melhor desenvolveu a posição atomista. Leucipo teria morrido por volta do ano 420 a.C.
         A tradição lhe atribui a autoria do livro Megas Diakosmos (A grande ordem do mundo, também chamado de Grande Cosmologia), onde defende que nenhuma coisa se engendra ao acaso, mas a partir da razão e da necessidade.
A posição de Leucipo era de que os seres (corpóreos) não admitiam a presença de vácuo e que, por outro lado, o movimento não era possível na ausência e vácuo. O vácuo, para Leucipo, seria o não-ser, a ausência de átomos, e os seres e outros objetos do mundo seriam coleções de átomos. Um vez que o movimento não é possível sem o vácuo, e sabendo-se que há movimento, conclui-se que deve haver vácuo. Uma vez que objetos são compostos de algo, e objetos existem, este algo que os compõe existe, e podemos investigar do que se trata. Esta distinção deixa claro que Leucipo não estava interessado na discussão conceitual entre "seres" e "não-seres", mas em apontar uma hipótese direta e material para explicar a existência, preferindo trabalhar a distinção "cheio" e "vazio", ou "vácuo", ou seja,  de acordo com o filósofo, o todo seria composto de dois elementos, o cheio e vazio, e os mundos são formados quando os átomos se aglomeram e do movimentos destes átomos surgem as estrelas. Em uma região qualquer, muitos átomos, de diversas formas, saem do ilimitado para o vasto espaço vazio, este movimento forma um vórtex no qual os átomos, por necessidade, empurram-se uns contra os outros, gerando mais movimento. E, os átomos são tão numerosos que o giro da aglomeração se desequilibra, assim, as luzes emitidas passam para o espaço vazio do lado de fora, como se estivessem a ser peneiradas; o restante continua em conjunto e tornando-se emaranhados seguem seu circuito para formar um sistema esférico primário. Mais e mais átomos se aglomeram e a camada externa da aglomeração vai se tornando mais fina e expandindo, pelo movimento dentro deste sistema, a Terra começa a se formar, devido a aglomeração de átomos no centro. Quando alguns destes componentes secam e giram em conjunto com o vórtex, eles entram em combustão, devido a velocidade de seu movimento, e transformam-se na substância das estrelas. Os corpos celestes, agora formados, iniciam seu movimento, suas órbitas, o Sol circula a Lua e a Terra se desloca ao centro, com a forma semelhante a de um tambor. Embora o filósofo não explicite todas as razões, este mesmo modo de nascer termina por levar o mundo a decair e perecer em algum momento futuro.
O que se sabe de sua vida e de seu pensamento se encontra em fragmentos que nos chegaram de obras de outros autores, como Aristóteles, Simplício, Sexto Empírico e Diógenes Laércio, além de comentários de Écio, Clemente de Alexandria, Galeno, Cícero e Hipólito de Roma, dentre outros.
Diógenes Laércio, em sua obra Vida dos filósofos mais ilustres, IX, 30 e ss. se refere a ele da seguinte forma:

Leucipo, nativo de Eléia (mesmo que existam alguns que de Abdera, e mesmo alguns de Mileto), foi discípulo de Zenão. Suas opiniões são: Que todas as coisas são infinitas, e que se transmutam entre si. Que o universo está vazio e cheio de corpos. Que os mundos se originam nos corpos que caem no vazio, e se complicam mutuamente. Que de seu movimento ao teor de sua magnitude se produz a natureza dos astros. Que o Sol é levado por um círculo maior ao redor da Lua. Que a Terra é levada e gira sobre seu centro, e sua figura é de um tambor. Foi o primeiro que pôs os átomos como princípio das coisas. Até aqui suas opiniões em geral, por partes, são como se segue: Que o universo é infinito, como já dissemos. Que deste, uma partes estão cheias, outras vazias. Que os elementos ou princípios e os muitos procedidos deles são infinitos, e vêm a resolver-se naqueles. Que estes mundos se originam assim: separados do infinito muitos corpos de todas as figuras, são levados pelo grande vazio; e congregados em um, formam um turbilhão, segundo o qual chocando com os outros e girando de mil maneiras, se vão separando uns dos outros e se unem os semelhantes aos seus semelhantes. Equilibrando-se, e não podendo-se já mover por sua multitude e peso, as partículas pequenas correm ao vazio extremo como que vibradas ou expelidas; as restantes, ficando juntas e comprimidas, decorrem mutuamente unidas, e formam de figura esférica a primeira concreção ou agregado. Esta concreção é separada das demais por meio de uma espécie de membrana que a circula e contém dentro dos corpos. Estes corpos já unidos em massa, girando sobre a consistência de seu centro, vão formando outra tênue membrana circular, composta das partículas que tocam sua superfície ao teor de seu giro. Desta maneira se forma a terra, e dizer, permanecendo juntos os corpúsculos tendentes ao centro. Este mesmo corpo, ou seja concreto, vai sempre aumentando como por membranas, formadas dos corpúsculos externos que ali concorrem, pois em força de seu giro adquire quantos toca. Comprimidos já alguns destes, formam a concreção, a qual é ao princípio úmida e lamacenta; logo, secando-se com a violência do giro do todo e inflamando-se, produz a natureza dos astros. Que o círculo do Sol é o mais externo; e da Lua, o mais próximo da Terra; e os demais astros estão no meio destes. Todos estes astros, e a Lua recebem só uma pequena parte do fogo. Se eclipsam o Sol e a Lua porque a Terra está inclinada ao Meio-dia. As regiões árticas sempre estão nevadas, são frias e glaciais. Que o Sol se eclipsa poucas vezes, mas a Lua muitas, por serem os círculos de ambos desiguais. Que como acontece a geração do mundo, assim também acontece seu aumento, seu decrescimento e sua corrupção por certa necessidade; qual seja esta não a explica. (DK67A1)

            Aristóteles também se refere a Leucipo, e a seu discípulo Demócrito, em vários de seus livros, como registraram Hermann Diels e Walter Kranz.
         
ARISTOT. Metaf., 985 b 4 – Leucipo e seu seguidor Demócrito afirmam como elementos o cheio e o vazio, e chamam um de ser e o outro de não-ser; mais precisamente, chamam o cheio e o sólido de ser e o vazio de não-ser; e por isso sustentam que o ser não tem mais realidade do que o não ser; pois o cheio não tem mais realidade que o vazio. E afirmam esses elementos como causas materiais dos seres. E como os pensadores que consideram como única a substância que funciona como substrato e explicam a derivação de todas as outras coisas pela modificação dela, introduzindo o rarefeito e o denso como princípio dessas modificações, do mesmo modo, Demócrito e Leucipo dizem que as diferenças < dos elementos > são as causas de todas as outras. Além disso, eles dizem que são três as diferenças: a figura, a ordem e a posição. Com efeito, explicam eles, o ser só difere pela proporção, pelo contato e pela direção. A proporção é a forma, o contato é a ordem e a direção é a posição. Assim, A difere de N pela forma, NA de NA pela ordem, enquanto Z difere de H pela posição. Mas eles também, como os outros, negligenciaram a questão de saber de onde deriva e como existe nos seres o movimento. A respeito das duas causas em questão, como dissemos, até esse ponto chegou a pesquisa dos pensadores precedentes. ( DK 67 A 6 )

ARISTOT. Metaf., 1071 b 31 – Por isso, alguns admitem uma atividade eterna, como Leucipo e Platão. De fato, eles sustentam que o movimento é eterno. Todavia, eles não dizem a razão pela qual o movimento é e como é, nem dizem a razão pela qual ele é deste ou daquele modo. ( DK 67 A 18 )

ARISTOT. Da geração e corrupção: - 314 a 21 : - Por seu lado, Demócrito e Leucipo dizem que é a partir de corpos indivisíveis que os restantes são compostos, e que, sendo aqueles infinitos, quer em quantidade, quer quanto às respectivas formas, estes diferem uns dos outros em função dos corpos de que se compõem e em função da posição e da ordem  dos mesmos. - 315 b 6 - Demócrito e Leucipo, porém, postulando as figuras, delas fazem resultar a alteração e a geração, sendo a geração e a corrupção explicadas pela sua associação e separação , e a alteração pela sua posição e ordem. Uma vez que acreditavam que a verdade reside na aparência sensível, e que as aparências são contrárias e inumeráveis, conceberam as figuras como sendo inumeráveis, pelo que é devido a mudanças do composto que a mesma coisa parece contrária a uma e a outra pessoa, e é transmutada por pequeno que seja o que se lhe misture, e pode parecer completamente diversa devido à transmutação de um único constituinte — pois é com as mesmas letras que se compõe uma tragédia  e uma comédia. ( DK 67 A 9 )

