sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O SENTIDO DA BANALIDADE DO MAL PARA HANNAH ARENDT


Resumo: O presente trabalho destina-se a apresentar, baseado em um método de abordagem qualitativa, fundamentado no estudo de caráter hermenêutico, que se pode depreender particularmente, a partir da leitura do livro “Eichmann em Jerusalém”, o sentido da banalidade do mal para Hannah Arendt.  Mostrar, a partir da análise do conjunto de sua obra, que a questão do Mal, independentemente do período histórico observado ou da localização geográfica da população estudada, está diretamente ligada à característica desejante e individualista da espécie humana, denotando uma incapacidade modal de pensar e agir considerando o ponto de vista do outro.

Palavras Chave: Banalidade do Mal, Mal Radical, Totalitarismo, Massas, Judeus

Abstract: This paper is intended to present, based on a qualitative approach method, based on the hermeneutic character study, which can be seen particularly from the reading of the book "Eichmann in Jerusalem", the sense of the banality of evil for Hannah Arendt. Show, from the whole analysis of his work, that the question of evil, regardless of observed historical period or geographical location of the study population, is directly linked to the longing and individualistic characteristic of the human species, showing a average inability to think and act considering the perspective of the other.

Keywords: Banality of Evil, Evil Radical, Totalitarianism, Masses, Jews


1 – INTRODUÇÃO
           
            O presente trabalho destina-se a apresentar, baseado em um método de abordagem qualitativa, fundamentado no estudo de caráter hermenêutico, que se pode depreender particularmente, a partir da leitura do livro “Eichmann em Jerusalém”, o sentido da banalidade do mal para Hannah Arendt.  Publicada no ano 1963 e considerada por muitos a mais polêmica dentre todas as escritas pela “teórica da política”, como preferia ser chamada esta importante filósofa que viveu entre os anos de 1906 e 1975, esta obra foi compilada a partir das anotações realizadas por ela quando testemunhou o julgamento do carrasco nazista Otto Adolf Eichmann, responsável pelo envio de milhões de judeus para os campos de extermínio durante a Segunda Grande Guerra.
            Mostrar, como objetivo geral deste trabalho, que as conclusões às quais chegou Hannah Arendt acerca da banalidade do mal, evidenciam que aquele indivíduo só foi capaz de praticar os atos que possibilitaram o holocausto do povo judeu na Europa, porque existia, escondida sob a égide e o controle de um governo totalitarista, uma sociedade burocratizada e descompromissada com os “valores humanos”, que eliminou o senso comum.
Mostrar, a partir da análise do conjunto de sua obra, que a questão do Mal, independentemente do período histórico observado ou da localização geográfica da população estudada, está diretamente ligada à característica desejante e individualista da espécie humana, denotando uma incapacidade modal de pensar e agir considerando o ponto de vista do outro (ARENDT, 1999).
            Mostrar que o desapego da massa, compreendida como o conjunto de pessoas não especificamente qualificadas, portanto não as ‘massas operárias’, mas o conjunto de homens médios, comuns, banais e cumpridores dos deveres, que só emergem dela para exercer uma função específica, durante um tempo determinado, findo o qual retornam ao anonimato dentro de uma multidão amalgamada, confusa e distante da realidade, formam o ingrediente básico para possibilitar o surgimento de indivíduos  distanciados da realidade, incapazes de reflexão e capazes de gerar mais devastação do que todos os maus instintos juntos (GASSET, 2016).
            Mostrar que esta alienação da massa se dá como consequência da não constatação de que, ao contrário dos eventos, a história se dá em um tempo não linear homogêneo e vazio, mas em um tempo ‘saturado de agoras’, que faz explodir o continuum da história (CORREIA, 2007) e que, por sua própria característica de apatia política, este distanciamento do privado em relação ao público, possibilita o surgimento de regimes totalitários (ARENDT, 2012).
            Mostrar que estudar e tentar compreender o estudo desenvolvido por Hannah Arendt acerca da banalidade do mal se justifica perante a necessidade premente que temos, enquanto críticos sociais, de oferecer possíveis questionamentos e reflexões para essa massa alienada, dotando-a de mecanismos que visem conter a possibilidade de ver surgir, num futuro próximo, outro Eichmann que venha a assombrar o mundo.
            Mostrar que, apesar de passados tantos anos, o mesmo modelo alienante e burocratizado da máquina pública, instituído pelo Cardeal Richelieu durante o reinado de Luiz XIII no século XVII para servir aos governos tirânicos, ditatoriais ou absolutistas foi potencializado pelos governos totalitários, que lhe deram um caráter ideológico, tanto na Alemanha nazista quanto na União Soviética Stalinista, não só prosperou como ainda está presente na maioria dos Estados modernos, alimentando as condições para a mantença do mal banal.
Para tanto, os procedimentos metodológicos utilizados na elaboração deste trabalho incluíram uma abordagem qualitativa, para uma pesquisa de natureza explicativa, que utilizou como técnica de pesquisa levantamentos bibliográficos, particularmente dos escritos de Hannah Arendt.
            Desta forma, considerando-se que a Filosofia não serve para nada, que não precisa de proteção, nem de atenção ou simpatia da massa, entende-se o porquê dela se declarar liberta da submissão a ela; liberta da tarefa de precisar se justificar perante o homem médio, podendo exercer livremente a exegese dos textos, particularmente das leis e as atividades hermenêuticas do discurso. Neste contexto, entendendo que as palavras ditas ou escritas podem ser compreendidas segundo os desejos de quem as ouve ou lê, como tão bem explicado pela semiótica, o filósofo pode, desde que livre de preconceitos ou ideologias, como demonstrou Hannah Arendt, mais que o filólogo, perceber as mazelas da política e dos reais interesses por trás dos atos políticos. Compreender que, no discurso político, “duo si idem dicunt, non est idem” (mesmo que dois digam a mesma coisa, não dizem o mesmo), também pode ocorrer que “eadem dicunt sed aliter” (digam o mesmo, mas de outro modo), a exemplo do que dizia Carlos V de seu primo Francisco I, declarado seu inimigo durante a guerra dos 30 anos: “Meu primo Francisco e eu estamos completamente de acordo: nós dois queremos Milão”.
Finalmente, mostrar que este trabalho destinado a estudar e compreender o pensamento de Hannah Arendt acerca da banalidade do mal se justifica, também, ao valer-se dos conceitos da ‘genealogia da história e genealogia do poder’, desenvolvidos posteriormente por Michel de Foucault em sua Microfísica do Poder (2016), para evidenciar as forças subterrâneas que permitiram o surgimento do totalitarismo, ponto de partida para a nossa filósofa.
  

2 – A ORIGEM DOS QUESTIONAMENTOS SOBRE O PROBLEMA DO MAL

            Hannah Arendt, cujo nome completo é Johanna Cohn Arendt, nasceu em Hanover, Alemanha, no ano de 1906, em uma família judaica civil de classe média. Passou sua infância em Königsberg (a cidade de Kant) na Prússia Oriental, atual Kaliningrado, Rússia. Após a morte do pai, aos sete anos de idade, mudou-se com a mãe para Berlim onde começou a se interessar pela filosofia. Seus interesses iniciais encontravam-se entre a filosofia de Kant e a de Karl Jaspers. Entre 1924 e 1926 frequentou a universidade em Marbug, onde foi iniciada na filosofia por Martin Heidegger. Para ela, um acontecimento decisivo e marcante em sua vida foi o incêndio do Reichstag[1] e as subsequentes prisões daquela noite de 1933, onde, a partir de então, ela presenciou em primeira mão, o surgimento da Alemanha nazista, quando perdeu vários amigos e foi obrigada a emigrar. Estabeleceu-se em Paris onde ajudava a levar crianças para a Palestina até que a ascensão do governo Vichy[2] forçou-a ao confinamento em um campo de concentração em Gurs, França, no ano de 1940, do qual conseguiu fugir. Nesta fuga, registra-se a morte de Walter Benjamin, um importante ensaísta, filósofo e sociólogo judeu alemão, seu companheiro de viagem, durante a passagem dos Pirineus quando, em Portbou, foram parados pela polícia espanhola. Temendo ser entregue à Gestapo, Benjamin teria cometido suicídio, ingerindo uma grande quantidade de morfina, enquanto aguardava a deportação. O trágico desta passagem é que no dia seguinte, as autoridades espanholas permitiram a passagem dos refugiados. Arendt ficou com seus manuscritos que veio a publicar posteriormente, quando finalmente emigrou para os Estados Unidos, com seu segundo marido, Heinrich Blücher. É de Benjamin a frase “a história se dá em um tempo não linear homogêneo e vazio, mas em um tempo ‘saturado de agoras’, que faz explodir o continuum da história”, na obra Teses Sobre o Conceito de História (14ª tese) com a qual Arendt concorda em sua obra A Condição Humana (escrita em 1958) e citada por Adriano Correia (2007) em seu livro sobre ela.

A descrição que Arendt faz do método de Walter Benjamin é esclarecedora, pois ela o cita na ocasião em que descreve seu próprio trabalho. Arendt afirmava que Benjamin era como um mergulhador em busca de pérolas, que escavava as profundezas da história a fim de extrair e trazer à tona ricas e exóticas pérolas e corais da profundidade. (FRY, 2010, p.18)

            Diante do exposto, desta experiência pessoal vivida por ela, pode-se depreender o porquê de Arendt demonstrar especial interesse pela teoria filosófica e prática política, o que a classificou, para fins acadêmicos, como fenomenóloga, já que a fenomenologia é um tipo de filosofia que começa com a experiência vivida do ser humano, bem como seu particular interesse sobre o surgimento da política totalitária. Registre-se que o interesse demonstrado por ela se dava, principalmente, pela inadequação da teoria filosófica tradicional no trato das diversas opiniões das pessoas, para tratar com este tipo de regime totalitário, particularmente sobre o tema do mal.
            Em sua obra Origens do Totalitarismo, publicada em 1951, ela busca explicar o surgimento dos regimes totalitários no século XX, traçando a história do pensamento racial e do imperialismo que levaram a tais movimentos. Neste livro, mais do que uma história dos fatos, ela procura descrever o movimento genealógico dos modos de pensar da época, os “movimentos subterrâneos”, que culminaram no surgimento do totalitarismo e na barbárie que adveio dele.
            Destaque-se que ela considerava como totalitarismo apenas os regimes da Alemanha nazista e o Stalinismo vigente na União Soviética, do qual ela mesma admite ter estudado pouco, principalmente diante do fato de que, na época que viveu e escreveu, as condições para um estudo mais aprofundado eram limitadas (o regime vivia um período de censura que ficou conhecido como “Cortina de Ferro”)[3] e que sua experiência maior se dava em relação ao nazismo.


