sábado, 12 de abril de 2014

TO BE OR NOT TO BE, THAT IS THE QUESTION

            Ser ou não ser, eis a questão.

            Seguramente esta é uma das frases mais conhecidas e repetidas no mundo, denotando um certo respeito ao conhecimento, aos clássicos e ao conceito de filosofia, estabelecido pelo senso comum.
            Escrita por William Shakespeare, entre 1599 e 1601, esta frase faz parte da tragédia grega Hamlet, que conta uma historia, passada na Dinamarca, de como o príncipe Hamlet tenta vingar a morte do pai, Hamlet, o rei, assassinado por Cláudio, seu irmão, que o envenenou e que, em seguida, tomou o trono, casando-se com a rainha.

Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em nosso espírito sofrer pedras e setas
Com que a Fortuna (destino), enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provocações
E em luta pôr-lhes fim?
Morrer... dormir: nada mais
[...] Morrer, dormir
[...] Dormir, talvez sonhar
                                       Shakespeare. Tragédia Hamlet, Ato III Cena I

            Na busca determinada de vingança, Hamlet, o príncipe, acaba engajado em dúvidas filosóficas e morais, aparentando estar louco.
            Ser ou não ser, a expressão repetida por Shakespeare, sem dúvida alguma consta entre as maiores questões levantadas pela espécie humana, desde o início dos tempos.
            Para tentar trazer alguma luz ao tema, ajudando a elucidar esta dúvida, vamos, primeiramente, nos perguntar "o que é ser ?".
            Partindo de uma análise da linguagem, podemos dizer que o infinitivo português "ser" pretende traduzir o particípio substantivo grego "tò ov" ou o particípio latino "ens", "ente", ou, de modo mais preciso ainda, "alguma coisa que é".
            O ser é, portanto, alguma coisa que tem por determinação própria ou por atualidade o existir.
            Para compreender melhor este conceito, comecemos por estudar Parmênides, filósofo grego, natural de Eléia, uma cidade cujas ruínas encontram-se na região de Salerno, Itália, que viveu aproximadamente entre 530 e 460 a.C., com quem teria nascido aquilo que chamamos ontologia, o conhecimento do ser.
            Ele teria, em sua obra, formulado pela primeira vez os dois princípios lógicos fundamentais do pensamento:
            - o princípio de identidade: o ser é o ser e
            - o princípio da não contradição: se o ser é, o seu contrário, o não ser, não é.
            Em seu poema "Sobre a Natureza", que introduziu o hábito de expor argumentos, conclusões calcadas em premissas, ele descreve de forma metafórica uma experiência de renúncia e de revelação, apresentando como conteúdo principal, aquilo que foi revelado, a via da verdade.
            Neste poema ele explora dois possíveis caminhos para que se possa encontrar a verdade onde, no primeiro, o homem deixando-se levar pela razão, é levado à evidência de que "o que é, é, e não podia deixar de ser".
            No segundo caminho, a via da opinião, pelo fato de se atentarem para os fatos empíricos (baseados apenas na experiência), pelas informações obtidas através dos sentidos, o homem não chegaria à verdade e à certeza, permanecendo preso no nível instável das opiniões.
            Neste poema, ele associa o caminho da verdade, da razão, à luz do dia, onde a luz desnuda o mistério e, em contraponto, associa o caminho da opinião à noite, cuja escuridão esconde a realidade e nos induz a imaginar e a mistificar.
            Na sequência, para tentar compreender melhor o ser, recorreremos a Aristóteles e ao seu quadro lógico das oposições, um diagrama em que cada uma das quatro proposições do sistema está relacionada às outras três.


            Observando este quadro, compreendemos melhor o sentido de extensão das coisas, partindo dos universais (todos/nenhum) para os particulares (alguns), onde, de maneira bem simples, podemos observar que os particulares estão sempre subordinados, contidos, nos universais, no todo.
            Com este conhecimento, fica muito simplificado o processo de compreensão dos conceitos de gênero e de espécie, esta última, contida no gênero, que tem sempre um caráter de maior extensão.
            Explicando melhor:
            Poderíamos dizer que no gênero dos vivêntes, encontra-se as espécies animal e vegetal.
            Também poderíamos dizer que no gênero animal, encontram-se as espécies racional e irracional e, dentre os racionais, o homem.
            Homem, aqui, não é espécie, pois não existe outro animal racional.
            A humanidade teria uma extensão maior do que homem.
          Poderíamos dizer espécie humana, da qual um homem qualquer, pode ser considerado, apenas, um acidente.
            Uma cor, por exemplo, é sempre um acidente, já que é uma particularidade da coisa em si, daquilo que é, do ser.
            Os gregos tinham uma palavra, ειδος, "Eidos", para designar "aquilo que faz uma coisa ser o que ela é", que nós, de maneira equivocada ou simplista, costumamos chamar de essência.
            Explicando melhor, quando dizemos mesa, não importando o idioma; não importando sua cor, formato ou tamanho, todos compreendemos o significado.
            Todos temos uma ideia do "eidos" da mesa, que só se concebe mediante a existência da própria mesa.
            Este eidos é a causa da coisa.
            Nós, pelos sentidos, quando vemos uma coisa, vemos apenas uma parte da causa da coisa, aquilo que é percebido pelos sentidos.
            Não vemos, por exemplo, o artífice que construiu a mesa ou a árvore da qual se extraiu a madeira de sua construção, e ambos, também, são causas da coisa.
            Na metafísica (além da física) e, mais particularmente em Santo Tomas de Aquino (1225/1274), para simplificar este processo de entendimento do ser, adotou-se uma espécie de escala, que nos auxilia na compreensão do ser.
            1 - O de menor extensão, aquilo que vemos, uma essência já manifesta em sua definição; que já foi definida, que chamamos "quididade".
            Por exemplo, a humanidade do homem; a animalidade dos animais.
            2 - Com extensão um pouco maior, a "essentia", uma substância conhecida, que pode ser definida, o que determina a coisa ser o que ela é, seu eidos, por exemplo, vivente.
            3 - Uma extensão maior ainda, a "entia", um modo genérico de falar substância, uma unidade ontológica à qual se pode dar uma definição, mas que ainda não foi definida.
            A substância, ideia ou forma, já está além dos sentidos, encontrando-se no intelecto, na razão, na reflexão.
            Por exemplo, o conceito das formas geométricas.
            4 - O "esse", às vezes traduzido por "ser", mas que se refere ao "ato de ser", pela sua atualidade, da possibilidade, do ser enquanto ser.
            A mesa é um esse; a porta é um esse; são o que são, no ato de ser.
            5 - O "ens", "ente", que diz respeito ao "que é".
            A inteligência do homem só existe fora dele mesmo; ela precisa do mundo sensível para que o intelecto funcione.
            6 - E finalmente, o "ens per se", "o ente por si", o "Ser", que é causa de si mesmo, aquilo que chamamos Deus.
            Como conclusão, podemos, então, dizer, que o ser está na coisa e que também está no intelecto, e que está, também,  além do intelecto.
            Inicialmente, no pensamento do artífice, depois, manifesto em sua obra, permanecendo em ambos enquanto existirem.

 Professor Orosco
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