ARISTOT. Da geração e corrupção 324 b 35 - No entanto, a teoria mais sistemática e que oferece uma explicação única referente a todas as coisas foi apresentada por Leucipo e Demócrito, os quais tomaram por princípio aquele que é conforme à natureza. Alguns dos antigos filósofos pensaram que o ser é necessariamente uno e imóvel, atendendo a que o vazio não é, e o ser não pode mover-se sem haver um vazio com existência separada, nem pode ser múltiplo sem haver o que separa os entes. Para eles, pensar que o todo não é contínuo, estando dividido em partes que mantêm contato, não é diferente de afirmar a existência da pluralidade (e não do uno) e do vazio. Se o todo fosse totalmente divisível, nada seria uno, pelo que tampouco haveria pluralidade e o todo seria vazio. Por outro lado, se fosse divisível em alguns pontos e não em outros, tal pareceria qualquer coisa de artificioso. Com efeito, qual seria o limite da divisão? E por que motivo uma parte do todo seria assim [indivisível], ou seja, inteira, e a outra dividida? Além disso, ainda assim seria necessário negar o movimento. – 325 a 23 - Em contrapartida, Leucipo pensou dispor de argumentos que, concordando com a sensação, não eliminariam a geração e a corrupção, nem o movimento, nem tampouco a multiplicidade dos entes. Fazendo tais concessões aos fenómenos, e concedendo aos que defendem o uno em não pode haver movimento sem vazio, afirma que o vazio é não-ser e que nada do que é ser é não-ser, pois o ser em sentido próprio é ser totalmente pleno. No entanto, este ser não é um, mas l muitos, infinitos em número e invisíveis devido à pequenez dos seus volumes. Estes seres movem-se no vazio (pois há vazio), e produzem geração quando se reúnem, assim como produzem corrupção quando se separam. Além disso, exercem ação e são afetados quando por acaso têm contato (e por isso mesmo não são um) e produzem geração quando se combinam e interligam. A partir l do que é realmente uno, porém, não poderia gerar-se uma multiplicidade, nem a partir do que é realmente múltiplo poderia gerar-se o uno, [afirmando Leucipo que] tal é impossível. No entanto, tal como Empédocles e alguns outros dizem que a afecção ocorre através dos poros, assim [Leucipo diz que] toda a alteração e toda a afecção ocorrem deste modo, produzindo-se a dissolução, ou seja, a corrupção, por meio do vazio, e igualmente o aumento, pela penetração de sólidos [no vazio]. - 325 b 24 -  tal como  escreveu Platão no Timeu. Com efeito, a explicação de Platão diverge da de Leucipo tão só na medida em que este diz que os indivisíveis são sólidos e aquele diz que são superfícies, e enquanto Leucipo diz que são definidos por um número infinito de figuras, sendo cada sólido indivisível definido por uma, para Platão as figuras são em número limitado, embora ambos afirmem a existência de corpos indivisíveis e definidos por figuras. Assim, é a partir destes indivisíveis que ocorrem as gerações e as dissociações, embora para Leucipo seja de dois modos, designadamente por meio do vazio e por meio do contanto (pois é neste ponto que cada coisa é divisível), e para Platão seja apenas segundo o contato, pois nega a existência do vazio ( DK 67 A 7 )

ARISTOT. Sobre o Céu, 275 b 29 : - Se o universo não é contínuo, senão que, como dizem Demócrito e Leucipo, separadas pelo vazio, necessariamente será um só o movimento de todas elas ( DK 67 A 19)

ARISTOT. Sobre o Céu, 300 b 8  :  (Há também um movimento por natureza) Por ele Leucipo e Demócrito, que dizem que os corpos primordiais se movem sempre no vazio e no infinito, lhes corresponderia dizer que movimento <é esse> e qual é o movimento natural daqueles corpos. ( DK 67 A 16 )

ARISTOT. Física, 213 a 27 : - Mas o que as pessoas entendem por vazio, é mais uma extensão na qual não há nenhum corpo sensível e, como acreditam que todo ente é corpóreo, afirmam que o vazio é aquilo no qual não há nada, e por isso o que está cheio de ar para eles está vazio. Agora, teria que mostrar, não já que o ar é algo, senão que não há uma extensão separável e atual na natureza que seja distinta dos corpos, seja que divida o corpo total de tal maneira que rompa sua continuidade (como afirmam Demócrito, Leucipo e muitos outros fisiólogos), ou que se encontre – 2l3 b - fora de todo o corpo contínuo. Os primeiros, sem exagero, não chegam sequer ao limiar do problema, onde aqueles que afirmam que existe [o vácuo] enfrentam-no melhor. Eles argumentam, em primeiro lugar, 1) que não haveria o movimento local (ou seja, o deslocamento e o aumento) pois não parece que haveria movimento se não existisse o vazio, já que impossível que o cheio receba algo. Se, pelo contrário, o recebesse e houvesse dois corpos em um mesmo lugar, seria possível que um número qualquer de corpos estivessem simultaneamente no mesmo lugar pois não se poderia indicar a diferença em virtude da qual isso não poderia ocorrer. Pois bem, se isso fosse possível, também o mais pequeno receberia o mais grande, pois muitos pequenos fazem o grande. E, portanto, se fosse possível que muitos corpos iguais estivessem no mesmo lugar, também poderiam estar muitos corpos desiguais. (Melisso, por certo, baseando-se nestas considerações, afirma que o Todo é imóvel, porque se se movesse, disse, teria que haver um vazio, mas o vazio não se encontra entre as coisas existentes).  2) Outra maneira de argumentar se apoia no feito de que algumas coisas parecem contrair-se e comprimir-se (eles colocam como exemplo o feito de que as tinas e os odres podem receber um complemento de vinho), como se o corpo ao contrair-se ocupasse alguns interstícios vazios que existissem nele. Ademais, 3) também o aumento lhes parece a todos que se produz pelo vazio, pois o alimento é um corpo e é impossível que os corpos estejam simultaneamente no mesmo lugar. Eles aduzem como testemunho o feito de que um recipiente cheio de cinzas pode absorver tanta água como um vazio. Também os pitagóricos 4) diziam que o vazio existe e que penetra no universo mesmo, como se este o inalasse desde um sopro infinito, e que é o vazio o que delimita as coisas sucessivas; e afirmavam que está primariamente nos números, pois o vazio delimita sua natureza. ( DK 67 A 19 )

ARISTOT. De anima,  403 b 31 – Demócrito declara que a alma é algo quente ou uma espécie de fogo; pois, havendo infinitos átomos e formatos, diz que os de forma esférica são fogo e alma (como no ar as chamadas poeiras, que se revelam nos raios de luz através das frestas); ele afirma, por um lado, que o agregado de sementes contém os elementos da natureza inteira (e de maneira similar pensa Leucipo), e, por outro lado, que dentre esses os de forma esférica são alma, sobretudo porque tais fluxos podem tudo permear e, por moverem as coisas restantes, que se movem também. Disso se supõe que é a alma que fornece aos animais o movimento. E por isso também o que define o viver é a respiração. Pois, como o ar circundante comprime os corpos, expulsando os formatos que, por nunca repousarem, fornecem aos animais movimento, um auxílio vem de fora. Pois, ao serem introduzidos de novo outros semelhantes no respirar, impedem que os formatos contidos nos animais escapem, ajudando a repelir aquilo que contrai e condensa ´e vivem enquanto puderem fazer isso.  ( DK 67 A 28 )


            Simplício também se refere a Leucipo e a Demócrito em vários de seus textos:


SIMPLIC. Comentários Sobre o Céu de Aristóteles, 58. 20 : - Eles disseram que os primeiros corpos (primeiro de acordo com eles), ou seja, os átomos se movem eternamente no vazio infinito por uma força que os força. ( DK 67 A 16)

SIMPLIC. Comentários Sobre o Céu de Aristóteles, 202, 16 : -  Leucipo e Demócrito dizem que os mundos são infinitos em número no vazio infinito e que derivam de infinitos átomos de número. ( DK 67 A 21 )