3 – A ORIGEM DO TOTALITARISMO

            Segundo do Dicionário de Política (BOBBIO, 2010) existem várias “teorias clássicas do totalitarismo” sendo o termo utilizado, de forma abrangente, para designar ditaduras monopartidárias, estendendo-se desde as fascistas às comunistas que, conforme Carlton H. Hayes[4] tinham por características a monopolização de todos os poderes no seio da sociedade, a necessidade de gerar uma sustentação de massa e o recurso às modernas técnicas de propaganda, complementadas pela observação de Sigmund Neumann[5] que colocou em destaque o movimento permanente, que atinge numa mutação incessante, os próprios procedimentos e instituições políticos. Todavia, ainda segundo Bobbio, o uso da palavra totalitarismo para designar todas ou algumas ditaduras monopartidárias fascistas ou comunistas se generalizou somente após a Segunda Guerra Mundial, quando foram formuladas as teorias de Arendt (objeto de nosso estudo) e as de Friedrich-Brzezinski[6], para os quais, diferenciando-se dela, não se reconhecem no regime totalitarista nenhum fim essencial ou conatural; não se reconhece a personificação do poder totalitário na figura do líder (Führer); os quais  consideravam ainda, como regimes totalitários, além do nazismo e do stalinismo, o regime fascista italiano, o regime comunista chinês e os comunistas do leste europeu.
            Hannah Arendt entendia serem regimes totalitaristas apenas o regime nazista adotado pela Alemanha durante o período do comando de Hitler e o regime comunista adotado na União Soviética durante o período do comando de Stalin. Todas as demais citadas, para ela, eram apenas tiranias políticas. Faça-se o aparte de que ela considerava o regime totalitarista do nazismo limitado no tempo à vida de Hitler o que não ocorreria, segundo ela, no regime stalinista, que deveria superar o tempo de vida de seu líder supremo. A diferença capital entre os dois regimes, o nazista e o stalinista, para ela, estava na adoção de uma ideologia pautada na história (stalinismo) ou na natureza (nazismo). No livro Origens do Totalitarismo, citado anteriormente, dividido em três capítulos distintos, ela explana melhor este ponto de vista, ao analisar alguns dos “movimentos subterrâneos” que geraram o totalitarismo, como veremos na sequência.

3.1 – Antissemitismo
            Para Hannah Arendt, o racismo do nazismo estava ligado aos judeus de modo específico, embora hoje se reconheça que não foi único[7], e o foco principal da filosofia política do Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores assumiu, para ela, um ódio e uma suspeita dos judeus. Dispersos pelo mundo desde a destruição do Templo de Jerusalém (no ano 70)[8], os judeus não possuíam um território ou um Estado próprios. Tal condição, que os tornava dependentes de autoridades não judaicas, segundo a região em que viviam, despertava neles o desejo de possuir uma terra própria (constituir uma nação judaica) e colocava em marcha o movimento político filosófico pela sua autodeterminação (sionismo) ao mesmo tempo em que provocava nos nativos uma desconfiança e um preconceito, chegando muitas vezes ao ódio declarado contra eles, em maior ou menor grau, movimento denominado antissemitismo.
            Como durante a maior parte da idade média os judeus foram proibidos de possuir propriedades, boa parte deles acabou se dedicando às atividades de comércio e da prestação de serviços administrativos para aqueles que detinham títulos nobiliárquicos, chegando a ocupar boa parte dos cargos da administração pública à época do reinado de Luiz XIII, na França, durante o século XVII [9]. Nestas tarefas, chegavam a determinar indenizações e administrar os espólios de guerra entre disputas locais; determinar as formas de pagamento dos tributos pelos vassalos e a controlar as finanças de seus senhores, o que lhes garantia certos privilégios, já que eram favorecidos nas cortes aristocráticas, embora tratados como um grupo separado, sem direitos políticos integrais.
            Com o advento da Revolução Francesa, a queda do Antigo Regime e o surgimento do Estado Nação[10], o povo francês passou a odiar os aristocratas no momento em que estes perderam o poder, principalmente porque essa rápida perda de poder não foi acompanhada pela redução em suas fortunas, já que eram tidos como parasitas, nobres transformados em cidadãos sem qualquer função na condução do país.

O que faz com que os homens obedeçam ou tolerem o poder e, por outro lado, odeiem aqueles que dispõem da riqueza sem o poder é a ideia de que o poder tem uma determinada função e certa utilidade geral. Até mesmo a exploração e a opressão podem levar a sociedade ao trabalho e ao estabelecimento de algum tipo de ordem. Só a riqueza sem o poder... não exerce atividade política. [...] A riqueza que não explora deixa de gerar até mesmo a relação existente entre o explorador e o explorado. (ARENDT, 2012, p. 27)

Tal situação agravou a situação dos judeus na França, onde o Estado Nação recém-constituído reconheceu seus direitos (no regime monárquico os seus direitos políticos não estavam assegurados), sem, contudo, demonstrar interesse pelo seu bem-estar, o que possibilitou o aparecimento de um antissemitismo generalizado, já que eram vistos pela população como ricos burocratas em situação similar ou pior que a dos aristocratas.

Do colapso da ordem feudal surgiu o conceito revolucionário da igualdade, segundo o qual não se podia mais tolerar uma “nação dentro de outra nação”. Por conseguinte, as restrições e os privilégios dos judeus tinham de ser abolidos juntamente com todos os outros direitos especiais. [...] quando a partir do século XVII a expansão econômica estatal aumenta a necessidade de créditos e o alargamento da esfera de influência econômica do Estado, era natural que se recorresse ao auxílio dos judeus, velhos e experimentados emprestadores de dinheiro, com ligações com a nobreza europeia. Era do interesse dos Estados conceder aos judeus certos privilégios em troca e trata-los como grupo à parte. (ARENDT, 2012, p.37)

            E dizer, cronologicamente para a população europeia como um todo, com o advento da Revolução Francesa conquistou-se a igualdade; depois, com a necessidade de dinheiro para implementar as reformas, vieram os privilégios, com os quais quebrou-se este princípio de igualdade, criando-se, assim, uma nova classe economicamente dominante. Contra esta classe dominante, estabeleceu-se o repúdio e a hostilidade, fechando-se um círculo antissemita por toda a Europa. Destaque-se que entre os judeus mais ricos, encontravam-se os Rothschild, uma família que detinha um capital maior que o de muitas nações, suficiente para financiar, por exemplo, a construção do Canal de Suez e posteriormente o Canal do Panamá.

A emancipação resultava claramente da gradual extensão de privilégios – originalmente concedidos a apenas a alguns indivíduos e, depois, a pequenas camadas de judeus ricos – e que passaram a ser outorgados a todos os judeus da Europa central e ocidental. (Ibidem, Loc. Cit.)

           
            Outra característica do povo judeu que ajudava a acentuar o movimento antissemita na Europa era o seu desejo de constituir um território próprio, autônomo, evidenciando o pouco compromisso com os territórios que os acolhiam, à exemplo do que fizeram os hebreus recebidos no Egito quando da invasão dos hicsos, o que fazia com que fossem vistos com extrema preocupação e desconfiança, já que um dos alicerces do Estado Nação era justamente o nacionalismo.
            O poder financeiro da população judia, como veremos mais adiante, teve, também, um papel fundamental na escolha pelos nazistas como o povo escolhido por Hitler para ser exterminado, já que, sob a ótica militar, eliminar os judeus era uma das formas de eliminar as fontes organizadas de financiamento da capacidade de resistência à ocupação militar da Europa pelas tropas do Reich.

Seja como párias, seja como novos-ricos, o povo judeu não era aceito na Europa e, para Arendt, seu status de pária ou de novo-rico foi um fator importante que abriu a porta para o antissemitismo desenfreado no começo do século XX. (FRY, 2010, p 28)

 3.2 – Imperialismo
            Conforme o prefácio do capítulo sobre o imperialismo na obra Origens do Totalitarismo de Hannah Arendt corroborado pelo texto de Bobbio em seu Dicionário de Política, ‘poucas vezes o começo de um período histórico pôde ser datado com tanta precisão, e raras vezes os observadores contemporâneos tiveram tanta possibilidade de presenciar o seu fim definitivo, como no caso da era imperialista’ (ARENDET, 2012).
            Marcado pela expansão dos Estados nacionais, da burguesia e da necessidade de expansão comercial no final do século XIX, as políticas imperialistas que buscavam aumentar a riqueza dos colonos careciam do pensar racial para justificar-se. Neste contexto, tais políticas resgataram o pensamento do quase esquecido diplomata, etologista e filósofo francês, Joseph-Arthur de Gobineau, o Conde de Gobineau (1816/1882) que desenvolveu uma teoria[11] segundo a qual, como a mistura de raças era inevitável, levando em consequência a raça humana a graus sempre maiores de degenerescência, tanto física quanto intelectual, tornavam-se necessárias medidas de contenção para assegurar a superioridade da raça branca sobre as demais. Ele atribuía aos povos Arianos, os alemães, uma posição de destaque como o povo mais civilizado da Europa. Sustentava a teoria de que o destino das civilizações seria determinado pela composição racial e que os brancos, e em particular as sociedades arianas floresceriam desde que ficassem livres dos pretos e amarelos. Para ele, somente a raça branca, como ‘criadora da civilização’, possuía as virtudes mais elevadas do homem: honra, lealdade, amor à liberdade, etc., qualidades que poderiam ser perpetuadas apenas se a raça permanecesse pura. Em sua opinião os judeus e os povos mediterrâneos haviam degenerado devido à miscigenação ao longo da história e, somente os alemães haviam preservado a pureza ariana.
            Assim, no período que se passou entre o fim dos ‘Estados Pontifícios’ (1870) e o início da Primeira Grande Guerra Mundial, observou-se um movimento de expansão e dominação europeia com a consequente repartição da África entre os Estados europeus e de boa parte da Ásia entre os Estados Unidos e o Japão. Nesta expansão, diferentemente da construção de um império, como o dos romanos, o imperialismo não incluía na nação os povos estrangeiros depois destes terem sido conquistados. Os colonos, como africânderes[12], viam a si mesmos como aventureiros e consideravam os povos nativos como selvagens que se comportavam semelhantemente à natureza. Portanto, não havia da parte deles nenhum reconhecimento da dor ou do sofrimento causados, uma vez que os nativos eram tratados como matéria-prima cuja força de trabalho podia ser usada.

