terça-feira, 11 de junho de 2013

ATIRO NA CABEÇA DE QUEM ?


            A sátira do comportamento malandro e irreverente do brasileiro, pode ser retratada na passagem, onde estando presentes três oficiais graduados, de diferentes exércitos, que não poupando elogios ao comportamento e disciplina de suas tropas, acabou por provocar um desafio entre eles.
            Como prova de obediência, o primeiro comandante chamou um soldado e ordenando que desse um tiro na cabeça.
          Prontamente atendido, todos viram o soldado sacar sua arma, encostá-la em sua têmpora e sacrificar-se no cumprimento do dever.
            De forma irônica, o segundo oficial, para não ficar em posição inferior, chamou um soldado de seu exercito, dando-lhe ordem similar.
            Atendido com igual eficiência e presteza, voltaram-se para o oficial brasileiro que, desafiado e diante de tamanha disciplina, sentiu-se obrigado a dar a mesma ordem.
            Chamando um pracinha de sua confiança, repetiu a ordem dos seus antecessores:
            - Soldado! De um tiro na cabeça.
            Imediatamente o pracinha sacou seu revolver e gritou:
            - Atiro na cabeça de quem ? meu general.

Moral da história:

              O herói não é quem morre pelo seu país, é quem faz o outro morrer pelo dele.

            Valho-me deste pequeno exemplo de valores abstratos, como honra e moral, que dependendo do contexto, do lugar ou da época, chegam a determinar a visão que se pode ter acerca de uma sociedade, ou seja, algo bem próximo do pensamento de Max Weber, para prefaciar uma análise que fiz, a partir de um artigo do mestre Sidnei Ferreira Vares, intitulado “Sociologismo e Individualismo em Émile Durkheim”, publicado em 2011, o qual tentei contextualizar para o momento que vivemos.
           
            Durkheim (1858/1917), considerado um dos pais da Sociologia Moderna, reconhecido como um dos melhores teóricos do conceito de Coesão Social, afirmava que o objeto desta ciência está na análise do Fato Social, que tinha um caráter de exterioridade, de coercitividade e de coletividade (de generalidade).
            Exterioridade porque não depende da tomada de consciência pelo indivíduo, ocorrendo desde antes dele e após o término de sua existência.
            As leis, a língua, a moeda, são exemplos desta exterioridade.
            A sociedade já existia antes dele nascer e provavelmente continuará a existir após o seu passamento.

            “Não sou obrigado a falar francês com meus compatriotas, nem empregar as moedas legais; mas é impossível que eu faça de maneira diferente”.
                            Durkheim. Les Régles de La Methode Sociologique. Paris: PUF,1980.