SIMPLIC. Comentários Sobre o Céu de Aristóteles, 242, 15 : - Também não é possível que os corpos elementares, como separados [pelo vazio], sejam infinitos em número, como afirmam os seguidores de Leucipo e Demócrito, viveram antes dele [Aristóteles] e depois dele, Epicuro. Eles na verdade dizem que os princípios são em número infinito e acreditavam que eram átomos, que é indivisível e pelo fato inalterável que eles são sólidos e eles não contêm vazio: uma vez dito que a divisão é possível nos corpos devido ao vácuo neles. Esses átomos, que no vazio infinito são separados uns dos outros e que diferem em forma e em tamanho e em ordem e posição, movem-se no vazio e colidem, colidem e se recuperam e são empurrados para onde acontece, de acordo com a conveniência de forma, tamanho, ordem e posição, e permanecem unidos; e assim é a geração de tudo o que é composto. ( DK 67 A 14 )

SIMPLIC. Comentários sobre a Física de Aristóteles, 25, 2 [cf. 64 A 5]. [Diógenes de Apolônia diz que] escreveu a maioria das coisas sem consistência, em parte seguindo Anaxágoras, em parte Leucipo. ( DK 67 A 3 )

SIMPLIC. Comentários sobre a Física de Aristóteles, 28, 4 [cf. THEOPHR. Phys. Opin. fr. 8; Dox. 483]. Leucipo, de Eleia ou Mileto (porque há uma ou outra tradição sobre ele), parecendo com a filosofia de Parmênides, não seguiu o mesmo caminho que Parmênides e Xenófanes ao explicar as coisas, mas, de acordo com o que comumente se mantém, de uma maneira completamente contrária. Na verdade, enquanto aqueles concebiam o universo como um e imóvel e não gerados e limitados e nem sequer entraram na hipótese do não-ser, ele [Leucipo] apresentou os átomos como elementos infinitos e em movimento eterno e declarou que eles também são infinitos em número, tanto porque nada possui essa forma que a maior razão do que qualquer outra, seja porque ele observava que a geração e a mudança são ininterruptas nos seres. Além disso, ele não admitiu que existiu maior razão do que o não-ser, e considerando um ao outro igualmente como causa da coisa que se geraram. Na verdade, como ele supunha que a substância dos átomos era sólida e cheia, ele chamou de ser e disse que se move no vácuo, ao qual ele deu o nome de não ser, dizendo que não existe nada menos do que ser. Do mesmo modo, seu discípulo Demócrito de Abdera também estabeleceu o total e o vazio, etc. ( DK 67 A 8 )

SIMPLIC. Comentários sobre a Física de Aristóteles, 36,1: - Os seguidores de Leucipo e Demócrito, que chamam os átomos de corpos primeiro e de menor tamanho, afirmam que, dependendo de suas diferenças de forma,  posição e ordem, são formados por aqueles que são quentes e ígneos (ou seja, aqueles que são composto de corpos primos mais nítidos e mais minuciosos e todos dispostos de forma semelhante), ou frios e aquosos (ou seja, compostos de átomos com propriedades contrárias), e alguns são brilhantes e luminosos, outros opacos e obscuros.  ( DK 67 A 14 )

SIMPLIC. Comentários sobre a Física de Aristóteles, 648, 12: - os seguidores de Demócrito e Leucipo declararam que não só no mundo há vazio, mas também fora do mundo. ( DK 67 A 20 )

SIMPLIC. Comentários sobre a Física de Aristóteles, 925, 10 : -   Aqueles que deixaram a divisão indefinidamente, pela razão de que não podemos dividir indefinidamente e assim assegurar a continuação indefinida da divisão, dizem que os corpos são constituídos por elementos indivisíveis e depois se decompõem a esses indivisíveis. Exceto que, enquanto Leucipo e Demócrito acreditam que a causa da indivisibilidade dos primeiros corpos não é apenas a inalterabilidade, mas também a sua pequenez e a ausência de partes, Epicuro [fr. 268] mais tarde não admitiu que os primeiros corpos estavam sem partes e disseram que são indivisíveis apenas pela inalterabilidade. E Aristóteles refutou em muitos lugares a opinião de Leucipo e Demócrito, e talvez precisamente por essas refutações sobre a falta de partes nos primeiros corpos, Epicuro, que veio mais tarde e aderiu à concepção atomística de Leucipo e Demócrito, manteve átomos e a inalterabilidade, mas ele negou a ausência de partes, admitindo que, para este último, Leucipo e Demócrito foram refutados por Aristóteles. ( DK 67 A 13 )

SIMPLIC. Comentários sobre a Física de Aristóteles, 1121, 5 - Aqueles que argumentam que os mundos são infinitos em número, como os seguidores de Anaximandro e Leucipo e Demócrito e mais tarde a escola de Epicuro, afirmaram que nasceram e se dissolveram indefinidamente, pois nasceram e dissolveram incessantemente; e eles disseram que o movimento é eterno: de fato, sem movimento, não é possível gerar e destruir.  ( DK 67 A 21 )

            Écio[1], em sua obra, Opiniões dos Filósofos, também cita Leucipo e Demócrito em diversas passagens:

AET. I 3, 15 – Leucipo de Mileto considera como princípio e elemento, o pleno e o vazio. ( DK 67 A 12 )

AET. I 4, 1-4 – [Conforme Epicuro, frag. 308, extraído da Grande Cosmologia de Leucipo ] (1) O mundo, portanto, se formou assumindo uma figura curva; e sua formação seguiu esse processo: uma vez que os átomos estão sujeitos a um movimento aleatório e não preordenado e se movem incessantemente e com grande velocidade, vários deles (e, precisamente por isso, das formas e tamanhos mais variados) foram reunidos em um mesmo lugar. (2) Coletando esses átomos no mesmo lugar, uma parte, aqueles que eram maiores e mais pesados, eles foram parar completamente no fundo; os outros, pequenos e redondos, suaves e facilmente fluídos, foram expulsos após a entrada de outros átomos que os empurrou para cima. Como então, chegou a cessar a força repulsiva que os elevou e o impacto não pôde mais empurrá-los para cima, enquanto, por outro lado, encontraram obstáculos [naqueles abaixo] e não podiam mais descer, vieram apertar os lugares para que possam recebê-los, isto é, nos lugares ao redor [da massa central]: e nestes, a multidão de átomos sutis se espalhou, gerando, entrelaçando ao longo da curvatura, o céu. (3) Uma vez que os átomos, embora da mesma substância, eram de vários tipos, como afirmado acima, estes rejeitados na região superior formaram a matéria das estrelas. A multidão dos corpúsculos que ascenderam continuamente através da evaporação feria o ar comprimindo-o; e isso, transformado no vento pelo movimento imposto sobre ele e envolvendo as estrelas inteiramente, arrastou-os junto com ele por sua vez e depois manteve-se sempre e agora também determina seu movimento revolucionário na região mais alta. Mais tarde, dos átomos deixados para se depositarem no fundo, a Terra foi produzida, enquanto daqueles trazidos para a região mais alta o céu, o fogo, o ar foram formados. (4) E uma vez que ainda havia muita matéria acumulada na terra e condensada sob o impacto dos ventos e pela expiração das estrelas, toda a sua parte com uma configuração minúscula foi mais comprimida e, assim, gerou a matéria líquida; que, sendo de natureza fluida, desciam nas cavidades, nos lugares mais adequados, isto é para conter e preservar; ou, em outro lugar, a água depositada escavou os locais onde estava localizado. Seguindo esse processo, portanto, as principais partes do mundo foram formadas.  - EPIC. ep. II 88 ff. p. 37, 7. O mundo é uma porção circunscrita determinada do céu, contendo estrelas e terra e todos os objetos sensíveis, tendo uma clara separação do infinito  [e que termina em um limite ou raro ou denso, e cuja dissolução produzirá a ruína de todos os corpos que contém], ou com este limite sujeito a movimento rotativo ou em repouso e com perímetro ou redondo ou triangular ou o que for. É fácil entender que tais mundos são infinitos em número e que cada um desses mundos pode ocorrer em um mundo ou em um intermundo (como chamamos de intervalo entre os mundos), em breve, em um espaço onde há muito vazio , e não em um grande e puro vazio, como alguns gostariam: já que, de um único mundo ou intermundo ou mesmo de vários fluxos, pouco a pouco, os átomos apropriados fluem e produzem crescimento de matéria e novas conexões e deslocamentos de um lugar para outro ... Não é suficiente, de fato, que apenas um conjunto de átomos seja coletado, e nem mesmo um vórtice é suficiente, naquele vazio em que é possível que um mundo se forme (de acordo com o que se acredita) está em conformidade com a necessidade e aumenta para quando não colide com outro, como alguns dos que são chamados de física. Porque isso contrasta com o fenômeno. (DK 67 A 24)

