sexta-feira, 15 de maio de 2015

RESENHA E COMENTÁRIOS SOBRE A PRIMEIRA CONFERÊNCIA DE NIETZSCHE NOS ESCRITOS SOBRE A EDUCAÇÃO


Nietzsche, ao iniciar sua apresentação, alerta sobre o problema das escolas na Alemanha, de caráter formativo, chamando a atenção para o fato que não existem propostas colocadas para sua solução.
Coloca que os ouvintes esperam que ele proponha uma solução, convidando-os a dividir consigo, pontos de vista que “ouviu” de uma conversa sobre o assunto.
Nietzsche coloca a todos os interessados na resolução do problema, que muitas das respostas já são conhecidas, estando apenas esquecidas.
Coloca aos ouvintes que, para começar a compreender o problema, é necessário observar o perfil dos estudantes, que se mostram, ao mesmo tempo, ávidos por melhorias em um mundo que se apresenta caótico e, desinteressados pelos modelos vigentes propostos para sua solução.
Coloca também que os alunos, assim como ele quando jovem, desejam experimentar, colocar suas opiniões e submetê-las às criticas de seus pares.
Neste ponto, seus comentários trazem à minha mente o filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, de 1989. Dirigido por Peter Weir e que teve como protagonistas o professor Keating, interpretado por Robin Williams, e jovens atores (Robert Sean Leonard, Ethan Hawke e Josh Charles) que representavam os estudantes.
Nietzsche coloca que este modelo ganhava comprometimento e envolvimento dos participantes, ainda que de modo informal.
Coloca, também, que este modelo, por sua vez, já reproduzia o modelo formal de ensino, ao impor regras para sua realização.
Coloca que a alegria do processo consistia exatamente na irreverência permitida aos participantes, ainda que o ritual para as reuniões fosse mantido.
Este contato com a natureza (liberto do espaço tradicional) e o modelo da reunião também permitia espaço para um processo reflexivo.
Nietzsche coloca a ideia de que a escolha do lugar para a reunião precisava contemplar o prazer dos estudantes, permitindo-lhes “relaxar para refletir”.
            Nietzsche coloca que, para direcionar o trabalho reflexivo dos alunos, antes, tornava-se necessário oferecer-lhes um alvo, metaforicamente simbolizado pelo carvalho caído (modelo formal de ensino) contra o qual devem dirigir suas críticas, reconhecendo, de antemão, que o sistema vigente reage contra estas tentativas de mudança.
            Nietzsche coloca que esta repressão se dá muito mais por desconhecimento de causa do que por desejos de manter a tradição, cujos méritos eles (os conservadores) entendem serem “aceitos por todos”.
            Nietzsche coloca quer esta posição autoritária desperta, nos estudantes, um movimento de revolta, já que não são compreendidos em seus anseios.
            Alerta para o fato de que esta revolta manifesta dos estudantes, é entendida (pelos mestres) como “coisas de crianças” , um problema que o tempo se incumbirá de corrigir.
            Os jovens, ao insistirem no seu caminho rebelde, provocam perplexidade nos defensores do modelo tradicional, que não conseguem compreender o desejo dos alunos.
            Diante do impasse, os mestres que adotam uma postura consensualista, por sua vez, tendem, por hábito, defender propostas conservadoras.
            Diante da perplexidade dos alunos que nada veem de equivocado nas suas ações, os consensualistas tentam defender as posições conservadoras de uma sociedade já estruturada e que não vê com bons olhos este movimento libertador e revolucionário.
            O reconhecimento do temor revolucionário, por sua vez, só faz reforçar, nos alunos, o desejo por mudanças.
            E, para os alunos, esta insistência em defesa da formalidade, só reforça sua posição radical por desejo de mudanças, embora os force a tolerá-la.
            Esta tolerância, aceitação forçada do modelo tradicional, por não encontrar eco entre os alunos, provoca sua alienação e o seu descomprometimento com a educação formal.
            Tal posição faz que, vez ou outra, o modelo rebelde aflore, ainda que mascarado, já que, para os estudantes, não há erro.
Por sua vez, estes rompantes juvenis acabam sendo tolerados pelos conservadores que nada veem de ameaçador, como rompantes, ao sistema.
Os conservadores, para buscar a aceitação dos alunos, valem-se da máxima de que, também eles, já foram jovens e alunos.
Aos consensualistas, esta pseudo abertura concedida aos estudantes, basta por si, e mascara uma ideia conservadora, dando-lhe um aspecto progressista.
Nesta aparente calma, com os espíritos desarmados, tenta-se estabelecer um diálogo entre as partes, onde os jovens apresentam suas dúvidas e temores.
Diante destas dúvidas colocadas, os conservadores, jocosamente riem-se dos alunos e duvidam de sua capacidade de compreender o que realmente anseiam, o que provoca decepção e evidencia a distancia entre as propostas, entre a oferta e a procura.
Diante da inconsistência manifesta pelos alunos, que “não sabem o que precisam saber” (se soubessem não seriam alunos), os conservadores insistem na obediência à forma tradicional de ensino, como maneira de assegurar a transmissão do conhecimento, dando ao tempo a tarefa de fazer-se compreender.
Estabelecida a trégua, o caminho dicotômico se coloca a ambos e, travestido de aparente calmaria, nada, de fato, pode considerar-se que foi aprendido pelas partes, que seguem propostas separadas, sem uma síntese possível.
Este caminho particular, alienado e desconectado do conjunto formal de saberes, acaba por consolidar, nos alunos, a exclusão e a negação do acesso aos conhecimentos que lhes seria devido.
Nesta liberdade acadêmica, defendida pelos estudantes, onde nada do que é solicitado pela sociedade organizada e formal é aprendido ou ensinado, a sensação de realização torna-se presente e institui-se, formalmente, a alienação do estudante no mundo real.
Diante da realidade imposta pelo mundo, apresenta-se, então, ao aluno, de forma inconteste, a necessidade do conhecimento formal, técnico, despertando tardiamente nele, o desejo de aprender.
Pouco, dentre muitos, realmente alcançarão este estágio, sentindo-se frustrados e lamentando-se pelos anos perdidos, onde as oportunidades de obter o conhecimento necessário para a sua profissionalização, a técnica, passaram ao largo, evidenciando a fria realidade do mercado, onde só alguns privilegiados alcançam o sucesso.
É esta descoberta que desnuda a real intenção do sistema educacional que, travestido de democrático e pluralista, na verdade só faz reproduzir e consolidar as desigualdades entre os homens.