Para Arendt, a mudança de uma aristocracia política para Estados-nação no século XIX também levou ao surgimento do totalitarismo. A riqueza da classe média começou a crescer e expandiu-se em investimentos imperialistas estrangeiros que eram motivados por um relacionamento de dependência, lucro e exploração. Arendt afirma que, ironicamente, a burguesia tornou-se politicamente emancipada através do imperialismo e do colonialismo porque ela lhes permitiu acumular sua riqueza e aumentar seu poder sem ajuda da aristocracia. Isto afetou negativamente os judeus porque eles perderam sua importante posição financeira no relacionamento com a aristocracia. (FRY, 2010, p 29)
                       
            Por ironia do destino, dado o crescente poder da burguesia sobre os territórios colonizados, visando exclusivamente o lucro que se podia extrair, a própria situação dos bôeres se inverteu, e também eles passaram a ser oprimidos pela especulação capitalista, quando expulsos de suas terras, onde viviam à custa da produção agrícola de seus escravos, foram obrigados a ocupar, pela força outros espaços da África Central e do Norte, onde constituíram as chamadas Repúblicas de Bôer.
O fator decisivo para explicar o imperialismo neste período, em que as potências europeias e o Japão, no contexto asiático, exerciam um papel determinante, exercendo um movimento para estabelecer um controle hegemônico nas colônias, foi a crise do Estado nacional, onde as exigências do desenvolvimento produtivo, em consequência do início da produção de massa, instavam por mercados de dimensões continentais, evidenciando a tendência de um crescente protecionismo econômico que, como consequência, provocou o temor de muitos se verem cada vez mais excluídos dos mercados externos. Diante da ausência de uma política que colocasse em prática formas de integração supranacional, prevaleceu, então, a tendência de assegurar o controle político direto ou indireto de um território, o mais amplo possível, o que implicava, de fato, em tentar suprimir o espaço de outros.
            Destaca-se neste período, a ação do Marechal de Campo inglês Horátio Herbert Kitchener, que ganhou fama em 1898, ao vencer a batalha de Omdurman e assegurar o controle do Sudão após desempenhar a conquista sobre as Repúblicas de Bôer, quando, para conter o movimento de guerrilhas, confinou, pela primeira vez na história, a população civil em “campos de concentração”. Registra-se, também, neste período a existência dos chamados “massacres administrativos”[13], o extermínio da população nativa local em diversos momentos e lugares, com o objetivo de assegurar o controle e a ocupação dos territórios conquistados para o capital.
         
Aqui também a razão econômica da agressividade característica da política imperialista levada a efeito por Estados como a Alemanha, a Itália e o Japão, onde o problema das dimensões territoriais, demasiado limitadas para as exigências do desenvolvimento econômico, se tornava particularmente grave, devido também ao atraso com que haviam chegado a participar na expansão imperialista formal e informal. (BOBBIO, 2010, p. 618)


Este mesmo sentimento de agressividade era observado no território europeu, no trato da mão de obra local, que precisava, agora, concorrer com a das colônias para alcançar seu sustento, retratada pelas teorias marxistas, onde destacamos “a Teoria do Subconsumo” desenvolvida por Rosa Luxemburgo[14] que afirmava:

Dispondo a classe trabalhadora inevitavelmente de um baixo poder aquisitivo e sendo obrigada a um nível de vida miserável como consequência das leis objetivas da acumulação capitalista, torna-se indispensável, para poder ser absorvida toda a produção corrente, a existência de uma “terceira pessoa”, de um comprador extrínseco ao sistema capitalista. Tem de haver, em resumo, um mundo não capitalista ao lado de um mundo capitalista, para que o funcionamento deste não fique entravado. Nos primeiros estádios do desenvolvimento capitalista, essa “terceira pessoa” pode ser oferecida pela economia agrária, que vive ainda à margem da capitalista. Mas depois, em decorrência da transformação capitalista desse setor, os mercados internos já não bastam e se tornam necessários os mercados externos para a absorção da produção, mercados que se conquistam com a conquista das colônias. Sendo as áreas de exploração limitadas, mais tarde ou mais cedo os conflitos serão inevitáveis, como inevitável será também a catástrofe final do sistema capitalista, quando os mercados externos se tornarem igualmente insuficientes. (Ibidem, p 613)


            Finalmente, encerrando o tema do imperialismo como um movimento subterrâneo precursor do totalitarismo, para Hannah Arendt, quando a burguesia obteve o domínio, o sistema de classe começou a desintegrar-se, as massas ergueram-se contra o governo, resultando num domínio da população. Surgiram os movimentos pan-nacionalistas, entendidos como movimentos que visavam unificar todos os territórios ocupados por agrupamentos humanos específicos, expandindo, assim, sua área de atuação, que eram hostis ao Estado e ensejavam um mecanismo político para a ralé expressar sua revolta.  
            Isto foi, segundo Arendt, um movimento preparatório para o pensamento totalitário, visto que, para ela, o totalitarismo implica em um ressentimento contra o status quo e contra o governo em geral. E dizer, em vez de concentrarem-se nas necessidades nacionais, os regimes totalitários viam a si mesmos como movimentos globais que excedem as necessidades de nações isoladas.

3.3 - Totalitarismo
            Como já tivemos a oportunidade de colocar, Hannah Arendt desenvolveu uma teoria particular para tratar sua visão sobre o totalitarismo, divergente de outros pensadores que também trataram do assunto.  Para ela, o regime totalitarista só foi efetivamente implementado na Alemanha Nazista e na União Soviética durante o governo de Josef Vissarionovitch Stalin, sendo todas as outras formas distintas de ditaduras tirânicas.  Para ela, a primeira diferença entre totalitarismo e tirania é que as tiranias políticas típicas invadem outros países a fim de obter bens materiais e terra para aumentar o poder do governante tirano. Nas tiranias, as pessoas são dominadas devido ao autointeresse do governante ou do grupo que busca acumular poder.
            No totalitarismo, a invasão se dá principalmente a fim de promover a ideologia do regime, mais do que o ganho pessoal do governante. No caso do nazismo, esta ideologia dizia respeito a um dogma racista que promove a proeminência da raça ariana, ao passo que, para o stalinismo, a ideologia preocupa-se com a necessidade de erradicar o capitalismo e a burguesia. O governante totalitário promove a ideologia do governo e justifica todas as ações de acordo com ela, até mesmo à custa dos recursos da nação. A ideologia totalitária opera dividindo o mundo em duas forças hostis, que se embatem pelo domínio global, transformando essa batalha em um conflito global, de caráter universal. Ou seja, em contraste com as tiranias, os objetivos do totalitarismo são globais na intenção e ultrapassam os empreendimentos nacionalistas. Esta é, apenas para exemplificar, uma diferença substancial entre os regimes adotados por Hitler (nazismo) e o adotado por Mussolini (fascismo). No totalitarismo, os alvos ideológicos são mais importantes do que qualquer outra coisa.
                    
Segundo Arendt, um exemplo da natureza não utilitarista do totalitarismo é o uso que Hitler faz dos campos de concentração. Enquanto o trabalho dos que foram condenados à morte poderia ter sido utilizado no esforço de guerra, e embora os custos para criar e manter os campos pudessem ter sido usados para financiar as batalhas nas linhas de frente, Hitler optou por sacrificar os interesses nacionais em prol do interesse global mais amplo da ideologia. Para ela, as câmaras de gás “não beneficiavam ninguém”, visto que eram empreitadas custosas, que empregava tropas, transporte ferroviário e outros recursos financeiros. Tiranias são utilitaristas e pragmáticas em prover ao governante, mas os governos totalitários sacrificam o autointeresse pessoal ou nacional em prol da ideologia. (FRY, 2010, p 32)


            Esta falta de sentido utilitarista dos regimes totalitários, tanto do nazismo quanto do stalinismo, explica a dificuldade de compreensão por parte daqueles que estavam sendo sacrificados dos reais motivos pelos quais os atos tão brutais estavam sendo cometidos contra eles. Ou seja, não havia nenhum sentido lógico para tais crimes; ninguém ganhava nada com isso. Os operários judeus que morriam sob um regime de total escravidão nas fábricas alemãs, era um fato compreensível, já que morriam produzindo alguma coisa. Mas as câmaras de gás, o extermínio pelo extermínio, não era compreensível por qualquer ângulo, exceto o ideológico. Daí a novidade do sistema.
            Uma segunda forma apontada por Arendt pela qual o totalitarismo se diferencia de outros tipos de tiranias políticas é que ele não é apenas não utilitarista em seus objetivos, mas também lhe falta uma estrutura prática e hierárquica, típica das tiranias. O exemplo de Eichmann evidencia bem esta diferença de forma. As tiranias possuem uma hierarquia estrita e compreensível, com o déspota funcionando como o ápice do poder, onde cada ação empreendida é vista como útil em proveito do governante que domina. Em contrapartida, o governo totalitário funciona sem uma nítida hierarquia, mas com múltiplos níveis de administração e de burocracia. No totalitarismo, muitos dos segmentos do governo têm tarefas duplicadas e jamais se pode saber qual organização surgirá dentro do regime geral. A polícia secreta e as várias organizações de espionagem contribuem para a atmosfera de paranoia na qual não se pode confiar em ninguém e ninguém sabe deveras o que as outras partes do governo estão fazendo, à exceção daqueles que se encontram nos mais altos níveis do comando. O estado de ignorância no que diz respeito às operações governamentais protege o líder de qualquer questionamento por parte de seus subordinados, e, devido à duplicidade existente dentro do governo, jamais surge uma oposição organizada contra o governante porque as pessoas estão demasiado ocupadas tentando consolidar a posição de sua própria facção. Veja-se o exemplo da KGB soviética, ou da Gestapo durante o período nazista, que foi substituída pela Stasi, como polícia secreta, na República Democrática Alemã, depois da guerra, organizações que sempre mantiveram presente um permanente estado de medo e de desconfiança, não só na população civil, mas até mesmo nas tropas que serviam ao regime.

