segunda-feira, 21 de novembro de 2016

NOLI ME TANGERE


Não toques em mim... (Joāo XX:17)

Como fui provocado acerca de uma posição um pouco mais liberal que tomei quando me posicionei sobre a necessidade de um certo comedimento nas recentes atitudes tomadas por  nosso judiciário, particularmente na imposição de penas a pessoas que não foram ainda julgadas ou condenadas, mesmo aceitando que existam reais evidências de sua culpa, tomo a liberdade de compartilhar com os amigos, uma breve reflexão sobre o assunto:
A experiência tem demonstrado que os objetos que podemos possuir não despertam um interesse tão intenso quanto aqueles que estão além de nosso alcance, ou seja, nosso desejo ė diretamente proporcional aos obstáculos que se apresentam para alcançá-los.
- O fruto proibido (inalcançável) se mostra sempre mais doce!
E dizer, esta força motriz, desejante, que Nietzsche chamava de “vontade de potência”, que move o mundo, que ocupa e substitui a figura do próprio sujeito, amplia-se de forma exponencial segundo a distância do objeto desejado, ao ponto de exaurir, em dado  momento, o próprio sujeito, que se anula e padece por isso.
Tomemos o exemplo daquele homem que parte à procura de um tesouro, o qual acredita estar escondido sob uma pedra. Ele ergue um grande número de pedras, uma após outra, e não encontra nada. Cansa-se dessa vã operação mas não quer renunciar a ela, pois o tesouro é por demais valioso. O homem vai então se por em busca de uma pedra pesada demais para ser levantada, depositando ali suas esperanças, quando então vai desperdiçar as forças que lhe restam. (GIRARD, Mentira Romântica e Verdade Romanesca. Ė Realizações, 2009).
Este indivíduo, o assim denominado “masoquista”, mostra-se um homem em perpétua decepção, levado a desejar o próprio fracasso, no qual espera encontrar uma divindade autêntica, um mediador (fonte inspiradora do desejo), causa de sua escravidão.
Se essa consequência (seu fracasso) demorar demais, ele mesmo vai procurar acelerar o processo de sua degradação, pois o masoquista precipita o curso de seu destino e concentra num só momento as fases separadas do processo.
Sua escravidão e dominação pelo mediador (aquele de quem se copia o desejo) justifica para si, a hostilidade com que ė tratado por ele, já que se sente inferior a ele, motivo pelo qual,  a escolha do mediador, como a da pedra mais pesada, se dá não pelas qualidades que possui, mas pelo obstáculo que se lhe opõe, pelo desprezo com que o trata.
A busca do mediador deixou de ser imediata e passa a se dar em função do obstáculo, quando, então, o masoquista vai se distanciar daqueles que lhe tem afeição e carinho, passando a procurar aqueles que o desprezam.
A vã tentativa de agradar ou de se mostrar amigo útil e leal para quem o despreza, para quem ignora a sua existência ou que a percebe apenas como para servi-lo, ė um exemplo clássico desse comportamento masoquista.
Assim, após ter realizado toda essa digressão, podemos dizer que a mantença de um governo democrático, que realmente nos represente e que trabalhe para defender os princípios e valores nos quais acreditamos, não pode ser alcançada se tivermos uma postura servil e masoquista.
Benjamin Constant, em seus “Princípios de política aplicáveis a todos os governos”, já alertava, em 1810, que mesmo um governo que se declara democrático pode suprimir a liberdade e os direitos daqueles que lhe confiaram suas esperanças, citando as milhares de cabeças separadas de seus corpos pela Revolução Francesa, para quem a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade, foram argumentos válidos somente para os sobreviventes, pois, para quem morreu, não havia liberdade, igualdade e muito menos fraternidade.
Ou seja, Constant alertava que a soberania popular é uma falácia, já que quem governa, o faz nem sempre pelo interesse coletivo, como apregoava Rousseau, mas segundo seus legítimos interesses particulares, motivo pelo qual seus poderes nunca podem ser demasiadamente abrangentes ou absolutos.
Dessa forma, concluindo minha argumentação, digo que os  nossos direitos individuais, aqueles dos quais não abrimos mão, precisam ser defendidos com toda a energia de que dispomos, ainda que contra o governo ou contra uma maioria inflamada ou masoquista.

Professor Orosco

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