AET. I 18, 3  Leucipo, Demócrito, ... Epicuro disse que os átomos infinitos do número e o vazio infinito de tamanho.... E tampouco os acidentes devem ser considerados racionais, como outros, por exemplo Leucipo e Demócrito de Abdera: eles dizem que as quantidades elementares são infinitas em número, mas de tamanho indivisível, excluindo isso de um deriva a multiplicidade ou do múltiplo e, em vez disso, argumenta que tudo é gerado pela conexão ou "baralhar" dessas quantidades elementares. Agora, mesmo assim, de certa forma, todas as coisas fazem números e derivados de números: porque, mesmo que não o expressem abertamente, ainda assim é o que eles significam. Além disso, como os corpos diferem em forma e forma são infinitos, eles afirmam que mesmo os corpos simples são infinitos. Mas qual é a forma desses elementos, ou melhor, o que eles são para cada um deles, eles não especificaram, e apenas atribuíram a forma esférica ao fogo; o ar e a água e as outras substâncias os distinguiram através da grandeza e da pequenez, considerando-os como uma "panspermia" de todos os elementos. ( DK 67 A 15 )

AET. II 1, 3  Anaximandro, Anaxímenes ... Diógenes, Leucipo, Demócrito ... afirmam que existem infinitos mundos no espaço infinito em todas as direções. ( DK 67 A 21 )

AET. II 2,2 - Leucipo e Demócrito afirmam que o mundo é esférico em forma. AET. II 3, 2 . Leucipo e Demócrito e Epicuro afirmam que [o mundo] não é animado nem governado pela providência, mas surgiu dos átomos, por uma força irracional. AET. II 4, 6. Anaximandro ... e Leucipo consideram o mundo perecendo ( DK 67 A 22 )

AET. II 7, 2 Leucipo e Demócrito espalharam-se ao redor do mundo, uma túnica ou uma membrana, que resultaria de um entrelaçamento de átomos de forma enganchada. ( DK 67 A 23 )

AET. III 3, 10 Leucipo afirma que o trovão é produzido pela violenta queda do fogo encerrada nas nuvens mais densas ( DK 67 A 25 )

AET. III 10,4 – [na forma da terra]. Leucipo considera isso na forma de um tambor  ( DK 67 A 26 )

AET. III 12,1 – [na inclinação da terra]. Leucipo mostra que a terra está inclinada para a parte sul por uma maior raridade do ar naquela parte, uma vez que as regiões do norte [da atmosfera] são condensadas pelo frio que as faz congelar, enquanto as regiões opostas estão queimando   ( DK 67 A 27 )

AET. IV 8,5 - Leucipo e Demócrito acreditam que as sensações e os pensamentos são modificações do corpo. - AET. IV 8, 10 - Leucipo, Demócrito e Epicuro afirmam que a sensação e o pensamento são produzidos à medida que nos penetram com ídolos do lado de fora; nem um nem o outro podem surgir em nenhum, independentemente do ídolo que nos entra. ( DK 67 A 30 )

AET. IV 9, 8. Enquanto que para os outros filósofos, os objetos sensíveis são, por natureza, o que eles parecem ser, para Leucipo, Demócrito e Diógenes [de Apolônia], por outro lado, eles são subjetivamente, de acordo com nossas opiniões e impressões. Nada para eles é verdadeiro e compreensível, exceto pelos primeiros elementos, que são os átomos e o vazio. E somente estes são por natureza, enquanto as coisas que derivam e diferem umas das outras por posição e figura de ordem são puramente acidentais (DK 67 A 32 )

AET. IV 13, 1 - Leucipo, Demócrito, Epicuro acreditam que a sensação visual é devido à introdução de pequenas imagens [no olho] (DK 67 A 29)

AET. IV 14, 2. Leucipo, Demócrito e Epicuro dizem que as imagens no espelho são geradas pela resistência que se opõe aos ídolos, que vêm de nós [que refletimos] e são coletados pelo espelho que os envia de volta na direção oposta. ( DK 67 A 31 )

AET. V 4, 1 [se a semente animal é corpo]. Leucipo e Zenão dizem que é um corpo; porque é matéria que se separa da alma ( DK 67 A 35 )

AET. V 25, 3 [a quem pertence o sono e a morte, se à alma ou ao corpo]. Leucipo diz que o sono é produzido no corpo quando pequenas partículas na maior quantidade do calor vital saem dele; e quando eles saem excessivamente, isso é devido à morte; e estas são afecções do corpo e não da alma. ( DK 67 A 34 )

AET. V 7,5 a - [como os machos e fêmeas são gerados]. Leucipo atribui a causa à diferença dos membros, pelo que o único recebe o membro viril, o outro a matriz; e não adiciona nada mais. (DK67 A 36) 

            Fragmentos:

[Da Grande Cosmologia]. Que as estrelas são seres animados, nem Anaxágoras  nem Demócrito na Grande Cosmologia admite isso (DK 67 B 1)

que ... as mesmas coisas já haviam sido ditas antes na Grande Cosmologia, que eles dizem serem o trabalho de Leucipo. E ele é culpado por ter apropriado as doutrinas dos outros de tal modo, não só colocando as doutrinas encontradas na Grande e na Pequena Cosmologia ... [Não foram recebidas outras citações da Grande Cosmologia, porém as exposições dos doxógrafos nos autorizam a atribuir para esse trabalho, os termos átomos ... (DK 67 B 1 a)

[Do Intelecto]. Leucipo diz que tudo acontece de acordo com a necessidade e que isso corresponde ao destino. Na verdade, ele diz no livro do intelecto: Nada é produzido sem razão, mas tudo com uma razão e necessariamente. (DK 67 B 2)

            Leucipo é ainda citado por vários doxógrafos, historiadores e comentaristas, dentre os quais citamos Cícero, Hipólito de Roma, Clemente de Alexandria e outros.




[1] Aetius ou Aecio, filósofo do primeiro século d.C., do qual nenhuma obra sobreviveu. No entanto, suas citações são atribuídas em ensaios acadêmicos descobertas nas abreviaturas de Pseudo-Plutarco e Stobaeus. É, portanto, tido como o autor da obra De Plácita Philosophorum ( Opiniões dos Filósofos ) associada a Pseudo-Plutarco e Eclogae Physicae ( Extratos físicos e morais) associada a Stobaeus.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

ANTÍSTENES



             Antístenes ( em grego Ἀντισθένης ) foi um filósofo grego[1], nascido em Atenas, que viveu aproximadamente entre os anos 445 e 365 a.C., considerado o fundador da filosofia cínica[2]. Como era filho de um ateniense, também de nome Antístenes, e de uma trácia, não tinha nem o título nem o direito de cidadão ateniense.
            Foi discípulo de Górgias, com quem aprendeu retórica,  de Hípias de Élide, de Pródico de Ceos e posteriormente de Sócrates, ao lado de quem permaneceu até sua condenação e morte quando, desencantado com a filosofia existente e impressionado pela disciplina socrática, fundou uma escola no santuário e ginásio de Cinosargo[3], um ginásio público construído fora das muralhas no lado sul da antiga Atenas, um local destinado àqueles que não possuíam a cidadania ateniense, de onde se originou o termo cínico.
            Seus discípulos, quase todos, eram das classes populares, devido à simplicidade que predicava. Sua doutrina era fragmentária e, ainda que se saiba que escreveu extensamente, (dez livros segundo Diógenes Laércio em sua  da Vida dos filósofos mais ilustres , 6, 2, ) nenhuma de suas obras sobreviveu, sendo que é através destes registros e dos diálogos de Xenofonte, que certos aspectos de sua vida e do seu pensamento ficaram conhecidos.
Seu estilo preferido, ao que parece, foram os diálogos, alguns dos quais com contundentes ataques a seus contemporâneos, como Alcebíades (na segunda de suas duas obras chamadas Ciro), a Górgias (em seu Arquelao) e a Platão (em seu Satão), num estilo puro e elegante, de considerável sarcasmo e ironia, e de inúmeros trocadilhos.
            Como discípulo de Sócrates, de quem aprendeu o preceito ético fundamental de que a virtude, e não o prazer, é a meta da existência, preferiu predicar o ascetismo e a simplicidade como exemplo. Para ele, a virtude consistia em uma ação que, uma vez obtida, jamais seria perdida, eximindo o sábio do erro. Por outro lado o prazer, para ele, não era apenas desnecessário, mas desprezível; não todo e qualquer tipo de prazer, mas apenas aqueles resultantes dos desejos sensuais ou artificiais, pois seria possível louvar os prazeres que “brotam da alma de alguém” e o gozo de uma amizade escolhida com sabedoria.  Defendia uma teologia negativa, politeísta, argumentando que existiam diversos deuses nos quais as pessoas acreditavam, porém apenas um Deus natural, que não era como as coisas, pois nada do que se pode dizer delas podia-se afirmar dele.
            Atormentado pelo problema dos universais, como um nominalista, acreditava que a definição e o predicado são “ou falsos” ou “tautológicos”, já que só podem afirmar que cada indivíduo é o que ele é, e não pode fornecer mais do que uma mera descrição de suas qualidades, contrapondo-se frontalmente ao conceito platônico das ideias, quando afirmava: “eu vejo um cavalo, porém a qualidade inerente a todos os cavalos, eu não vejo”.