Dado o fato de que o totalitarismo emerge em uma atmosfera de preocupação econômica, ele provê continuamente empregos duplos para seus membros leais, com o resultado de que cada funcionário torna-se cúmplice do governo. Arendt descreve a estrutura do totalitarismo como sendo uma cebola, na qual cada camada protege o líder no centro que detém o controle definitivo. Esta metáfora da “cebola” capta as diferentes camadas sobrepostas da burocracia que protege o líder e isola-o de qualquer tipo de agressão. Cada camada conhece apenas seu próprio negócio e tem grande dificuldade em compreender a completeza da cebola como um todo. (Ibidem, p.33)

           
            Por fim, para Arendt, o totalitarismo se diferencia de outros tipos de despotismos políticos porque, enquanto o terror é usado em ambos os tipos de sistemas políticos, as tiranias se valem dele como meio para amedrontar os oponentes e suprimir dissensões e as ideologias totalitárias o utilizam para dominar as massas de pessoas que sejam obedientes ao Estado, independentemente de serem inimigos ou não do governo. E dizer, nas tiranias e despotismos comuns, as pessoas que são declaradamente contra o regime são punidas cruelmente (leia-se como exemplo, o parágrafo inicial de Vigiar e Punir de Michel Foucault)[15] ao passo que, no totalitarismo, não importa se as pessoas são culpadas ou não do “crime” de opor-se ao governo. No totalitarismo as vítimas são grupos escolhidos aleatoriamente e declarados inaptos para viver.
            Um exemplo deste procedimento tirânico, não válido historicamente para o regime totalitarista da Alemanha ou da URSS era, durante a Primeira Grande Guerra Mundial, o hábito de escolher aleatoriamente dentre os soldados da própria tropa, um número entre 10 ou 12 indivíduos que seriam fuzilados caso os comandantes, segundo seus humores, achassem que o esforço coletivo não havia sido satisfatório nos combates, e dizer, os oficiais de alta patente valiam-se deste estratagema para esconder a própria incompetência nas decisões de comando.

Arendt afirma que o uso da violência por um governo tirânico pode levar a um “cemitério” de paz, visto que a discordância é contida mediante o uso da força. Alternativamente, não há fim do terror no totalitarismo, pois o objetivo prático de pôr fim ao dissenso não é a questão central. (Ibidem, p 34)


            Nos regimes totalitários, a extrema lealdade que é exigida dos membros, ao preço do sacrifício pessoal, torna-se possível devido ao sentido de isolamento que promovem. Neles, o terror é utilizado como tática para reforçar a lealdade porque as pessoas estão dispostas a transformar amigos em inimigos a fim de salvar a si mesmas. Isto isola os indivíduos, uma vez que ninguém sabe mais quem é confiável e, para Arendt, o que é ainda mais perigoso nesta suspeita é que os cidadãos temem mais deixar o movimento do que serem considerados responsáveis pelos crimes que cometem em seu nome. Os governos totalitários são piores do que os governos tirânicos que buscam solapar os críticos ativos mediante a violência, porque o totalitarismo suprime absolutamente todos os meios a partir dos quais se pode pensar, questionar e desafiar o Estado.
            Arendt acredita que uma das razões porque o totalitarismo é eficaz e se apodera das comunidades é que o senso comum perde um gancho com a realidade. Isoladas completamente e impossibilitadas de, livremente, trocar ideias com outras pessoas, os objetivos extremados do movimento jamais são confrontados com a realidade das condições. O governo totalitário apresenta ao mundo um rosto falso e fundamenta sua ideologia em uma conspiração global que não pode ser confirmada. Devido ao fato de o líder estar protegido pelas camadas, semelhantes às da cebola, da burocracia e da administração, o regime totalitário produz seu próprio mundo protegido, que jamais necessita lidar com o que existe fora dele e não dispõe de nenhum meio para afrontar os fatos que as camadas da burocracia estão produzindo. Arendt acredita que na raiz das comunidades totalitárias subjaz a falta de senso comum entre os membros e a aptidão para acatar fatos “dúbios”. Visto que não há nenhuma troca de ideias, a habilidade do senso comum para discernir os fatos fica comprometida pelas forças totalitárias que mantêm “o falso mundo da consistência”, e impede-se o exercício da liberdade e da ação política espontânea.
            Ela acredita que o aspecto mais perigoso do totalitarismo é que ele trata os indivíduos como se fossem supérfluos. Os indivíduos já não são singulares e contribuintes importantes para a política, mas criaturas que podem ser facilmente sacrificadas para a ideologia ou condicionadas a agir de maneira previsível e obediente.
            Arendt originalmente caracteriza o totalitarismo como uma forma de “mal radical”, expressão que ela toma emprestada de Kant, alterando, porém o seu significado, como teremos a oportunidade de verificar adiante, em capítulo próprio. Por ora, consideremos que, para Kant, o mal radical acontece quando um indivíduo opta consistentemente pela imoralidade em vez de tentar seguir a lei moral. Para Arendt, o mal radical envolve a crença em que humanos são supérfluos e descartáveis, atitudes que podiam ser observadas nos campos de concentração nazistas ou bolcheviques. Os campos que aparecem nos regimes totalitários são isolados e procuram oficializar que os grupos visados jamais existiram realmente, jamais tiveram intenção de existir, como se já estivessem mortos. Neles, a identidade singular o indivíduo é aniquilada muito antes de a vida ser verdadeiramente ceifada, mediante várias medidas desumanizadoras como a raspagem do cabelo, o amontoamento de pessoas em transportes para animais e a concessão de roupas de prisioneiros. As vítimas são ainda torturadas adicionalmente ao receberem emprego na administração do campo, tornando opaca a linha divisória entre o carrasco e a vítima. A desumanização visa ao gênero e à natureza animal da humanidade, na qual se espera que os humanos ajam como coisas ou marionetes. Para Arendt, o processo de desumanização dos campos de concentração reduz os humanos a comportarem-se de maneira previsível, como os cães de Pavlov[16].
            Como tivemos a oportunidade de explicitar no início do capítulo, para Arendt, as diferenças capitais entre os dois regimes, o nazista e o stalinista, para ela, estavam na adoção de uma ideologia pautada na história (stalinismo) ou na natureza (nazismo). Para ela, o problema começa com teorias que afirmam que a história humana é um processo universal que se está movendo em direção a um fim. Neste contexto especial, as teorias de Hegel e de Marx são significativas porque afirmam que não só existe um fim para a história, mas que é possível, para os seres humanos de hoje, conhecer o conteúdo desse fim. Neste pensar, considera-se que a história se interessa em como os processos históricos se realizam e como podem ser controlados ou reproduzidos e assim, os humanos já não estão mais contentes com seu papel de observadores, modificando o seu processo natural em outros, fabricados por eles. A fabricação dos processos da história (intervenção na história) ou da natureza (intervenção na natureza), em seus extremos, é a metodologia dos regimes totalitários.
            Arendt descreve o nazismo como um regime totalitário guiado por um forjamento da lei da natureza devido a seu compromisso com a criação infinda de uma raça purificada de seres humanos. Sua meta é auxiliar a natureza no processo de purificação da espécie, acelerando as leis naturais de seleção o mais rapidamente e expansivamente possível. Desta forma, as classes agonizantes ou as raças decadentes que tenham sido condenadas pela história ou pela natureza, serão as primeiras a serem entregues à destruição já decretada. A ideia de matar determinadas porções da sociedade torna-se aceitável e possível porque elas, supostamente já estão em declínio.

A política totalitária, que passou a adotar a receita das ideologias, desmascarou a verdadeira natureza desses movimentos, na medida em que demonstrou claramente que o processo não podia ter fim. Se é lei da natureza eliminar tudo o que é nocivo e indigno de viver, a própria natureza seria eliminada quando não se pudessem encontrar novas categorias nocivas e indignas de viver; se é lei da história que, numa luta de classes, certas classes “fenecem”, a própria história chegaria ao fim se não se formassem novas classes que, por sua vez, pudessem “fenecer” nas mãos dos governantes totalitários. Em outras palavras, a lei de matar, pela qual os movimentos totalitários tomam e exercem o poder, permaneceria como lei do movimento mesmo que conseguissem submeter toda a humanidade ao seu domínio. (ARENDT, 2012, p.617)


            Finalizando, para Arendt, quer no nazismo ou no stalinismo, o foco estava sempre no processo da história ou da natureza, e não no fim, porque neles, o fim jamais seria alcançado. Se as metas de ambos os sistemas fossem logradas, novas categorias de pessoas seriam descobertas como incapazes para a vida, ou novas classes econômicas de pessoas seriam perseguidas. Para que o regime totalitário possa ser bem sucedido, ele precisa continuar a mover-se e a expandir-se rumo a sua meta jamais alcançada, enquanto sacrifica tudo pela ideologia, ainda que segmentos inteiros da sociedade sejam eliminados a fim de abrir caminho para as leis ideológicas. Neste processo de implantação dos regimes totalitários, como já tivemos a oportunidade de frisar, o compromisso com as verdades natural ou histórica é eliminado e a história passa a ser permanentemente reescrita segundo os interesses manifestos pelo líder, onde chavões como o “nunca antes na história deste país...” tornam-se elementos da propaganda ideológica, sempre destinada ao público externo, buscando sua complacência, já que a informação que recebem é sempre filtrada pelo regime e suas ações são amparadas pela legalidade de leis positivas.

A afirmação monstruosa e, no entanto, aparentemente irrespondível do governo totalitário é que, longe de ser “ilegal”, recorre a fonte de autoridade da qual as leis positivas recebem a sua legitimidade final; que longe de ser arbitrário, é mais obediente a essas forças sobre humanas que qualquer governo jamais o foi; e que, longe de exercer o seu poder no interesse de um só homem, está perfeitamente disposto a sacrificar os interesses vitais e imediatos de todos à execução do que supõe ser a lei da História ou lei da Natureza. (ARENDT, 2012, p. 613)


4 – EICHMANN EM JERUSALÉM

            Conforme já tivemos a oportunidade de apontar, Hannah Arendt começa a desenvolver sua teoria sobre a banalidade do mal, a partir do seu livro “Eichmann em Jerusalém”, o sentido da banalidade do mal, publicado no ano 1963, como resultado de um trabalho de caráter jornalístico sobre o julgamento do carrasco nazista Otto Adolf Eichmann, para a revista The New Yorker, obra considerada por muitos a mais polêmica dentre todas as escritas por ela.  
            Neste livro ela descreve em linhas gerais o sequestro de Eichmann realizado por comandos israelenses, quando o capturaram na Argentina e o conduziram para julgamento em Israel. A polêmica da obra se inicia a partir deste momento pois, para muitos, inclusive a defesa do réu, o crime em julgamento deveria ser o sequestro de Eichmann; o fato de que o local escolhido para o ato não era neutro o suficiente e a “coisa em si” que se mostrava, desde o principio, como um ato tendencioso, pré-determinado e com sentença já definida, antes mesmos dos ritos processuais serem instaurados, conforme demonstrava a atuação do procurador geral e representante do primeiro ministro de Israel, David Ben-Gurion,  o senhor Gideon Hausner.

