quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

UM POUCO SOBRE O PENSAMENTO DE HEGEL


O Daisen, o ser existente, de Hegel, em sua obra Fenomenologia do Espírito, desenvolve-se como uma consciência em si (bewusstsein selbst), que através da história, alcança a consciência de si (selbstbewusstsein), percebendo-se conectado ao Geist (espírito) cósmico, ou Deus.
Isto em uma lógica que não tem consciência “de si” (selbst).
Mas que tem consciência “em si” (an sich)
Em uma razão (Vernunft) que, à medida que adquire consciência “de si” (pela história) evolui para uma consciência “para si” (für sich).
Em uma consciência para si que se traduz no Conceito (Begriff).
Esta plena consciência de si, contida no conceito, é, para Hegel, o fim da história.
Para ele, a abstração (teoria) era o distanciamento do ser e o conceito era o encontro com o ser.
Como em todo o particular (das bensodere), para Hegel, o ser em si, só pode existir mediante seu reconhecimento, corporizado por outros particulares, cuja somatória total se aproxima do universal.
Em outras palavras, no momento atual, poderíamos representar esta situação comparando-a com a Internet, a rede mundial de computadores, que funciona pela somatória de todas as CPU´s conectadas virtualmente a ela.
Assim, para alcançar a consciência de si, como não podemos interagir com a imagem do espelho, somos obrigados a interagir com outros conscientes de si (outras pessoas), e dizer, tomamos consciência do que não somos e isto nos auxilia a construir aquilo que somos.
Algo como a proposta defendida por Plotino nas Enéadas.

      Plotino entendia a parte inferior da alma como sendo aquela que exerce as atividades da alma animal, da sensação e do movimento; da alma vegetativa, que é o crescimento.
         A parte central, entendida como racional, que realiza seu discurso interior ou exterior no tempo, e a parte superior da alma, que exerce a atividade do pensamento puro, típica do intelecto.
         E dizer, como que acompanhando a linha de raciocínio de Aristóteles, Plotino privilegia uma apresentação hierárquica onde os níveis de realidade descem do Uno até a matéria, indo do Ser-Intelecto e da Alma aos corpos inanimados, ou seja, onde o efeito não está separado da causa, estando sempre em seu princípio.
      O “Um”, chamado frequentemente de “Bem”, “Deus” ou “Primeiro”, é o fundamento de todas as coisas, absolutamente simples e único, de onde tudo emana e para onde tudo deseja retornar.
         O ser humano, enquanto corpo, governado por uma alma provida de funções superiores (raciocínio e intelecto) ou inferiores (sensitivas e vegetativas) é verdadeiramente o ponto de encontro dos dois mundos tradicionais de Platão: o inteligível e o sensível.
          Plotino declara que a alma é como um universo inteligível. 
      Para poder tocar o “Um”, a alma deve despojar-se de tudo e abandonar o que caracteriza a inteligência para perder toda a forma, como objeto para o qual ela tende.
         Para Plotino, ainda que existam muitas almas, todas elas são uma só alma; uma alma que pode se tornar Intelecto, já que na sua parte superior, ela já é um intelecto.
                       
       Extraído de Artigo Publicado em meu blog em 12 de Julho de 2013

Hegel corrobora a ideia de que o sensível é apenas a representação do objeto (sua imagem), que não pode gerar o conhecimento do ser em si.
Este Geist universal, que ele chama de Absoluto, como não poderia deixar de ser, é maior que a soma de todas as partes e, aqui distanciando-se da proposta do cristianismo, Hegel afirma que ele só pode existir, corporizado nos particulares, também maiores que a soma se suas partes corpóreas uma vez que, além da alma, eles têm, também, a capacidade de expressar-se.
Este Geist universal, Absoluto, torna-se, assim, imortal, pela somatória de todos os processos finitos dos particulares que o compõem.
Nesta evolução histórica, se começarmos pela Grécia antiga, que, segundo Hegel, atingiu a unidade mais perfeita entre a natureza e a mais sublime das formas expressivas humanas, evidencia-se a necessidade de que esta unidade precisava morrer para que o homem desenvolvesse a razão rumo ao estágio de auto clareza, essencial para sua realização como ser radicalmente livre.

“A bela síntese grega tinha de morrer porque o ser humano necessariamente seria levado à divisão interior, visando seu crescimento. Em particular o crescimento da razão e, consequentemente, o da liberdade radical requeriam um rompimento com o natural e o sensível.
O sacrifício tinha sido necessário para que o ser humano desenvolvesse ao grau máximo a sua consciência de si e a sua autodeterminação livre. No entanto embora não houvesse esperança de retorno, havia esperança de uma síntese mais elevada, uma vez que o ser humano tivesse desenvolvido plenamente sua razão e as suas faculdades, síntese na qual ambas, a unidade harmoniosa e a plena consciência de si, seriam unidas.”
                Taylor, Charles. Hegel. São Paulo: ELD, 2014

Poderíamos, analogamente, associar esta ideia, não a um círculo perfeito, onde retornamos ao ponto de origem, mas a uma espiral, como na sequência de Fibonacci, onde o aprendizado pelo crescimento interior, nos aproximaria do Geist cósmico (Deus).

“Assim, enquanto a natureza tende a realizar o espírito, isto é, a consciência de si, o ser humano como ser consciente tende à apreensão da natureza, na qual ele a verá como espírito e em conformidade com seu próprio espírito.” 
    Taylor, Charles. Hegel. São Paulo: ELD, 2014

Assim sendo, figurativamente, “O Homem é aquilo que come!" 
Hipócrates, cerca de 460/370 a.C.

