sábado, 16 de maio de 2015

RESENHA E COMENTÁRIOS SOBRE A SEGUNDA CONFERÊNCIA DE NIETZSCHE NOS ESCRITOS SOBRE A EDUCAÇÃO


            O jovem professor se desculpa com o mestre por deixar-se influenciar por seus pensamentos reflexivos.
            O jovem professor reconhece sua imprudência ao tentar mudar o sistema, lamentando-se por haver perdido seu ímpeto reformista, declarando-se vencido, mas não arredando pé de suas convicções e ideais de mudança.
            O filósofo, reconhecendo o mérito do jovem professor, incentiva-o a não se deixar abater pelo sistema, informando-o de que não está só em seus reclamos, e que existem outros apenas aguardando o momento de se manifestar e promover a mudança de um método sabidamente ultrapassado.
            Alerta-o para o fato de que não deve esmorecer, pois embora existam outros, mesmo assim são raros no universo estudantil.
            O mestre alude ao fato de que a produção pedagógica, pobre de conteúdo, só é aceita por aquela maioria que se deixa dominar, mas que, se analisada por homens pensantes e críticos, não suportaria a confrontação e que, este modelo, cedo ou tarde ruirá, como consequência da fragilidade de seus alicerces, declarando que somente aqueles capazes de perceber sua fragilidade é que poderão realizar a transformação que se faz necessária, bastando apenas um, para que o movimento reformador se inicie.
            O jovem professor, sentindo-se desamparado e fraco para empreender tal mudança, solicita a ajuda do mestre para poder resistir em defesa de suas propostas, contra um inimigo de mil faces, que teima em perpetuar o sistema.
            Pede-lhe que o oriente, indicando-lhe o melhor caminho, para que possa empreender tal jornada, mostrando-lhe na base do ensino, o que precisa mudar.
            O mestre, concordando com o jovem professor, declara que, como em uma construção qualquer, só se pode edificar sólidas paredes se elas forem erguidas sobre um bom alicerce, no caso, o ensino fundamental, onde o desejo de aprender não foi conspurcado pelo sistema, e nele, começando pela língua mãe, no caso, o Alemão.
            É no ensino da linguagem que o estudante tem a oportunidade de libertar-se do senso comum, da educação de massas e, ainda que de maneira forçada, expandir seu vocabulário.
            Somente uma escola de qualidade, com o firme propósito de ensinar, é que pode levar o estudante a superar o senso comum, começando pela linguagem que lhe permitirá desenvolver ferramentas para o desabrochar de um pensamento crítico sobre as informações que receberá.
            É o rigor da língua que assegura ada cultura contra os falsos argumentos,
            Seria, na exortação deste gênero, que a escola deveria obrigar os alunos a compreenderem e interpretarem textos mais complexos, analisando os clássicos com o rigor requerido, de tal sorte que isto se transformasse em um hábito, cruel e fatigante para os menos hábeis e, deleitável e entusiasta para os melhores.
            Esta sim deveria ser a educação formal nas escolas, e não a atual, que mascara a informação e que serve para disseminar uma cultura baseada no senso comum, acusada de erudição quando, na verdade, só reproduz um saber vazio.
            Prova disto está na forma como a língua materna (alemão) é ensinada.
            A aceitação da evolução histórica da língua, desprovida de uma crítica real, acaba por promover sua destruição basilar, e é exatamente isto que precisa ser evitado, se desejamos realmente ter acesso à cultura.
            Não só na língua, mas em todos os campos do saber, onde falsas e soberbas pretensões reduzem e limitam o acesso ao verdadeiro conhecimento.
            O ensino da língua, apenas no seu aspecto formal, científico, em nada contribui para seu aprendizado pois, além de promover o terror nos alunos, priva-os da contemplação das grandes obras, do contato com o pensamento de grandes autores, que acabam, pelo modismo, relegados ao ostracismo.
            Os alunos acabam incentivados a produzir textos baseados em seu conhecimento pessoal, em suas vivências, o que empobrece o resultado, uma vez que os dão por acabados, quando na verdade seriam, apenas, iniciados.
            Diante da falta de maturidade e discernimento para tal empreitada, os alunos tendem a exaltar sua imaginação, sentindo-se libertos e ávidos por expressar suas opiniões, tecendo críticas ou elogios sobre todos os assuntos, o que lhes dá a chave para abrir a porta de um saber argumentativo.
            Os mestres, por sua vez, diante dos resultados, ao invés de criticar os excessos e os erros gramaticais, adotam uma postura censora sobre sua autonomia para tratar dos temas abordados nas composições, denunciando sua vaidade e presunção, mostrando-lhes que pouco ou quase nada sabem acerca dos assuntos tratados, delimitando-lhes a área de atuação, o que inibe no aluno, o desejo de ousar, tornando a mediocridade do senso comum, uma regra a ser seguida.
            Existem, ainda, aqueles que consideram este método um absurdo, pois ele exige uma originalidade incompatível com a idade dos alunos, supondo-se que tenham uma cultura formal que a maioria não alcançou.