DL, 6, 1 SS : - Antístenes, filho de Antístenes, foi ateniense. Lhe objetavam com desprezo, como se fosse oriundo de outras regiões, ao que respondeu: Também a mãe dos deuses é de Frigia.... Igualmente o mesmo Antístenes, aos atenienses que se vangloriavam de serem nativos, os humilhou dizendo que nisto não estavam em melhores condições que os caracóis... No começo foi discípulo do orador Górgias, por cuja razão em seus diálogos manifesta um estilo retórico...Depois foi discípulo de Sócrates, e aproveitou-se tanto dele que exortou aos seus discípulos que se tornassem seus condiscípulos na escola de Sócrates. Habitava o Pireo, e andava cada dia os quarenta estádios para ouvir a Sócrates, do qual aprendeu a ser paciente e sofrido, imitando sua serenidade de ânimo, e assim foi fundador da seita cínica. Confirmava que o trabalho é bom, com o exemplo de Hércules o grande e de Ciro, trazendo aquele dos gregos e este dos bárbaros. Foi o primeiro que definiu a oração, dizendo: A oração é uma exposição do que era ou é. ... Havendo ouvido certa vez que Platão falava mal dele, respondeu: Dos reis é ouvir males, havendo feito bens. ... Ao lhe perguntarem por que tinha tão poucos discípulos, respondeu: Porque não os arrebato com meu cajado de prata... Ao perguntarem-lhe que coisa era melhor para os homens, respondeu: morrer feliz. Censurando-lhe em certa ocasião porque andava com os maus, respondeu: Também os médicos andam entre os enfermos e não pegam febre.... Perguntando-lhe que havia aprendido da filosofia, respondeu: Poder comunicar-me comigo mesmo.... Criticava Platão por ser faustoso, e em certa pompa pública, vendo relinchar um cavalo, lhe disse: Me parece que você teria sido um belíssimo cavalo. ... Tendo vindo visitar Platão, que estava doente, e olhando uma vasilha cheia de seus vômitos, disse: Vejo aqui a cólera, mas o luxo eu não vejo. Aconselhava aos atenienses que transformassem por decreto, os asnos em cavalos; e tendo eles isto por coisa irracional, disse: Pois entre vós também se acreditam generais de exército que nada estudaram, e só tem em seu favor a nomeação... Suas opiniões ou dogmas são: Que a virtude se pode adquirir com o estudo. Que o mesmo é ser virtuoso e nobre. Que a virtude basta para a felicidade, não necessitando nada mais que a força de Sócrates. Que o sábio basta a si mesmo. Que todas as coisas próprias são também alheias. Que o sábio não há de viver segundo as leis postas, senão segundo a virtude. ... Debatia no Cinosargo, ginásio próximo à cidade, de onde dizem alguns, que tomou o nome da seita cínica. ... São dez os seus livros escritos: no primeiro estão os seguintes tratados: Da dicção ou locução, ou seja das figuras; Ajax ou oração a Ajax; Ulisses, ou De Ulisses; Apologia a Orestes, que trata dos escritores jurídicos; Isógrafe ou Desias, ou seja Isócrates, contra o escrito de Isócrates intitulado Amartiros. No livro segundo se acham os seguintes capítulos:  Da natureza dos animais; Da geração dos filhos, ou seja, Das núpcias: é obra erótica; Dos sofistas, livro fisionômico; Da justiça e força, diálogo monitório, primeiro, segundo e terceiro capítulos; o quarto e o quinto tratam de Teognides. O livro terceiro contém os tratados Do bem, Da força, Da Lei e Da República, Da Lei, Do honesto e justo; Da liberdade e servidão; Da fé, Do curador, Do obtemperar, Da Vitória, livro econômico. No livro quarto estão os capítulos Ciro, Hércules o Maior ou Da força. No quinto estão o Ciro ou do reino e Aspásia. No sexto, Da verdade, Da disputa, livro antilógico; Satão, três capítulos Da contradição e Do dialeto. No sétimo, Da disciplina ou dos nomes, em cinco capítulos; De morrer, Da vida e da morte; Do que existe no inferno; Do uso dos nomes, ou seja Heurístico; Da pergunta e resposta; Da opinião da ciência, em quatro capítulos: Da natureza dos livros. Questão acerca da Física; dois capítulos; Opiniões, ou seja Heurístico, e Problemas acerca do aprender. O livro oitavo encerra os tratados Da música, Dos expositores, De Homero, Da injustiça e impiedade; De Calcante, Do observador e Do Deleite. O livro nono contem os seguintes tratados: Da Odisseia, Do báculo ou vara, Minerva ou Do Telemaco; Helena e Penélope, Do Proteo, O ciclope ou De Ulisses; Do uso do vinho ou Da ebriedade, ou seja Do Cíclope; De Circe, De Anfiardo, De Ulisses e Penélope e do cão. O livro décimo abraça Hércules ou Midas; Hércules, ou seja Da prudência ou da força, O senhor ou Amador; Os senhores e os Exploradores, Menejano, ou seja Do imperar; Alcebíades, Arquelao, ou seja Do reino. ... Morreu de enfermidade, ao tempo em que chegando a ele Diógenes, lhe disse: Necessitas de um amigo? Havia entrado antes com um punhal, e dizendo Antístenes: Quem me livrará destes males? , respondeu Diógenes mostrando o punhal: Este!. Ao que replicou Antístenes: Dos males falo, não da vida. Parece que o desejo de viver lhe fazia sofrer a doença com maior resignação. Meus versos para ele são os seguintes: Foste, Antístenes, cão com tanta propriedade enquanto vivestes, que mordias aos homens, não com os dentes, senão com as palavras.

            Posteriormente, sobre Antístenes, muitos outros fizeram comentários, com maior ou menor relevância para seus próprios propósitos, o que não nos cabe discutir neste momento, como se pode depreender dos comentários de Eudócia, Epifânio, Diodoro, Sêneca, Plutarco, Clemente de Alexandria, Luciano, Eustáquio e Tomas de Aquino, entre outros, que evidenciam a grande influencia que seu pensamento trouxe para a filosofia, uma vez que seus ensinamentos perduraram por mais de mil anos depois de sua morte, ainda encontrando algum eco, inclusive, no pensamento contemporâneo.


[1] Segundo Diógenes Laércio, em sua obra Vida dos Filósofos mais Ilustres, 6, 19, existiram três Antístenes:  Um socrático, ao qual nos referimos neste texto; outro heraclitiano, citado por Diels-Kranz, do qual não existem informações disponíveis e outro, um historiador de Rodes. Este Antístenes, como discípulo de Sócrates, teve seu apogeu filosófico em período posterior a ele, motivo pelo qual não pode ser o citado na obra de Diels-Kranz, que cita indiretamente o heraclitiano. ( DK 66 A 1) e ss.
[2] O cinismo foi provavelmente a ramificação mais original e influente da tradição socrática na Antiguidade. No início do período helenístico, a sociedade grega desfrutava dos refinamentos e dos luxos de uma civilização altamente desenvolvida, mas na qual as desigualdades sociais sempre foram amplas.Com o declínio da polis como o centro abrangente da vida social, cada indivíduo sentiu-se compelido a assegurar a sua própria felicidade num mundo em que não era incomum ser enviado para o exílio, levado prisioneiro por piratas ou vendido como escravo. Nessa perspectiva, o cinismo foi concebido como uma resposta a essa busca da felicidade pela qual os gregos desse tempo estavam obcecados. Assim, os cínicos eram conhecidos não só por ser francos e diretos, ou por sua habilidade de distinguir amigos de inimigos, mas acima de tudo, por seu modo de viver em público como cães, despudoradamente indiferentes às normas sociais estabelecidas. Sua rejeição deliberada da vergonha, a base da moralidade grega tradicional, autorizava-os a adotar modos de vida que escandalizavam a sociedade, mas que eles viam como naturais. Sua ideia radical de liberdade – usar qualquer lugar para qualquer propósito – tornava o insultuoso epíteto canino tão apropriado que eles, ao invés de rejeitá-lo, adotaram-no desafiadoramente como uma metáfora para sua postura filosófica. Os cínicos não se prendiam a um local ou escola para transmitir sua filosofia, nem seus mestres seguiram uma linha sucessória na liderança do movimento. Sua filosofia era menos uma questão de classes ou aulas do que a mimese, onde a doutrina se propagava pela imitação de figuras exemplares.
[3] A palavra Cinosargo significava “cachorro branco”, motivo pelo qual os cínicos eram tratados por cão, a exemplo de seu discípulo, Diógenes de Sínope ou Diógenes o cão, como era conhecido um filósofo cínico paradigmático da Antiguidade, que viveu aproximadamente entre os anos 412 e 323 a.C.

