domingo, 17 de agosto de 2014

FILOSOFIA DA NATUREZA

            Quando falamos de natureza, do que exatamente estamos falando ?
            A ciência, a religião e a política, apesar dos seus esforços, mostraram-se insuficientes para responder a esta pergunta que, a filosofia, como amante do conhecimento, procura compreender.
            Antes de iniciar o estudo da "filosofia da natureza", primeiramente devemos reconhecer a característica equívoca dos termos natureza e natural, de modo que ao empregá-los, compreendamos exatamente sua função.
            Natureza, que pode referir-se ao caráter metafísico (que não está restrita à matéria), natureza de algo, sua essência ou índole, que a distingue das demais, ou ainda ao conjunto de todos os seres físicos, de todos os processos, geralmente identificados com o corpóreo.
            Natural, que pode ser empregado como sinônimo de espontâneo; como forma de distinguir algo do artificial produzido pelos viventes, incluído o homem; como distinto do espiritual, não identificado com o corpóreo, como a liberdade, por exemplo e na acepção do termo, como distinto do sobrenatural.
            A caracterização do mundo natural, como um mundo heraclitiano, em constante movimento, evolutivo, pressupõe a produção de estruturas distintas, segundo o tempo e o espaço, formas a priori da interioridade e da exterioridade, que se desenvolvem independentemente da intervenção humana, onde o dinamismo e a estruturação são características estritamente relacionadas.
            Patentes nos seres viventes, estas características estão presentes em toda a matéria, ainda que de forma microfísica ou de equilíbrio.
            Embora o homem possa interferir na dinâmica destes processos, ele não pode modificar suas leis, que seguem caminhos próprios, autônomos e não passivos e independentes.
            A natureza está construída em torno de estruturas que se repetem, que formam padrões, pautas, como nos viventes, por exemplo, que possuem uma estrutura unitária na qual as diferentes partes desempenham funções específicas.
            Tijolo sobre tijolo, que formam o alicerce sobre o qual se edificam as paredes, a natureza está repleta de exemplos de onde a ciência experimental busca identificar estes padrões no intuito de ampliar nosso conhecimento dos fenômenos.
            Na natureza nem tudo são pautas, porém, tudo gira em torno delas, e o simples reconhecimento deste fato denota a especificidade deste nosso mundo, onde as estruturas espaciais referem-se à ordem que os componentes naturais adotam, suas configurações; e as estruturas temporais referem-se aos processos, ao desenvolvimento temporal do dinamismo natural que, com pautas características podem ser denominadas ritmos.
            Interligados, o dinamismo e a estruturação, condicionando-se mutuamente produzem ora novas estruturas espaciais, ora novos dinamismos, segundo suas potencialidades e virtualidades, cujos desdobramentos, de forma contingente, dependem das circunstâncias externas, podendo-se, desta forma, caracterizar o natural segundo sua atividade.
            Dada esta caracterização do natural em função do entrelaçamento entre o dinamismo e a estruturação, não é possível distinguir a matéria das leis de seu comportamento em um momento específico, como nas ciências, que precisam formular leis limitadas a situações experimentais controladas, pelo que, ditas leis, só podem ser válidas em circunstâncias muito específicas.
            Exatamente por isso, por retirar a possibilidade contingente, que o artificial difere do natural, e dizer: o artificial não tem um dinamismo próprio, o que fica restrito às entidades naturais que o compõem, contendo, apenas, estruturas espaço-temporais correspondentes ao projetado pelo homem.
            Uma escultura produzida em bronze, por mais bonita que seja, sofrerá do desgaste natural e dos efeitos da corrosão à qual este metal está sujeito.
            No entanto, mesmo nesta situação, dado o dinamismo próprio das entidades naturais que compõem o artificial, não é possível ao homem modifica-los, limitando-se, neste caso, quando muito, a direcioná-los.
            O próprio dinamismo natural humano, relacionado a suas estruturas espaço-temporais, dada sua racionalidade, as transcende, alterando outras e produzindo o artificial, ou seja: mesmo submetidos a leis naturais, pela racionalidade, permitem contemplá-las, conceitua-las e controlá-las.
            Como síntese que o caracteriza, o natural contempla as propriedades do corpóreo, do sensível, do material, da extensão cartesiana, do espaço-temporal, do quantitativo, não se deixando, contudo, definir em função destes.
            Não pode ser definido apenas pelo corpóreo, pois este implica, quase sempre em extensão, associado aos sólidos, desconsiderando líquidos e gasosos, ou ainda os campos de força, todos indubitavelmente com dinamismo próprios.
            Além disso, outra consideração importante é o fato de que os artificiais também podem ser corpóreos, ou seja, possuírem extensão.
            Igualmente, o natural não pode ser definido apenas pelo sensível, uma vez que as entidades microfísicas, por exemplo, não são percebidas pelos sentidos, ao menos sem o auxílio do artificial.
            Também o conceito de material não é suficiente para definir o natural, uma vez que este termo também é um equívoco, podendo representar o corpóreo ou aquilo de que algo seja feito, distinto do formal, que se refere ao modo de ser das coisas.
            A extensão também não é suficiente, uma vez que nem sempre é necessária para justificar o natural, ainda que percebido pelos sentidos, como o vento ou a luz do dia.
            Pelos mesmos motivos, o conceito espaço-temporal também é insuficiente para definir o natural, pois refere-se a dimensões, que, assim como o critério quantitativo expressa característica dimensionais, de localização, são tidas como primárias do mundo físico que, embora necessárias, aplicam-se também aos artificiais.
            O próprio conceito de necessário, que se contrapondo ao racional, no âmbito da liberdade, negando-lhe a possibilidade, não é suficiente para significar o natural.
            Por sua vez, o dinamismo e a estruturação, em todos os casos acima, apresenta melhores condições de identificar o natural, pois estendem-se não só às formas corpóreas, mas também a qualquer outro tipo de entidade natural, independentes da ação humana.
             E dizer: a caracterização do natural, conforme Aristóteles, se dá em função do dinamismo e da estruturação, apresentando a natureza como princípio interior de atividade nas substâncias.
            Pode até apresentar-se com o um exagero, mas, a relevância do assunto demonstra que, sem o correto entendimento dos termos natureza e natural; da correta observação do dinamismo e da estrutura espaço temporal das coisas, indo além daquilo que a ciência normalmente define, o processo do conhecimento e da tentativa de compreensão do mundo que nos circunda fica limitado e incompleto.


Professor Orosco

Extraído da obra de: ARTIGAS, Mariano. Filosofia da Natureza. Tradução de José Eduardo de Oliveira e Silva. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lulio, 2005.
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