Neste ponto, faz-se mister repassar a posição defendida por Pierre Bourdieu sobre “o papel da escola na reprodução e legitimação das desigualdades sociais”, conforme artigo que publiquei em meu blog aos 27 de julho de 2013.

É esta descoberta que revela e indica o longo e árduo caminho necessário para alcançar o conhecimento, explicando em parte, o porquê de muitos alunos preferirem recostar-se à sombra de uma árvore do que caminhar pelo escaldante Sol do saber.

Humildemente o estudante, reconhecendo sua presunção, reconhecendo a necessidade de uma educação formal, coloca aos mestres que o motivo de seu pouco interesse se devia aos modelos propostos pela educação formal, que ele define como “tendência à extensão” e a “tendência à redução”, ambas, aparentemente opostas, ampliando ou reduzindo a própria cultura, buscando suas ambições mais elevadas ou abandonando-as e submetendo-a a interesses menores, do Estado, por exemplo.

A extensão entendida como promotora de uma cultura utilitarista que visa colocar o homem a serviço do modelo econômico vigente, capacitando-o tão e somente o necessário para que possa alcançar o sucesso num mundo cada vez mais competitivo, onde, nesta proposta, os conceitos que visem promover a introspecção e a reflexão sobre temas não ligados ao seu desenvolvimento profissional são suprimidos do processo educacional e, de certa forma, proibidos.

Neste ponto, o próprio modelo formal reconhece que a massificação da cultura tem um caráter inversamente proporcional à sua qualidade, enquanto cultura, e o faz, atendendo aos interesses de uma sociedade cada vez mais competitiva.

- Se todos forem médicos, advogados, cientistas ou engenheiros, quem plantará as batatas?

Percebe-se também que, a extensão e a ampliação da cultura a todos por seu caráter generalista prestam-se, em alguns países, a defender uma postura laica da educação, afastando-a de valores religiosos; em outros, esta extensão é utilizada como instrumento de manutenção de um Estado que precisa mostrar-se mais forte. não aceitando as críticas advindas de uma minoria realmente instruída.

Esta extensão da cultura, que promove a especialização e a particularização do conhecimento, servindo como mantenedora de uma sociedade consumista, acaba, ao final, reduzindo os “educandos” a meros operários especializados em funções laborais específicas e promovendo, neles, a alienação política que interessa ao sistema.

Em suma, a extensão e a ampliação da cultura, oferecida nas escolas formais, que produzem especialistas, acaba submetendo, como consequência direta desta proposta, a ciência e o conhecimento aos interesses do mercado.

Acaba, por fim, associada a um caráter informativo e jornalístico, adotando uma linguagem de massas, distanciando-se do erudito e do clássico, da cultura propriamente dita, formando uma “pseudocultura” que impede o desabrochar do verdadeiro pensamento crítico.

Diante de tais colocações, os próprios educadores, ainda que conservadores, frente aos resultados observados no desenvolvimento dos alunos, acabam por render-se às evidências.



Professor Orosco.
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