Assim como todos em Israel, ele acreditava que só um tribunal judeu poderia fazer justiça aos judeus, e que era tarefa dos judeus julgar seus inimigos. Daí a hostilidade quase generalizada em Israel contra a simples menção de uma corte internacional que pudesse acusar Eichmann não de crimes “contra o povo judeu”, mas de crimes contra a humanidade, perpetrados no corpo do povo judeu. (ARENDT,1999,p 17)

            Para os judeus, o julgamento pelos judeus daquele que consideravam ser diretamente responsável pelo extermínio de um terço de seu povo no mundo, reforçava a posição sionista em condições análogas ao Caso Dreyfus[17], como também traziam luz às causas da possível participação da comunidade judaica alemã em negociações com as autoridades nazistas durante os primeiros estágios do regime. (ARENDT,1999, p. 21)
            Apesar de todos estes argumentos nacionalistas em defesa da unidade judaica, da consolidação do Estado de Israel como uma nação soberana, um desejo realizado após mais de dois mil anos de espera, este julgamento trouxe à tona as incômodas perguntas do por que os judeus não terem resistido às atrocidades que estavam sendo cometidas contra eles? Por que aceitavam ser embarcados como gado a caminho do abatedouro? Por que tanta passividade diante de seus algozes? A resposta não pronunciada, como registra Hannah Arendt, estava exatamente na característica ímpar do crime praticado. Como já tivemos a oportunidade de explanar, a estratégia do regime totalitário estava em, primeiramente promover o isolamento dos indivíduos retirando-lhes inclusive os direitos políticos ao declará-los apátridas; em segundo lugar, promover uma propaganda desconectada da realidade, que fosse construída sobre um prisma lógico, o que lhe dava credibilidade; em terceiro lugar, como veremos, por valer-se dos próprios judeus para muitas das tarefas administrativas no processo de realocação da população civil, o que mascarava suas reais intenções. Até mesmo aqueles que desembarcavam nos campos de concentração se recusavam a acreditar naquilo que estava acontecendo. Todo o processo não tinha lógica alguma. Era simplesmente incompreensível sob qualquer aspecto. Ademais, como ela registra, um pequeno levante ocorrido em Amsterdã, Holanda, logo no início da guerra, em 1941, quando alguns judeus holandeses reagiram, um número significativo de indivíduos, quatrocentos e trinta, segundo está registrado, foram presos, torturados e assassinados com requintes de crueldade, primeiro em Buchenwad e depois no campo austríaco de Mauthausen, repetindo o exemplo da morte tirânica usada como exemplo, o que induzia os sobreviventes a tentarem uma solução negociada com os nazistas. Curiosamente ela destaca que somente os mais jovens, no rompante de sua adolescência é que resistiam; os mais velhos, aqueles que haviam conseguido constituir família, patrimônio, etc., naturalmente eram mais sensatos e, por isso mesmo, vítimas melhores. E, por último, a adoção de uma estratégia que induzia os judeus ao erro de avaliação, oferecendo-lhes uma oportunidade de realocação para a Palestina, mediante vultosa quantia a ser paga para a obtenção dos vistos de saída e de passagem.
            Esta última medida, posta em prática com extrema habilidade por Eichmann, mostrou-se extremamente eficaz, pois em cada novo contexto, se conseguia o apoio da liderança judaica local (Conselhos de Anciãos Judeus), encarregada de realizar um recenseamento dos judeus da região e de escolher aqueles que seriam “realocados” para a Palestina, por conta própria, mediante suborno para a compra de passagens, ou nos trens que seguiam para os campos de concentração. Registra-se entre os depoimentos colhidos no julgamento, uma passagem em que Rudolf Kestner (1906/1957), um jornalista e advogado judeu-húngaro, negociou pessoal e diretamente com Eichmann a liberação para a Palestina de 1685 judeus que pagaram, aproximadamente U$ 25.000,00 por pessoa para poder sair, enquanto ele mesmo aceitava corroborar na mentira pregada por ele sobre o destino para outros 800 mil judeus que foram enviados para Auschwitz. O mais cruel desta passagem é que, segundo o próprio Eichmann, este total arrecadado com o falso suborno, pouco mais de U$ 42 milhões, foi utilizado para custear o envio destes outros 800 mil judeus para a morte. (Ibidem, p. 54).
            Esta prática, pelo que se viu no julgamento, foi reproduzida em praticamente todos os lugares, com resultados similares e, onde as quantidades de judeus não eram muito significativas ou não existiam lideranças locais suficientemente convincentes, adotava-se a estratégia de “emigração forçada”. Eichmann chegou a negociar com lideranças locais, o seu envio para o exterior afim de conseguir levantar dinheiro para comprar a libertação de outros judeus cativos, a fim de assegurar recursos para o processo de realocação.

Eichmann, logo ao chegar, entabulou negociações com os representantes da comunidade judaica, que antes de mais nada ele teve de libertar das prisões e dos campos de concentração, uma vez que o “zelo revolucionário” da Áustria, ultrapassando em muito os primeiros “excessos” da Alemanha, havia resultado na prisão de praticamente todos os judeus importantes. Depois dessa experiência, os funcionários judeus não precisavam de Eichmann para convencê-los de que a emigração era desejável. Ao contrário, eles informavam Eichmann das grandes dificuldades que tinha pela frente. (Ibidem, p. 57)

            De qualquer forma, durante todo o julgamento, Eichmann adotou uma postura defensiva, se é que se pode chamar assim, ao afirmar que ele mesmo nunca tinha matado judeu algum; que sua tarefa era apenas administrativa e que, como bom e leal cidadão, cumpridor das leis, ele se esmerava para conseguir embarcar o maior número possível de pessoas nos trens, tal qual lhe havia sido ordenado. Arendt ficou “surpresa” ao perceber que ele realmente acreditava nisso.

E uma falha mais específica, e também mais decisiva, no caráter de Eichmann era a sua quase total incapacidade de olhar qualquer coisa do ponto de vista do outro. [...] Ele, seus homens e os judeus estavam todos de “esforçando juntos” e cada vez que havia alguma dificuldade os funcionários judeus vinham correndo até ele para “desabafar seus corações”, contar-lhe todo “seu sofrimento e dor”, e pedir sua ajuda. Os judeus “desejavam” emigrar, e ele, Eichmann, estava ali para ajudá-los. (Ibidem, p.60)

            Para Arendt, “quanto mais se ouvia Eichmann, mais óbvio ficava que sua incapacidade de falar estava intimamente relacionada com sua incapacidade de pensar, ou seja, de pensar do ponto de vista de outra pessoa” (Ibidem, p. 62).
            Ele tanto acreditava nisso que chegou a relatar algumas passagens em que, demonstrando alguma preocupação com o destino dos judeus, tentou melhorar a sua situação, como da vez que conseguiu que um seu “auxiliar judeu” de nome Storfer, de Viena (o primeiro funcionário judeu a transformar toda uma comunidade judaica numa instituição a serviço das autoridades nazistas) que, mesmo tendo um daqueles passes livres, equivocadamente tentou fugir e por isso foi preso e encaminhado para o campo de Auschwitz, fosse retirado dos trabalhos forçados e colocado em tarefa mais leve, escapando da câmara de gás, mas não do pelotão de fuzilamento seis semanas depois. Ele acreditava, realmente, que a culpa pelo seu infortúnio era tão somente do próprio Storfer, que não devia ter tentado fugir, já que ele tinha um passe livre.
            Durante praticamente todo o livro, Arendt registra inúmeras passagens como esta, evidenciando a total alienação de Eichmann sobre as consequências de seus atos, inclusive revelando a mágoa que ele sentia de seus superiores ao não reconhecerem seus esforços e sua competência no cumprimento das tarefas que lhe haviam sido outorgadas.
            Outro ponto importante levantado neste julgamento, foi a forte presença do pensamento antissemita nos países ocupados pelos nazistas, onde algumas lideranças locais quase “precisaram ser contidas” tal a violência praticada contra os judeus, o que, a exemplo das tropas S A, era contraproducente para a estratégia da “solução final”, como era tratada a questão judaica na Europa. Destaca-se, neste sentido, a posição adotada pelo marechal romeno Ion Antonescu, que alguns meses antes da Romênia entrar na guerra ao lado da Alemanha, declarou apátridas todos os judeus romenos. Os soldados romenos foram responsáveis pelo massacre de 300 mil pessoas e, ao contrário dos outros países dos Bálcãs, o governo romeno estava muito bem informado sobre os massacres de judeus no Leste.

Não chega a ser exagero afirmar que a Romênia foi o país mais antissemita da Europa pré-guerra. [...] O estilo romeno de deportação consistia em juntar quinhentas pessoas em vagões de carga e deixá-las morrer por sufocação enquanto o trem viajava pelo campo sem destino nem objetivo durante dias e dias; um dos fechos preferidos para essas operações assassinas era expor os corpos em açougues judeus. Além disso, os horrores dos campos de concentração romenos, fundados e administrados pelos próprios romenos porque a deportação para o Leste era impraticável, eram mais elaborados e atrozes do que qualquer coisa que se conheça na Alemanha (Ibidem, pp.210 - 211)


                        O julgamento de Eichmann evidenciou que outros interesses estavam em jogo, pelo menos por parte dos “aliados” da Alemanha nazista, muitos dos quais viam a possibilidade de apropriar-se do patrimônio dos judeus; de conseguir, através da extorsão, dinheiro para fins pessoais; favores sexuais, etc., além, é claro, da própria tolerância e hipocrisia das forças aliadas antinazistas, que faziam vistas grossas para absorver o maior número possível de cientistas, levados incólumes para seus países. Registre-se o caso de Wernher von Braun, sequer citado em qualquer obra sobre a Segunda Grande Guerra Mundial, como um criminoso responsável pelo projeto e produção das bombas voadoras que praticamente destruíram Londres que, mesmo não tendo participado do holocausto (ao que se saiba) foi levado para os Estados Unidos onde ajudou a construir o programa aeroespacial americano. Pior ainda, foi o caso da “Hungria, o único país do Eixo a mandar tropas judaicas, 130 mil em serviço auxiliar, mas com fardas húngaras, para o front Oriental (ARENDT, 1999, p.215)
            Cite-se também o fato denunciado por ela em seu livro de que, no período posterior à guerra, a quase totalidade das nações envolvidas no conflito, queriam encerrar o processo após Nuremberg [18] (onde foram julgados os criminosos de guerra) e colocar uma pá de terra por sobre os restos desta tragédia. A própria Alemanha de Adenauer[19], com apoio da população, acobertou e deu guarida a muitos criminosos nazistas que ficaram impunes.
Finalmente, no pós-escrito que fecha o livro, Arendt registra que para ela:
 
Eichmann não era nenhum Iago, nenhum Macbeth, e nada estaria mnais distante de sua mente do que a determinação de Ricardo III de “se provar um vilão”. A não ser por sua extraordinária aplicação em obter progressos pessoais, ele não tinha nenhuma motivação. E essa aplicação não era de forma alguma criminosa; ele certamente nunca teria matado seu superior para ficar com seu posto. Para falarmos em termos coloquiais, ele simplesmente nunca perceber o que estava fazendo. [...] Foi oura irreflexão, algo de maneira nenhuma idêntico à burrice, que o predispôs a se tornar um dos grandes criminosos desta época. E se isso é “banal” e até engraçado, se nem com a maior boa vontade do mundo se pode extrair qualquer profundidade diabólica ou demoníaca de Eichmann, isso está longe de se chamar lugar comum.[...] Essa distância da realidade e esse desapego podem gerar mais devastação do que todos os maus instintos juntos. (ARENDT, 1999, p.311)


5 – MAL RADICAL E MAL BANAL

O que fornece o caráter enigmático ao mal, pelo menos na tradição judaico-cristã do Ocidente, é a nossa tendência de colocar, numa primeira abordagem e num mesmo plano, fenômenos díspares como pecado, sofrimento e morte. (RICCEUR. O Mal. Um desafio à filosofia e à teologia. Apud SOUKI, 2006)

            Do conjunto da obra de Hannah Arendt, particularmente a partir dos livros Origens do Totalitarismo e Eichmann em Jerusalém podemos aceitar a declaração de que foi revelado ao mundo uma nova modalidade de mal até então desconhecida: A emergência do fenômeno totalitário e, a partir dele, o da banalização do mal.