domingo, 21 de janeiro de 2018

CRÁTILO

           
            Crátilo ( em grego Κρατύλος), foi um filósofo grego, discípulo da filosofia de Heráclito de Éfeso, que viveu no século V a.C. que, segundo Diógenes Laércio, em sua obra Vida dos Filósofos mais ilustres, III, 6, foi professor de Platão após a morte de Sócrates ou, segundo Aristóteles, em sua Metafísica, 987 a 32, antes disso, já que foi seu amigo desde jovem, tendo influenciado sobremaneira seu pensamento. Sobre o seu nascimento ou morte, assim como as datas mais precisas, não temos nenhuma informação.

DL, III,6  – (Platão) Desde então se fez discípulo de Sócrates, aos vinte anos de idade. Ao morrer Sócrates, passou para a escola de Crátilo, discípulo de Heráclito, e à de Hermógenes, que seguia dos dogmas de Parmênides.

ARIST. Metaf., 987 a 32 : - Platão, com efeito, tendo sido desde jovem amigo de Crátilo e seguidor das doutrinas heraclitianas, segundo as quais todas as coisas sensíveis estão em contínuo fluxo e das quais não se pode fazer ciência, manteve posteriormente essas convicções.
                                                                                           ( DK 65 A 3 )

            Crátilo, considerado por Aristóteles como um orador que mais gesticulava do que falava, enérgico e passional ( Retor. 1417, b 1) leva ao extremo o conceito heraclitiano de fluxo (panta rei: "tudo flui") e de devir, afirmando que não só não se pode mergulhar duas vezes no mesmo rio mas nem mesmo uma única vez, porque a água que molha a ponta do pé não será a mesma que molha o calcanhar. Da mesma forma, pensava que fosse impossível dar um nome às coisas, pois, estando estas em constante devir, não seriam mais aquelas. Limitava-se portanto a apontá-las. Daí se segue sua tese da incognoscibilidade do  real, que antecipa de certa forma o pensamento cético.

ARISTOT., Retor., 1417 b 1 - Este outro exemplo vem de Ésquines, o qual descreve Crátilo “sibilando tomado de fúria e agitando os punhos” Esses meios tendem a produzir persuasão já que, conhecidos, para o auditório convertem-se em signos daquilo que o auditório ainda não conhece. ( DK 65 A 2 )

ARISTOT. Metaf., 1010 a 7 : - Ademais, vendo que toda a realidade sensível está em movimento e que do que muda não se pode dizer nada de verdadeiro, eles concluíram que não é possível dizer a verdade sobre o que muda, pelo menos que não é possível dizer a verdade sobre o que muda em todos os sentidos e de todas as maneiras. Dessa convicção derivou a mais radical das doutrinas mencionadas, professada pelos que se dizem seguidores de Heráclito e aceita também por Crátilo. Este acabou por se convencer de que não deveria nem sequer falar, e limitava-se a simplesmente mover o dedo, reprovando até mesmo Heráclito por ter dito que não é possível banhar-se duas vezes no mesmo rio. Crátilo pensava não ser possível nem mesmo uma vez. ( DK 65 A 4 )

            Esse radicalismo de Crátilo, na defesa do movimento e do devir, influenciou de tal forma o pensamento de Platão, que este o homenageou, dando seu nome ( e aqui se mostra evidente a ironia platônica ) a um dos seus diálogos[1], particularmente aquele em que aborda a característica nominalista do ser humano.

PLAT. Crátilo, 383 A – [ Hermógenes ] - Crátilo afirma, Sócrates, que todas as coisas possuem um nome correto, que lhe é inerente por força da natureza, e que o nome de uma coisa não é algo pelo qual é chamada devido a um acordo das pessoas, como uma partícula de sua própria linguagem nativa aplicada a ele, mas que há uma correlação inerente aos nomes, que é a mesma para todos, gregos e bárbaros. Pergunto-lhe, consequentemente, se seu nome é verdadeiramente Crátilo, com o que ele concorda. “E quanto a Sócrates?”, eu disse, “Seu nome é Sócrates”, ele disse. “E isso se aplica também a todos os demais seres humanos e o nome particular pelo qual chamamos cada pessoa é seu nome?”. E ele disse: “Não, teu nome não é Hermógenes mesmo que toda a humanidade te chame assim”. ( DK 65 A 5 )

PLAT. Crátilo 429 d. [Sócrates] - Talvez o seu discurso queira expressar isso, e é que é absolutamente impossível dizer o falso? ... Crátilo - Como poderia ser possível, Sócrates, esse, dizendo o que ele diz, diz o que não é? Ou não é precisamente isso dizer o falso, isto é, as coisas que não são?  - Sócrates. - Muito refinado é este discurso para mim e, além disso, na minha idade, querido amigo. No entanto, me diga isso: talvez não seja possível dizer falso, mas expressá-lo verbalmente sim? Crátilo - Não, nem mesmo expressa verbalmente. Sócrates. - E nem sequer fala ou fala a palavra? como se, por exemplo, se encontrasse em um país estrangeiro, tomando sua mão, disse-lhe: "Olá ou Hermógenes, um estranho de Atenas, filho de Esmícrion", ele diria essas coisas ou as expressou ou fala sobre elas ou abordá-las Palavra não para você, mas para este Hermógenes aqui, ou para qualquer um? Crátilo. - Para mim, ou Sócrates, parece que isso não faz nada além de emitir sons. ( DK 65 A 1 )





[1] Neste diálogo, Sócrates discute com Hermógenes e Crátilo a respeito da origem dos nomes. Se para o primeiro, o nome é o resultado de uma convenção, para Crátilo, os nomes fazem parte da natureza dos objetos. A ironia de Platão se faz presente, também, ao colocar Hermógenes como o personagem que defendia a ideia de nomes como resultado de uma convenção, já que ele mesmo, tendo seu nome derivado do deus Hermes, o belo mensageiro do Olimpo, ao que nos consta, era deformado e extremamente feio para os padrões de beleza da época sendo que, no diálogo, Hermógenes é caracterizado como um indivíduo médio e sem grandes atributos intelectuais.

sábado, 20 de janeiro de 2018

DIÓGENES DE APOLÔNIA



           
Diógenes de Apolônia [1] (em grego Διογένης ὁ Ἀπολλωνιάτης) foi um filósofo naturalista ( DK 64 A 2 ) grego de Apolônia, uma cidade fundada pelos milésimos na região do Ponto Euxino [2], na Trácia, atual noroeste da Turquia, considerado o último pré-socrático que viveu aproximadamente entre os anos 499 e 428 a.C.
            Filho de Apolotemis, um banqueiro mal sucedido foi, discípulo de Anaxímenes, conforme afirma Antístenes em virtude do seu princípio material e, segundo Diógenes Laércio em sua obra Vida dos Filósofos mais ilustres, IX, 57, contemporâneo de Anaxágoras de Clazômenas, do qual assimilou parte do conceito de Nous, sua filosofia marca um retorno ao modo de pensar jônio, ao assumir como princípio primordial “o ar” - um ar infinito e inteligente - e, a partir dele, tentar explicar os demais fenômenos.