            No ginásio (escola fundamental), supõe-se que o aluno seja capaz de escrever e explicitar corretamente suas opiniões, embora o correto fosse discipliná-lo sobre a égide dos escritos clássicos, evitando, assim, a soberba que vai entorpecer seu espírito e torna-lo refém do senso comum.
            Poucos sabem que, dentre muitos, apenas um conseguirá se fazer realmente entender pela escrita, ficando os demais presos na mediocridade, onde o ensino formal, contrapondo-se ao deixar fazer, que permite a barbárie, precisa impor seu rigor, sem o qual o ensino da língua mãe (alemão) será tido como um mal necessário, que distancia a escola da tarefa de oferecer acesso à verdadeira cultura.
            Esta deficiência no ensino da língua demonstra o equívoco na formação fundamental, que pode ser medida, quando comparada à seriedade com a qual os gregos e os romanos a tratavam desde a adolescência.
            A vã tentativa de implantar uma “cultura clássica”, em verdade se mostra uma artimanha para mascarar o real compromisso de ensinar para a cultura.
            O próprio termo “cultura clássica” adotado no fundamental, traveste o fracasso da proposta, já que a “cultura clássica” extrapola, em muito, este estágio da formação acadêmica.
            A cultura clássica, cultura formal e cultura que forma para a ciência, três pretensos objetivos do ginásio, no que concerne ao ensino da língua alemã, são, na verdade, termos que se usam para mascarar a solução do problema, uma vez que não realizam seu propósito verdadeiro.
            E dizer, no ensino fundamental, em faltando o primeiro objeto de estudo, a língua materna, falha-se na tentativa de consolidar a cultura, que permitiria aos estudantes compreender as grandes obras.
            É somente pelo ensino formal, argumentativo, que se pode evitar cair na linguagem comum, oferecendo aos estudantes as condições para que possam analisar e compreender os textos.
            Todos aqueles que realmente desejarem aprender precisam, como um soldado, disciplinar-se em suas tarefas, a tal ponto que isto se torne um hábito.
            A maioria dos escritores não aprendeu a expressar-se de forma argumentativa que a cultura verdadeira exige, pelo que, não são boas referências.
            Reconhecemos, portanto, o fracasso do modelo adotado no ensino fundamental, que não consegue fornecer as bases necessárias para implementar o acesso a uma cultura verdadeira, de obediência à forma, uma vez que propaga o senso comum, ao qual a maioria dos autores atuais foi rebaixado.
            A verdadeira cultura clássica, que prima pelo uso correto e habitual da língua evidencia o quão difícil é que alguém consiga fazê-lo por suas próprias forças, pelo que precisam socorrer-se junto aos grandes mestres (Goethe, Schiller, Lessing e Winckelmann) para alcança-la.
            É a obediência à forma, como era na Antiguidade grega, com a ajuda dos grandes mestres, dos clássicos alemães, que nos permite alcançar a cultura verdadeira.
            Deste cuidado, no ensino fundamental, se observam apenas vestígios transmitidos pelos professores, que não alcançaram, eles mesmos, o conhecimento.
            A percepção do helenismo clássico é tão rara que somente por uma incompreensão grosseira se pode almejar realiza-la no ensino fundamental, onde a idade dos alunos não permite sua compreensão, apresentando-se seus personagens como se fossem mitológicos.
            Com isso, perde-se a oportunidade de apreciar e compreender os clássicos gregos, de valorar suas esculturas, etc.
            Paradoxalmente, a obediência à forma e à gramática que se observa no ensino das línguas antigas, no ensino fundamental, não é a mesma que se dá para a língua materna, à qual se procurar dar um sentido mais prático.
            Da mesma forma, este viés cientificista do ensino fundamental, que lançou uma luz esclarecedora na cultura das humanidades, outrora levada a sério, na época dos raros Alemães verdadeiramente cultos, que se preocupavam em consagrar, no ensino fundamental, preocupar-se em oferecer uma cultura nobre e superior.
            Esta reforma planejada e implementada no ensino fundamental, não alcançou os próprios mestres, pelo que não alcançou o objetivo desejado, dando-se maior ênfase à erudição que, por sua vez, tomou o lugar da cultura verdadeira, basicamente por acreditar-se que se podia alcançar o mundo da cultura grega sem o rigor da língua alemã.
            Torna-se, portanto, mister, resgatar o cuidado com a língua e com o espírito alemão, escondido sobre os escombros do senso comum, seu verdadeiro inimigo, influenciado por estrangeirismos, principalmente franceses, bradando que “alemães não são e nem serão franceses”.
            É por esta razão, afirma o mestre ao jovem professor, que é necessário nos apegarmos ao espírito alemão que se revelou na Reforma e na música, que provocou esta força tenaz, ousada e rigorosa da filosofia, arrastando para a luta uma escola de ensino fundamental comprometida com a verdadeira cultura, despertando o nativismo purificador do pensamento alemão, que tem, na cultura grega, o apoio necessário para cruzar o rio da barbárie.
            Enquanto não o fizermos, não lograremos êxito.
            Esta é a triste situação em que se encontra o nosso ensino fundamental.



Professor Orosco
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