            Coercitividade, no sentido de que não se pode escapar dele, mesmo que este fato seja somente um dever moral.
            A obrigatoriedade de usar roupas adequadas ao ambiente exemplifica bem este critério.
            Usar terno e gravata para caminhar na areia da praia, apresenta-se social e coletivamente tão estranho quanto usar roupas de banho para ir à igreja.
            A característica coletiva, de generalidade, associando-se a padrões comportamentais, de feições particulares imputadas a certos grupos, como os arquétipos, cujas imagens assumem um caráter universal ( $ para indicar dinheiro; S.O.S. como sinal de pedido de socorro, etc.) ou estereótipos, restritos a certas culturas, preconceituosos ou não (todo padre é um bom homem; toda mulher loira é burra; todo baiano é preguiçoso, etc).
            Para Durkheim, nesta concepção, chamada funcionalista, as consciências individuais são formadas pela sociedade, opondo-se ao idealismo iluminista, segundo o qual a sociedade seria moldada pelo “espírito” e pela consciência humana.
            E dizer, para ele, a sociedade constituindo-se como uma síntese das relações estabelecidas entre seus membros, desenvolve uma “consciência coletiva”, aquém do espaço e além do tempo, superior aos indivíduos, investida de uma autoridade moral, da qual os homens não podem se separar sem correr o risco de perder sua condição humana (1978, p.45), tornando-se o indivíduo refém de uma tirania coletiva.
            Ganhando, por assim dizer, corpo e alma, matéria e forma, após as revoluções dos séculos XVI a XVIII ( protestante, industrial, americana e francesa ), que fizeram brotar o sistema capitalista de produção, intensificando a divisão do trabalho, a nova sociedade que emergia após a invenção das máquinas, implicou na substituição da “solidariedade mecânica”, onde os indivíduos compartilhavam das mesmas noções e valores sociais, crenças religiosas e interesses materiais para a subsistência do grupo, pela “solidariedade orgânica”, de maior complexidade, onde os interesses individuais são bastante distintos e a consciência de cada individuo é mais acentuada.
            As sociedades tradicionais, que se caracterizavam por uma forte consciência coletiva, que incidia sobre seus membros e impedia o desenvolvimento do individualismo, na medida que a divisão do trabalho avança, são substituídas pelas modernas, onde a influencia dos valores tradicionais tende a recuar (Veras, 2011).
            Como consequencia deste individualismo, inclusive de caráter moral, que rompeu paradigmas e alterou as relações de e para com o poder, explicitadas na frase “Os velhos deuses estão mortos” (Durkheim, 1913), o retrocesso, a possibilidade de retorno às antigas formas de organização social, foi definitivamente sepultada.
            Paradoxalmente, a partir dos fatos sociais, pelas suas características de generalidade, de exterioridade e de coercitividade, o homem se anula enquanto elemento isolado da sociedade, passando o coletivo a ter primazia sobre as partes, passando ele, o homem, a ter induzida a sua forma de agir, de pensar e de sentir.
           
“As representações, as emoções e as tendências coletivas não tem como causas geradoras certos estados de consciência individual, mas condições em que se encontra o corpo social em seu conjunto”.  (Durkheim, 2001, p.67)
           
“Os fatos sociais, embora produzidos pelas relações entre os indivíduos, adquirem uma “consistência” e uma “autonomia” em relação a cada individuo que contribui para sua produção”. (Veras, 2011)

            Como vítima de um sistema globalizado, corporativo, onde a atividade econômica não deriva da ação dos indivíduos, mas da sociedade em seu conjunto, os homens transformam-se em escravos das ideias e dos valores coletivos, entendendo-se a partir de então, como seres sociais.
            O estado de anomia (falta de objetivos individuais, perda de identidade provocada pelas transformações no mundo social) que se instala globalmente como consequencia desta metamorfose social, acaba por mergulhar a civilização num vazio moral, que pode ser tratado, na ótica de Durkheim sobre dois modos:
            Ou como um fenômeno perverso e destrutivo dos laços sociais, ou como característica do desenvolvimento autônomo do indivíduo, que na ótica do pragmatismo da cultura de produção e consumo do sistema capitalista moderno, acaba por ser potencializada.
            O culto do indivíduo, como forma de uma moral que respeita as diferenças individuais, onde o risco do egoísmo é grande, para Durkheim, que não o nega, retrata o diferencial da moral moderna, da inclusão do “espírito de autonomia”, definido pela capacidade do individuo assegurar, por meio da razão, sua adesão à regra.
            
“Esse culto da personalidade, efeito do avanço da divisão do trabalho nas sociedades modernas e consonante à emergência dos ideais democráticos, é responsável por conferir ao indivíduo uma maior autonomia, principalmente no que concerne à capacidade de modificar valores sociais considerados ultrapassados a partir de esforços coletivos”. (Veras, 2011).

           

REFERENCIAS:

Orosco, José Carlos. Euskadi. São Paulo: Jasa, 2013.
DURKHEIM, Émile. Pragmatismo e Sociologia.Paris:Sorbonne,1913.
___.Educação e Sociologia. 7.ed.São Paulo:Melhoramentos, 1978.
___.[et al].Introdução ao Pensamento Sociológico. São Paulo:Centauro, 2001. [Coletânea de Textos].
Vares, Sidnei Ferreira de. Sociologismo e Individualismo em Émile Durkheim. Caderno CRH, Salvador. V.24, n.62, p.435-446, Maio/Ago, 2011.


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