Hegel, neste ponto, é refutado por Feuerbach, que nega o conceito de que exista primeiro a ideia e depois a matéria (a maçã real precede a ideia de maçã), chegando este, a afirmar, em seus comentários, que Hegel descreve o homem de ponta-cabeça.
Para Hegel, continuando a evolução histórica, no mundo romano, o espírito livre do mundo grego, diante das exigências do Estado, havia sido destruído e o indivíduo só podia encontrar a liberdade recolhendo-se a si mesmo.

Quando o mundo natural é implacavelmente contrário a seu anseio por liberdade, como era o mundo romano, não existe uma saída no âmbito do mundo natural.
    SINGER, Peter. Hegel. São Paulo: Loyola, 2012
Segundo Hegel, a religião cristã, assumida oficialmente como religião do Estado, no ocaso do Império romano, “era especial porque Jesus Cristo era ao mesmo tempo um ser humano e o filho de Deus” (SINGER, 2012) o que inferia aos homens a noção de que, embora limitados, eles também eram feitos à imagem de Deus, levando-os ao desenvolvimento da “consciência de si religiosa”.
No entanto, para Hegel, este cristianismo mostrava-se estagnado, decadente, pois padecia da mesma estrutura burocratizada que o Estado tinha adotado para a administração das coisas públicas.
Isto fez com que ele se distinguisse dos românticos de seu tempo, que entendiam que a unidade entre a subjetividade e a natureza foi alcançada por intuição ou imaginação.
Para eles, a razão era vista como uma faculdade divisora, analítica, que apenas nos distanciava da união com a natureza.
A essa visão da relação do ser humano com Deus, Hegel contrapõe uma visão alternativa, cuja noção é “destino”, onde aquilo que sucede a nós fora do nosso poder, o que se nos acomete na história, deveria ser visto como uma reação que vem sobre nós devido à nossa própria infração contra a vida.
E dizer, percebendo que a separação em relação à natureza era essencial, porém inatingível, ele desenvolve uma nova perspectiva de história como o desdobramento necessário de um certo destino humano, onde, o crescimento da consciência de si leva o indivíduo a distinguir a si mesmo, dentro de sua comunidade, desejando a liberdade.
Ou seja, para que esta liberdade se constitua é necessário que existam condições preestabelecidas para isto, e, dentre elas, a necessidade de que o ser humano desenvolva uma consciência de si, o que o leva a tornar-se indivíduo, distinto de sua comunidade, tornando-se o seu próprio senhor.
Na perspectiva liberal, a liberdade pode ser compreendida como um conceito onde se pode fazer tudo o que se quer.
Ocorre que, com a oferta de novos produtos e de novos serviços, este querer se torna infinito e, por isso, a liberdade se torna inalcançável.
Assim sendo, Hegel vê que o ser humano só alcança a sua autonomia racional e autoconsciente separando-se da natureza, repudiando qualquer tentativa de retornar à unidade primitiva e, à medida que esta consciência racional cresce por si mesma, o seu modo de expressão desta consciência se altera.
Frente a isto, ele coloca que deve haver uma hierarquia nestes modos de expressão, onde o superior torne possível um pensamento mais exato.

Espécies inferiores de vida ostentam, por assim dizer, protoformas de subjetividade; porque elas mostram, em grau crescente, propósito, auto conservação como formas de vida, conhecimento do que as cerca. Em suma, elas se convertem cada vez mais em agentes e, a exemplo dos animais mais elevados, carecem unicamente do poder de expressão para serem sujeitos.
                Taylor, Charles. Hegel. São Paulo: ELD, 2014

Hegel admite, porém, que a tarefa de alcançar este conceito, o Absoluto, pela dialética, esbarra na necessidade física da razão humana estar presa e condicionada ao indivíduo, finito e com necessidades.
            Em outro contexto, no sistema filosófico de Hegel, dialético, que provoca a oposição entre o ser humano e o Estado, este desempenha um papel importante como corporificação do universal na vida humana.
Considerado como muito importante na formação do indivíduo, para ele, o Estado infere a ideia de que, por pertencer a ele o indivíduo já está vivendo para além de si mesmo, em alguma vida mais ampla, assumindo, assim, a posição de “verdade” enquanto expressão da razão universal na forma da lei.
Por conseguinte, nas suas formas mais primitivas, o Estado pode estar em oposição ao ser humano, que aspira ser um indivíduo autoconsciente e livre.
No entanto, para Hegel, o indivíduo deve chegar a ver a si próprio como o veículo da razão universal e, quando o Estado tiver chegado ao seu pleno desenvolvimento como corporificação desta razão, então os dois terão sido reconciliados.
Em sua conclusão, Hegel coloca que o indivíduo livre não pode realizar a si próprio como indivíduo livre fora do Estado, porque não pode haver uma vida espiritual descorporificada, e dizer, para ele, uma liberdade puramente interior é apenas um desejo.
Para Hegel, a liberdade só é real quando expressa numa forma de vida e, visto que o ser humano não pode viver por si próprio, necessitando viver em comunidade, o Estado se transforma no modo de vida coletivo e, por conseguinte, a liberdade tem de ser corporificada a ele.
Esta polêmica posição, como se sabe, acabou servindo, histórica e equivocadamente, de base para o desenvolvimento dos regimes totalitários que vimos despontar no século XX.

Professor Orosco.






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