Pode-se dizer que esse mal radical surgiu em relação a um sistema, no qual todos os homens se tornaram supérfluos. Os que manipulam esse sistema acreditam na própria superfluidade tanto quanto na de todos os outros, e os assassinos totalitários são os mais perigosos, porque não se importam se estão vivos ou mortos; se viveram ou se nunca nasceram. (ARENDT, 2012, p 510)

            Como vimos, em Origens do Totalitarismo, na sua concepção, o surgimento dessa nova modalidade de mal tem, como meta, não o domínio despótico dos homens, mas sim, um sistema em que todos os homens são supérfluos. Neste caminho, o primeiro passo para o domínio total é a destruição da pessoa jurídica do homem, o que foi comprovado pela sistemática negação da cidadania quando enormes contingentes humanos foram declarados apátridas. O passo seguinte é a anulação da individualidade e da espontaneidade, de forma que seja eliminada a capacidade humana de iniciar algo novo com seus próprios recursos, quando, então, se transformam em coisa.
            As conclusões às quais Arendt chegou após o julgamento de Eichmann assinalam uma mudança em sua descrição de como o totalitarismo funciona e ganha poder. Em Origens do Totalitarismo ela descrevia a noção de “mal radical”, tomada a partir do pensamento de Kant[20], que acontecia nos campos de concentração envolvendo a crença na superfluidade de certos humanos. Neste julgamento, ela aprendeu que os regimes totalitários não produzem necessariamente monstros. O que eles engendram seriam pessoas incapazes de pensar por si mesmas e incapazes de compreender a imoralidade de suas ações, visto que tudo o que faziam era sancionado pela lei e apoiado pelo regime vigente. Ela chamou tal situação de “banalidade do mal”, querendo, com isso dizer que o mal não é trivial porque é desimportante, mas porque pode acontecer sem uma intenção diabólica, como resultado de uma colossal falha no pensamento. No caso de Eichmann, ele permitiu que a ideologia nazista tomasse as decisões em seu lugar, distanciando-se das consequências de suas ações. Ele não só não conseguiu questionar a ideologia nazista, como também defendeu suas próprias práticas imorais ao agir dentro da lei, dando o melhor de si para cumprir sua tarefa de obediência à lei.
            De maneira geral, até hoje na organização pública, a sociedade espera que os serviços disponibilizados sejam eficientes e que os servidores atuem em conformidade com o interesse da lei, administrando os recursos públicos de forma apropriada com os fins propostos, entendendo por valores éticos constituintes da base comum da administração, a eficácia, a transparência, a qualidade e a experiência além da imparcialidade. Neste processo organizacional o servidor público é uma peça fundamental, pois, é por meio dos seus agentes que o serviço público de fato se concretiza. Como os servidores possuem individualmente suas próprias crenças e valores, no âmbito da organização é importante que sejam delineados os princípios norteadores que servirão de suporte para elucidar os possíveis problemas e divergências que possam surgir. O bom funcionamento das organizações requer, portanto, o desenvolvimento de pessoas capacitadas para agir conforme preceitos legais do conhecimento de todos que, compreendendo-os saibam aplicá-lo. Diferentemente das organizações privadas, que primam pelo lucro, no serviço público, que tem por bem atender aos anseios de uma população ou do governo, indiferentemente de classe econômica ou posição social, estes procedimentos são claramente definidos e regulamentados por lei. Ou seja, diferentemente das organizações privadas, que gozam de uma liberdade negativa, onde tudo aquilo que não é proibido por lei pode ser uma atividade permitida, no serviço público, só é permitido executar atividades reguladas por lei, ou seja, nada pode ser feito se não estiver explicitado em lei. Essa aparente dicotomia se explica pelo fato de que todos os gastos públicos são estabelecidos a partir de um orçamento, que pode ser contingenciado, segundo o resultado arrecadatório em determinado momento, diretamente pelo poder executivo, sem maiores explicações, o que não se dá na condição inversa, na suplementação de verbas, ainda que em questões de extrema relevância, necessitando, sempre, da autorização do poder legislativo.

Nas sociedades burocráticas modernas, os acontecimentos políticos, sociais e econômicos de toda parte conspiram, silenciosamente, com os instrumentos totalitários inventados para tornar homens supérfluos. Hannah Arendt mostra-nos que o modelo do “cidadão” das sociedades burocráticas modernas é o homem que atua sob ordens, que obedece cegamente e é incapaz de pensar por si mesmo, pois essa supremacia da obediência pressupõe a abolição da espontaneidade do pensamento. E nessa ausência de pensamento, nessa expressão humana opaca, nessa rarefação das consciências aparece a tragédia, batizada por Hannah Arendt de a “banalidade do mal” (SOUKI, 2006, p 11)


            Esta era a questão central que Arendt percebeu como elementos de defesa no julgamento de Eichmann, que chegou a citar Kant na tentativa de consubstanciar seus argumentos. No entanto, ela destaca a pouca compreensão que ele tinha do filósofo, uma vez que Kant acreditava ser um dever obedecer à lei moral e Eichmann pensava que era uma obrigação obedecer à lei do líder e não levava em consideração a moralidade das situações. Nos regimes totalitários, a institucionalização dos múltiplos níveis de burocracia controla os administradores para que eles sigam ordens e sintam-se isentos da responsabilidade por suas ações.
            No início do extermínio maciço, a substituição das tropas SA[21], famosas por seus requintes de crueldade, pelas tropas da SS, visava, além do ganho de “produtividade” no processo de eliminação daqueles que haviam sido escolhidos para morrer, dar um aspecto “humanitário” na tarefa, já que as câmaras de gás não torturavam ou mutilavam quem morria. Eichmann realmente acreditava que estava sendo generoso para com os judeus e para com as outras vítimas ao livrá-las de outras formas, mais cruéis, de execução.
            Faça-se aqui um pequeno aparte para registrar que nas sociedades modernas, até os dias de hoje, em muitos países se utilizam as câmaras de gás para matar pessoas declaradas criminosas pelo Estado ou inclusive matar “pessoas não humanas”, como cães e gatos, por exemplo, sob o mesmo argumento humanitário.
            Para Arendt, em uma sociedade totalitária que, ativamente, promove a falta de habilidades de pensamento crítico, as pessoas são capazes de aderir a códigos ou regras de comportamento, confiando em códigos de conduta mais do que em seu próprio julgamento.
O que é deveras horrendo para Arendt, é que Eichmann é “terrivelmente normal”, e ele aponta para um novo tipo de criminoso para o qual falta o conhecimento do certo e do errado. Para ela, o totalitarismo produz um novo tipo de criminoso, alguém que não mata por matar, mas que mata como parte da carreira dele. (FRY, 2010, p 49)


            Se considerarmos bem o que ela coloca, podemos observar que em muitos países, o assassinato de indivíduos por carrascos que executam criminosos, pelos membros de um pelotão de fuzilamento, por soldados ou policiais em uma situação de conflito ou, em casos extremos, mesmo o extermínio de civis como os ocorridos em Hiroshima e Nagasaki ou nos “ataques cirúrgicos” promovidos por drones no Oriente Médio, são justificados como “Atos de Estado” que não levam em consideração preceitos morais, mas apenas os legais.
            Arendt provoca com sua obra, uma mudança de foco, desviando-se do concentrar-se nos monstros perversos do mundo, a fim de evidenciar novos tipos de criminosos que não sabem sequer que o que fazem é errado. Contudo, ela não inocenta Eichmann pelos atos cometidos, aceitando a teoria de que qualquer pessoa em seu lugar, vivendo sob um regime totalitário, poderia praticar os mesmos atos. Ela nega esta opinião porque reconhece que seus atos foram extremos e que ele é responsável por isso, inclusive pela falta de interesse para com os outros.
            Kant, ao tentar responder sobre o que é a essência do mal radical, apoiava seus argumentos em quatro pontos fundamentais: a disposição original para o bem na natureza humana; a propensão para o mal na natureza humana; o homem é mau por natureza e a origem do mal na natureza humana, onde a disposição original significava para ele que no princípio de sua história, o homem era bom e que tendia para o bem.