Diógenes, filho de Apolotemis, nativo de Apolônia, foi um sábio físico, e muito eloquente. Antístenes disse que foi discípulo de Anaxímenes, e viveu no tempo de Anaxágoras. Demétrio de Falero, na apologia por Sócrates, disse que Diógenes que por pouco não correu perigo em Atenas por causa da inveja. Suas opiniões são as seguintes: Que por princípio o elemento é o ar; que existem infinitos mundos; que o vazio é ilimitado; que o ar denso e raro é quem produz os mundos; que do que não é, nada se faz, nem se destrói no que não é; que a terra é cilíndrica e situada no centro, e que recebeu sua estabilidade e consistência da circunferência concentrada pelo calor, e a solidez e densidade a recebeu do frio. ( DK 64 A 1) O princípio de seu livro é: Quem começa o tratado de alguma ciência, creio que deve estabelecer um princípio certo e nada ambíguo, e usar de palavras sensíveis e sérias.  (DK 64 B 1 )

            Ao defender o monismo, a unidade da realidade como um todo, uma vez que, para ele, se o mundo tivesse origens em diversos elementos que sejam diferentes entre si eles não poderiam se misturar e atuar uns sobre os outros, as coisas devem se originar através da transformação de um mesmo elemento, o ar. Um ar inteligente que administra e governa tudo, assemelhando-se ao Intelecto de Anaxágoras, pois está em todas as partes, utiliza-se de todas as coisas e está dentro de tudo.
            Para ele, como não existe nada que não tome parte desse ar inteligente, do qual existem muitas formas, mais quente ou mais frio, mais seco ou mais úmido, mais parado ou mais em movimento, podendo se modificar infinitamente através do prazeres e das cores, a própria alma de todos os animais é feita dele. Um ar mais quente que está fora do corpo e mais frio do que aquele que está perto do Sol.
            Uma alma que é um ar pensante que se manifesta enquanto respiramos e vivemos e que quando sai de nós, no último suspiro, nos abandona e morremos.
            Mesmo de linhagem dórica, sabe-se que escreveu ao menos quatro livros no dialeto jônico: Contra os Sofistas, uma Meteorologia, um livro chamado Da natureza do homem e outro chamado Sobre a ciência natural, o único do qual nos chegaram alguns fragmentos. É provável que também tenha escrito um tratado sobre medicina.
            Segundo Aristóteles, História dos animais, 511 b – 513 a, Diógenes de Apolônia escreveu uma precisa anatomia das veias de onde, se torna possível especular se teria sido também um médico, inclusive porque Teofrasto, em outro momento, também menciona seus procedimentos para o diagnóstico de enfermidades através da análise da língua e da cor do paciente.

Diógenes de Apolônia  dá esta outra versão: «No homem, os vasos sanguíneos têm a disposição seguinte: há dois que são muito grandes. Esses estendem-se através do abdômen, ao longo da espinha dorsal, um à direita e outro à esquerda, até às pernas do lado respectivo e, para cima, em direção à cabeça, ao longo das clavículas passando pela garganta. Desses dois partem outros que se ramificam por todo o corpo, do da direita para o lado direito, do da esquerda para o esquerdo. Destes, os dois maiores seguem para o coração pela região da espinha dorsal; outros, um pouco mais acima, atravessam o peito sob a axila e dirigem-se para cada uma das mãos, do lado respectivo. Um chama-se esplênico, o outro, hepático. Cada um divide-se, no extremo, em dois ramos, de que um segue para o polegar e o outro para a palma. Daí partem ramificações numerosas e finas para o resto da mão e para os outros dedos. Outros vasos mais delgados partem dos anteriores, do lado direito para o fígado, do esquerdo para o baço e para os rins. Os que se dirigem para as pernas separam-se no ponto em que elas se unem e percorrem toda a coxa. O maior atravessa a parte de trás da coxa e torna-se mais saliente; o outro fica dentro da coxa e é um pouco menos espesso. Depois atravessam o joelho e seguem para a perna e para o pé. Como acontece com os vasos que vão para as mãos, estes atingem também a planta do pé e daí ramificam-se pelos dedos. Dos vasos grandes partem para o ventre e para o pulmão inúmeros vasos, que são finos.  Os que se estendem até à cabeça através da garganta parecem grandes a nível do pescoço. De cada um deles partem, no ponto em que terminam, para a cabeça inúmeras ramificações, umas da direita para a esquerda, outras da esquerda para a direita. Cada um destes conjuntos termina perto da orelha. Há um outro vaso no pescoço que, junto da grande veia, se divide em dois, um pouco mais pequeno do que aquela, onde vem ter a maior parte dos vasos da própria cabeça. Estas duas veias prolongam-se pelo interior da garganta, e de cada uma delas saem outros vasos que se encaminham, por baixo da omoplata, até à mão. Há também, ao longo da veia esplênica e da hepática, outros vasos um tanto mais pequenos, que se costumam lancetar quando há uma dor à flor da pele. Mas se a dor se manifesta no abdômen, a incisão faz-se na própria veia hepática e na esplênica. Destas duas últimas partem outras que se estendem sob as mamas. Há outras ainda que, a partir destas, avançam através da espinal medula até aos testículos, e que são delgadas. Outras ramificam-se por baixo da pele e através da carne até aos rins, e vão terminar, no homem, nos testículos, na mulher, no útero. Os vasos provenientes do ventre, primeiro, são largos, depois, tornam-se mais finos, até trocarem de lugar, os da direita para a esquerda, e vice-versa. Dá-se-lhes o nome de veias seminais. O sangue mais espesso forma-se sob a carne; mas à medida que se derrama nas zonas mencionadas, torna-se delgado, quente e espumoso.» ( DK 64 B 6 )

            Aristóteles também se refere a ele em outras obras

ARISTOT. Meteor., 355 a 21. O mesmo absurdo capita para estes, e para aqueles que dizem que, no início, a terra também estava molhada e que a parte do cosmos em torno da terra aquecida pelo sol se tornou ar, que o céu estava todo aumentado e que isso O ar produz ventos e causa conversões do próprio céu. ( DK 64 A 9 )

ARISTOT. De anima, 405 a 21.  – Diógenes, bem como alguns outros, disse que a alma é ar, julgando ser o composto das menores partículas e princípio de tudo, e que por isso a alma tanto conhece como se move: por ser o primeiro princípio a partir de que tudo o mais existe, por um lado, a alma conhece; por ser composta das menores partículas, por outro lado, a alma é capaz de se mover.  ( DK 64 A 20 )

ARISTOT. Da respiração., 471 a 3. De acordo com Diógenes, quando [o peixe] manda a água através das brânquias, através do vazio que eles têm na boca, eles extraem ar da água que rodeia a boca como se houvesse ar na água. - 471 b 12.  - E por que eles morrem no ar e eles são vistos para saltar como se estivessem sufocados, se é verdade que eles respiram? Com certeza eles não por falta de comida. Mas a causa que Diógenes traz é realmente inconsistente. Ele diz que, quando estão no ar, eles conseguem demais, mas quando estão na água, eles desenham uma quantidade certa: para isso eles morrem. ( DK 64 A 31 )

                        Ainda, segundo Diógenes Laércio, em sua obra Vida dos Filósofos mais Ilustres, V , 42 , segundo anotações de Simplício em seus Comentários sobre a Física de Aristóteles, de onde nos chegaram a maioria de seus fragmentos, ele alega que Teofrasto acusava Diógenes de Apolônia de, apenas, reproduzir os pensamentos de Anaxímenes, de Anaxágoras e de Leucipo:

Diógenes de Apolônia, que foi talvez o último daqueles que lidaram com tais problemas, escreveu a maior parte de suas obras, coletando-os de Anaxágoras e começando de Leucipo. Ele também diz que a natureza de tudo é ar, infinito e eterno, e que, por isso, como resultado da condensação ou da raridade ou mutação de qualidade, outras coisas são produzidas nas suas formas. Isto é o que Teofrasto expressa sobre Diógenes e seu livro intitulado "Na Natureza" que me chegou às mãos diz claramente que o ar é o que todo o resto produz. Mas Nicolau afirma que ele colocou como um elemento algo intermediário entre o fogo e o ar. Eles acreditavam que o ar para ser facilmente impressionável e alterável se adaptaria bem às mudanças e, portanto, não pensava em definir como princípio a terra que dificilmente se move e dificilmente muda. Desta forma, portanto, distinguimos aqueles que tornam o princípio (DK 64 A 5)