A lei moral é um fato, é um dado imediato, a priori e necessário. A razão é, por si só, legisladora, autônoma e determinante da vontade. Essa autonomia é a propriedade que a vontade tem de ser, ela própria, a sua lei. É importante ressaltar que, para Kant, a vontade livre e a vontade submetida à lei moral são a mesma coisa. [...] Esta é a forma do Imperativo categórico: “Age de tal forma que a máxima de tua ação possa se converter em lei universal”. (SOUKI, 2006, p.21)


            Para ele, a vontade que procede da lei e a vontade que procede do “livre arbítrio” são aspectos complementares da vontade humana, uma vontade necessária em que o arbítrio é livre para obedecer ou não à lei, residindo aí, nessa possibilidade do arbítrio humano que se inscreve o problema do mal radical. Em outras palavras, a lei moral, para ele, é inerente da natureza da razão, mas não à natureza humana, pois essa, devido à sua finitude, não segue necessariamente essa lei. Se o homem aceita a determinação vinda de fora, ele está eliminando sua vontade como vontade, isto é, como faculdade do homem de determinar-se a si mesmo para a ação, ou seja, sua autonomia. A autonomia mostra que o homem tem em si mesmo a possibilidade de ser dono de si e de ser livre de toda dependência diferente de sua razão. A vontade humana tem a propriedade de ser, ela própria, a sua lei, e o homem realiza sua essência quando obedece à lei moral.
            Quando ele nos fala da propensão para o mal na natureza humana, ele nos esclarece que ela é resultado da liberdade, ou seja, é uma propensão moral e não uma propensão física, pois o que é moralmente mau, o mal que é imputável ao homem, diz respeito a sua própria ação. Por propensão entendemos o fundamento subjetivo da possibilidade de desviar-se das máximas da lei moral, o que só é possível pela determinação do livre arbítrio. Como esse fundamento tem de ser, já, um ato de liberdade, a propensão para o mal é vista como o mal e não apenas como seu pressuposto. Para Kant, essa propensão para o mal é inata e não pode ser extirpada.
            Para Hannah Arendt, o mal radical, que apareceu no totalitarismo, transcende os limites do que foi definido por Kant, pois se trata de uma nova forma do agir humano, uma forma de violência que vai além dos limites do pecado humano, de um mal absoluto que não pode ser atribuído a motivos humanamente compreensíveis. Para ela, o fenômeno totalitário revelou que não existem limites às deformações da natureza humana e que a organização burocrática de massas, baseada no terror e nas ideologias, criou novas formas de governo e de dominação, cuja perversidade não se pode medir, e dizer, dado seu ineditismo, não podemos contar com normas conhecidas para fazê-lo.
            Assim, como um Estado totalitário pode ser capaz de produzir agentes heterônomos que funcionam como agentes reprodutores de seus objetivos, o problema do mal passa, então, a ser questionado dentro de sua dimensão política, numa visão original que é a da sua banalidade. Esse tipo de organização contribui para extirpar todo espírito de responsabilidade e reforçar a dominação total do líder, onde os campos de concentração representam laboratórios em que a invenção imperialista encontra sua realização ao modificar a natureza humana.

Os campos de concentração não são apenas destinados ao extermínio de pessoas e à degradação de seres humanos: servem também à horrível experiência que consiste em eliminar, em condições cientificamente controladas, a própria espontaneidade enquanto expressão do comportamento humano, e em transformar a personalidade humana em simples coisa, em alguma coisa que nem mesmo os animais possuem. (SOUKI, 2006, p.55)                       
           

            Conforme Aristóteles, “O homem é um animal social e político destinado a viver em sociedade” (A Política, 1253 a) e é exatamente esta premissa, segundo Arendt, que o totalitarismo busca subverter, ao perceber que se a personalidade jurídica e moral é a estrutura do indivíduo da qual emanam suas decisões, julgamentos e ações, sua eliminação, a eliminação dos direitos do homem, é a condição primordial para que ele seja inteiramente dominado. A finalidade do sistema arbitrário, então, é destruir todos os direitos civis de uma população, que se vê, assim, tão fora da lei em seu próprio país como os apátridas e refugiados. O domínio totalitário, baseia-se na solidão, na experiência de não se pertencer ao mundo, onde o indivíduo se vê como parte de uma massa surgida dos fragmentos de uma sociedade atomizada, cuja principal característica é o seu isolamento e a falta de relações sociais normais.
         
Ao dizer que o súdito ideal do reino totalitário não é nem o nazista ou o comunista convicto, mas sim o homem desolado, esse homem moderno cuja condição vem sendo preparada desde a Revolução Industrial, Hannah Arendt mostra que, nessa condição de homem massa, o indivíduo perdeu seu status político, foi desindexado da história real e destituído como sujeito político. A despolitização o transformou em átomo anônimo entre os átomos anônimos da massa para transformá-lo em um “homem qualquer”, sem capacidade política, sem consciência moral, sem vontade, sem julgamento e, assim, capaz de sofrer e de fazer banalmente o mal. (SOUKI, 2006, p. 66)


            Com isso, Arendt defende em seu relato a ideia de que a banalidade do mal, é que o mal não é fruto do exercício, mas, sobretudo do não exercício da liberdade. Ela não recusa o conceito kantiano de mal radical, mas o toma como ponto de partida para pensar o fenômeno do mal.
            Ela constatou durante o julgamento de Eichmann, que ele era o perfeito instrumento para a tarefa de levar a cabo a “solução final” ordenada por Hitler: organizado, regular e eficiente tal qual a empreitada de que ele estava encarregado. Homem normal e medíocre, perfeitamente adaptado ao trabalho de fazer a máquina de extermínio girar, ele representava o melhor exemplo de um assassino de massa que era. Um perfeito homem do lar para quem a ideologia nazista e sua lógica destrutiva eram menos importantes que a nova família que ele havia encontrado no movimento nazista. Um homem que, encarnando a “banalidade do mal”, nunca compreendeu o que estava fazendo. Para Arendt, a sentença final aplicada a ele, não podia ser outra:

E, assim como você apoiou e executou uma política de não partilhar a Terra com o povo judeu e com o povo de diversas outras nações, como se você e seus superiores tivessem o direito de determinar quem devia e quem não devia habitar o mundo, consideramos que ninguém, isto é, nenhum membro da raça humana, haverá de querer partilhar a Terra com você. Esta é a razão, e a única razão, pela qual você deve morrer na forca. (ARENDT, 1999, p.302)
           

6 – CONCLUSÕES

            Conforme esperamos haver evidenciado neste trabalho, sobre o “Sentido da Banalidade do Mal para Hannah Arendt”, a partir de uma abordagem qualitativa, fundamentada em um estudo de caráter hermenêutico do conjunto de sua obra, poder mostrar que a questão do mal, independentemente do período histórico observado ou da localização geográfica da população estudada, está diretamente ligada à característica desejante e individualista da espécie humana, relacionado ao exercício da liberdade de escolha, denotando uma incapacidade modal de pensar e agir considerando o ponto de vista do outro.
            Mostrar que as conclusões às quais chegou Hannah Arendt acerca da banalidade do mal, evidenciam que Eichmann só foi capaz de praticar os atos que possibilitaram o holocausto do povo judeu na Europa, porque existia escondida sob a égide de um governo totalitarista, uma sociedade ideologizada e premeditadamente burocratizada ao extremo, onde as relações humanas foram atomizadas e o senso comum acerca dos valores humanos foram praticamente eliminados.
            Mostrar que o desapego da massa, ainda que construído por uma gigantesca máquina de propaganda que altera e reescreve a história segundo os interesses do momento, cria as condições para o surgimento de indivíduos distanciados da realidade, incapazes de reflexão e capazes de gerar uma devastação inimaginável. Mostrar que esta alienação da massa possibilita o surgimento de regimes totalitários.
            Mostrar que, estudar e tentar compreender o estudo desenvolvido por Hannah Arendt acerca da banalidade do mal, com uma característica genealógica da história e do poder, identificando algumas das forças subterrâneas que criaram as condições para o surgimento do Estado totalitário na Alemanha nazista e na União Soviética stalinista, como o racismo, a xenofobia ou o movimento imperialista com a exploração do homem do precariado se justifica perante a necessidade premente que temos, enquanto críticos sociais, de oferecer possíveis questionamentos e reflexões para essa massa alienada, dotando-a de mecanismos que visem conter a possibilidade de ver surgir, num futuro próximo, outro Eichmann que venha a assombrar o mundo.
            Um homem do precariado entendido segundo as palavras de Ruy Braga[22], “como o indivíduo pertencente, em primeiro lugar, àquele setor da classe trabalhadora permanentemente pressionada pelo aumento da exploração econômica e pela ameaça de exclusão social”. Também, conforme as palavras do professor Guy Standing, da Universidade de Londres, de um homem pertencente a “um precariado que seria formado por aqueles grupos sociais mais vulneráveis e empobrecidos, jovens desempregados e subempregados, cada dia mais distantes dos direitos sociais ou das políticas de bem-estar das próprias empresas e, por isso mesmo, potencialmente inclinado a abraçar soluções populistas autoritárias e xenofóbicas”. Ou ainda, pertencente a grupos, como nas palavras de Paul Singer, um conceituado economista e professor brasileiro, que se vale da expressão “sub proletariado” para, além dos conceitos anteriores do precariado, em que se incorpora, também, a população miserável e o lumpesinato (aquela camada social carente de consciência política, formada por operários que vivem na miséria e por aqueles desvinculados da produção social e que se dedicam a atividades marginais) como os nossos camelôs, por exemplo, onde podemos compreender o quão frágil é esta parcela da população e o quão fácil é o seu aliciamento pelas propostas que pregam a luta de classes,.
            Mostrar que o falacioso empoderamento da classe trabalhadora fica evidente quando, se de um lado, o Capital que entra na produção concentra-se na manufatura semiqualificada, pagando baixos salários, expatriando sob a forma de “commodities” nossos recursos minerais e agrícolas, inclusive a água potável que acompanha os produtos agropecuários, face ao evidente poder das multinacionais que não desejam agregar valor às matérias primas em terras locais, preferindo fazê-lo em seus países de origem, onde geram empregos e tributos que cobram das colônias, acrescidos de juros, quando seus produtos acabados retornam.
            Mostrar que, do outro lado, a multiplicação de oportunidades de trabalho, tão alardeada pelos indicadores econômicos e pelos governos, principalmente nas áreas de comércio e serviços, onde a elevada rotatividade da mão de obra é um fato, a exemplos brasileiros, dos frentistas dos postos de gasolina, dos balconistas, dos garçons, dos profissionais de serviços domésticos, etc., exatamente por estas características, de maneira geral, remuneram muito mal pelo trabalho realizado e dificultam a organização sindical, acabando por produzir um enorme contingente de trabalhadores despolitizados e alheios ao que acontece ao seu redor.
            Mostrar que as próprias Centrais Sindicais, reféns de um sistema capitalista de consumo, que prioriza o homem enquanto mercadoria, desde há muito tempo abandonaram a luta de classes, acomodando-se e, desta forma, pactuando com o “Status Quo” e preferindo adotar posturas demagógicas e populistas, como festas, sorteios de casas e carros, no intuito de perpetuar a cultura hegemônica imposta pelo poder, mantendo as benesses que conseguiram para seus representantes, em lugar das categorias de trabalhadores que representam.
Mostrar que, como consequência desta alienação generalizada, principalmente no precariado, vemos brotar e crescer assustadoramente uma inquietação social, travestida de violência, em todos os níveis, principalmente contra a pessoa e a vida, que aterroriza a todos nós e onde a banalidade do mal se manifesta de forma evidente.
            Mostrar que somente uma revisão dos modelos de produção adotados, que force o desenvolvimento de novas tecnologias e que agregue valor real, valor de uso, aos produtos fabricados, poderá dar vazão a estas demandas reprimidas.
Mostrar finalmente que a educação formal, aquela que reproduz o sistema hegemônico imposto pelo Capital, onde o homem explora o homem, e com isso só faz aumentar o problema, requer por parte dos educadores comprometidos com as novas gerações, um firme propósito para promover a ruptura destes paradigmas e estabelecer outros, de forma a desenvolver uma sociedade onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e completamente livres. Mostrar, como nas palavras do sociólogo Charles Wrigth Mills, em sua obra A Imaginação Sociológica, “mais do que analisar e produzir estatísticas, o cientista social (e aqui eu incluo também os filósofos) tem a obrigação de contribuir para a transformação da sociedade”.