TEOFR.. De sens. 39 ss.- 39 - Diógenes, como o viver e o pensar, assim também as sensações retornam ao ar. Parece, portanto, que ele os explica por meio do meio (porque não seria possível que as coisas agissem ou sofressem se não viessem de um único princípio). Assim, a sensação olfativa pelo ar que envolve o cérebro: esse ar é compacto e proporcional ao cheiro: o cérebro é macio, suas veias muito finas e onde o ar não é compatível [com os cheiros] mistura-se com eles, porque se houvesse uma disposição proporcional à mistura, é claro que teria percepção. (40) A sensação auditiva, quando o ar nos ouvidos se moveu do externo, penetra no cérebro. A sensação visual, quando as imagens aparecem na pupila e esta mistura com o ar interno produz a sensação. E aqui está o sinal: se ocorrer uma inflamação das veias, [a pupila] já não se mistura com o ar interno e não vê mais, apesar da presença da imagem. A sensação de sabor através da língua, porque é macia é macia. Quanto ao toque, ele não definiu nada como ele é gerado ou para quais órgãos pertence. Em vez disso, depois disso, tenta dizer por que acontece que certas sensações são mais exatas e quem as possui. (41) A olfação, diz ele, é muito aguda naqueles que têm muito pouco ar na cabeça porque então a mistura é muito rápida, especialmente se o cheiro é arrastado através de um duto pequeno e estreito - porque julga mais rapidamente: por esse motivo Alguns animais são dotados de um sentido de cheiro mais sutil do que os homens. No entanto, quando o cheiro é compatível com o ar de uma maneira conveniente para a mistura, o homem tem sensações muito vivas. Eles ouvem da maneira mais aguda aqueles que têm veias finas, como para o sentido do cheiro, assim também para a audiência, eles têm um conduto curto, delgado e direito e também a orelha direita e grande, porque o ar que está nos ouvidos coloca movimento move o ar interno. Se, por outro lado, os tubos são muito grandes, quando o ar é movido, um ruído sai e o som é inarticulado porque não choca com o ar parado. (42) Eles veem da maneira mais aguda aqueles que têm ar e veias finas, como para as outras sensações, e aqueles que têm o olho mais brilhante. A cor oposta é o melhor de tudo: portanto, aqueles que têm olhos negros veem coisas brilhantes de dia e de preferência aqueles que as têm na cor oposta à noite. E um sinal de que para ter as sensações é o ar interior, uma pequena parte de Deus, é que muitas vezes, quando temos a mente para com outro, não vemos nem ouvimos. (43) O prazer e a dor surgem desta maneira: quando um monte de ar junta-se ao sangue e é conveniente para sua natureza e penetrando em todo o corpo, ilumina-se, é um prazer: quando é contrário à natureza do sangue e não se mistura então, condensando o sangue e tornando-se mais fraco e mais comprimido, tem dor. Igualmente por audácia, saúde e seus opostos. Muito apto a julgar o prazer é a língua, porque é a parte mais macia e mais suave e todas as veias se elevam para ele: portanto, você pode ver muitos sinais de doenças e denunciar as cores dos vários animais, porque quantos e quais são? todos eles aparecem para você. Então, portanto, para isso, a sensação é produzida. (44) O pensamento, como dissemos, ocorre através do ar puro e seco: de fato, a umidade dificulta a mente: é por isso que durante o sono ou em estados de embriaguez ou saciedade, alguém pensa menos. É uma prova de que a umidade tira a mente nisso, que os outros animais são inferiores aos homens na inteligência: de fato, respiram o ar que vem da terra e tem um alimento mais úmido. As aves respiram um ar tão puro, mas têm uma natureza semelhante à dos peixes, porque são carnes duras e o ar não pode penetrar pelo corpo inteiro, mas para no abdômen: portanto, eles rapidamente digerem alimentos, mas eles não têm inteligência . A boca e a língua também contribuem em parte para a comida, porque os animais não podem estar juntos. As plantas são igualmente desprovidas de pensamento porque não têm cavidades e não podem receber o ar. (45) Por esta mesma razão, mesmo as crianças não são sensíveis: na verdade, elas têm muita umidade, de modo que o ar não pode penetrar todo o corpo, mas é bloqueado ao redor do peito: é por isso que eles são indolentes e sem sentido. E então eles estão com raiva e completamente instáveis ​​e muito móveis porque muita onda é movida por peitos pequenos. E esta também é a razão do esquecimento: como o ar não pode passar por todo o corpo, ele não pode coletar. E aqui está o sinal: aqueles que tentam lembrar sentem a dificuldade no baú: quando ele lembrou que o ar se espalha e ele é libertado do tormento.  ( DK 64 A 19 )
  
SIMPLIC. Comentários sobre a Física de Aristóteles, 151, 31 - A minha maneira de ver, para tudo resumir, é que todas as coisas são diferenciações de uma mesma coisa e são a mesma coisa. E isto é evidente. Porque se as coisas que são agora neste mundo — terra, água, ar e fogo e as outras coisas que se manifestam neste mundo — se alguma destas coisas fosse diferente de qualquer outra, diferente em sua natureza própria, e se não permanecesse a mesma coisa em suas muitas mudanças e diferenciações, então não poderiam as coisas, de nenhuma maneira, misturar-se umas às outras, nem fazer bem ou mal umas às outras, nem a planta poderia brotar da terra, nem um animal ou qualquer outra coisa vir a existência, se todas as coisas não à espinha dorsal, uma à direita, outra à esquerda, ambas para fossem compostas de modo a serem as mesmas. Todas as coisasas respectivas coxas, e, para cima, à cabeça junto às clavículas nascem, através de diferenciações, de uma mesma coisa, ora em através do pescoço. Destas estendem-se veias através de todo o uma forma, ora em outra, retornando sempre à mesma coisa. ( DK 64 B 2 ) - 152, 13 Pois as coisas não poderiam estar divididas como estão, sem a inteligência, guardando as medidas de todas as coisas, do inverno e do verão, do dia e da noite, das chuvas, dos ventos e do bom tempo. E aquele que se der ao esforço de refletir, concluirá que todo o resto está disposto da melhor maneira possível ( DK 64 B 3 ) -, 152, 18 - Além destas, ainda as seguintes importantes provas. Os  homens e os outros seres animados vivem da respiração do ar. E isto é para eles alma e inteligência, como será claramente mostrado neste escrito; porque, se lhes for retirado, morrem e sua inteligência se apaga. ( DK 64 B 4 ) -  152, 22 - E a mim parece que possui inteligência aquilo que os As que atravessam as coxas, dividem-se na articulação e os homens chamam de ar, e que todas as coisas são governadas por ele, e que tem poder sobre todas elas. Pois é este precisamente que eu tomo por Deus, que atinge tudo, dispõe de tudo e está em tudo. E nada há que dele não participe. Contudo, uma coisa não participa dele da mesma maneira como uma outra, pois há  muitas diferenciações do próprio ar assim como da inteligência. E está submisso a muitas diferenciações, ora mais quente, ora mais frio, mais seco ou mais úmido, mais tranquilo ou em movimento mais rápido, e muitas outras diferenciações há nele e um número infinito de cores e sabores. E também a alta de todos os seres vivos é a mesma coisa: ar mais quente do que nos é exterior, no qual nos encontramos, mas muito mais frio do que o do Sol. Este calor não é o mesmo em nenhum dos seres vivos, como também não o é entre os homens: é diverso, mas são muito, somente o necessário para que permaneçam semelhantes. E não é possível tornarem-se as coisas diferenciadas semelhantes a outra, sem tornar-se o mesmo. Por ser, pois, a diferenciação multiforme, são também os seres multiformes e muitos, não sendo semelhantes nem em sua forma, nem em seu modo de vida, nem em sua inteligência, devido à multidão de diferenciações. Contudo, todos vivem, veem e ouvem através do mesmo, e desta fonte também lhes advém sua inteligência.  ( DK 64 B 5 ) - 153, 17 [depois de "o que os homens dizem que o ar é o princípio". É estranho que, ao dizer que as coisas são produzidas por aquela para a transformação, as defina todavia  eternas: e precisamente este é um corpo eterno e imortal, enquanto algumas coisas nascem, outras são menos. ( DK 65 B 7 )
            Sobre Diógenes de Apolônia, Diels-Kranz ainda registram comentários de Plutarco, de Écio, de Filodemos, de Apolônio de Rodes, Clemente de Alexandria, Censorino, Aristófanes e Galeno que, em suas obras e contextos, reproduzem os conceitos já abordados.


[1] Não confundir com Diógenes de Sínope, um filósofo cínico que viveu aproximadamente entre os anos de 413 e 323 a.C.)
[2] Nome greco-latino do Mar Negro