Professor Orosco

7 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

- ARENDT, Hanna. Eichmann em Jerusalém. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999
_____. Origens do Totalitarismo. Antissemitismo, Imperialismo, Totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012
_____. A Condição Humana. Trad. Roberto Raposo. 10.Ed. Rio de Janeiro: Forense, 2004
- BENJAMIN, Walter. Teses Sobre o Conceito de História. Disponível em www.ebah.com.br/content/../teses-sobre-conceito-historia-walter-benjamin acessado em 01 de outubro de 2010
- BOBBIO, Norberto; MATTEEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de Política.Trad. Carmen C,Varriale [et al]. 13. Ed. Brasilia: Editora Universidade de Brasilia, 2010
- CORREIA, Adriano. Hannah Arendt. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007
- FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Trad. Roberto Machado. 4. Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016
_____. Vigiar e Punir. Nascimento da Prisão. Trad. Raquel Ramalhete. 42. Ed. Petrópolis – RJ: Vozes, 2014
- FRY, Karina A. Compreender Hannah Arendt. Trad. Paulo Ferreira Valério. Petrópolis-RJ: Vozes, 2010
- GASSET, José Ortega y. A Rebelião das Massas. Trad. Felipe Denardi. Campinas – SP: Vide Editorial, 2016
- KONRAD, Letícia Regina. Eichmann em Jerusalém e a Banalidade do Mal. Percepções Necessárias para a Urgência de Uma Educação em Direitos Humanos. In: Caderno Pedagógico, Lajeado, v.11, n.2, p. 50-72, 2014. Disponível em http://www.univates.br/revistas/index.php/cadped/article/viewArticle/1177, acessado em 11 de Setembro de 2016
- SOUKI, Nádia. Hannah Arendt e a Banalidade do Mal. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998




[1] - Em 27 de Fevereiro de 1933, o local de encontro do parlamento alemão, o Reichstag, em Berlim foi incendiado. Quando os bombeiros chegaram parta combater o fogo, as chamas já haviam engolido a Câmara dos Deputados e, após minuciosa pesquisa, determinou-se como seu causador Marinus van der Lubbe, um ativista comunista neerlandês. Este incêndio foi utilizado pelos nazistas como prova de que os comunistas conspiravam contra o governo alemão, o que justificou sua prisão e a de quatro outros líderes comunistas posteriormente.
[2] -  Vichy era o nome da cidade francesa onde se estabeleceu o governo fantoche de influência nazista na França durante os anos de ocupação, entre de 1940 a 1944.
[3] - Cortina de Ferro foi uma expressão utilizada a partir de um discurso de Winston Churchill, proferido no Westminster College, na cidade de Fulton, Missouri, nos Estados Unidos, em 05 de março de 1946, que foi utilizada para designar o controle político e a influência da União Soviética sobre os países do leste da Europa, após a Segunda Grande Guerra, embora a história registre que tenha sido utilizada anteriormente por Goebbels, no mesmo contexto, em data não especificada e pelo próprio Churchill em 1945.
[4] -  Proceedings of American Philosophical Society sobre um seminário realizado em 1940, in BOBBIO, 2010, p 1248
[5] -  The Permanent revolution, 1942, Idem Loc. Cit.
[6] - FRIEDRICH, Carl J., BRZEZINSKI, Zbigniew K. Totalitarian dictatorshio and autocracy, 1956, Ibidem, p.1249
[7] - Além dos judeus, os ciganos, uma população nômade de origem indiana (região do Punjab) que tinha a língua romani como idioma oficial foi particularmente perseguida pelo regime nazista durante o período da Segunda Guerra Mundial. Em razão da ausência de uma história escrita, pouca informação sobre os povos roma (como eram identificados etnicamente os ciganos) sobreviveu ao período, acreditando-se que aproximadamente 500 mil indivíduos tenham sido vitimados nos campos de concentração nazistas (massacre denominado por eles de porajmos) conforme levantamentos que começaram a ser compilados a partir de 1970. A característica errante desta população, que teve origem possivelmente no período das invasões do Sultão Mahmud Ghazni à região hoje conhecida como Afeganistão, por volta do ano 1000, acabou tornando-os apátridas (sem pátria) e como tal, pessoas não reconhecidas como portadoras de quaisquer direitos por nenhuma nação, fator determinante na segregação pregada pelos nazistas.
[8] - A dispersão dos judeus pelos territórios do império romano após a Grande Revolta Judaica teve início após a destruição do Templo de Jerusalém pelo imperador romano Tito Flávio Vespasiano.
[9] - Sob o comando do Cardeal Richelieu, um dos arquitetos do Estado Absolutista Francês, o poder de administração das coisas públicas foi gradativamente retirado da nobreza e entregue a um corpo de funcionários públicos de menor expressão (descartáveis) que podiam ser dispensados sem maiores traumas para o governo.
[10]  - Entende-se por Estado os mecanismos de controle político de um governo que rege determinado território. Organizações como um Parlamento ou um Congresso, instituições legais e um exército permanente são ferramentas utilizadas por um governo para controlar as várias esferas que compõem a sociedade. Assim, um Estado nação se constitui por uma massa de cidadãos que se considera parte de uma mesma nação, sob o comando de um governo instituído que controla e impõe suas políticas.

[11] - Essai sur l’inégalité des races humaines, publicado nos anos 1853 a 1855.
[12] - Os africânderes, originalmente chamados de bôeres, eram um grupo étnico da África do Sul, descendentes de colonos calvinistas, principalmente da Holanda, da Alemanha, da França e da Grã-Bretanha que ali se estabeleceram nos séculos XVII e XVIII.
[13] - Em outra passagem, conforme registrado na obra de Joseph Conrad, O Coração das Trevas (1902), relata-se o extermínio de aproximadamente 10 milhões de congoleses (ou 8 milhões segundo Adam Hochild em seu livro O Fantasma do Rei Leopoldo) entre 1890 e 1910, no Congo Belga, atual Zaire, a mando do Rei Belga Leopoldo II, para facilitar a extração de borracha nativa e a apropriação do marfim.
[14] - Rosa Luxemburgo (1871/1919) foi uma filósofa economista marxista, polaco-alemã que se tornou mundialmente conhecida pela militância revolucionária ligada ao grupo que posteriormente se transformaria no Partido Comunista da Alemanha. Presa por grupos paramilitares que posteriormente apoiaria o movimento nazista, os Freikorps, foi assassinada e seu corpo jogado em um canal hidroviário de Berlim (Landwerkanal). Considerada como um ícone da vanguarda operária alemã, sua mensagem de luta, imortalizada pela história dizia: Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e completamente livres.
[15] - Foucault inicia seu livro citando a condenação de Damiens, que teria atentado contra o governante, cuja pena, à exemplo daquela aplicada ao nosso Tiradentes, era exageradamente elevada, mais pelos motivos de propaganda do que pelo mal que pudessem causar a quem já estava morto. A pena dizia que ele deveria “pedir perdão público diante da porta principal da Igreja de Paris [aonde devia ser] levado e acompanhado em uma carroça, nu, de camisola, carregando uma tocha de cera acesa de duas libras; [em seguida], na dita carroça, na Praça da Greve, e sobre um patíbulo que aí será erguido, atenazado nos mamilos, braços, coxas e barriga das pernas, sua mão direita segurando a faca com que cometeu dito parricídio, queimada com fogo de enxofre, e às partes em que será atenazado se aplicarão chumbo derretido, óleo fervente, piche em fogo, cera e enxofre derretidos conjuntamente, e a seguir seu corpo será puxado e desmembrado por quatro cavalos e seus membros e corpo consumidos ao fogo, reduzidos a cinzas, e suas cinzas lançadas ao vento. (FOUCAULT, 2014)
[16] - Ivan Pavlov foi um médico russo do início do século XX que conduziu uma experiência de condicionamento de cães para que eles ficassem com água na boca (salivassem) sem que houvesse comida por perto.  No experimento, toda vez que os animais recebiam comida, ele tocava uma sineta. Com o tempo os cães começaram a associar as badalas à comida, e chegavam a babar só de ouvir o sino, mesmo que o prato deles ainda estivesse vazio.
[17] - O caso Dreyfus foi um escândalo político ocorrido na França em 1894, quando um oficial de artilharia do exército francês, de origem judaica, foi condenado por alta traição em um processo fraudulento, acobertando uma onda de xenofobia antissemita que, graças à atuação do escritor Émile Zola, foi denunciado e não esquecido.
[18] - Nuremberg é uma cidade alemã situada ao norte da Baviera onde foram julgados e sentenciados os criminosos de guerra da Alemanha Nazista.
[19] -  Konrad Hermann Joseph Adenauer (1876 / 1967) um advogado e político alemão, foi o primeiro chanceler da Alemanha Ocidental , A República Federal da Alemanha, após a Segunda Guerra Mundial.
[20] - A teoria do mal radical no pensamento de Kant, que surgiu em 1793, na primeira parte da obra A Religião dentro dos limites da simples razão, tornou-se um dos fundamentos da religião e da moral kantianas, onde a moral não encontra seu fundamento na religião, mas que, ao contrário, pode justificar e fundar uma religião.
[21] - S A (Sturmabteilung, em alemão), traduzida para Tropas de Assalto, foi a milícia paramilitar nazista conhecida como os “camisas pardas”, considerada um dos esteios do poder político de Hitler. As S S tem sua fundação derivada da chamada Schutzstaffel, e eram consideradas as tropas de elite de Hitler, tendo por pré-requisitos a comprovada origem germânica de seus membros, uma excelente condição física e mental e a cega obediência às normas e leis da ideologia nazista.
[22] -  Ruy Gomes Braga Neto, sociólogo, militante político e professor da USP, em entrevista publicada na revista Sociologia, da Editora Escala, edição de nº 46, acerca de seu livro “A Política do Precariado”,
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